quarta-feira, abril 27, 2005

Na Sala

Espero por ti

Sozinho sentado na sala espero por ti sem ter a certeza que voltarás a este local. Lembro-me de um olhar rápido e das poucas linhas que o descreveram. Não tenho a certeza que tenha acontecido, mas espero pacientemente e escrevo, escrevo para passar o tempo e para tentar adivinhar o futuro.


Nós dois

Entras depressa e olhas para dentro da sala como se procurasses alguém. Fixas os teus olhos nos meus e não os desvias enquanto te sentas à minha frente. É quase insuportável manter o contacto, todo o meu corpo pede para que eu desvie o olhar, para que eu acabe com o sofrimento, para que eu me esconda por um segundo.

Mas pela primeira vez na vida resisto. Não desvio o olhar apesar da dor que sinto, apesar de toda a vergonha, apesar de toda a emoção. E tu sorris, tu percebes que temos algo em comum, algo que não precisa ser dito, uma empatia maior que o mundo e muito mais simples do que as pessoas. Sabes o que penso sem perguntar e eu sei quais são os teus sonhos e os teus medos, o que te faz sofrer e o que te faz rir.

E rimos, rimos os dois sem nunca termos trocado uma palavra, sem sabermos nada um sobre o outro, mas conhecendo-nos melhor do que ninguém.


Até um dia

Alguém chama o teu nome que eu não sabia. É uma parte da realidade que entra neste nosso mundo confuso, neste mundo onde não se sabe nada, mas onde se sente tudo.

Olhas para trás de forma doce mas desafiadora, sabes que nos vamos voltar a ver, sabes que vais voltar a olhar para a minha cara. E eu fico a olhar para ti a desaparecer por trás da porta castanha. A ansiedade vem até mim, mas não me vence, deixa apenas aquele frio que diz que não devo tentar compreender tanto as coisas, que o meu grito de liberdade não é como eu penso que vai ser...

Sorrio e escrevo sobre um encontro futuro, sobre olhares demorados...sobre ti.

quinta-feira, abril 21, 2005

Outra Noite

Abro a porta do carro e respiro o ar frio da noite. Por cima de mim vejo o céu estrelado e penso que talvez seja o céu mais bonito que alguma vez vi na vida. Lembro-me de quando era criança, lembro-me de estar deitado no chão a olhar para cima e dos sonhos que me enchiam a cabeça. Olho para ti e tento recordar o dia em que te conheci, mas não consigo, apenas sei que te conheço desde sempre, que fazes parte da minha vida toda e que quando olho para as estrelas penso em ti.

Deito-me em cima do carro e fico a olhar para o céu, vejo uma estrela cadente e peço um desejo, peço ajuda para estar contigo e vejo a estrela deixar um rasto luminoso até desaparecer no meio das árvores. Deitas-te a meu lado e perguntas em que estou a pensar. Não tenho resposta, tenho medo que o meu segredo seja descoberto e que o desejo não me seja concedido. Olhas também para as estrelas...

Estou nervoso e tento refugiar-me no passado, nas recordações de duas crianças pequenas a brincarem sem que o tempo passe. Naquele tempo o céu parecia maior e a maior parte das perguntas não tinha resposta, mas a angústia não estava presente, apenas a pergunta, apenas a dúvida que nos fazia sonhar. Olho para ti e penso no momento perfeito entre nós, um momento que me faz lembrar tantos outros passados contigo, o tronco no riacho, a árvore grande...

Agora que crescemos quase que não conseguimos sentir o que passámos, parece ter saído tudo de dentro de um livro, aventuras de duas crianças em tardes e noites sem fim. Quero poder recordar que estivemos sempre aqui, quero saber que também te lembras de nós...mesmo que tudo não tenha acontecido.

Dás-me a tua mão...e a noite fica maior...

terça-feira, abril 19, 2005

Na Tempestade

Vejo as nuvens formarem-se ao longe e sinto o medo à minha volta...
Abro os braços para a tempestade e penso em ti no meio do vento...
As nuvens chegam perto demais e quase me levantam...
Não sei quando voltarei a ver o sol, quando o vou sentir outra vez na cara...
No meio da tempestade penso mais uma vez em ti e sinto medo...
Entre as nuvens ganho coragem e luto enquanto olho para o passado...
À minha volta a chuva cai e eu não abro os olhos...

Sinto o chão nos meus pés...

domingo, abril 17, 2005

Ao Sol

Estou deitado em cima da erva verde e olho para o céu azul, nele voam nuvens brancas que me levam de volta à infância e me fazem sonhar.

Vejo uma avião antigo a sair da neblina e adormeço...

quinta-feira, abril 14, 2005

Depois da Sala de Espera

Espera

João entrou na sala de espera do consultório e ficou surpreendido por encontrar alguém lá dentro. Há três anos que todas as semanas esperava alguns minutos naquela sala pequena com paredes pintadas de amarelo e não era costume ter companhia. Sentou-se em frente da rapariga de cabelo curto e tentou imaginar o que a traria àquele sitio. Pensava sempre no que pensariam as pessoas umas das outras no consultório. Ele pensava se seriam todos doidos, mas lembrava-se normalmente que podiam pensar o mesmo em relação a ele. Achava divertidos estes pensamentos e tinha-os sempre nas raras vezes que se cruzava com alguém.

Olhou directamente para a rapariga outra vez e ela devolveu o olhar de forma muito directa. Como sempre ficou com um enorme frio no estômago e não aguentou mais do que um segundo a olhar para ela. Tinha sempre este comportamento, passava a vida a olhar para os outros à espera de poder fazer algum contacto e quando olhavam de volta, simplesmente não aguentava. Riu-se dele próprio e não sabendo bem como, falou de forma atrapalhada.
- Olá.
Ela respondeu timidamente.
- Olá.
- Eu sou o João. Nunca te tinha visto aqui.
De repente percebera o ridículo do que tinha acabado de dizer. Mas ela sorriu e respondeu.
- Esta é a minha segunda consulta.
- Eu já estou a fazer terapia há três anos, se tiveres alguma dúvida...
Mais um vez apercebeu-se do ridículo do que tinha dito e ficou muito vermelho enquanto tentava corrigir.
- Se calhar não era suposto estarmos a falar destas coisas.
- Não vejo qual é problema. Demorei muito tempo para decidir começar as consultas mas não tenho vergonha de vir aqui.
João ficou ainda mais vermelho.
- Eu também não...eu...eu já venho cá há três anos e...
Entraram na sala e chamaram a rapariga que se despediu com um sorriso.


Terapia

Estava furioso com ele próprio, não sabia como era possível ter feito uma figura daquelas. Entrou dentro da sala onde ia ter consulta ainda com o coração a bater e não teve coragem de dizer ao seu psicólogo o que tinha acontecido. Achou que ele ia criticar o facto de ter olhado para ela de forma tão directa. Já tinham várias vezes falado sobre a forma como olhava para as pessoas e não tinha vontade de admitir os mesmo erros, as mesmas falhas, os mesmo medos.

Foi uma sessão dolorosa, não se lembrava de nada para dizer e só lhe vinha à cabeça o que tinha acontecido na sala de espera. Tinha um ar interessante a rapariga com quem tinha falado. Mas isso não era novidade nenhuma, achava demasiadas pessoas interessantes e esse era um dos seus problemas, não conseguia ter calma e conseguir observar as pessoas, apaixonava-se muito depressa mas também perdia o interesse muito depressa. Esta instabilidade cansava-o.

Ao fim de uma hora estava exausto de tanto inventar assuntos para falar enquanto tentava pensar noutras coisas ao mesmo tempo. Sucedia-lhe isto muitas vezes, gostava de poder dizer que não queria continuar a sessão e ir embora, era demasiado penoso estar naquele lugar quando tinha a cabeça longe. Por outro lado havia alturas em que quase mandava calar o psicólogo, alturas em que uma hora parecia passar em minutos e o tempo voava. Nestas alturas sentia que aquele espaço era realmente útil e quase desejava poder passar mais tempo a conversar. Mas isto não acontecia sempre e as vezes em que não corria bem eram tão frequentes como as outras, o que o angustiava muito.


Caminhando

Quando saiu do prédio respirou com prazer o ar fresco de fim de tarde, tinha passado os últimos minutos com dificuldade em respirar e sabia-lhe bem estar na rua. Olhou para o lado e viu alguém sentado na entrada do prédio, era a rapariga. Ela olhou para ele e falou numa voz calma.
- Estava à tua espera, espero que não te importes.
Não sabia o que responder. Ficou um segundo calado e abriu a boca sem saber o que ia dizer.
- Eu...claro que não. Mas queres falar do quê?
- Não tenho nenhum assunto especifico, pensei só que podíamos caminhar um pouco e falar de banalidades.
João riu-se com aquela resposta.
- ok, vamos então falar de banalidades
E começaram a andar.

Durante uns segundos nenhum dos dois disse nada, mas não havia aquele ambiente próprio de quem não se conhece. Simplesmente estavam calados, mas tinha a certeza que no momento certo a conversa iria aparecer de forma natural. E assim aconteceu, mas não falaram de banalidades, conversaram sobre os seus sonhos, sobre o que gostavam que acontecesse nas suas vidas. Mas não de desejos materiais, falaram dos sonhos mais estranhos e pouco comuns que se podem ter e descobriram que eram parecidos na forma como sonhavam.

Enquanto andavam, não podia deixar de reparar como era estranha aquela empatia quase espontânea entre os dois, como se fossem dois amigos que se encontravam ao fim de muito tempo e conversassem como se o tempo não tivesse passado. Mas eles não se conheciam e não compreendia como podia estar assim perto de uma pessoa que conhecia há tão pouco tempo e sentir que lhe podia contar tudo. Não compreendia, mas sentia e continuava a andar.

Mas não conversaram sempre, não era preciso, sentia prazer só por estar junto dela e sabia que se fosse preciso já conseguia olhar directamente para os olhos dela. E também não pensava se estava a ficar atraído ou não por ela, não era muito importante, apenas queria gozar o momento e sentir-se bem sem ter de complicar as coisas. Sentia que o que se estava a passar era como se estivesse a passear e alguém tivesse começado a andar ao seu lado sem o conhecer de lado nenhum e na verdade não era muito diferente.


Adeus

Depois de terem andado durante muito tempo ela parou e disse que tinha de ir para casa. João olhou para ela e sorriu apenas, tinha acabado de passar uma das melhores tardes da sua vida com uma pessoa que não conhecia e não achava nada de estranho nisso. Naquele momento sentiu que podia largar a terapia e todas as drogas que sempre achou que iria tomar para o resto da vida. Claro que sabia que não era assim e que ainda tinha muito pela frente até se sentir equilibrado, mas sentia que tinha andado muito para a frente, como se tivessem passado anos e fosse outra pessoa.

Ela também sorria e ficaram os dois a olhar um para o outro até ela falar.
- Não vais dizer nada?
- Não tenho muito para dizer que tu não saibas. Para falar verdade acho que sabes tudo o que é realmente importante de mim.
Ela corou ligeiramente e acenou com a cabeça.
- E encontramo-nos para a semana?
Disse ela enquanto começava a descer as escadas do Metro.
- Claro.
- Então até para a semana.
- Deixa-me só fazer-te uma pergunta.
- Diz!
- O que é que achaste de mim na sala de espera do consultório.
- Sinceramente?
- Sim.
- Estava a pensar se serias doido. Tu também, não?
E riu-se de uma forma que ainda encheu mais a tarde de João.
Ele não respondeu e ficou apenas a observá-la enquanto descia as escadas.

terça-feira, abril 05, 2005

A Floresta

No meio da floresta agarro a tua mão e corro, fujo das sombras que nos perseguem. Sinto a força dos teus dedos no meus enquanto corres de olhos fechados e por um momento não sinto medo, mas continuo a correr pois não temos muito tempo.

Lembro-me de quando éramos novos e tudo era possível, lembro-me de quando sonhávamos com o futuro e com uma nova vida no meio das árvores que agora nos rodeiam. Hoje o sonho pode ser desfeito e por isso corremos mais depressa, corremos para que o futuro dos que nos rodeiam possa existir.

Deixo de sentir a tua mão na minha e procuro desesperadamente por ti. No meio dos troncos apenas vejo sombras e tento percebê-las, tento perceber se o fim está próximo, se iremos conseguir fugir do passado.

A escuridão cai sobre mim e apenas vejo silhuetas à minha volta, tento descobrir-te e imagino a tua angústia no meio do nada, imagino-te de mãos esticadas à procura de mim, chorando por mim.

Vejo o brilho dos teus olhos entre as árvores e as sombras em direcção a ti. Encho o peito de ar e em silêncio corro por cima da erva alta, passo sem ser visto pelas figuras negras e agarro a tua mão. Puxo-te para mim e abraço-te.

Ficamos escondidos em silêncio. A nossa respiração abafada é o único ruído que ouvimos e que tememos nos possa denunciar. Mas as sombras não nos descobrem e desaparecem por entre os ramos das árvores. Deitados no chão esperamos que o perigo passe durante tempo demais. Sabemos que o passado não pode voltar e que outros terão de percorrer o mesmo caminho.

Saio da sombra, fecho os olhos por causa da luz e tu sentes o ar fresco na cara. Sei que para mim não acabou tudo aqui, sei que ainda não estou livre e que um dia voltarei à floresta.

sábado, abril 02, 2005

Eu

Olho para o meu corpo e sinto-me prisioneiro de mim mesmo. No espelho vejo uma face branca que não é a que desejo e luto para não deixar de ser quem sou. Luto para o vermelho nos meus lábios não desaparecer, quero poder gritar ao mundo quem sou, quero dizer em voz alta que existe outra pessoa dentro de mim.

Lembro os tempos de criança e choro, lembro-me da roupa na minha mão e o reflexo sempre cruel que apenas me deixava sonhar. E caminhava pelo campo seco num dia de sol, caminhava com o suor a escorrer pelo meu corpo que crescia e me sufocava. Queria abraçar-me a mim mesmo, mas não tinha coragem, queria consolar-me, mas tinha medo.

Mas sabia que um dia iria crescer e teria de escolher, sabia que tinha de me enfrentar primeiro. E quando conseguisse vencer o homem em mim, poderia olhar para o mundo e dizer que não existo, poderia anunciar que o pequeno rapaz tinha conseguido voltar.

Volto a olhar para o espelho e sorrio. Só conseguimos ser felizes quando encontramos quem somos, quando compreendemos o brilho no nosso olhar e não o deixamos apagar-se. Só então somos livres.

Saio para a rua fria e penso em mim. Mais uma vez estou sozinho mas não me sinto perdido. Sei que descobri quem sou e tenho a companhia de todo o meu passado, sei que nem sempre vou sentir o conforto da noite, mas que neste momento o posso sentir enquanto o vento sopra com força.

Fecho o casaco por cima da pele nua e continuo a andar...

sexta-feira, março 18, 2005

João e Margarida

“…there's nothing you and I won't do…trapped in a state of imaginary grace…”

João olhou para os olhos de Margarida antecipando o momento em que os seus lábios se iriam tocar. O vento tinha um cheiro adocicado e a luz fazia-o fechar os olhos enquanto pensava que era capaz de ficar preso naquele momento para sempre.

Voltou a olhar para a cara dela e enfrentou os seus olhos outra vez. Sempre tivera dificuldade em olhar as pessoas nos olhos e com Margarida não era diferente. Ainda tinha o reflexo de desviar o olhar enquanto lhe contava as suas aventuras e sonhos, mas com o tempo tinha conseguido olhar para ela sem medo, aprendera a sofrer um pouco para poder ter o prazer de olhar para a sua cara, de poder falar com o olhar e dizer que a amava.

As mãos dos dois tocavam-se levemente como dois bailarinos que dançavam debaixo daquela luz laranja que passava pelas folhas das árvores e desenhava sombras sem sentindo. Não falavam, pois nada havia a dizer, tudo podia ser sentido e sentia a pele dela quente ao mesmo tempo que estremecia levemente. Mais uma vez fechou os olhos mas não deixou de ver, não deixou de sentir o cheiro no ar e de ouvir as roupas a esvoaçarem com o vento.

Recordou tardes passadas e sentiu-se feliz. Estava nervoso, mas a ansiedade não estava presente e conseguia perceber que não desejava estar em outro sitio que não fosse debaixo daquela árvore e das suas sombras.

Então sentiu o calor dos lábios que quase tocavam os seus. Sempre achou que a melhor parte de um beijo é precisamente o segundo antes dos lábios se tocarem e desejou poder parar o tempo, desejou poder prolongar aquele segundo que via passar demasiado rápido, elevar-se no ar e olhar para baixo enquanto os lábios se aproximavam cada vez mais. Sabia que daí a uns segundos o seu coração iria rebentar e as suas mãos iriam apertar as de Margarida de forma apaixonada e desejou que aquele segundo não acabasse.

Viu os olhos dela a aproximarem-se, dois enormes olhos castanhos que mudavam de forma com o dançar das folhas por cima deles e que o olhavam com ternura. Sentia-se a pessoa mais amada do mundo, nem que fosse apenas durante aquele segundo que não passava, um segundo que ia lembrar toda a vida mesmo que não tivesse acontecido, mesmo que não estivesse ali e apenas o imaginasse.

Deixou então os seus lábios tocarem nos dela e de olhos fechados desejou estar mesmo ali, desejou que não fosse apenas um sonho o que estava a sentir, teve medo de abrir os olhos e apenas ver a árvore que dançava. As mãos dela apertaram as suas e ainda com o lábios juntos disse-lhe que a amava, disse que não queria sair dali, disse que trocava tudo para aquele beijo durar para sempre.

terça-feira, março 08, 2005

A Melancólica Viagem...(Parte II)

E tu apareceste outra vez...saíste dos meus sonhos de volta para a realidade...

Neste mundo cinzento onde vivo duas vezes apareceste num local inesperado e mais uma vez fizeste-me perceber que não sou sempre invulnerável, que também sou fraco como os que andam ao meu lado.

Quando, enquanto caminhavas ao meu lado, falaste comigo, foi como se já esperasse que isso acontecesse, mas ao mesmo tempo não conseguisse deixar de ficar surpreendido. Perto de ti não consigo ter a segurança que desejava e o tempo parece correr de forma diferente. É como se tudo acontecesse demasiado rápido e ao mesmo tempo demorasse muito tempo a passar. Tudo acontece em poucos segundos, que depois são relembrados para sempre.

Não disse as palavras que queria e resta-me a calma de quem sabe que esta não foi a última vez que te vi, a calma de quem conhece o futuro que teme, pois não sabe quando é que ele vai acontecer. E viajo ansioso debaixo do chão, olhando para os lados assustado, mas sorrindo ao pensar no próximo dia, que temo não ser o último.

Fica a recordação doce de um sorriso que não apareceu e as recordações que voltaram à minha cabeça. Foi numa noite distante, quando ainda era um simples mortal, que roubei um beijo que esqueci até hoje, um pequeno pecado que voltou para me aconchegar nesta altura em que a linha que separa os dois mundos em que vivo está pouco definida.

segunda-feira, março 07, 2005

Duas Noites

Rio de Janeiro

Ouço uma voz a cantar ao longe. É uma voz suave com um sotaque estranho que faz com que todo o ambiente à minha volta se torne ainda mais mágico. Sinto a roupa colada ao corpo e tenho alguma dificuldade em respirar enquanto caminho descalço pela areia. Olho para as ondas brancas que aparecem no mar negro e vejo ao longe o reflexo da lua. Chego perto da voz e sento-me no chão a ouvir aquele concerto inesperado.


Lisboa

Chove sem parar há três dias e eu acho que começo a ficar deprimido, não tenho vontade de sair de casa e ir trabalhar. Todos os dias arranjo forças para me levantar, mas tenho cada vez mais dificuldade em não ceder e em não me deixar ficar na cama todo o dia. Sonho com o calor e com diferentes cheiros, mas levanto-me.

Estou parado há quinze minutos e ninguém repara em mim. Olho para o monitor e apenas vejo o meu reflexo, uma cara triste e desanimada. Conto vários suspiros e brinco com a caneta entre os dedos. Não vou almoçar e fico sentado a ouvir uma música longínqua enquanto sonho outra vez com a sombra das árvores. Não aguento mais.


Rio de Janeiro

Sinto-me feliz. Danço com desconhecidos à volta de uma fogueira que ilumina a noite sem fim e sinto-me embriagado, sinto que de repente fiquei liberto de tudo o que me prendia, sinto-me finalmente livre e danço, danço sem parar durante horas, danço até não sentir o corpo e cair exausto na areia.

Tudo à minha volta anda à roda, o céu rodopia e eu sinto-me enjoado. Fecho os olhos e respiro fundo, o cheiro a tabaco no ar magoa-me os pulmões e deixa-me ainda mais tonto, estremeço e percebo que não me consigo levantar. Então fico só a olhar o céu, um céu que não é o que sempre conheci, um céu que sempre me acompanha mas que não é o mesmo. Alguém cai ao meu lado.


Lisboa

Saio para a rua e caminho ao frio sem casaco. Amo esta cidade mais do que tudo mas preciso fugir dela, preciso ir para longe e deixar este sitio que me inspira. Não quero pensar tanto, não quero que a minha cabeça me doa tanto. Quero correr sem saber para onde vou, quero estar longe daqui. E então corro, fujo de mim próprio, fujo da minha tristeza, fujo do que amo e do que odeio.

Entro em casa e meto as roupas à pressa dentro de uma mala como se alguém me estivesse a perseguir, como quem cometeu o maior dos crimes. Tento não levar nada que me lembre o passado, ou melhor o presente que em breve será passado. Olho por um momento para a casa que já não é minha e penso em tudo. Será possível lembrar-me de uma vida em poucos segundos?


Rio de Janeiro

Olho para o lado e vejo uns olhos brilhantes à minha frente. Sinto o seu cheiro doce e agarro-lhe nas mãos durante meio segundo. Mergulho nos seus cabelos e toco os seus lábios com os meus. Continuo a ouvir a voz que me atraiu a este lugar, continuo a sentir-me tonto e quase não aguento tudo o que estou a sentir. As minhas mão fecham-se com força e sinto o peito a rebentar. Será isto um sonho? Era ela quem procurava? É tudo demasiado parecido com o conto que escrevi. Faz tudo sentido e eu tenho dúvidas, os sonhos não se realizam, mesmo quando os temos de noite.


Lisboa

Parte de mim viaja a caminho do aeroporto, vou ao encontro do meu destino, onde o sonho não existe, onde a inspiração é trocada por um beijo no meio da noite. Não sei onde estou, mas não me sinto perdido. Sei que tudo existe e que quando olhar o céu tudo ficará bem.

Mais uma vez a noite não tem fim...

sábado, fevereiro 19, 2005

Happiness

Olhas para trás a sorrir e eu sinto-me perdido...

Hoje

Paro no cimo das escadas e olho para o tecto à espera de ver quando vai cair o próximo pingo de água. Todos os dias passo neste local e avanço sem medo, é a minha aventura diária, a altura em que desafio a sorte. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, um enorme pingo de água suja cai em cima de mim e mancha o meu casaco. Sorrio e penso no que irá acontecer.

Entro no metro e sento-me enquanto tento escolher uma música no leitor de mp3 e procuro alguém que possa observar. À minha frente está uma rapariga a ler um livro forrado com um papel castanho que não me deixa perceber o nome do livro. Nunca percebi se a pessoas que forram os livros o fazem para não estragar as capas ou se é para que os outros não saibam o que estão a ler.

Finalmente acho uma música para aquele momento e olho fixamente para a rapariga. Não é muito vistosa, mas tem alguma coisa que me cativa. Acho que são os lábios que me fazem lembrar os da actriz do Lost In Translation. São o tipo de lábios que nos fazem fechar os olhos e imaginar o seu toque suave. Quase que consigo sentir o espaço curto entre nós e respiro fundo, sinto-me aconchegado.

Saio na mesma estação que ela e por breves instantes caminho ao seu lado como se estivéssemos juntos. Olho para as escadas e quando me preparo para subir os degraus a correr o livro solta-se das suas mãos. Agarro nele por instinto e devolvo-lhe com um sorriso. Ela agradece com uma voz doce que não consigo ouvir e durante uns segundos ainda consigo sentir a textura do papel castanho na minha mão, mas depressa estou a caminhar sozinho pelos corredores.

Viro à direita em direcção à rua e encontro-a outra vez a andar ao meu lado, escolhemos caminhos diferentes para chegarmos ao mesmo sitio. Ela olha para mim e abre a boca devagar para dizer alguma coisa, tenho tempo de tirar os auscultadores e ainda consigo ouvir a sua voz que me agradece a proeza do livro. Sorrio mais uma vez e os nossos caminhos separam-se outra vez.


Amanhã e depois...

No dia seguinte tento sair de casa à mesma hora, estou nervoso e penso se será possível encontrá-la. Tremo ligeiramente quando entro na carruagem e olho para todos os lados à sua procura, vejo um cabelo claro familiar e dirijo-me para ela. Sento-me à sua frente e pergunto-lhe que livro é que está a ler. Ela não me reponde e apenas olha para mim com um ar descontraído, pergunta como é que eu me chamo e eu digo que troco a resposta pelo nome do livro. Rimos os dois enquanto todos olham para nós.

Caminho ao seu lado e sinto-me feliz...

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

A Melancólica Viagem de Metro em Metropolis

Olhei através do vidro e vi a chuva que caía do céu cinzento, estava frio e eu tinha de ir para casa. Agarrei no casaco e dirigi-me ao elevador andando devagar, não tinha pressa em sentir a chuva na cara. Desejei que o elevador viesse sem ninguém mas não tive sorte. Finalmente a rua e o esperado desconforto, apertei o casaco e mergulhei no meio da multidão apressada.

Era um final de tarde estranho, todos tinham um ar cansado e pareciam andar o mais depressa possível. Eu fazia o mesmo, tentando percorrer os três quarteirões até ao metro sem ficar encharcado. De repente parei e olhei para cima, à minha frente erguia-se um prédio cinzento pelo qual passava todos os dias, mas nunca tinha olhado para ele com atenção. Olhei para a parte de cima e desejei tocar nas figuras que olhavam para baixo com expressões de dor. Queria poder deixar o chão e libertar-me de todos os que me rodeavam, de ser livre para subir ao alto do prédio e de lá ver a chuva cair sobre as pessoas. Retomei o meu caminho conformado por ter de andar como todos os outros. A cidade ficava mais escura a cada minuto que passava e eu tinha que ir para casa.

Entrei no metro e senti a água a escorrer-me pela cara, não me sentia bem e se não soubesse que tal era impossível, diria que estava a ficar constipado. De qualquer maneira sentia-me cansado, um cansaço que não podia sentir, mas que era real, um cansaço que não podia ter, mas que fazia com que caminhasse devagar e curvado. Entrei na carruagem e procurei desesperadamente um lugar para me sentar, sabia que não conseguiria aguentar a viagem em pé. Tirei os auscultadores do bolso do casaco e esperei que a música me ajudasse a encurtar o tempo, fechei os olhos e respirei fundo, ainda faltava um pouco para o dia acabar.

Adormeci por breves instantes e quando ia começar a sonhar parámos. Acordei e olhei para os lados como se estivesse estado horas a dormir. À minha frente uma rapariga olhava para mim com um sorriso estranho, como se soubesse o que eu estava a pensar, como se conseguisse ver o meu cansaço, o meu desespero para chegar a casa. Tentei fazer uma ar despreocupado, como se ela estar a olhar para mim não me afectasse, mas não consegui. Tirei e voltei a pôr atrapalhadamente os auscultadores, sem saber porque o fazia. As minhas mãos tremiam como as de um adolescente no seu primeiro encontro. E ela sorria, ela olhava para mim intensamente, invadia a minha mente. Eu é que olhava para os outros, eu é que observava silenciosamente os que passavam por mim, nunca ninguém olhava de volta.

Não aguentei e levantei-me. Olhei para a sua cara mas já não obtive resposta, queria dizer algo mas não consegui arranjar palavras, tentava desesperadamente inventar alguma frase que fizesse sentido, mas ela tinha fechado os olhos. Afastei-me um pouco e fiquei a olhar para as luzes que passavam depressa por detrás do vidro. Olhei outra vez para trás e pareceu-me ver um olhar, mas era um olhar demasiado escondido, não podia voltar e desisti. O metro entrou na estação onde eu ia sair e senti um desejo de continuar, de sentar-me outra vez e perguntar se ela sabia quem eu era, se ela sabia que eu era diferente dos outros, se ela me podia ajudar. Mas não voltei, fiquei parado a ver o metro seguir a sua viagem. Lá dentro ninguém olhou para mim.

Entrei em casa, tirei o casaco e deixei-me cair no sofá. Ouvi o barulho metálico da aparelhagem a trabalhar e larguei o comando no chão ao meu lado. Não me apetecia sair outra vez e tentei adormecer ao som da música. De olhos fechados relembrei a minha viagem e tentei que a cara dela não desaparecesse da minha memória. Repeti tudo o que se tinha passado e fantasiei com outra realidade. Imaginei que tinha feito as coisas de outra maneira e senti-me irritado comigo próprio ao mesmo tempo que sorria com os sonhos que iam percorrendo a minha cabeça.

De pé, no cimo do meu prédio, olhei para a cidade lá em baixo. A chuva continuava a cair mas já não me podia incomodar, já não me podia fazer sentir cansado, já não me podia tocar. Enchi o peito de ar e lembrei-me uma última vez da minha tarde, lembrei-me de me ter sentido vulnerável e de ter desejado fazer as coisas de outra maneira. Eu era tão fraco como os outros e os meus medos apenas estavam escondidos...tinha que aprender a viver entre dois mundos sem sofrer por não poder ter tudo.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Não sei o teu nome

Conheci-a no Metro, uma mulher frágil com mãos envelhecidas que tive vontade de tocar. Inspirou em mim um desejo imediato de escrever e assim fiz.

Cheguei a casa e comecei a escrever sem pensar, criei-a sem saber que também estava a escrever sobre o meu futuro. Não sabia que ela ia ganhar vida, não sabia que me ia apaixonar... Escrevi de forma compulsiva, primeiro imaginando os seus olhos, a sua boca o seu corpo, depois a sua voz, o barulho do respirar e o seu cheiro. Imaginei a sua maneira de ser, a sua vida desde a infância, conheci todos os seus amigos, toda a sua família e todos que se cruzaram com ela. Tinha criado alguém que conhecia.

Foi numa noite chuvosa que passámos um pelo outro numa rua qualquer. Olhei-a nos olhos de forma provocadora e invadi o seu espaço, entrei na sua vida sem pensar no que poderia acontecer. Caminhámos juntos e falámos como se nos conhecêssemos, éramos um só e sentíamos antes de percebermos.

Continuei a escrever todos os dias, escrevi sobre todos os nossos encontros. Descrevi detalhadamente o que sentia quando estava com ela, confessei a mim mesmo os desejos que sentia, a angustia que crescia em mim, o amor que não tinha sentido mas que já não podia esconder. Sonhava acordado com ela e sofria ao mesmo tempo que sorria, sofria por saber a verdade, sofria por um amor que era impossível mas que existia, sorria porque existia.

Então um dia acordei, olhei à volta e tinha as paredes do quarto cobertas por centenas de folhas de papel escritas a lápis. Eram pequenos textos escritos por mim, a minha letra espalhada sem ordem, contando uma história de amor.

Tentei achar um sentido, uma forma de compreender o que tinha acontecido, mas eram demasiadas folhas, não era possível ordenar tudo o que ali estava escrito. No meio das palavras podia ver desenhos que me faziam tremer, como se naqueles pequenos esboços quase pudesse ver um olhar conhecido, uma mão que ainda sentia na minha, um cabelo que passava por entre os meus dedos. Estava tudo ali à minha volta e eu quase que conseguia compreender.

Voltei ao meu mundo, que também era o dela...

terça-feira, janeiro 18, 2005

De volta à floresta

Chamo por ti na escuridão...não sei se ouves este grito mudo que sai desesperado da minha garganta...

Grito...mas acho que ninguém me ouve e fico sozinho no meio da floresta onde cresci, toco nas árvores velhas e sinto nas mãos a casca áspera que me aconchega. Quero poder fugir deste lugar que me conhece, mas sinto-me preso, sinto que nunca vou conseguir gritar o suficiente para me libertar, nunca vou conseguir correr em direcção ao meu destino, à minha desgraça, à minha redenção.

Caio no labirinto sem fim, no meio dos ramos que sempre me cercaram e me amordaçam suavemente. O meu grito é abafado com o cuidado de uma mãe e sorrio ao mesmo tempo que choro. Não desisto de lutar mas os meus braços mexem-se devagar e ninguém ouve o meu grito, tal como eu não me consigo ouvir a mim mesmo. Eu não quero sair deste abraço, não quero deixar este sofrimento, é ele que me alimenta, é ele que me conduz.

Não sei o que vai acontecer e continuo a gritar sem que ninguém me ouça...talvez um dia descubra o caminho para fora da floresta ou talvez um dia consiga viver no meio das árvores...

sábado, novembro 27, 2004

A Cidade

Rui sentou-se ao computador sem saber que ia começar a escrever o melhor conto de toda a sua vida. Estava algo melancólico por causa de uma música que ouvira na rádio e que o transportara para o passado. Não sabia porque é que dava tantas vezes voltas sobre a sua própria vida. Irritava-se por parecer que ia sempre parar ao mesmo sitio, ao mesmo bosque sombrio que o chamava e seduzia.

Os seus dedos viajavam de forma dolorosa por cima das teclas cinzentas e as palavras quase que pareciam sair deles e não do cérebro ou do coração. Era como se todas aquelas ideias aparecessem sozinhas, criadas do nada. Não havia controlo sobre o que escrevia, apenas fechava os olhos e continuava.

Só conseguia ver tons de verde e ouvir músicas estranhamente desajustadas que ligava numa história de amor sem sentido, um conjunto de coincidências que não tinham existido mas que eram infinitamente repetidas na cabeça de uma personagem, um prisioneiro do seu criador que lhe dera uma existência estranha num universo impossível.

Mas Rui também era prisioneiro das ideias de outros e escrevia influenciado por tudo o que tinha sentido até aquele dia. Sabia que não estava a criar nada de novo, apenas a deitar para fora o que tinha consumido sempre de uma forma intensa, demasiado intensa. E brincava assim com a vida de outros que não podiam fugir da vida que lhes tinha sido destinada.

As letras formavam cada vez mais uma história bela mas triste, onde um comboio passava por entre prédios com anúncios gigantescos com cores que iluminavam a noite e que eram quase insuportáveis para quem só queria chegar a casa depois de um dia monótono. O único prazer daquela viagem aparecia na terceira paragem onde por breves segundos ele podia espreitar para a mesma casa que observava há anos, podia fechar os olhos e continuar o resto da viagem fantasiando com uma vida que não era a sua.

Rui abriu os olhos e viu o seu reflexo no vidro do metro, gostava de olhar a sua própria cara pois os seus olhos contavam-lhe histórias que depois escrevia. Quando passava pelas estações a sua cara desaparecia e era substituída por outras que esperavam ansiosas, mas era uma questão de tempo até ter de enfrentar aquela expressão que sempre o acompanhava. Podia voltar aos seus pensamentos, às suas fantasias e sentar-se a escrever sobre um amor feito de filmes e músicas e de coincidências sentidas mas não percebidas.

Levantou-se da cadeira, dirigiu-se à janela e olhou a cidade, olhou para todas aquelas luzes que iluminavam outras pessoas, outras vidas que imaginava e conhecia. Não ia acabar a sua história naquela noite, se lhe desse um fim aquele amor morreria numa frase que não sabia como escrever.

Continuou a olhar a cidade e com a cara colada ao vidro ficou a olhar para o comboio parado frente ao seu apartamento...

quinta-feira, novembro 25, 2004

Uma tarde

Recordo-me daquela tarde como se fosse hoje. Quase que consigo sentir os cheiros à minha volta e o corpo dela encostado ao meu. Dois adolescentes sentados num pequeno muro sem pensarem no mundo à sua volta.

Era tudo muito simples, mesmo os problemas próprios da idade não cabiam ali. Sentia apenas a mão dela no meu cabelo e pela primeira vez na vida sentia uma verdadeira emoção que me alterava os sentidos e me fazia doer o estômago.

Hoje consigo pensar naquele momento como um momento perfeito e tenho pena de não o ter percebido na altura. Tenho pena de não ter compreendido que aquele momento iria eternizar-se na minha memória. Um quadro que vi num corredor cheio de luz e do qual nunca me esqueci...

terça-feira, novembro 02, 2004

Duas vidas

Entrei na papelaria à procura de uma revista que tinha a certeza ainda não tinha saído naquele mês. Percorri os corredores despreocupadamente até dar de caras com um livro de viagens. De repente, senti um cheiro intenso a livros, como se todas as obras ali à venda estivessem a chamar-me à atenção, olhei para a capa do livro de viagens mais uma vez e peguei-lhe devagar. Parecia que sorria para mim, envolvia-me com as histórias de locais longínquos e deixava-me a sonhar com outra vida, com as viagens que eu poderia ter feito, com as pessoas que eu podia ter conhecido. Seria tarde demais para seguir o meu destino?

Caminhei devagar para casa sem conseguir tirar o livro da minha cabeça, quase não chegara a folheá-lo, mas sabia bem o que podia encontrar nele. Os sons mudos do deserto, a chuva forte na minha cara, o fumo do tabaco seco a encher-me os pulmões. Experiências que eu não tinha podido ou querido ter, aventuras onde outro tomara o meu lugar. O que é que ele teve de deixar para trás para poder roubar o meu caminho? Quem teria ficado à espera durante meses infinitos? Quem se teria cansado dos sorrisos no regresso?

Meses antes tinha tido um sonho, uma viagem por savanas sem fim com o céu a olhar para mim. Na altura não tinha entendido o significado do sonho e escrevera sobre ele apenas para não me esquecer das sensações que senti e que eram novas. No meio de uma noite, acordado por acaso, tinha-me sentido aconchegado por sonhos estranhos de viagens que não desejara, por locais que nunca tinha imaginado visitar. Tinha sido sempre assim, as viagens mais improváveis apareciam sempre nos meus sonhos. Tudo sem nenhum significado óbvio, sem nenhuma lógica que eu entendesse quando acordava, mas que com o tempo iam crescendo na minha cabeça trazendo novos sonhos.

Neste momento não posso viajar, não posso partir para as ilhas distantes e nadar com as crianças de cabelo estranho, mas posso continuar a ouvir a música que ouço nos sonhos e posso criar os meus próprios sonhos. Só não entendo o que está à frente dos meus olhos fechados, não sei ainda que música é que tocava no momento em que as folhas secas e coloridas voavam pelo chão da igreja, não sei porque é que a noite me chama e me faz sonhar.

Penso mais uma vez no livro de viagens e não consigo deixar de pensar que tudo tem um sentido, um sentido que posso nunca descobrir, mas que consigo sentir...

segunda-feira, outubro 18, 2004

sonho de uma noite sem fim

Sabia que estava dentro de um sonho, o mais real em que alguma vez tinha estado. Sentia uma sensação estranha, um medo que me assustava mas que ao mesmo tempo me dava prazer e andava devagar por cima da erva seca provocando um som que se juntava aos barulhos da noite.

O cenário era o de uma longa planície iluminada pela luz da lua e das estrelas que se podiam ver a brilhar por cima de mim. A linha do horizonte só era perturbada pela gigantesca montanha que se erguia à minha esquerda e que tapava uma grande parte do céu. Estava em África, sabia-o pois aquele cheiro que eu nunca tinha sentido era igual ao que tinha imaginado durante toda a minha vida.

Ouvia os animais que pareciam afastarem-se de mim e continuava a caminhar olhando o céu que aumentava de brilho a cada hora que passava. Podia ler o meu caminho nos desenhos feitos pelas estrelas que me indicavam para onde ir. A ansiedade era muito grande, não sabia bem quem ia encontrar, não sabia o que me fazia caminhar durante horas, numa viagem que não acabava. Mas não me sentia cansado, nos sonhos podemos caminhar durante dias e não sentimos nem fome nem sede. Mas a ansiedade aumentava e envolvia-me de uma forma estranha, quase doce.

Não sabia o que significava aquele sonho, não sabia o que é que estava ali a fazer, mas tudo parecia natural, era como se toda a vida estivesse estado à espera daquela noite sem fim. Como se o que procurasse pudesse resolver de uma vez por todas as minhas ansiedades, os meus pânicos, as minhas angustias. O meu coração batia cada vez mais forte enquanto eu respirava fundo, fechava os olhos e sentia tudo à minha volta. Estava nervoso, mas sentia um prazer enorme em estar ali naquele momento.

Deitei-me no chão e olhei para as constelações, sentia um ligeiro cheiro a queimado de algum incêndio longínquo e vi as aves a fugirem, nuvens negras que se afastavam do perigo e que voavam em direcção à montanha, procurando abrigo debaixo da sua sombra, tornando o céu por cima de mim ainda mais negro. Os outros animais não fugiam, mas faziam-se ouvir cada vez mais alto. Não conseguia perceber as suas histórias, mas sentia-me aconchegado por aqueles lamentos. Continuava assustado e de olhos fechados respirei fundo sentindo o cheiro no ar...adormeci e sonhei.

Aquela noite não ia acabar...

terça-feira, outubro 05, 2004

O Tempo outra vez

Mas o tempo passa e nós mudamos. Deixamos de ser quem éramos e temos medo do que vem a seguir. Apesar de tudo o sorriso é o mesmo, é o sorriso da fotografia a preto e branco que agora já não é só meu. Não sei como vai ser a partir deste momento, mas sei que vai ser diferente. É uma sensação que assusta mas que também nos faz brilhar os olhos, os olhos que já não vemos só no espelho.

Sempre tive medo de crescer, de perder uma parte de mim, de não correr mais pelo corredor da casa e de ver os filmes escondido atrás da porta. Sempre achei que nunca ia mudar, que ia para sempre olhar o céu da mesma maneira e de sonhar. Mas todos mudamos, todos nós nos transformamos em alguém que não somos e que sempre conhecemos.

Não quero deixar nada para trás e olho desesperadamente para o passado. Não vejo alegria nem tristeza, vejo apenas um miúdo a brincar com um carro pequeno e que não olha para mim. Mas eu sei que ele sabe que eu estou aqui, sabe que somos o mesmo e que não nos podemos separar.

Lentamente dou um passo e começo a caminhar, para logo de seguida voar...

quarta-feira, agosto 04, 2004

A Música

Adeus

Ana e Luís seguiam devagar pela rua. Estavam quase encostados um ao outro mas não se tocavam, mesmo assim existia uma sensação de conforto, como que um amparar mutuo. Este era o seu mundo, um mundo de silêncio onde tudo era quase entendido sem o uso das palavras, sem que fosse preciso explicar o que ia na cabeça de cada um, um mundo onde existia uma tristeza sempre presente que os unia de uma maneira muito forte, mas que fazia com que os seus olhares fossem tristes e distantes.

Luís desistira de tentar convencer Ana a ficar e sabia que aquele era um passeio de despedida. Dois anos de convivência diária, de muitos risos e algumas lágrimas, iam finalmente chegar ao fim. Depois da última conversa, ele já não tinha coragem de tentar convence-la de que estava a cometer o erro da sua vida, que não ia haver outra hipótese para serem felizes. Ela não ia ouvir e ele não ia tentar mais.

Parou à entrada do metro, o local onde sempre se separavam, e ficou a olhar para a sua cara durante algum tempo. Abriu a boca mas não foi capaz de falar, queria dizer-lhe que a vida não devia ser assim, que não se pode querer controlar os sentimentos, mas sabia que ela naquele momento não era livre, estava prisioneira das suas ideias e nesse estado não podia pensar da mesma maneira que ele.

Deu-lhe um beijo na face e afastou-se sem olhar para trás, tinha de começar a viver uma nova vida e era melhor começar já.


Manhã

De repente tinha começado uma vida nova e nos primeiros meses quis fazer tudo o que não tinha feito nos últimos anos, todos aqueles desejos que estavam esquecidos e que agora tinha decidido retomar. Mas Ana estava sempre presente, não havia um dia que não pensasse nela, ou que não sentisse que aquele pequeno frio no estômago era o seu inconsciente a dizer que ainda não a tinha esquecido.

Mas o tempo traz algum sossego e o que era uma obsessão transformou-se numa recordação que cada vez incomodava menos. Ficava a imagem dela à entrada do metro e a sensação de vazio que tinha sentido.

Durante algum tempo ainda foi tendo noticias através de amigos comuns, ela tinha seguido a carreira de sucesso que queria e casado com o homem com que sonhara, mas não com o homem dos seus sonhos, achava ele. Mas ao fim de um tempo deixou de saber o que se passava, a distância afasta as pessoas, especialmente as que já estão afastadas antes de se separarem fisicamente e pôde seguir com a sua vida.


Escrever

Passaram cinco anos e Luís levava a vida possível. Não era uma pessoa infeliz e a maior parte dos dias sentia que estava bem e que tinha uma boa vida, mas havia um sentimento de tristeza que era quase imperceptível para os outros, mas que estava sempre presente. Ele sabia reconhece-lo e lembrava-se de uma fotografia de um dos seus discos favoritos, uma cara triste, uma cadeira velha e uma angústia no ar com que se identificava. Apesar de tudo era um disco alegre, nada parecido com a fotografia da capa. Ele sentia algo parecido na sua vida. Era a capa do disco que não fazia sentido, ou era ao contrário?

Mas a maior parte das vezes sentia-se feliz, ou fazia por isso. Preferia seguir as letras do disco, que se tinha tornado na sua maior companhia, uma nova obsessão que não compreendia, tudo o que estava escrito parecia vir da sua cabeça. Sabia que podia só ser pelo facto de ser especialmente susceptível àqueles versos, mas não deixava de ser uma coincidência muito grande.

Luís era também um escritor, mas de uma forma solitária, dono de um blog que ninguém lia a não ser ele próprio. De qualquer forma era na escrita que se encontrava, era através das histórias que criava que vivia outras vidas que eram ao mesmo tempo parte da sua e o oposto da mesma. Ele escrevia sempre na primeira pessoa e contracenava com muitas pessoas que não existiam, reflexos imperfeitos de outros com quem se tinha cruzado, mas que não conhecera o suficiente. Era preciso completar as peças, era necessário imaginar cada fala, cada pensamento e até as características físicas destes seus companheiros irreais.


Reencontro

Mas a vida é estranha e às vezes parece que anda em círculos. Este era o pensamento na cabeça de Luís quando ao subir a rua viu uma figura conhecida a vir em direcção a ele. Ela estava mais velha, o olhar tinha algo de diferente, como se o tempo tivesse apagado um pouco do brilho que ele nunca esquecera.

Sorriu e avançou para ela, deram dois beijos e ficaram a olhar um para o outro sem dizer nada. Ana parecia cansada e foi com uma voz trémula que perguntou como é que ele estava, nunca mais tinham falado desde a separação no metro e havia um certo desconforto no ar. Luís não respondeu, sabia que ela lhe queria contar alguma coisa e que as perguntas de circunstância só iam fazer com que ela demorasse mais tempo a falar. Reparou que os seus dedos estavam vazios.

Sentaram-se num banco de jardim e Ana falou e contou tudo o que se tinha passado desde que se tinham despedido. Tinha passado anos muito bons a nível profissional e pessoal, era vice-presidente de uma empresa muito importante e tinha casado com uma pessoa que parecia ter sido feita para ela. Alguém que a fazia ter conforto, alguém que lhe tinha dado segurança, a relação que ela sempre desejara. Mas o seu discurso era triste e desanimado. Mesmo assim Luís conteve a sua curiosidade e continuou a ouvir Ana a falar ao ritmo que queria, contando como as coisas tinham corrido muito bem até um certa altura, até ao momento que se tinha instalado uma sensação de vazio na sua vida, até ao momento que tinha de completar com sonhos os seus dias. Nunca aconteceu nada de grave, nenhuma traição, nenhuma discussão séria, só um desanimo crescente e uma ruptura inevitável sem nenhuma conclusão, sem nenhuma lição a tirar. Ana perguntou se não podia ser feliz, Luís não respondeu...


Mar

Levantou-se, deu-lhe uma mão e disse para saírem dali. Foram até ao pé do mar e ficaram sentados no carro a observar as pessoas a brincarem na praia. Luís não teve coragem de ligar o rádio, sabia bem o que é ia começar a tocar, não teve forças para enfrentar tudo outra vez e ficou apenas a ouvir o barulho do mar. Ficaram em silêncio muito tempo, até àquela hora em que a noite se confunde com o dia e tudo se mistura, tudo parece diferente. Mas era um silêncio confortável, sempre foi, não precisavam de falar para saber exactamente o que se passava na cabeça do outro...e beijaram-se.

Foi o beijo mais intenso das suas vidas, a emoção que sentiram não era comparável com todas as experiências passadas, a saudade não era só um sentimento abstracto e podia quase sentir-se entre eles e as suas mãos apertavam com força o corpo um do outro como se não se fossem ver nunca mais. Mas para Luís havia algo que não estava certo, alguma coisa que o fez afastar-se e refugiar-se nos seus pensamentos, a sensação que sentia ao abraçar Ana era muito boa, mas parecia desajustada no tempo, parecia que, de alguma forma não fazia sentido, isto apesar de ainda sentir o seu gosto na boca e de saber que não podia sentir o que estava a sentir com mais ninguém.

Ligou o carro e guiou em direcção à cidade sem dizer uma palavra. Ana não disse nada, a cara de Luís tinha tanto de feliz como de zangado e sabia que não era boa altura para falar. Apesar de tudo, percebia o que se passava, sabia o que Luís devia estar a pensar ou a sentir e lembrou-se das palavras dele no dia da despedida. Não sabia se podia ainda ser feliz, não sabia como é que podia corrigir o que não tinha a certeza que tivesse de ser corrigido. Ficou só calada, contendo as lágrimas e observando Luís enquanto conduzia. A expressão dele de repente tinha ficado estranha e pela primeira vez olhou para ele e não conseguiu perceber o que ele estava a pensar. Sentiu outra vez uma vontade enorme de chorar, mas não o fez, olhou apenas o mar que acompanhava a estrada e adormeceu até chegarem a sua casa. Luís não disse um palavra quando ela saiu do carro, mas olhou para ela de uma maneira doce antes de partir devagar. Era tarde...


Estranho mundo

Passaram duas semanas e Luís tentava afastar certos pensamentos da sua mente, não queria ter que decidir, sabia que ia ter que se enfrentar a si mesmo e tinha medo do que fosse acontecer. Ana tinha-lhe telefonado várias vezes, mas ele não atendera, não sabia mesmo o que fazer, por um lado ela era tudo o que sempre tinha querido, por outro, quem era ela para aparecer e desaparecer assim da sua vida? Claro que eram almas gémeas, mas isso já ele sabia há muitos anos, já sabia que estavam destinados a ficar juntos. Mas ela não tinha querido aceitar este destino, ela achou que existia uma outra vida que poderia viver. Não era vingança, não era por ser uma segunda escolha, ele sabia que tinha sido sempre a primeira escolha e que era a principal razão para ela ter voltado, mas assim as coisas não faziam sentido. Ele tinha demorado muito tempo a libertar-se daquele amor, a conseguir viver sabendo que podia não a ver mais, mas também sabia que não era completamente feliz, que faltava alguma coisa na sua vida, se ao menos tivesse a certeza que podiam ter uma vida alegre, sem a tristeza sempre presente, sedutora, mas que magoava.

Decidiu ir passear e resolver de uma vez por todas aquele assunto e mesmo sabendo que as probabilidades de numa tarde resolver o que não tinha conseguido resolver em anos serem poucas, caminhou sem rumo pela cidade. Tentou olhar para as ruas, que tão bem conhecia, com outros olhos, olhava para os cantos para onde ninguém olhava, levantava a cabeça e olhava para a parte de cima dos prédios e observava o que ninguém vê quando se caminha com os olhos na calçada. Então seguiu por um percurso pouco habitual e entrou numa rua por onde não costumava caminhar. Era uma rua escura e muito antiga, mas que não era assustadora. Os prédios pareciam observar quem passava e não se via ninguém, mas sentia-se acompanhado, era uma sensação estranha mas agradável. Não sabia onde ia dar a rua e continuou a olhar para as varandas enfeitadas de vasos com flores que não condiziam com as cores escuras das paredes que os rodeavam.

De repente a rua acabou e deu por si num local conhecido, estava perto da estação de metro onde se tinha despedido de Ana uns anos antes. Não pôde deixar de achar curioso ter ido dar ali e avançou enquanto se recordava mais uma vez da figura dela em pé enquanto ele descia a rua sem olhar para trás. Mesmo sem a ter visto sabia que nesse momento ela estava mais bonita do que nunca e era essa imagem que ele tinha guardado na sua memória, uma memória de algo imaginado e por isso perfeita. Entrou no metro...


Música

Enquanto descia as escadas devagar começou a ouvir uma música ao fundo, alguém devia estar a pedir algumas moedas em troca da sua arte. Caminhou ao encontro do som e depois de virar uma esquina do corredor subterrâneo deu de caras com um homem muito alto com uma barba cinzenta muito grande e que tinha uma guitarra nas mãos. Tinha parado de tocar e ficou a olhar para Luís que andou mais devagar na esperança de ouvir a próxima música, sempre gostara de ouvir os músicos de rua embora raramente os recompensasse pelo prazer que sentia. O homem dirigiu-se para ele e perguntou se ele queria ouvir alguma música, algum pedido especial. Luís lembrou-se do seu disco favorito e da música de que gostava mais, mas não teve coragem de falar nela e disse que qualquer uma servia.

O homem voltou lentamente para o seu canto e sorriu levemente enquanto se preparava para começar a tocar. Parecia que ele o estava a desafiar e por momentos achou que ia tocar a sua música, como se pudesse adivinhar os seus pensamentos, como se soubesse que tinha nas suas mãos a resposta que ele procurava. Tremeu quando ouviu os primeiros sons da guitarra tocada por aqueles dedos elegantes e tentou perceber se os seus medos tinham sentido. Mas não, a música era muito bonita, mas desconhecida. Não sabia se tinha ficado feliz, ou se por outro lado era uma desilusão. Olhou triste para o chão e perguntou a si mesmo porque é que as coisas mais difíceis nunca aconteciam, porque é que não podia haver um pequeno sinal que o ajudasse, porque é que era tudo tão real...

Ficou a ouvir a música até ao fim e quando o homem acabou tirou uma moeda da carteira e procurou um sitio onde a pôr, que não existia. Então, estendeu a mão para o cantor e tentou dar-lhe a moeda. Mas ele acenou com a cabeça em sinal de recusa, não parecia querer aceitar aquela recompensa e Luís ficou sem saber o que pensar, não era esta a razão para ele estar ali? Tentou mais uma vez dar-lhe a moeda mas só conseguiu provocar uma gargalhada no homem, foi algo inesperado pois o riso modificou-lhe as feições e de repente parecia estar frente a outra pessoa. Ele parou de rir e, baixando a cabeça para ficar à mesma altura de Luís, disse-lhe que guardasse a moeda para uma altura realmente importante. Depois agarrou nas suas coisas e saiu apressadamente.

Luís guardou a moeda no bolso...


Encontro

Acordou no dia seguinte com uma sensação de bem estar que já não sentia há uns dias. Nada tinha mudado, mas sentia que não podia ficar para sempre triste, que tinha que avançar para algum lado, embora não fizesse a menor ideia para onde ir. Telefonou para Ana e pediu para a ver. Ela estranhou a voz dele, mas aceitou logo o convite, estava há demasiados dias em sofrimento e mesmo não sabendo se não ia enfrentar outra despedida, foi ter com ele, não podia desperdiçar uma oportunidade que podia ser única, mas saiu de casa muito nervosa. Relembrou todo o passado no caminho, todas as suas opções, todo o amor que sentia por Luís e que tinha recusado. Sabia que não podia voltar atrás, mas tinha medo que fosse tarde para emendar o que tinha feito, embora não conseguisse ter a certeza que tivesse errado, era muito complicado e tentou não pensar mais no assunto, a cabeça estava a ficar demasiado cheia.

Encontraram-se num bar onde iam muitas vezes no passado, era um sitio muito original em tons de cor-de-laranja. Sentaram-se numa mesa a um canto e Ana ficou à espera do que Luís tinha para lhe dizer. Ele olhou-a de forma demorada, na verdade não tinha chegado a nenhuma conclusão, achou que podia confiar num momento de inspiração e que quando estivesse com ela, alguma coisa surgisse, mas claramente tinha escolhido uma dia mau e não sabia o que dizer. Apesar de tudo continuava bem disposto, mais bem disposto do que na realidade desejava estar, mas era algo que não conseguia evitar, desde que acordara que estava com aquele estado de espírito e por muito que o irritasse não conseguia concentrar-se no problema que tinha para resolver.

Levantou-se para ir buscar uma bebida ao balcão, uma desculpa para ficar sozinho e ganhar uns segundos. Esperou um pouco enquanto observava a decoração do bar, nada tinha mudado nos últimos anos e pensava que de certa forma o mesmo se passava com a sua vida. Ali estava ele a pensar nos mesmos problemas de sempre, parecia que não tinha avançado nada desde que Ana tinha ido embora, pior, parecia que tinha voltado ainda mais atrás. Mas pensava nisto de forma despreocupada, estava cansado de tanta tristeza de tanto sofrimento, não queria chorar mais, não queria ser uma pessoa de braços caídos. Então reparou em algo que não pertencia àquele sitio, algo que normalmente só se via em filmes, uma máquina com pequenos discos que podiam ser escolhidos em troca de uma pequena moeda. Olhou em redor e reparou que o bar estava quase vazio, não iria incomodar ninguém, debruçou-se sobre a máquina e leu os nomes das músicas disponíveis. Enfiou a mão num dos bolsos e sentiu a moeda que tinha guardado no dia anterior. Introduziu-a na máquina e caminhou em direcção à sua mesa.


Rir

A música começou a tocar e Ana levantou a cabeça surpreendida, era a música de Luís, a sua fonte de inspiração. Não a ouvia há anos e lembrou-se de quando ele tinha comprado o disco, tinha sido pouco tempo antes de se ir embora. Uma lágrima escorreu-lhe pela face e ficou a olhar para o seu companheiro de sempre. Perguntou-lhe se sabia quais eram as probabilidades daquela música começar a tocar naquele momento, quando as suas vidas estavam numa encruzilhada onde era necessário fazer uma escolha e decidir que caminho seguir. Luís sorriu e disse que não era assim uma coincidência tão grande pois tinha sido ele a escolher a música. Ela não tinha reparado na máquina e sorriu também, mas a sensação de estar a passar pelo momento mais importante da sua vida continuava presente. O mesmo se passava com Luís, sabia que era ele que decidia, era ele que tinha que escolher o destino dos dois.

Meteu a mão no bolso e tentou sentir a moeda que já não estava lá, não tinha como evitar os minutos que se iam seguir, este era o momento que sonhara, era o momento que temera. Sabia que estava próximo da decisão mais importante da sua vida e não fazia a mínima ideia do que fazer. Porque é que viver era tão complicado, porque é que não podia ser pequeno outra vez? Talvez nunca o tivesse deixado de ser, uma criança que crescera, mas que não sabia lidar com os problemas dos adultos, uma criança que continuara a sonhar. Lembrou-se de quando tinha cinco anos e corria pela praia sem nenhuma preocupação, sentia apenas o vento na cara e ria para quem passava, olhava para o mar e imaginava o que estava do outro lado sem nunca ter tido uma resposta, mas também sem que isso o incomodasse muito. Porque é que as coisas não podiam ser assim tão simples? Se calhar podiam...

Pegou na mão de Ana e levou-a para fora do bar, ela não sabia o que é que ele tinha decidido e sentia-se perdida, mas ele não queria prolongar nenhum tipo de sofrimento e apertou a mão dela com força enquanto a conduzia até ao carro. Entraram e ele ligou o rádio, sabia que música ia começar a tocar pois tinha posto o cd estrategicamente naquela posição. Quando viu os olhos dela a brilhar por ouvir aquele som perguntou-lhe se não achava muito estranho que estivessem sempre a ouvir a mesma música. Ela não conteve o riso e ele acompanhou-a...

Porquê?

Deixou Ana a dormir e saiu para caminhar um pouco, sentia-se bem, mesmo não sabendo nada da vida, mesmo não tendo retirado nenhuma conclusão de tudo o que acontecera nos últimos anos. Sabia apenas que não fazia sentido não ser feliz, não sabia o que o ia acontecer, não sabia como ia lidar com os problemas do passado e muito menos com os do futuro, mas tinha a certeza que naquele momento estava bem e que a vida era o que era e era simples, o resto não importava. Voltou para casa...

sexta-feira, julho 09, 2004

O Destino de Kal-El

"...acho que podemos fazer o que queremos das nossas vidas..." (Hobbes)

Tristeza

Clark voava ao mesmo tempo que pensava na vida e não compreendia porque é que não era como as outras pessoas, porque é que tinha de ser ele...

Todos invejavam a sua sorte, todos sonhavam vestir o seu fato azul e vermelho e sentir as nuvens nas mãos. Mas para ele era um fardo mais pesado do que podia suportar, a alegria dos primeiros anos tinha desaparecido e sentia-se só, sentia uma tristeza que crescia dentro dele, sentia-se aprisionado dentro de si próprio, escravo dos poderes que todos admiravam. O seu corpo era invulnerável mas a sua alma era a mais frágil de todo o universo. Sabia que não iria aguentar muito mais.


Passado

Viu ao longe o que vinha à procura e desceu lentamente, tocou no solo e observou a árvore velha que diziam ter estado sempre ali, a árvore que tinha sido sua companheira durante toda a infância e que era a sua mais velha e querida amiga. Ajoelhou-se e procurou o esconderijo por entre a erva alta, um pequeno buraco onde cabia apenas uma mão de um adulto ou duas de uma criança. Não demorou em sentir o metal da caixa ferrugenta e trouxe-a para o sol. Todos os seus segredos estavam naquela caixa pequena e velha, tudo o que era realmente importante para ele estava ali dentro e mal conseguiu conter as lágrimas quando levantou a tampa gasta pelo tempo e observou os seus pequenos tesouros.


Voar

No fundo da caixa estavam umas folhas muito amarelas escritas com uma tinta preta que teimava em não desaparecer e sorriu quando começou a ler.

"...hoje voei como nunca tinha voado, atirei-me de cima do monte mais alto que encontrei e deixei-me cair até estar muito perto do chão, então subi e senti o estômago às voltas como quando damos o primeiro beijo, rodopiei e senti o vento fresco na minha cara, voei por entre as árvores e corri atrás dos animais que se escondiam na floresta.

Fui em direcção ao mar e toquei com as mãos na água gelada enquanto aumentava a velocidade e deixava um rasto de espuma branca atrás de mim. Voei o mais depressa que consegui e fiz com que a água se levantasse dos dois lados criando um efeito incrível. Senti-me a pessoa mais feliz de todo o mundo e achei que não podia haver um momento mais perfeito do que aquele.

Voltei para cima da terra e passei por cima de um campo cheio de flores que não conseguia ver, mas que conseguia cheirar. A noite tinha caído e escondia os desenhos que eu fazia no céu, um céu cheio de estrelas que eu quase conseguia tocar. Senti a pulsação acelerada e o meu peito quase que rebentava, achei que não ia conseguir aguentar, mas não pude evitar e subi outra vez muito depressa até estar o mais longe da terra que alguma vez tinha estado.

Então desci lentamente e toquei a erva suavemente enquanto a lua aparecia no horizonte indicando-me o caminho para casa. Eu olhei para o céu, senti uma última vez o cheiro do chão e das flores e parti calmamente..."


Tinha escrito aquelas linhas com treze anos e sabia que tinha sido o dia mais feliz da sua vida. Tinha sonhado com algo que só era possível na sua cabeça, mas tinha sentido o mesmo prazer que teria sentido se tudo tivesse mesmo acontecido. Naquela altura não sabia que, ao escrever aquelas linhas, estava a escrever o seu destino, estava a inventar o seu futuro, estava a condenar-se a si próprio.

Guardou tudo outra vez na caixa e voltou a guardá-la debaixo da árvore. Ficou algum tempo a pensar e olhou mais uma vez para a árvore antes de partir, sabia que nunca mais voltaria aquele lugar.


Futuro

Desde o dia na árvore que não vestira mais o fato azul e vermelho e não voara mais entre as nuvens. Já não sentia o fardo sobre as suas costas e era só mais uma pessoa como as outras, uma pessoa que no entanto sentia que ainda não era feliz. Então um dia comprou um bloco como os que usava quando era mais novo e com a sua caneta preferida começou a escrever sobre a vida de um homem, um homem que sonhava...

"Era uma vez um homem que tinha uma vida muito simples mas que era feliz porque sonhava e acreditava que um dia os seus sonhos podiam tornar-se realidade..."

terça-feira, junho 29, 2004

O Fim do Mundo

...uma vez ouvi alguém dizer num filme - “este é um bom dia para morrer”...

Insónia

Entrei no metro e sentei-me perto de dois homens que não pareciam portugueses, é engraçado como conseguimos olhar para uma pessoa e dizer que ela não pertence ao sitio onde está. Apesar das teorias que se baseavam nas diferentes características físicas terem perdido força ao longo dos anos, a verdade é que todos nós continuamos a utilizar esta forma de análise quando olhamos para as pessoas ao nosso lado.

Os homens saíram do metro e eu olhei para o outro lado e reparei em duas mulheres que falavam alegremente. Tentei ouvir a conversa mas elas falavam de uma maneira que eu não entendia nada do que diziam, não percebia se tal acontecia por casa da distância a que nos encontrávamos ou se falavam numa daquelas línguas parecidas com a minha.

Aproximei-me para tentar descobrir mas elas saíram quando o metro parou, ainda pensei em segui-las mas rapidamente cheguei à conclusão que era exagerado e que talvez conseguisse viver com aquela dúvida para sempre. Acontecia-me muitas vezes isto, ficar perante situações que queria perceber melhor, mas que a educação e se calhar a vergonha, não me deixavam dar um passo mais arriscado. E assim ficava com muitas perguntas sem resposta que nunca esquecia, era esse o meu pesadelo, o eterno recordar de situações simples, a angústia de não ter resolvido pequenos quebra-cabeças e de ter de viver para sempre com eles.


Morte

Acordei com o rádio e com as noticias das sete da manhã, onde alguém dizia que íamos todos morrer, eu tentei acordar outra vez mas não deu resultado, a frase continuava a ser repetida. Mudei de estação e todos falavam do mesmo, parecia que era mais ou menos consensual que íamos todos morrer, mas eu continuava a não perceber nada do que se estava a passar.

Liguei a televisão e percorri os canais até ver a entrevista do físico que dizia que iríamos ser atingidos por um meteoro de grandes dimensões em menos de vinte e quatro horas. Era um homem estranho e ao principio não percebi porque estavam a dar tanta atenção a alguém que eu identificava como um lunático. Mas depois vieram as reacções da comunidade cientifica, ninguém concordava com os cálculos, mas todos falavam da grande competência do senhor que dizia que iríamos morrer. Decidi não ir trabalhar, era o mínimo que podia fazer perante tal confusão.


Medo

Passeava pela baixa e olhava para todos a tentar perceber o que pensavam do assunto, pelo que podia perceber a maioria das pessoas não tinha dado especial relevância à noticia, pois todos pareciam continuar a sua vida normalmente, mas podia jurar que havia uma tensão no ar, que os olhares eram desconfiados e desanimados.

Tinha telefonado a todos os meus amigos e ninguém tinha achado que alguma desgraça fosse acontecer, mas também me parecia ter reparado num pequeno nervosismo nas suas vozes, podia ser tudo imaginação minha, mas era o que sentia, sentia que ninguém queria admitir que estava afectado por algo com poucas probabilidades de acontecer, mas que todos estavam perturbados de alguma maneira. Decidi que ia passar o dia sozinho.

Tirei o leitor de mp3 da mochila que trazia comigo e escolhi uma música alegre para aquele dia que talvez fosse o último da minha vida. Desci até ao rio e acompanhado pela minha banda sonora pessoal andei devagar enquanto respirava o ar fresco da manhã. Era muito estranho pensar que tudo podia acabar, havia ainda tanto para fazer. É claro que era pouco provável que isso acontecesse, mas decidi pensar um pouco no assunto.


Palmas

Almocei sentado num muro perto do rio enquanto olhava umas obras muito barulhentas, todos trabalhavam muito concentrados e não pareciam ter ligado ao facto do mundo poder acabar. Tinham fatos amarelos que condiziam com as máquinas que abriam o chão escavando um enorme buraco. Pensei que talvez fosse melhor deixar o meteoro tratar dos buracos, mas não tive coragem de me meter com aquelas pessoas.

Saí dali e fui dar a um jardim onde parecia estar acontecer algo, pois estavam centenas de pessoas perto de um palco. Aproximei-me e percebi que era um concerto. Que hora estranha para um concerto, ainda por cima num dia de semana e com o calor que estava, não percebia quem tinha tido aquela ideia, mas a verdade é que tinha conseguido atrair um grande número de pessoas para assistirem ao espectáculo.

Tinha-me sentado no chão a ouvir o concerto e olhava as pessoas despreocupadamente quando reparei numa rapariga que me chamou atenção. Estava vestida com uma camisola vermelha e uma saia azul com umas bolas brancas pequenas, era loura e tinha uns óculos que lhe davam um ar muito formal, como se quisesse parecer mais bem comportada do que era. Eu sempre adorei olhar as pessoas e tentar imaginar como eram as suas vidas e naquele momento decidi pensar um pouco naquela rapariga enquanto ela ouvia a música que continuava a tocar.

Mas de repente sucedeu algo muito estranho, no meio de uma das músicas ela começou a bater com as mãos por cima da cabeça, como todos os que estavam ao seu lado e eu quase que podia jurar que conseguia distinguir as palmas dela das dos outros. Achei que era imaginação minha e aproximei-me um pouco. Não parecia possível, mas quando ela batia com as mãos uma na outra eu conseguia ouvir aquele aplauso mais alto do que os outros. Mas o mais engraçado é que era apenas um pouco mais alto do que as restantes palmas, bastava que a banda tocasse um pouco mais alto ou que alguém ao seu lado gritasse e eu deixava de a ouvir, mas depois tudo voltava ao normal e eu podia ouvir a música acompanhada por aquelas mãos mágicas.


Perguntas e respostas

Estava completamente baralhado, o que provocaria aquele fenómeno, seria o formato das suas mãos pálidas, seria do sitio onde ela se encontrava, ou seria que eu tinha finalmente perdido o juízo? Não tinha resposta para estas perguntas mas estava decidido a não viver com mais um mistério por resolver, a mais noites sem dormir para tentar perceber porque é que sempre que atendia o telefone via as inicias de quem me ligava nas matriculas dos carros, porque é que quando dormia num hotel ficava sempre num quarto com o meu número favorito. Não aguentava mais que a minha vida fosse invadida por um caso sem solução, por algo que só me iria trazer ansiedade e desconforto. Decidi ir ter com ela.

Tinha ficado tanto tempo a observar aquela cena que não tinha reparado que tinha anoitecido, na verdade era um pouco estranho como é que tinha anoitecido, não parecia que tinha passado tanto tempo, mas já tinha um mistério para resolver e decidi não ligar. Avancei decidido para ela e quando cheguei perto toquei-lhe no ombro, ela olhou para mim e quando eu estava quase a falar ouvi um enorme estrondo por cima de nós, tinham começado a lançar fogo de artificio e fiquei uns minutos a olhar para cima e as formas que apareciam no céu estrelado. Por momentos esqueci-me onde estava e que o mundo ia acabar.

Senti então uma mão na minha e olhei para a rapariga das palmas, ela abriu a boca e disse qualquer coisa que eu não percebi, a música continuava a tocar e em conjunto com o fogo de artificio era muito difícil ouvir alguém, mas pareceu-me que ela não estava a falar português, tentei gritar qualquer coisa em inglês mas ela encolheu os ombros, não tinha percebido ou não tinha ouvido? Não insisti, decidi que ela era Suiça e que se chamava Anne e fiquei de mão dada com ela a ver o fogo.

Tudo era mais claro para mim de repente, o som das suas mãos era mais alto devido a uma técnica muito antiga que os suíços desenvolveram para comunicar nas montanhas. Mas não bastava saber como tocar com as mãos, a forma delas também era importante e Anne pertencia a uma família onde as mulheres tinham as mãos mais perfeitas de toda a Suiça. Era uma herança genética que tinha passado de geração em geração e que tinha de ser mantida em segredo pois haviam muitas pessoas interessadas em utilizar este dom para fins maléficos. Mas eu não representava perigo e podia agarrar suavemente nas suas mãos e sorrir.


Fim

A concerto acabou e nós afastamo-nos um pouco das outras pessoas, eu olhei-a um pouco sem dizer nada e ela sorriu enquanto guardava os óculos numa pequena mochila que trazia às costas. Queria perguntar-lhe quem era ela, mas não sabia em que língua devia falar e não queria começar mal, tinha errado muitas vezes no passado e sabia bem que as primeiras palavras eram as mais importantes.

Decidi avançar na minha língua materna com um simples cumprimento e ela pareceu compreender, mas nunca me chegou a responder pois subitamente todos desataram a gritar quando milhares de estrelas cadentes rasgaram o céu negro por cima de nós. Foi como se todos entrassem em pânico ao mesmo tempo, via pessoas a correr de um lado para o outro fugindo sem saberem do quê, via outras quietas no chão chorando como crianças e sentia o medo no ar, era o medo da morte, o medo de não ver a manhã seguinte.

Então, no meio da confusão, o fogo de artificio que não tinha sido lançado começou a voar por entre as pessoas, deixando rastos de todas as cores. Ninguém sabia para onde fugir, era como se estivéssemos numa jaula de fogo, numa camisa de forças com cores magnificas que subiam ao céu e nos perseguiam enquanto corríamos desesperados. Eu fiquei quieto a observar todo aquele espectáculo, o céu continuava todo riscado de vermelho e laranja e as estrelas cadentes confundiam-se com o fogo que nos envolvia.

Achei que era um final muito bonito e deixei-me estar em pé a sentir todas as emoções de quem passava por mim. Já não estava de mão dada com a rapariga das palmas, o fogo tinha-nos separado e teimava em não nos deixar aproximar um do outro, mas conseguia vê-la a olhar o céu com a mesma calma com que eu assistia àquele fim do mundo. Então sentei-me no chão, tirei os auscultadores de um dos bolsos das calças e ouvi uma das minhas músicas preferidas, um momento como aquele merecia uma banda sonora.

O mundo não acabou, mas tinha sido um bom dia...

quinta-feira, junho 03, 2004

Orion

Espera

Esperava por um telefonema há dezasseis dias e todas as noites sentava-me no sofá da sala fixando sem parar o telefone preto que teimava em ficar silencioso. Nestas noites solitárias não pensava em mais nada, parecia impossível, mas conseguia ficar várias horas frente àquele objecto apenas com um pensamento na cabeça. Nem sequer pensava no motivo do telefonema ou na pessoa que o deveria fazer, era como um transe que se tinha apoderado de mim, uma espécie de meditação amaldiçoada em que conseguimos isolar apenas um pensamento deixando tudo o resto de lado. De repente ouvi o barulho há muito esperado. Hesitei...e então num segundo veio-me tudo à mente e relembrei o que se passara.


Antes

Sempre tinha sido uma pessoa solitária, o que não queria dizer que não conhecesse muitas pessoas, era mais um sentimento interno que fazia com que sentisse que por muitas pessoas que estivessem comigo eu ia ser sempre a pessoa mais solitária do mundo, como se este mundo tivesse sido construído só para mim e as outras pessoas fossem meros actores, figuras abstractas e inexistentes cuja única função era contracenar comigo neste sonho maldito. Pensava muitas vezes o que fariam elas quando eu não estava presente. Mas não tinha nenhuma confirmação desta minha teoria e continuava a contracenar com os outros, sempre com a sensação de solidão.

Todos diziam que eu era muito calado e muito distante, apesar de eu achar que para quem estava tantas vezes “fora deste mundo” tinha muitos amigos. Mas era verdade que eu intimidava muita gente, só não percebia se isso também fazia com que eu tivesse um certo “estilo” ou se só fazia de mim um pobre diabo aos olhos dos outros.

Já entrara na casa dos trinta e todos os meus relacionamentos tinham sido muito parecidos, começavam baseados em interesses comuns e até funcionavam bem ao principio, até que o dia-a-dia surgia e como eu raramente estava “presente”, elas acabavam por ir embora. Tinha havido uma rapariga de quem eu gostara muito e que me conseguira puxar um pouco para o nosso mundo, mas mesmo ela não aguentou muito viver com uma pessoa tão fechada e acabou por seguir o seu rumo.

Apesar de não parecer eu pensava muito nisto tudo e nas razões para eu ser assim, não havia muito a dizer, família disfuncional, falta de afecto, basicamente um pouco de pequenas coisas que tinham deixado as suas marcas. Mas nem tudo era cinzento, às vezes eu acordava de manhã e passeava sozinho pela cidade e conseguia sorrir um pouco com o ar fresco da manhã. Por vezes lia um livro ou via um filme que me levavam a mundos desconhecidos e onde eu me sentia muito confortável. E também conseguia ser agradável com algumas pessoas, não era muito habitual, mas acontecia e uma coisa era verdade, não costumava ser antipático para com ninguém, só estava distante muitas vezes.


O que é isto?

Até que um dia a minha vida foi invadida por um estranho, ou melhor por uma estranha. E não era só estranha por eu não a conhecer, era mesmo uma pessoa muito estranha.

Foi no aniversário de um amigo meu que a conheci, acho que nos puseram ao lado um do outro de propósito, uma espécie de experiência dos meus amigos. O que aconteceria se dois “que não regulam bem” se conhecessem? A coisa correu muito mal pois nós mal olhávamos um para o outro e para piorar todas as pessoas à nossa volta já tinham arranjado um parceiro de conversa.

Um pouco farto de estar sempre sozinho resolvi meter conversa.
- Parece que nos quiseram juntar aqui de propósito.
- Eu já reparei, mas não me sinto obrigada a fazer conversa. Disse ela de uma maneira não muito simpática.
- Pois eu também não mas também não me importo de conversar.
- Conversar sobre o quê?
Fiquei um pouco irritado com tanta má disposição, mas insisti.
- Podíamos tentar perceber o que há de diferente entre nós e o resto das pessoas que estão nesta mesa.
- Poder podíamos, mas sinceramente não sei se isso vai ser muito interessante.
Com esta resposta calei-me. E ainda diziam que eu era distante!

Saí para casa já tarde e quando cheguei ao carro tinha um pequeno papel preso no vidro. Uma mensagem que abri rapidamente, era dela. Pedia desculpa pela má disposição e convidava-me para nos encontrarmos no dia seguinte. O local do convite era uma esplanada com uma vista muito bonita sobre o mar que eu conhecia, resolvi não decidir no momento, quando acordasse decidiria.


Ao sol

Acordei e pareceu-me que pior que o jantar não deveria ser e ela era realmente muito bonita, depois de um almoço à pressa dirigi-me para a esplanada. Quando cheguei não estava praticamente ninguém e sentei-me numa mesa que ficava num canto abrigado do vento, mas que deixava ver as ondas a embaterem nas rochas. Pedi um bebida e fiquei ali sozinho à espera dela.

As horas passaram e ela não apareceu, apesar de tudo tinha sido uma tarde muito agradável. Tinha passado horas a observar os outros na esplanada e a imaginar como seriam as suas vidas. Consegui inventar pelo menos cinco histórias muito interessantes que me ocuparam a cabeça durante aquele tempo todo.

Obviamente que ela não devia aparecer e decidi que era altura de ir para casa. Tinha o carro estacionado um pouco longe e decidi dar um volta pela praia antes de me ir embora e acabei sentado na areia a pensar na vida, pois não tinha muita vontade de ir para casa. Deitei-me e olhei o céu azul, até que adormeci debaixo daquele sol suave.


Orion

Quando acordei era de noite, fiquei incrédulo, como é que eu podia ter dormido tanto tempo? Como sempre não tinha relógio, mas o brilhar das estrelas confirmava que de facto já era de noite e que eu tinha dormido imenso. Acho que a palavra correcta era desmaiado e não dormido, pois só assim podia explicar algo tão estranho.

Olhei para o lado e a praia parecia vazia, até tive um pouco de medo, até que reparei em alguém uns duzentos metros à minha esquerda. Dirigi-me à pessoa para perguntar as horas e conforme me fui aproximando reparei que era um rapariga que parecia estar a observar o céu através de um telescópio. Cumprimentei-a e ela levantou a cabeça para olhar para mim, era também muito bonita, parecia que eu andava com sorte. Confirmou que era tardíssimo e perguntou-me se eu gostava de astronomia, eu respondi que gostava mas que sabia pouco sobre o assunto.

Ela apontou para um conjunto de estrelas e perguntou-me se eu sabia o nome daquela constelação. Por incrível que pareça eu sabia e respondi que era Orion, mas para falar verdade não me lembrava por que razão tinha sido capaz de responder. Ela sorriu e disse que era a constelação favorita dela e que ficava muitas vezes horas a olhar para ela, eu perguntei como é que se tinha um constelação favorita, mas ela apenas encolheu os ombros e voltou a olhar o céu pelo telescópio.

Acho que noutras situações teria tentado conhecê-la melhor, mas estava cansado e resolvi ir-me embora. Despedi-me com uma banalidade qualquer e fui andando até ao carro. Quando lá cheguei reparei que tinha outro bilhete. Abri-o um pouco desconfiado e li algo muito estranho, o bilhete dizia “Faltaste ao nosso encontro, mas eu percebo, Orion é muito bonita”. Fiquei aterrorizado e corri para a praia à procura da rapariga do telescópio, mas nada, não estava ninguém na praia.


Sonho

Quando cheguei a casa telefonei para o meu amigo que fizera anos no dia anterior e perguntei-lhe quem era a rapariga que ficara ao meu lado no jantar, o silêncio do outro lado da linha deixou-me desconfortável, até que ele respondeu que eu tinha estado sentado entre dois amigos comuns e que não tinha aberto a boca a noite toda, não havia rapariga nenhuma.

Parecia que estava enlouquecer, desliguei e corri para a entrada onde tinha deixado a carteira, lá dentro encontrei os dois bilhetes. Isto não fazia sentido, por um lado sabia que não tinha sido tudo imaginação minha, mas por outro o simples facto dos dois bilhetes existirem era contraditório e assustador.

Adormeci na sala e tive um sonho muito estranho em que fazia uma tatuagem com a forma de uma constelação desconhecida. E ao meu lado de mão dada estava a rapariga do jantar com uma t-shirt branca com uma palavra em azul, “Atende!”.

Acordei sobressaltado. O que era isto? Estava a perder a sanidade mental? Ou seria que o meu mundo privado sempre existia e estava a desmoronar-se? Fui para o quarto e com alguma dificuldade consegui adormecer, mas foi a noite mais estranha de toda a minha vida, tive centenas de sonhos e pesadelos, que pareciam irem-se repetindo enquanto eu dormia. Nos pesadelos estava quase sempre presente a rapariga do jantar e nos outros sonhos a rapariga do telescópio, mas acho que em alguns dos sonhos tudo se misturava e eu viajava pelas estrelas, dizendo o nome de cada uma delas. Lembro-me também de uma dor que sentia no braço direito, como se tivesse sido picado por algum insecto, era uma sensação que me acompanhava em todos os sonhos.


Realidade?

Acordei completamente angustiado, mas ao mesmo tempo com a sensação de ter vivido algo importante e real. Por esta altura já não dava muita importância ao sentido do que tinha acontecido, só queria que as coisas acalmassem. Pensei na minha vida e no meu mau humor que parecia estar sempre presente, desejei apenas ser feliz e ter uma vida normal.

Fui tomar um banho e quando me despi reparei que no meu pulso esquerdo tinha uma tatuagem. Toquei no pulso e estava dorido, como é que isto era possível? No sonho eu sentira dores no braço direito, não no esquerdo, eu tinha a certeza. E se os sonhos fossem como os espelhos e mostrassem as coisas ao contrário? Olhei para o espelho da casa de banho e levantei o braço, vista através do espelho a tatuagem parecia um número, o dezasseis.


Dezasseis

O telefone tocava já há uns segundos e eu ainda hesitava, quem estaria do outro lado da linha, o que é que iria acontecer. Eu sabia que tinha de atender, eu estava há dias à espera deste momento, mas continuava a hesitar em agarrar no auscultador. Olhei para a janela e reparei que o céu estava completamente estrelado, olhei para o meu pulso e para a tatuagem e foquei a minha atenção outra vez no telefone, senão atendesse depressa podia ser tarde demais...

Então atendi e ouvi uma voz feminina do outro lado.
- Olá, sou eu, estava quase a desligar, demoraste muito tempo a atender.
- Eu sei, é que tive um dia muito cansativo e acho que estava a dormitar. Respondi, sem saber porque é que estava a dizer aquelas palavras.
Ela continuou.
- Olha hoje está uma noite perfeita para ver o céu, Orion vai estar muito tempo visível e tu no outro dia disseste que era a tua constelação preferida.
Sorri.
- Pois é, eu vou já para aí, beijos.
- Beijinhos, despacha-te!

Entrei no carro e procurei outro bilhete, mas não havia nenhum. Fiquei uns segundos a pensar nos últimos dias, que estranha era a vida. Mais uma vez não consegui achar sentido para nada do que tinha acontecido. Liguei o carro e sorri, pensei no meu mau humor e que ele era capaz de desaparecer nos próximos tempos.

Cheguei à praia e vi uma rapariga de volta de algo, saí do carro e pisei a areia, era uma sensação agradável. Caminhei devagar, tentando que ela não me ouvisse para poder gozar uns últimos momentos de solidão. Então, já muito perto dela, ela virou-se e sorriu para mim, eu sorri também e fui ver Orion...

quarta-feira, maio 26, 2004

O rapaz que ouvia música

Dom

No dia 28 de Setembro de 1972 nasceu em Lisboa um rapaz que parecia igual a todos os outros nascidos nesse dia, mas na verdade não era, esse rapaz tinha nascido com um dom que só se revelaria anos mais tarde.

E o rapaz foi crescendo como todos os outros da sua idade, fazendo as mesmas coisas, tendo os mesmos problemas e as mesmas alegrias. Era muito afável e aquele tipo de pessoa de que não é muito difícil gostar se a conhecermos bem, era como se costuma dizer “um bom miúdo”.

Mas a meio da adolescência qualquer coisa se complicou na sua cabeça, de repente uma vida perfeitamente estável transformou-se numa vida ansiosa e algo angustiada. Ele não sabia o que é que estava na base daquela mudança, mas sentia-se cada vez mais apático, mais sozinho e mais infeliz.

Então começaram os problemas, na escola, em casa, com os amigos, parecia que em todo o lado o seu mundo estava a ruir e por muito que pensasse não conseguia arranjar uma resposta para justificar o que estava a acontecer. Ele achava que não tinha mudado nada, mas o mundo à volta dele estava realmente diferente.


Começo

Quando chegou à idade adulta tudo se complicou, a sua vida corria de forma muito irregular, apoiada em comprimidos e eternas sessões em psicólogos que não o conseguiam ajudar. Continuava a viver com os pais e trabalhava num emprego do qual não gostava muito, mas onde não era totalmente infeliz e até demonstrava algumas capacidades.

Mas era no campo amoroso que as coisas não corriam muito bem, não conseguia manter uma relação estável, para falar verdade não tinha tido assim tantas relações porque era-lhe muito difícil estabelecer contacto com as raparigas que lhe interessavam e isso não ajudava a que tudo o resto corresse bem.

Então um dia tudo mudou. Estava a passear na baixa e decidiu ir a um centro comercial ver se encontrava um disco que procurava há muito tempo. Entrou no elevador e quando a porta estava quase a fechar reparou que uma rapariga vinha a correr para tentar entrar também, segurou o elevador e sorriu para a rapariga quando ela agradeceu ele ter segurado a porta.

A rapariga era bonita, na verdade era mesmo muito bonita e não foi muito fácil não ficar especado a olhar para ela, isto até perceber o que estava a fazer e ter ficado muito corado, o que provocou um ligeiro sorriso nela. Então de repente começou a tocar uma música que ele gostava muito e que nos últimos tempos ouvia até à exaustão. Sentiu que tinha de dizer alguma coisa sobre a música e num impulso, nada próprio da sua maneira de ser, disse que gostava muito daquela música. A rapariga fez uma ar muito espantado que ele não percebeu, pois ela ficou mesmo a olhar para ele de uma maneira estranha. Ele perguntou se tinha dito alguma coisa de mal ou se ela não gostava da música por algum motivo especial e ela ainda ficou com um ar mais espantado, até que lhe disse que não estava a ouvir música nenhuma.

Ficou totalmente aparvalhado, ela só podia estar a gozar com ele, mas rapidamente percebeu pelos seus olhos que não. Deitou a mão à cabeça e pensou assustado no que é que se estava a passar, as portas do elevador abriram-se e saiu a correr, sentia que estava a enlouquecer.

Sentou-se num pequeno café de mesas pretas e ficou a pensar no que tinha acontecido. A música já tinha parado, mas ele tinha a certeza que a tinha ouvido, mas pelos vistos só tinha acontecido na sua cabeça. Sentiu que alguém se aproximava e levantou os olhos da mesa, era a rapariga do elevador que perguntou se podia sentar-se, ele respondeu afirmativamente, embora ainda não se sentisse muito bem.

Ela foi directa ao assunto e perguntou-lhe se ele realmente tinha ouvido uma música a tocar no elevador, ele hesitou na resposta mas acabou por acenar com a cabeça dizendo que sim. Ela disse que isso era muito estranho e perguntou se já tinha acontecido mais vezes. Ele disse que fora a primeira vez e que se calhar tinha sido da companhia, conseguindo apesar de tudo brincar um pouco com a situação. Ela perguntou se a música já tinha parado e ele disse que sim e ela desafiou-o para tentar outra vez ouvir a música. Mas ele disse que não sabia como fazer isso, ao que ela respondeu sugerindo que ele cantarolasse mentalmente uma música qualquer.

Decidiu experimentar e lembrou-se de uma música que tinha ouvido na rádio de manhã, pensou um pouco nela e começou a ouvi-la. O primeiro reflexo que teve foi o de olhar para todos os lados, mas depressa percebeu que não havia nenhum aparelho a tocar e perguntou à sua companhia se também estava a ouvir, ela respondeu negativamente com um olhar triste e disse-lhe que talvez se lhe tocasse também conseguisse ouvir. Esticou uma mão timidamente em direcção a uma das dele, mas pela cara dela ele percebeu logo que ela não estava a ouvir nada.

Achou que aquilo não fazia sentido, que estava maluco, que estava a perder o controlo, mas verdade é que continuava a ouvir a música. E o facto de ter ouvido a primeira música ao pé dela não podia ser coincidência. Sugeriu que talvez tivessem de dar as mãos com mais força, ela disse que sim com a cabeça e apertaram com força as mãos um do outro. Não precisou de uma resposta dela para saber o que tinha sucedido e com os olhos a brilhar ela disse-lhe a sorrir que também tinha aquele CD.


Super-Herói

Tudo isto era uma grande novidade na sua vida. Desde pequeno que se habituara a “devorar” livros de super-heróis com poderes especiais e sempre desejara ser um. Muitas vezes mesmo tinha imaginado um novo tipo de herói com novos poderes com os quais combatia o mal. Pensava nisto enquanto caminhava para casa tentando entender o que se tinha passado e enquanto ia ouvindo música sem parar. Por esta altura já descobrira que conseguia reproduzir mentalmente qualquer música que tivesse ouvido, o que fazia com que de repente a sua vida tivesse “banda sonora”. Poderia considerar isto um “poder”? E se sim, o que fazer com ele? Não podia agarrar-se aos bandidos e “pô-los a ouvir música”. Na verdade nem sabia bem se isto era algum tipo de dom, ou se por outro lado era apenas a sua cabeça que estava cada vez pior. Na realidade, tendo em conta o seu passado, tinha de pôr a hipótese de estar doente e de este ser um sintoma dessa doença, mas era sem dúvida uma doença boa e ainda havia o facto da rapariga ter conseguido ouvir a música também.

A rapariga era outro problema, claramente tinha ficado completamente apaixonado por ela e sentia que ela também sentia alguma coisa por ele, mas também não é todos os dias que se conhece alguém que tem um “leitor de cd’s” na cabeça. Lembrou-se do Super-Homem e do estranho triangulo amoroso entre ele, Lois Lane e a sua outra identidade, o atrapalhado Clark Kent. Achava que o próprio Batman também passara por questões deste género em que não sabia se, ao contar quem era, o amor não seria mais pelo herói do que pelo, apesar de tudo muito charmoso, Bruce Wayne. De qualquer maneira esta sua nova capacidade era muito agradável e a alguma conclusão haveria de chegar.


O Filho da Música

Esteve uma semana fechado no seu quarto a ouvir música e a pensar em tudo o que tinha acontecido. Só era interrompido pela sua mãe preocupada com o que se estava a passar e pelas mensagens que trazia da rapariga daquele estranho dia. Tinha saudades dela, mas não sabia como lidar com ela.

Então um dia de repente acordou com uma música na cabeça da qual não se lembrava, parecia alguma coisa muito distante, qualquer coisa que talvez tivesse ouvido em miúdo. Saltou da cama e abriu a caixa dos velhos discos que já ninguém ouvia e passou as mãos suavemente por eles enquanto procurava algo, mas que não sabia o que era. Até que no meio de dois discos descobriu um pequeno livro que tinha o titulo de “O Filho da Música”, não se lembrava de ter alguma vez visto ou lido aquele livro e folheou com cuidado as folhas já amareladas do tempo.

Era uma pequena fábula que contava a história de um rapaz órfão que vivia numa aldeia muito pequena e que todos diziam ser filho da música, devido ao facto de no dia em que fora encontrado abandonado à porta da igreja os pássaros terem cantado como nunca se tinha ouvido naquelas paragens. O livro contava as peripécias da sua juventude e como ele tinha crescido sempre com uma maneira de ser distante mas estranhamente alegre para quem tinha tão pouco. No fim do livro o rapaz, já homem, deixava a aldeia de uma maneira tão súbita como a em que chegara àquele local, no meio da maior tempestade que todos juravam ter assistido, em que o vento soprara como nunca, tocando belas mas assustadoras melodias pelo meio das árvores. Desde esse dia ele nunca mais tinha sido visto e a história seria contada às crianças durante muito anos.


Descoberta

Que estranha história aquela. Saiu a correr do quarto e com o livro na mão foi ter com a sua mãe e perguntou se ela sabia quem tinha o tinha comprado, também queria saber se ela se lembrava de quando é que ele começara a ter problemas, de alguma forma achava que o livro estava ligado ao seu comportamento. A mãe olhou espantada para o livro e sorriu, enquanto uma lágrima lhe escorria pela face. Ele estranhou este comportamento e ficou a olhar para ela à espera de uma resposta. Então ela contou-lhe que o livro tinha sido uma prenda do seu pai, o avô dele, para ela quando era pequena e que se lembrava que o avô tinha pedido para passar o livro para os seus futuros netos, que não viria conhecer. Claro que ela não o tinha feito, era muito pequena quando tinha recebido estas instruções e nem sabia bem como era possível estar agora a recordar aquela história.

Perguntou como é que era o seu avô e a mãe respondeu-lhe que era um sonhador como ele e que desaparecera cedo demais das suas vidas. Ele beijou-a na testa e disse-lhe para não se preocupar mais com os problemas dele, o avô tinha-lhe dado um conselho que iria ajudar a resolver tudo. A mãe ficou a vê-lo a sair de casa entusiasmado e perguntou-lhe onde ia. Disse que ia pensar um pouco à beira mar e ouvir um pouco de música. Ela estranhou ele não levar o leitor de cd’s portátil, mas ainda assim sorriu enquanto o via pela janela a afastar-se com um andar descontraído e alegre.


De mãos dadas

Quando chegou à praia olhou para todos os lados à procura da sua amiga da semana anterior, não sabia porquê mas sabia que a ia encontrar ali. E estava certo, quase junto à água viu-a pensativa. Sentou-se ao lado dela e beijou-a na face enquanto pedia desculpa por não ter respondido às mensagens dela. Perguntou-lhe se já se tinham encontrado naquele sitio, ela disse que já o vira muitas vezes ali, embora ele parecesse sempre muito distante. Ele disse que não se lembrava dela ali na praia, mas que de certeza que já tinha reparado nela, senão não teria ido ali à procura.

Ela perguntou se ele já chegara alguma conclusão sobre o que lhe tinha acontecido e ele disse que não sabia se havia uma explicação, sabia apenas que podia fazer uma coisa que não sabia se havia mais alguém que pudesse, mas que era uma coisa boa e pelo menos iria tentar utilizá-la para ser feliz. Ela disse que se calhar era algo que desse para aprender e riu-se dela mesmo. Ele riu também e disse que podia ao menos partilhá-la.

Estava um final de dia muito bonito e ele deu-lhe a mão enquanto olhavam o mar e perguntou se ela tinha alguma música que lhe apetecesse ouvir, ela disse que não tinha nenhuma e que na verdade naquele momento preferia ficar a ouvir o barulho do mar. Ele sorriu com a resposta dela e perguntou se lhe podia dar um beijo, não teve quase tempo para acabar a pergunta...

quinta-feira, maio 20, 2004

Cores

Desde pequeno que sempre me fez impressão passar entre duas pessoas que caminham juntas. É como se quebrasse uma ligação invisível entre elas ou então que ficasse de alguma maneira ligado às duas por um nó que poderia ou não ser desatado um dia. Até lá ficaríamos ligados de alguma maneira.

Sempre achei que isto era um sonho meu, apesar de toda a vida ter visto a minha avó a fazer o mesmo e de uma maneira curiosa. Por vezes movimentava-se entre a família numa cozinha cheia de gente sem a mínima preocupação, outras vezes, num corredor ou noutro sitio da casa pedia para passar por um lado ou chegava a pedir às pessoas para desfazerem pequenos percursos que tinham acabado de fazer. O estranho é que eu ao observar tudo isto conseguia ver uma lógica naquele comportamento, como se pudesse ver os fios invisíveis e a forma como eles se enrolavam e soltavam uns dos outros e como isso podia afectar a vida de cada pessoa.

Enquanto fui crescendo esta percepção foi diminuindo, mas sempre consegui sentir quando estava a passar por onde não devia, embora não tivesse a coragem da minha avó. Não conseguia pedir às pessoas para voltar para trás ou que me deixassem passar pela esquerda ou pela direita mas, se pudesse, seguia o caminho que me parecia mais lógico e de uma maneira discreta ia-me desviando no meio da multidão.

Até que um dia percebi que isto não era um sonho meu. Tudo começou quando fui trabalhar para um local novo e certo dia reparei numa rapariga que almoçava perto de mim. Era alguém que eu conhecia, pois tinha entrado numa série de adolescentes na televisão muitos anos antes, mas mais do que isso era uma pessoa que eu já tinha visto em muitas situações. Acho que em todas estas situações tinha pensado nisto vagamente, mas só naquele momento, a almoçarmos perto um do outro, é que percebi que tinha passado toda a minha vida a encontrá-la.

Esta situação era mais estranha ainda, pois eu só vim viver para Lisboa com 18 anos e os encontros já vinham de há mais tempo. Eu lembrava-me dela da praia, de concertos, de passeios na rua, do cinema, de todo o lado. Eram encontros algo espaçados no tempo, o que devia ter feito com que eu não pensasse assim tanto no assunto, mas naquele momento um certo nervosismo apoderou-se de mim. O que era aquilo? Como é que duas pessoas passavam vida a encontrar-se?

Claro que a minha primeira teoria foi a das almas gémeas, mas na verdade eu não simpatizava muito com ela nem a achava especialmente atraente. Na verdade eu não tinha sequer muito vontade de a conhecer, eu tinha era vontade de esclarecer este mistério.

Comecei então a perguntar a todos os meus amigos se já lhes tinha sucedido algo do género, mas para além de ter diminuído bastante na consideração de algumas pessoas que conhecia, não obtive nenhuma resposta positiva. Por esta altura a angústia começava a crescer, pois ela devia trabalhar perto de mim e eu agora via-a com bastante regularidade.

Então um dia sucedeu algo muito estranho, quando estava de férias na praia reparei num homem que eu sabia conhecer de algum lado, depois de pensar um pouco lembrei-me de onde era, eu conhecia-o de umas férias no Brasil. Mas isto não ficava por aqui, de repente percebi que ele também era o senhor que se sentava à nossa frente na praia, no ano anterior e que também tinha estado no nosso grupo naquela visita a umas grutas na Madeira uns anos antes. Fiquei desorientado, era uma situação muito parecida com a da rapariga mas que só acontecia quando eu estava de férias. O que era isto? Que coincidências eram estas? Claramente existiam pessoas que estavam ligadas umas às outras de alguma maneira que fazia com que se fossem encontrando, como que se estivessem presos por alguma linha invisível, que mais tarde ou mais cedo os trazia para junto uns dos outros. Interessante também, era o facto de parecer não ser relevante o facto das pessoas se conhecerem ou não. Eu não conhecia nenhuma destas duas pessoas e sinceramente não tinha nenhuma vontade de as conhecer, embora achasse piada ao homem pois usava um chapéu muito engraçado e nas férias do Brasil ia acompanhado de uma senhora que eu não tinha visto junto com a família nas outras ocasiões. Não aguentei mais, fui ter com a minha avó, que morava fora de Lisboa.

Lembro-me perfeitamente da cara dela quando lhe contei isto tudo e do sorriso que fez. Disse-me que sabia que nós todos reparávamos nas “manias” dela, mas que nunca tinha pensado que pensássemos muito nelas. Olhou para mim durante muito tempo, enquanto mexia no meu cabelo, como se tentasse decidir se devia contar-me alguma coisa ou não. Decidiu contar. Contou-me que quando era nova e vivia na aldeia onde nascera um dia largara a mão da mãe e correra por entre um grupo de pessoas que seguia numa procissão e que enquanto passava entre as pessoas lhe parecera ver umas linhas coloridas que ligavam todas as pessoas que iam naquele grupo, mas que também saíam dali e iam ter com as pessoas que assistiam à passagem. No entanto reparava que entre as pessoas da procissão as cores eram mais fortes.

Com a idade de seis anos deixara a aldeia e poucas vezes lá tinha voltado, mas continuou a encontrar as pessoas da procissão o resto da vida, como se tivesse ficado atada a elas de alguma maneira. Contou-me também que o nesse grupo estava um menino de cinco anos que viria mais tarde a ser seu marido, o meu avô. Disse-me que não sabia explicar tudo o que me contara e que era verdade que nem sempre as pessoas que toda a vida tinha visto tinham tido alguma importância na sua vida. Deu-me um beijo na testa e disse que podia não ligar àquelas tontarias de uma velhota ou que então podia prestar mais atenção à minha volta, a escolha era minha e não me disse mais nada.

Voltei para Lisboa muito pensativo sem saber que conclusões retirar do que a minha avó me dissera e guiei descontraidamente, ouvindo música e sonhando acordado. Quando estava quase a chegar a casa ao fim da tarde vi um arco-íris muito bonito e bem definido que fazia um arco perfeito por cima de mim. Fiquei muito tempo a olhar para ele e estranhei ele demorar tanto tempo a desaparecer. Então tive um impulso e saí da estrada principal em direcção ao lado do arco-íris que me parecia estar mais perto de mim.

Guiei alguns minutos em direcção à base do arco-íris e fui dar a uma terra muito simpática onde parecia estar a haver uma festa. Parei o carro e olhei o céu, as cores no céu já quase não se viam, mas ainda conseguia seguir o arco que parecia terminar no centro da praça onde a festa decorria. Podia ver pessoas a dançar enquanto outras conversavam alegremente. Um cheiro a comida acabada de fazer juntava-se aos cheiros do fim da tarde e as cores esbatidas do arco-íris juntavam-se às cores avermelhadas do horizonte. Por momentos pareceu-me ver uma linha colorida a passar por mim e pensei se seria imaginação minha, aquela hora do dia era estranha e eu tinha tido um dia cheio. Pensei então no que minha avó me tinha dito, pensei no meu avô, que morrera anos antes, mas que deixara uma saudade muito grande no meu coração e depois de um pequeno sorriso e de um último olhar para o céu, comecei a andar devagar e entrei na praça...