A rapariga era cega. Não era bonita porque parecia amaldiçoar a sorte. João observava-a com a certeza de, uma vez, o poder fazer sem medo. Ao fundo da carruagem ouviu um lamento, um pedido que se repete na voz de todos os cegos. A rapariga parecia não reparar, a expressão dela não se alterou até o cego se afastar e deixar de se ouvir. João sentiu-se mal por ver, por saber mais do que os dois. Para o cego estava mais escuro. Passou pela rapariga e não desconfiou, tocou-lhe na saia mas não tinha como descobrir. Ela sabia que o homem não a via, mas sabia quem ele era, antes de todos os outros. João hesitou em sorrir, a cara dela continuava fechada, sem o deixar perceber o que pensava, o que sentia por outro como ela.
João saiu do metro e respirou o ar da manhã, lembrou-se do sonho que o acordou, que o deixou com uma sensação estranha que não desaparecia. Pelo canto do olho reconheceu um andar, mas continuou a olhar em frente. Esperou, caminhando devagar.
— Olá! — ouviu no momento certo.
— Olá Maria — respondeu. — Mais uma semana, não é?
— Estou a ver que o fim-de-semana não foi grande coisa — disse ela sem olhar para ele. João não disse nada.
— Vinhas a pensar no quê? — perguntou ela.
Não se atreveu a dizer a verdade, talvez esquecesse o sonho durante o dia, talvez se lembrasse dele todos os dias, sempre que passasse por ali, mas guardou a verdade para si.
— Estava a contar as raparigas que já beijei.
— A contar? — perguntou ela com um ar espantado. — Tens cá uma lata João.
— Não é isso — respondeu corado. — Não é nada disso. Foram poucas, foram poucas e isso é uma coisa boa, percebes?
— Desculpa — disse ela. — Mas onde foste buscar isso? Não me parece um típico pensamento matinal.
Não era, tinha pensado no assunto uns dias antes quando tinha descoberto umas fotografias antigas. Apeteceu-lhe dizer que era tudo mentira, que vinha a pensar nela. Mas não foi capaz, mais uma vez não foi capaz.
— E posso saber quantas foram? — perguntou ela num tom divertido.
— Mais de cinco, menos de dez — respondeu ele depois de pensar uns segundos.
Ela apenas sorriu.
— Acho que é um bom número — disse ele.
— O que queres dizer? — perguntou.
— Sete, foram sete e acho que é um bom número. — Inspirou fundo e falou de olhos no chão. — Até há pouco tempo achava que era um número pequeno, mas agora, agora percebo que não. A primeira vez tinha catorze anos. Só comecei a namorar com a Teresa com vinte e três anos, o que dá algo para contar em quase todos os anos. Na altura parecia pouco, parecia tão pouco que quase rebentava de tanto querer. Mas estava enganado.
Ela ficou a olhar para ele, parecia surpreendida. Não eram propriamente amigos. Encontravam-se muitas vezes a caminho do escritório, mas falavam muito pouco. João gostava do som da voz dela, às vezes gostava tanto que quase não prestava atenção ao que ela dizia. Não sabia o que ela pensava dele, imaginava, construía histórias, conversas que repetia antes de adormecer.
— Queres explicar? — perguntou ela interrompendo-lhe os pensamentos.
— Lembro-me de todos, percebes? — disse ele em voz alta. — Nunca fui muito de namoros, a maior parte das vezes não duraram muito, alguns só mesmo um dia, por isso lembro-me de todos, de todos os primeiros momentos, dos lábios a tocar, dos sorrisos escondidos, das mãos suadas apertadas. Tenho sorte, acho que tenho sorte.
Levantou a cabeça e olhou para ela. Maria tinha os olhos vidrados, mas a expressão era de medo. Sentiu alguém atrás dele e ouviu um som metálico.
— Não quero chatices — ouviu antes de se virar.
Era um rapaz, por muito sujo que estivesse, por muito que a lâmina estivesse perto da sua garganta, que conseguisse sentir o seu cheiro, não deixava de ser um rapaz.
— Calma — ouviu Maria a pedir. — Não queremos que alguém se magoe.
— Alguém? — disse o rapaz num riso nervoso. — Só vocês é que se magoam, eu...
João não o deixou acabar. Torceu-lhe o pulso de repente e a navalha rasgou o ombro do rapaz. Atirou-se à cara dele de punhos fechados, acertou-lhe com um joelho no estômago e deitou-o ao chão. Ele tentou levantar-se mas João deu-lhe um pontapé com força no peito. O rapaz caiu para trás e rolou no passeio. Ficou deitado de barriga para baixo sem se mexer. João procurou a faca e guardou-a no bolso das calças. De joelhos no chão olhou para Maria.
— Vai!
— Mas João...
— Maria, vai! Eu já vou ter contigo.
Ela desatou a correr rua abaixo, ele voltou ao rapaz. Algumas pessoas na rua tinham-se aproximado mas um olhar bastou, os olhos dele nos dos outros foram suficientes para ficar sozinho. O rapaz tremia ligeiramente. Virou-o para cima e percebeu que o corte no ombro não era profundo. Ajudou-o a levantar-se e sentou-o num banco.
— Como te chamas? — perguntou.
— Carlos — respondeu ele. — O meu nome é Carlos.
— Não és de cá pois não? — perguntou de forma calma.
— Não, não sou — respondeu.
João abriu a carteira e tirou de dentro dela três notas de vinte. Estendeu a mão para o rapaz.
— Chega para ires para casa?
Ele olhou espantado. Mas respondeu.
— Sobra — disse endireitando-se no banco.
— Assim comes qualquer coisa — disse-lhe enquanto esticava a mão para chamar um táxi. — Podes ir de comboio?
— Não, só dá de autocarro — respondeu desconfiado.
— Não há problema, falas com o taxista, ele sabe de certeza onde te levar.
Um táxi parou e João levantou-se. O rapaz imitou-o sem dizer nada. João deu uma nota de dez ao taxista e disse-lhe que o rapaz precisava de ir apanhar um autocarro. O homem anuiu de forma despreocupada. João abriu a porta de trás e esperou. O rapaz olhou-o nos olhos pela primeira vez.
— Como é que sabes que eu não paro na primeira esquina? — perguntou.
— Não sei — respondeu-lhe a sorrir. — Essa é a parte boa. Para mim tu vais mesmo entrar no autocarro. Vou acreditar para sempre nisso, que te ajudei, que de alguma forma posso ter mudado a tua vida. É um pensamento bom, mas é só um pensamento, não vai mudar a minha vida. Não sou eu que entro ou não no autocarro.
— E se eu amanhã estiver aqui outra vez? — perguntou ele.
João não respondeu, ajudou-o a entrar para o carro e disse ao taxista para arrancar. Afastaram-se depressa. O rapaz não olhou para trás e João ficou a ver o táxi a desaparecer ao longe. Sentiu a faca no bolso. Uma voz trouxe-o de volta.
— João, estás bem?
Voltou-se e percebeu que Maria não tinha ido longe.
— Não foste embora — disse.
Ela ficou um minuto a olhar para ele, como se quisesse escolher as palavras certas, como quando se descobre alguém pela primeira vez, como quando se descobre quem se é, através de outra pessoa.
— Oito — disse sem tirar os olhos dele.
— Desculpa? — disse ele sem perceber.
Maria não respondeu. Pôs os braços à volta do pescoço dele e beijou-o com força. João agarrou-a pela cintura e puxou-a para ele. Ela falou ainda com os lábios nos dele.
— Se por acaso estiveres a pensar se isto tem a ver com o que acabou de se passar, digo-te já que sim, que me sinto viva, que te sinto e não te quero largar nunca mais.
João esperou antes de responder.
— Eu não sei bem o que se passou Maria. Não sei bem o que pensar. Libertei-me, gritei cá dentro, mas assusta. E dói, dói muito Maria.
Não conseguiu continuar e ela beijou-o outra vez. João sentiu outra vez a faca no bolso.
Esperou durante três horas. Tinha entrado no prédio com uma senhora que caminhava com a ajuda de uma bengala. Ajudou a senhora a subir as escadas e depois escondeu-se no corredor. Não sabia se Maria ia demorar, o que lhe dava tempo, tempo para repetir as frases já ensaiadas. Depois do dia em que tudo se passara, depois do beijo, depois do rapaz, não a voltara a ver. No dia seguinte não conseguiu ir trabalhar, durante uma semana quase não saiu da cama. Não respondeu a telefonemas, não atendeu a porta, não ligou a televisão nem o computador. Fugiu do mundo, fugiu dele próprio e do que sentia, de não saber, de não perceber, de se sentir mais sozinho. A porta do prédio abriu-se e uma tosse ligeira respondeu à dúvida. Maria poisou alguns sacos no chão e procurou a chave numa mala feita de trapos coloridos. João esperou no escuro a apenas uns centímetros dela, contendo a respiração, ao mesmo tempo que tentava sentir-lhe o cheiro. Quando a porta se abriu saiu do esconderijo e empurrou Maria para dentro de casa. Ela caiu no chão e soltou um gemido. João fechou a porta e agachou-se junto a ela enquanto a via tentar levantar-se. Maria virou-se e sufocou num grito sem som, tentou falar mas João esmurrou-a com violência e atirou-a outra vez contra o chão de madeira. Depois sentou-se em cima do seu peito e segurou-a pelo pescoço com a mão esquerda. A mão direita segurava a faca do rapaz, a faca que ele passara dias a afiar e a limpar, a faca que era agora parte dele. Maria esqueceu-se do lábio em sangue, da dor nas costas contra o chão, da faca que reflectia a luz que entrava pela janela. Concentrou-se apenas em conseguir encher o peito de ar, em conseguir falar, num grito abafado.
— O que queres? Diz-me!
João não respondeu.
— Merda João, que merda é esta? — Ele aliviou a pressão no seu peito e no pescoço e ela gritou num soluço. — O que é que queres, o que é que queres?
— A verdade — disse ele com uma voz calma.
— A verdade? — Tentou soltar-se mas ele continuava a segurá-la com força suficiente para que ela mal se conseguisse mexer. Ela continuou a chorar. — Mas que merda de verdade João, tu, tu... foda-se cabrão de merda, vai-te foder! O que é isto, o que é isto?
Ele levantou-a e atirou-a para o sofá, depois chegou a ponta da faca à cara dela e começou a falar em voz baixa.
— Quero que alguém, que uma vez na vida alguém diga tudo. Quero saber o que sentes, o que sentes por mim, o que achas de mim. Quero saber o que te mete mais medo, o que desejas mais do que a própria vida, quero que deites tudo cá para fora, que não fique nada por dizer. Estou farto, percebes? Estou farto de não perceber, de não saber quem sou, de não saber o que as outras pessoas pensam. Quero perceber esta merda de mundo, esta merda de vida. Quero saber se as coisas são boas, se alguém se sente feliz, se tu és feliz, quero saber o que te faz feliz. Fala! Começa a falar!
Maria olhou para ele sem reacção, como se o mundo tivesse deixado de existir, como se tivesse deixado de fazer sentido. Ficou estranhamente calma e falou sem se importar com o que pudesse acontecer.
— E porque é que eu te vou dizer a verdade? Para não me magoares, para não me matares? Não achas que vai ser uma verdade pouco sentida? Achas mesmo que mereces a verdade?
João encostou a faca à cara de Maria, entre o olho esquerdo e a linha de cabelo.
— Tenho a certeza, porque só te ofereço a verdade, depois morres. E ninguém quer morrer a mentir.
Maria não percebeu se ele falava a sério, apesar de o sentir.
— João, ainda há tempo de consertares isto — disse tentando falar sem chorar.
— Não, não há — disse ele sem expressão.
A faca desceu devagar pela face de Maria. O sangue escorreu pelo pescoço e tocou, quente, no seu peito. Ela fechou os olhos e desistiu, já não havia tempo. João espetou a faca na mesa de madeira que estava em frente do sofá e esperou. Maria não pensou em tentar chegar à faca. Percebeu que ele tinha razão, que não morreria a mentir. Então fechou outra vez os olhos e voou dali para fora, apenas durante uns segundos. Depois olhou para João fixamente e sorriu.
— O que foi? — perguntou ele espantado.
— Posso só fazer uma pergunta?
— Sim, acho que sim — respondeu ele sem perceber, sem perceber o sorriso de Maria.
— E tu? Onde estás tu? És este, ou és o João do outro dia, que eu senti nos meus lábios? Onde está a tua verdade? Quando é que a descobriste, quando é que a contaste a ti mesmo?
João ficou calado. Maria continuou de olhos fechados, muito fechados.
— Sabes, eu também não percebo, mas tu és o mesmo, as mãos que me agarraram, que me tocaram na pele enquanto me beijavas, enquanto eu te beijava, são as mesmas mãos com que me magoaste, com que me vais magoar. E eu não percebo, porque não deviam ser as mesmas, não deviam ser iguais, não deviam saber ao mesmo, não deviam...
Percebeu que não estava a falar com algum objectivo, sabia que ia morrer. Percebeu que aquela era a sua verdade, que não podia deixar de a partilhar, mesmo que ele não a merecesse, mesmo que ele não percebesse, que já a estava a ouvir. Esperou.
Maria nunca arrancou a faca da mesa. Depois de abrir os olhos agarrou-a com as duas mãos e cravou-a ainda mais na madeira. João deixou o prédio e andou pela rua até de madrugada. Não tinha nenhuma desculpa, não queria nenhuma desculpa. Sabia que não enlouquecera, que nunca tinha deixado de ser ele, que isso não o assustava. Mas sabia que podia, sabia o que tinha sentido, sem se poder esquecer. Não se escondeu, esperou pelo castigo, ou pela redenção. Caminhou até amanhecer. Esperou.
João nunca mais deixou de sentir a faca no bolso. Maria voltou ao trabalho duas semanas depois. Cortou o cabelo curto, para não poder esconder a cicatriz. Ganhou o hábito de passar os dedos por ela, de sentir a estria na pele. Ria quando perguntavam, contava histórias impossíveis, em que ninguém acreditava. Passou a ser parte dela, invisível para os outros, sempre presente para ela.
João e Maria nunca mais trocaram uma única palavra. Não baixavam a cabeça quando se cruzavam no corredor, mas os olhos não tocavam os do outro, nunca ao mesmo tempo. Dois anos passaram, feitos de silêncio, Maria decidiu sair, sem precisar de o fazer. João não foi à festa de despedida, esperou no seu gabinete, esperou que os risos parassem, sem precisar de o fazer. No último dia cruzaram-se nas escadas, ele subia devagar, ela descia depressa, uma última vez. Pararam no mesmo degrau, as duas mãos no corrimão. O tempo passou. Maria agarrou a mão de João e apertou-a, puxou-a e levou-a à sua cara, desenhou a cicatriz com os dedos dele e sorriu. Ele ajeitou-lhe o cabelo por cima da orelha, que teimava em cair, o que os fez rir. Nenhum dos dois olhou para trás.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
Segunda-feira, Julho 13, 2009
Nós
Dentro do carro. Não resisto e ponho a tocar a música que me fez chorar. Os teus olhos são verdes, só eu os consigo ver assim, só eu consigo ver que as cores são o que imaginamos. Os teus são verdes, como nas mil vezes que o gritaste a todos, até desistires, não pelo medo de ser louca, mas porque o desejavam. O tempo quase não dá para um pequeno adeus.
Lanço um desafio.
— Vamos fazê-lo maior.
— Mas... não se pode mexer no tempo.
Eu rio sem te magoar.
— Claro que sim, é a única coisa que podemos mudar, transformar estes minutos em horas, fechar os olhos e ficar aqui para sempre.
Os teus olhos brilham, castanhos, quase pretos. No primeiro sonho não eras tu, mas sim a menina do segredo, da feira e da noite de despedida.
Conto-te a história.
— Sou uma segunda escolha?
— Sim, neste sonho, aqui dentro do carro, és.
Choras, cedo demais. Depois perguntas.
— Quando é que percebeste?
— A tempo, acho que a tempo.
Porque fazes isto? Queres que me aproxime, que te deixe chegar, não vês que me fazes fugir?
— Só se quiseres, se continuares a lutar.
— Mas eu não luto...
Interrompo-te.
— Lutas, lutas sem fazer barulho, até que já nem percebes, mas lutas.
Tu ficas a pensar. Eu volto a pôr a música do princípio. Não é justo, mas desisti do que é justo.
— Quem é ela, no outro sonho?
Irrito-me.
— Nem penses, vive este, vive este se quiseres, os outros são meus, não são para partilhar.
Gritas comigo.
— Não se partilham sonhos? Não me faças rir. Percebes o que acabas de dizer?
Respondo com calma.
— Estes não. Vivem-se ao mesmo tempo.
— Palavras, só sabes viver em palavras, transformas todo o mundo com as palavras. Assim tudo pode ser o que quiseres, sabes isso não sabes?
Não respondo, apenas aponto para o relógio. As lágrimas voltam à tua cara, desta vez no momento certo. Perguntas o que já sabes.
— Só?
Sorrio antes de responder.
— Sim, só. Incrível, não é?
— Sim, nunca pensei que fosse possível...
Desisto de falar. Toco devagar nos teus dedos, primeiro como se fosse sem querer, depois como num pequeno engano, até ter de decidir. Faço um jogo comigo. Só se nenhum dos dois falar. Desejo, abro muito os olhos para que percebas, espero um minuto, com a minha mão na tua. Subo então pelo teu braço, pela pele arrepiada, toco-te no ombro, afasto a tua camisola e sopro, sinto o teu pescoço que se encolhe. Ponho os meus olhos nos teus, quase sem pestanejar, tento ver por trás do castanho, como quando olhamos o reflexo num vidro, antes de vermos mais longe. Cheiro o teu respirar, o calor do transpirar, do dia que passou por ti. Chego mais perto, os lábios a um segundo, transformado em dois, em mais um, que me faz tremer, depois colo-os aos teus, primeiro de forma leve, depois num apertar, que não nos deixa respirar. Puxo-te para mim, junto o teu corpo, o meu peito ao teu, com força, sem te magoar, até doer. Sinto as tuas mãos em mim, agarras-me a cabeça, mordes-me os lábios, beijos, que desisto de contar. Respiro fundo. Esqueço-me. De olhos bem fechados.
Imagino palavras em sussurro, que repito sem parar, até conseguir olhar. Estou sozinho no carro e deixo a música tocar, deixo que volte ao princípio, mais uma vez. Estico a mão e fecho a porta, que não ouvi abrir. Tenho as mãos vazias, mas o sonho começou...
Lanço um desafio.
— Vamos fazê-lo maior.
— Mas... não se pode mexer no tempo.
Eu rio sem te magoar.
— Claro que sim, é a única coisa que podemos mudar, transformar estes minutos em horas, fechar os olhos e ficar aqui para sempre.
Os teus olhos brilham, castanhos, quase pretos. No primeiro sonho não eras tu, mas sim a menina do segredo, da feira e da noite de despedida.
Conto-te a história.
— Sou uma segunda escolha?
— Sim, neste sonho, aqui dentro do carro, és.
Choras, cedo demais. Depois perguntas.
— Quando é que percebeste?
— A tempo, acho que a tempo.
Porque fazes isto? Queres que me aproxime, que te deixe chegar, não vês que me fazes fugir?
— Só se quiseres, se continuares a lutar.
— Mas eu não luto...
Interrompo-te.
— Lutas, lutas sem fazer barulho, até que já nem percebes, mas lutas.
Tu ficas a pensar. Eu volto a pôr a música do princípio. Não é justo, mas desisti do que é justo.
— Quem é ela, no outro sonho?
Irrito-me.
— Nem penses, vive este, vive este se quiseres, os outros são meus, não são para partilhar.
Gritas comigo.
— Não se partilham sonhos? Não me faças rir. Percebes o que acabas de dizer?
Respondo com calma.
— Estes não. Vivem-se ao mesmo tempo.
— Palavras, só sabes viver em palavras, transformas todo o mundo com as palavras. Assim tudo pode ser o que quiseres, sabes isso não sabes?
Não respondo, apenas aponto para o relógio. As lágrimas voltam à tua cara, desta vez no momento certo. Perguntas o que já sabes.
— Só?
Sorrio antes de responder.
— Sim, só. Incrível, não é?
— Sim, nunca pensei que fosse possível...
Desisto de falar. Toco devagar nos teus dedos, primeiro como se fosse sem querer, depois como num pequeno engano, até ter de decidir. Faço um jogo comigo. Só se nenhum dos dois falar. Desejo, abro muito os olhos para que percebas, espero um minuto, com a minha mão na tua. Subo então pelo teu braço, pela pele arrepiada, toco-te no ombro, afasto a tua camisola e sopro, sinto o teu pescoço que se encolhe. Ponho os meus olhos nos teus, quase sem pestanejar, tento ver por trás do castanho, como quando olhamos o reflexo num vidro, antes de vermos mais longe. Cheiro o teu respirar, o calor do transpirar, do dia que passou por ti. Chego mais perto, os lábios a um segundo, transformado em dois, em mais um, que me faz tremer, depois colo-os aos teus, primeiro de forma leve, depois num apertar, que não nos deixa respirar. Puxo-te para mim, junto o teu corpo, o meu peito ao teu, com força, sem te magoar, até doer. Sinto as tuas mãos em mim, agarras-me a cabeça, mordes-me os lábios, beijos, que desisto de contar. Respiro fundo. Esqueço-me. De olhos bem fechados.
Imagino palavras em sussurro, que repito sem parar, até conseguir olhar. Estou sozinho no carro e deixo a música tocar, deixo que volte ao princípio, mais uma vez. Estico a mão e fecho a porta, que não ouvi abrir. Tenho as mãos vazias, mas o sonho começou...
Terça-feira, Fevereiro 24, 2009
O Velho no Cais
Era uma vez um rapaz que vivia num porto. Desde pequeno que aprendera a esperar, sentado no cais de madeira. Olhava as gaivotas, contava os barcos que partiam, aguardava-os ao fim da tarde. O pai desapareceu no mar, num dia de febre passado em casa, em que não o pôde ir esperar. Depois do choro descobriu, o seu destino era ver os outros, guardar os barcos com o olhar, até um dia morrer.
O segredo passou de voz em voz, no remendo das redes, nas rezas das mulheres. No porto, o rapaz cresceu, sem outro dia falhar, debaixo de chuva, da noite no dia, do fogo no céu, de gigantes de espuma. Fez-se velho, com barbas cinzentas, embaraçadas pelo vento. As velas apagaram-se, dos terços só o silêncio, um pescador não se benzeu, no dia em que foi pai. Enquanto ele os guardasse.
Um dia o velho morreu, no sítio onde viveu, caiu para o lado, no desespero dos outros. Deram voltas ao corpo, rasgaram sem respeito, correram para uma casa, que não tinha dono. Mulheres, cartas, uma fotografia velha, um amuleto esquecido, não havia nada. Fugiu-lhes a coragem, perdidos no enjoo, da terra nos seus pés, até à fome e à dor. Depois no medo partiram, de olhos no fim do mar, que tinha sabido esperar. Ao velho nem um buraco, caiu na lama, debaixo do cais de madeira, apodreceu com ela.
Passaram muitos anos, feitos dos mesmos dias. Numa tarde de Inverno, um rapaz sentou-se a contar os barcos, que não tinha visto partir. Esperou até à noite, agarrado ao último dedo, na esperança de o poder largar. Outro pai morreu. O rapaz repetiu uma promessa, já feita no mesmo lugar, e sentou-se no cais. Os corações encheram-se, de sorrisos escondidos, de egoísmo e esperança, de vergonha não sentida. Enquanto ele os guardasse.
Manhã
Bia e Rosa olhavam para a avó de olhos bem abertos. Ficavam sempre sem conseguir falar antes de perguntarem, de ganharem coragem para ouvir outra vez.
— E depois avó, o que aconteceu aos pescadores? — perguntou Bia, sem aguentar mais.
— Nada, durante muitos anos não aconteceu nada. — Fez uma pausa. — Até que um dia houve uma grande tempestade.
— E? — perguntou Rosa, quase se atrevendo a contar.
— Nenhum dos barcos voltou, nem um único voltou — disse a avó num tom grave.
As duas miúdas estremeceram. Era a sua parte favorita.
— E o rapaz, não cumpriu a promessa? — perguntaram ao mesmo tempo.
— O rapaz tinha-se ido embora muito tempo antes, no mesmo dia em que fez a promessa, foi-se embora nesse mesmo dia — respondeu com os olhos a brilhar.
— E o que lhe aconteceu? — Perguntaram baixinho, como se tivessem medo, como se fosse possível, que a resposta não fosse a mesma.
A avó sorriu antes de continuar.
— O rapaz foi viver para longe, esqueceu-se do porto, do cais, de todos os que ficaram para trás, para ser feliz...
— Mas morreu... — deixou escapar Bia, perante o olhar zangado da irmã.
— Sim querida — disse a avó —, ele também morreu no mar, quando ajudava um barco que se estava a afundar.
— Como o avô João? — perguntou Bia. — O rapaz também salvava pessoas no mar?
Os olhos da avó encheram-se de lágrimas. Tentou responder mas não conseguiu. A porta do quarto abriu-se e uma voz fez com que as duas raparigas dessem um salto.
— Meninas, têm cinco minutos para estarem as duas deitadas na cama.
— Mas mãe... — tentaram argumentar.
— Eu não volto a mandar — disse com um ar zangado. — Sabem muito bem que já passa da vossa hora.
As duas deram um beijo à avó e saíram do quarto a correr. A mãe só falou depois da porta se ter fechado.
— Mãe...
— Eu sei Teresa — disse baixinho, mas num tom firme –, eu sei que elas ainda são pequenas, mas é também a história delas, é a história de todos nós.
— Eu sei mãe, eu sei — disse enquanto lhe penteava o cabelo branco com os dedos. — Tenha só cuidado, eu sei que a história que lhes conta, as palavras que lhes diz, não são as que tem na cabeça.
— O mundo delas é perfeito Teresa, eu não nunca iria estragar isso — disse, antes de respirar fundo. — Mas a história é a mesma, acredita que é a mesma.
Teresa não respondeu, olhou para o quarto e para as fotografias em cima da cómoda. Antes de sair falou sem olhar para trás.
— Mãe, acha mesmo que ele se esqueceu? — perguntou. — Ele quando recebeu a notícia da tempestade, dos barcos não terem voltado, ele... ele quase não disse nada.
A avó sorriu antes de responder.
— Não filha, ele não se esqueceu, nunca se esqueceu... só quis poder escolher.
O segredo passou de voz em voz, no remendo das redes, nas rezas das mulheres. No porto, o rapaz cresceu, sem outro dia falhar, debaixo de chuva, da noite no dia, do fogo no céu, de gigantes de espuma. Fez-se velho, com barbas cinzentas, embaraçadas pelo vento. As velas apagaram-se, dos terços só o silêncio, um pescador não se benzeu, no dia em que foi pai. Enquanto ele os guardasse.
Um dia o velho morreu, no sítio onde viveu, caiu para o lado, no desespero dos outros. Deram voltas ao corpo, rasgaram sem respeito, correram para uma casa, que não tinha dono. Mulheres, cartas, uma fotografia velha, um amuleto esquecido, não havia nada. Fugiu-lhes a coragem, perdidos no enjoo, da terra nos seus pés, até à fome e à dor. Depois no medo partiram, de olhos no fim do mar, que tinha sabido esperar. Ao velho nem um buraco, caiu na lama, debaixo do cais de madeira, apodreceu com ela.
Passaram muitos anos, feitos dos mesmos dias. Numa tarde de Inverno, um rapaz sentou-se a contar os barcos, que não tinha visto partir. Esperou até à noite, agarrado ao último dedo, na esperança de o poder largar. Outro pai morreu. O rapaz repetiu uma promessa, já feita no mesmo lugar, e sentou-se no cais. Os corações encheram-se, de sorrisos escondidos, de egoísmo e esperança, de vergonha não sentida. Enquanto ele os guardasse.
Manhã
Bia e Rosa olhavam para a avó de olhos bem abertos. Ficavam sempre sem conseguir falar antes de perguntarem, de ganharem coragem para ouvir outra vez.
— E depois avó, o que aconteceu aos pescadores? — perguntou Bia, sem aguentar mais.
— Nada, durante muitos anos não aconteceu nada. — Fez uma pausa. — Até que um dia houve uma grande tempestade.
— E? — perguntou Rosa, quase se atrevendo a contar.
— Nenhum dos barcos voltou, nem um único voltou — disse a avó num tom grave.
As duas miúdas estremeceram. Era a sua parte favorita.
— E o rapaz, não cumpriu a promessa? — perguntaram ao mesmo tempo.
— O rapaz tinha-se ido embora muito tempo antes, no mesmo dia em que fez a promessa, foi-se embora nesse mesmo dia — respondeu com os olhos a brilhar.
— E o que lhe aconteceu? — Perguntaram baixinho, como se tivessem medo, como se fosse possível, que a resposta não fosse a mesma.
A avó sorriu antes de continuar.
— O rapaz foi viver para longe, esqueceu-se do porto, do cais, de todos os que ficaram para trás, para ser feliz...
— Mas morreu... — deixou escapar Bia, perante o olhar zangado da irmã.
— Sim querida — disse a avó —, ele também morreu no mar, quando ajudava um barco que se estava a afundar.
— Como o avô João? — perguntou Bia. — O rapaz também salvava pessoas no mar?
Os olhos da avó encheram-se de lágrimas. Tentou responder mas não conseguiu. A porta do quarto abriu-se e uma voz fez com que as duas raparigas dessem um salto.
— Meninas, têm cinco minutos para estarem as duas deitadas na cama.
— Mas mãe... — tentaram argumentar.
— Eu não volto a mandar — disse com um ar zangado. — Sabem muito bem que já passa da vossa hora.
As duas deram um beijo à avó e saíram do quarto a correr. A mãe só falou depois da porta se ter fechado.
— Mãe...
— Eu sei Teresa — disse baixinho, mas num tom firme –, eu sei que elas ainda são pequenas, mas é também a história delas, é a história de todos nós.
— Eu sei mãe, eu sei — disse enquanto lhe penteava o cabelo branco com os dedos. — Tenha só cuidado, eu sei que a história que lhes conta, as palavras que lhes diz, não são as que tem na cabeça.
— O mundo delas é perfeito Teresa, eu não nunca iria estragar isso — disse, antes de respirar fundo. — Mas a história é a mesma, acredita que é a mesma.
Teresa não respondeu, olhou para o quarto e para as fotografias em cima da cómoda. Antes de sair falou sem olhar para trás.
— Mãe, acha mesmo que ele se esqueceu? — perguntou. — Ele quando recebeu a notícia da tempestade, dos barcos não terem voltado, ele... ele quase não disse nada.
A avó sorriu antes de responder.
— Não filha, ele não se esqueceu, nunca se esqueceu... só quis poder escolher.
Segunda-feira, Novembro 10, 2008
Humberto
Humberto comia multas de estacionamento, subia e descia a avenida cem vezes por dia, comia as multas que retirava dos carros. Contava aos amigos, os velhos que dormem na rua, que tinha um sonho, comer mil multas num só dia e depois morrer, rebentar, marcar para sempre a montra de uma loja fina. Um dia aconteceu, esperou vinte minutos pelo fiscal, gostava de lhes chamar assim, puxou-o para ver a infracção, a transgressão inaceitável, uns bandidos, todos mortos à paulada. Um último desejo, tinta permanente, um nome, uma assinatura, pelo menos uma vez, a última vez. Ofereceu a caneta ao fiscal, rapaz louro pouco esperto, que não teve tempo de a admirar, ficou coberto da cabeça aos pés, de Humberto e papel, carne, sangue e cuspo, que a saliva é dos ricos, corre pura sem espuma. Juntou-se uma multidão, dizem que eram ao todo mil, perdoados, livres num segundo. Ouviu-se então, ecoou pela avenida, um aplauso, como se fosse para um Rei, que acenava de uma carruagem. Humberto ficou famoso, guardado no coração dos que ali estavam, que só fugiram pela força, esmurrados, empurrados pelos canhões de água, que também lavaram o chão, tudo para a sarjeta. Ficou a dúvida, porque nada havia e a palavra deixou de valer. Restou um segredo, um sinal trocado entre os que viram, que o guardaram, até ao fim das suas vidas. Humberto fez-se cidade.
Domingo, Novembro 02, 2008
Nightswimming
Comecei a dormir mais, depois de atingir o limite comecei a dormir mais. Ao fim de duas semanas tudo tinha mudado. Passei a acordar durante a noite, como acontecia quando era mais novo. Os sonhos voltaram, o lembrar de longas histórias que decidi esquecer. Nas manhãs, em todas as manhãs, começou a fazer sentido acordar. O leite frio à janela, o pão com passas e canela, o arroz doce quase gelado, roubado ao dia anterior. No prédio em frente vivia uma senhora muita velha, tinha o cabelo mais branco que alguma vez vira. Em casa dela não havia homens, só a filha, uma senhora gorda com um olhar triste, e a neta, que fingia não me ver. Era como se o tempo se estendesse, trazendo história e histórias antigas, quase sempre de quando era miúdo, um rapaz magro, uma noite quente, um banho no escuro, a madeira de uma casa escondida. Um dia a rapariga, a neta da senhora muito velha, sentou-se numa cadeira e olhou para mim, sem desistir, como se ameaçasse ficar ali para sempre. Nesse momento, nesse preciso momento decidi voltar, nervoso, com o que iria encontrar.
Entrei na mercearia com medo, de ser reconhecido, de abraços apertados, de ninguém se lembrar. Uma voz grossa desfez a dúvida.
— Ora, ora! Olha só quem voltou.
Sorri ainda antes de me virar.
— Olá senhor Carlos.
— E lembra-se dos velhos — disse ele num riso sincero. — Maria! Anda cá mulher, que não vais acreditar quem aqui está.
Ouvi uma voz a pedir um minuto e observei a pequena loja enquanto o senhor Carlos atendia uma senhora toda vestida de preto. Passara tardes sem conta naquele sítio, o filho do senhor Carlos e da senhora Maria foi sempre o meu melhor amigo, desde a escola primária até ele emigrar para Inglaterra. Os pais nunca aceitaram a decisão dele, pelos menos era o que diziam, a mim parecia-me ver orgulho, no reflexo das lágrimas. Uma mão separou as fitas de uma porta, dois braços esticaram-se para mim.
— Rui!
— Olá senhora Maria — disse eu já no meio de um abraço. O cheiro dela era o mesmo.
— Ai rapaz! Estás igual, sempre com esses olhos verdes a brilhar.
— Eu? — disse envergonhado. — Vocês é que não mudaram nada. Na verdade, parece que nada mudou, parece que ainda foi ontem que eu e o Filipe corríamos por entre as caixas.
— E me comiam o bacalhau à dentada — disse o senhor Carlos a rir. — Cada vez que me lembro da senhora Júlia a olhar para as marcas dos vossos dentes. Tive de lhe oferecer uma caixa inteira, que a mulher jurava que aqui havia ratos, que nunca mais cá voltava. Lembrava-me bem desse dia, eu e o Filipe escondidos debaixo do balcão, divididos entre a vontade de rir, e a promessa de uma tareia.
— E o Filipe? — perguntei a medo.
O senhor Carlos virou a cabeça, fingiu fazer umas contas num papel.
— O Filipe está bem — disse a senhora Maria em voz baixa.
— Mas e vocês? Está tudo bem entre todos?
— Sim — disse ela a sorrir. — Não ligues a esse velho tonto. O Filipe vai ser pai e nós vamos lá no Natal. Adivinha lá quem já foi comprar os bilhetes de avião todo inchado?
— Ainda bem, eu penso muitas vezes nele, mas...
— Eu sei, não digas nada, a vida é mesmo assim — disse ela olhando para mim com ternura. — Mas e tu? Não esperava ver-te mais por aqui, principalmente depois dos teus pais terem ido embora. Eles estão bem?
— Sim, acho que sim — respondi sem saber bem o que dizer. — Não tenho estado muito com eles, mas sim, estão bem.
— Mas e tu, o que te trouxe cá? Não vieste só visitar estes velhotes — disse ela de forma serena. Não consegui responder.
Passei a tarde inteira na pensão, a contar os minutos, à espera que escurecesse. O encontro com Mariana tinha sido estranho, apesar de ter sonhado com aquele momento tantas vezes. Não esperava que chocássemos no meio da rua, que não precisasse de procurar. O convite chegou como um soco, repetido até eu responder, mas sem ela se parecer importar. Ela continuava a ir nadar ao lago, em todas as noites quentes, como se os anos tivessem sido dias, como se o tempo não demorasse a passar. Saí depois das oito, escolhendo o caminho mais longo, até não poder mais adiar. Parei o carro perto da casa velha, desliguei os faróis e fui engolido pela noite, não havia lua, só estrelas, milhões e milhões de estrelas. Pisei a madeira devagar e sentei-me ao lado dela.
— Demoraste a chegar — disse ela sem desviar os olhos da água. — Pensei se te tinhas esquecido.
— Não — disse com a voz a tremer. — Como é que me podia esquecer?
— Sei lá — disse ela meio a rir. — Podias ter adormecido, ou ficares preso num filme, um daqueles que não conseguimos parar de ver.
Esperei antes de falar, sabia que tinha de falar, ou então nunca iria dizer, tudo o que estava dentro de mim. Obriguei as palavras.
— Lembras-te de aqui termos estado?
Mariana olhou para mim, olhou-me nos olhos, como não fazia desde que éramos apenas dois miúdos.
— Sim, tenho ideia disso. Aconteceu alguma coisa de especial que eu me devesse lembrar? — perguntou numa gargalhada. — Estás com um ar tão sério.
— Aconteceu que essa noite, essa noite em particular, eu...
— Rui, não compliques, fala!
Inspirei fundo.
— É que, vais achar-me maluco, mas eu... eu faço uma coisa estranha, nem sei bem explicar.
— Tenta — disse ela, sem pressa na voz.
— Isto parece de malucos, mas às vezes, às vezes acontece algo completamente banal, uma folha a voar que me bate na mão, o vento numa flor, alguém que diz uma palavra com uma pronúncia esquisita...
— Todas as coisas que acontecem — interrompeu ela. — Estás a falar de tudo, não é?
— Sim, acho que sim.
— Mas e o que é que acontece? — perguntou ela.
— Bem, às vezes eu... às vezes algumas dessas coisas, apesar de não serem diferentes de tudo o que acontece a cada segundo, eu lembro-me delas, vejo-as na minha cabeça centenas de vezes.
Parei um segundo antes de continuar, senti o coração a bater como se fosse rebentar.
— E essa vez, quando aqui estivemos, sentámo-nos precisamente neste sítio e uma gota de suor escorreu-me pelas costas, e... e eu lembro-me disso, da sensação do suor nas costas, lembro-me disso quase todos os dias...
— Rui — interrompeu ela outra vez —, o que é que queres dizer?
Gritei dentro de mim.
— É que... também me lembro de ti, do teu corpo, num fato de banho preto, do cheiro do teu cabelo molhado. Todos os dias Mariana! Penso nessas coisas quase todos os dias, mas não queria, não queria...
Desisti de explicar, pela primeira vez na vida não tentei explicar, esperei, apenas esperei.
— Rui — disse ela, sem precisar de tempo para pensar. — Rui, eu lembro-me de aqui ter estado contigo, mas não me lembro do fato de banho que tinha, não me lembro do que falámos. Acho que o cheiro do cabelo é o mesmo, mas todos estes anos, não foram passados a pensar em ti.
Fiquei à espera que ela continuasse.
— Imagino que tenha sido um sonho bonito Rui.
— Muitos sonhos bonitos — disse eu.
— Mas foram sonhos teus, foram só sonhos teus.
Ficámos em silêncio, um silêncio que não trouxe desconforto, só o barulho da água. Depois, no momento certo ela falou, como se esperasse pelo refrão de uma música, que só ela conseguia ouvir.
— Agora vais-te embora, não é? — perguntou. — Eu sei que ainda não sabes, que não planeaste nada, mas pensa, é isso que vai acontecer, certo? Apesar de todos estes anos, de pensares em mim a toda a hora, de eu ser a razão de teres voltado, no fim vais acabar por ir embora, mesmo que eu te tivesse dito, que todas as vezes que aqui vim, que também sonhava contigo.
Ela tinha entrado em mim, como nunca ninguém tinha feito ela tinha entrado em mim, ao ponto de saber, de me conseguir ler. Mais uma vez desisti de falar, de explicar, para conseguir ouvir, para conseguir sentir. Mariana chegou-se a mim, tirou-me a camisola devagar e despiu também a dela. Tocou com uma das mãos nas minhas costas, durante um segundo apenas, o suficiente para eu me lembrar. O resto da roupa espalhou-se pelo chão e deslizámos para dentro de água, esperámos um minuto por um beijo, pelo entrelaçar dos corpos. No brilho das estrelas vi a expressão dela, o seu sorriso, que me fez lembrar o da senhora Maria, o mais tranquilo que conhecia, que tantas vezes desejei, que fosse o da minha mãe.
— Rui — disse ela, como se estivesse a cantar —, hoje dormes em minha casa, amanhã... para amanhã só quero que me prometas uma coisa.
— O quê? — perguntei.
— Que começas o dia, que vais começar o dia, como se fosse a primeira vez.
— Está bem Mariana, está bem...
Nadámos para o meio do lago, de olhos no céu.
Entrei na mercearia com medo, de ser reconhecido, de abraços apertados, de ninguém se lembrar. Uma voz grossa desfez a dúvida.
— Ora, ora! Olha só quem voltou.
Sorri ainda antes de me virar.
— Olá senhor Carlos.
— E lembra-se dos velhos — disse ele num riso sincero. — Maria! Anda cá mulher, que não vais acreditar quem aqui está.
Ouvi uma voz a pedir um minuto e observei a pequena loja enquanto o senhor Carlos atendia uma senhora toda vestida de preto. Passara tardes sem conta naquele sítio, o filho do senhor Carlos e da senhora Maria foi sempre o meu melhor amigo, desde a escola primária até ele emigrar para Inglaterra. Os pais nunca aceitaram a decisão dele, pelos menos era o que diziam, a mim parecia-me ver orgulho, no reflexo das lágrimas. Uma mão separou as fitas de uma porta, dois braços esticaram-se para mim.
— Rui!
— Olá senhora Maria — disse eu já no meio de um abraço. O cheiro dela era o mesmo.
— Ai rapaz! Estás igual, sempre com esses olhos verdes a brilhar.
— Eu? — disse envergonhado. — Vocês é que não mudaram nada. Na verdade, parece que nada mudou, parece que ainda foi ontem que eu e o Filipe corríamos por entre as caixas.
— E me comiam o bacalhau à dentada — disse o senhor Carlos a rir. — Cada vez que me lembro da senhora Júlia a olhar para as marcas dos vossos dentes. Tive de lhe oferecer uma caixa inteira, que a mulher jurava que aqui havia ratos, que nunca mais cá voltava. Lembrava-me bem desse dia, eu e o Filipe escondidos debaixo do balcão, divididos entre a vontade de rir, e a promessa de uma tareia.
— E o Filipe? — perguntei a medo.
O senhor Carlos virou a cabeça, fingiu fazer umas contas num papel.
— O Filipe está bem — disse a senhora Maria em voz baixa.
— Mas e vocês? Está tudo bem entre todos?
— Sim — disse ela a sorrir. — Não ligues a esse velho tonto. O Filipe vai ser pai e nós vamos lá no Natal. Adivinha lá quem já foi comprar os bilhetes de avião todo inchado?
— Ainda bem, eu penso muitas vezes nele, mas...
— Eu sei, não digas nada, a vida é mesmo assim — disse ela olhando para mim com ternura. — Mas e tu? Não esperava ver-te mais por aqui, principalmente depois dos teus pais terem ido embora. Eles estão bem?
— Sim, acho que sim — respondi sem saber bem o que dizer. — Não tenho estado muito com eles, mas sim, estão bem.
— Mas e tu, o que te trouxe cá? Não vieste só visitar estes velhotes — disse ela de forma serena. Não consegui responder.
Passei a tarde inteira na pensão, a contar os minutos, à espera que escurecesse. O encontro com Mariana tinha sido estranho, apesar de ter sonhado com aquele momento tantas vezes. Não esperava que chocássemos no meio da rua, que não precisasse de procurar. O convite chegou como um soco, repetido até eu responder, mas sem ela se parecer importar. Ela continuava a ir nadar ao lago, em todas as noites quentes, como se os anos tivessem sido dias, como se o tempo não demorasse a passar. Saí depois das oito, escolhendo o caminho mais longo, até não poder mais adiar. Parei o carro perto da casa velha, desliguei os faróis e fui engolido pela noite, não havia lua, só estrelas, milhões e milhões de estrelas. Pisei a madeira devagar e sentei-me ao lado dela.
— Demoraste a chegar — disse ela sem desviar os olhos da água. — Pensei se te tinhas esquecido.
— Não — disse com a voz a tremer. — Como é que me podia esquecer?
— Sei lá — disse ela meio a rir. — Podias ter adormecido, ou ficares preso num filme, um daqueles que não conseguimos parar de ver.
Esperei antes de falar, sabia que tinha de falar, ou então nunca iria dizer, tudo o que estava dentro de mim. Obriguei as palavras.
— Lembras-te de aqui termos estado?
Mariana olhou para mim, olhou-me nos olhos, como não fazia desde que éramos apenas dois miúdos.
— Sim, tenho ideia disso. Aconteceu alguma coisa de especial que eu me devesse lembrar? — perguntou numa gargalhada. — Estás com um ar tão sério.
— Aconteceu que essa noite, essa noite em particular, eu...
— Rui, não compliques, fala!
Inspirei fundo.
— É que, vais achar-me maluco, mas eu... eu faço uma coisa estranha, nem sei bem explicar.
— Tenta — disse ela, sem pressa na voz.
— Isto parece de malucos, mas às vezes, às vezes acontece algo completamente banal, uma folha a voar que me bate na mão, o vento numa flor, alguém que diz uma palavra com uma pronúncia esquisita...
— Todas as coisas que acontecem — interrompeu ela. — Estás a falar de tudo, não é?
— Sim, acho que sim.
— Mas e o que é que acontece? — perguntou ela.
— Bem, às vezes eu... às vezes algumas dessas coisas, apesar de não serem diferentes de tudo o que acontece a cada segundo, eu lembro-me delas, vejo-as na minha cabeça centenas de vezes.
Parei um segundo antes de continuar, senti o coração a bater como se fosse rebentar.
— E essa vez, quando aqui estivemos, sentámo-nos precisamente neste sítio e uma gota de suor escorreu-me pelas costas, e... e eu lembro-me disso, da sensação do suor nas costas, lembro-me disso quase todos os dias...
— Rui — interrompeu ela outra vez —, o que é que queres dizer?
Gritei dentro de mim.
— É que... também me lembro de ti, do teu corpo, num fato de banho preto, do cheiro do teu cabelo molhado. Todos os dias Mariana! Penso nessas coisas quase todos os dias, mas não queria, não queria...
Desisti de explicar, pela primeira vez na vida não tentei explicar, esperei, apenas esperei.
— Rui — disse ela, sem precisar de tempo para pensar. — Rui, eu lembro-me de aqui ter estado contigo, mas não me lembro do fato de banho que tinha, não me lembro do que falámos. Acho que o cheiro do cabelo é o mesmo, mas todos estes anos, não foram passados a pensar em ti.
Fiquei à espera que ela continuasse.
— Imagino que tenha sido um sonho bonito Rui.
— Muitos sonhos bonitos — disse eu.
— Mas foram sonhos teus, foram só sonhos teus.
Ficámos em silêncio, um silêncio que não trouxe desconforto, só o barulho da água. Depois, no momento certo ela falou, como se esperasse pelo refrão de uma música, que só ela conseguia ouvir.
— Agora vais-te embora, não é? — perguntou. — Eu sei que ainda não sabes, que não planeaste nada, mas pensa, é isso que vai acontecer, certo? Apesar de todos estes anos, de pensares em mim a toda a hora, de eu ser a razão de teres voltado, no fim vais acabar por ir embora, mesmo que eu te tivesse dito, que todas as vezes que aqui vim, que também sonhava contigo.
Ela tinha entrado em mim, como nunca ninguém tinha feito ela tinha entrado em mim, ao ponto de saber, de me conseguir ler. Mais uma vez desisti de falar, de explicar, para conseguir ouvir, para conseguir sentir. Mariana chegou-se a mim, tirou-me a camisola devagar e despiu também a dela. Tocou com uma das mãos nas minhas costas, durante um segundo apenas, o suficiente para eu me lembrar. O resto da roupa espalhou-se pelo chão e deslizámos para dentro de água, esperámos um minuto por um beijo, pelo entrelaçar dos corpos. No brilho das estrelas vi a expressão dela, o seu sorriso, que me fez lembrar o da senhora Maria, o mais tranquilo que conhecia, que tantas vezes desejei, que fosse o da minha mãe.
— Rui — disse ela, como se estivesse a cantar —, hoje dormes em minha casa, amanhã... para amanhã só quero que me prometas uma coisa.
— O quê? — perguntei.
— Que começas o dia, que vais começar o dia, como se fosse a primeira vez.
— Está bem Mariana, está bem...
Nadámos para o meio do lago, de olhos no céu.
Terça-feira, Setembro 23, 2008
Another World
Um dia. Existe um momento em que chegamos à dor, em que descobrimos, que estamos inevitavelmente sozinhos, fechados em nós. Um dia. Descobrimos que só nós vemos, que contar não chega, e perdemos a esperança, sem deixar de gritar.
No metro viajo de pé, caminho devagar, olho cada pessoa em silêncio, demoro, arrisco, antes de continuar. À minha frente está um homem musculado, com uma camisola apertada. Tem o cabelo molhado, madeixas separadas pelo suor, que revelam um segredo. Um pássaro tatuado, uma serpente, sangue, uma escolha minha. Olho para baixo e reparo nuns sapatos de mulher muitos velhos, estranho as meias castanhas no calor. Uma delas está rasgada, até perceber. Levanto os olhos e vejo que a mulher não é branca, que as meias não existem, apenas uma cicatriz de tom rosado. Sorrio com a confusão e observo-a. Um fato cinzento que parece encolher, no meio de muito vermelho, menos o fato e a pele. Ao longe outra mulher apanha o cabelo, na esperança de não ser reconhecida. Sei quem é, fala sempre confiante. Prefiro o metro, espreitar sem que perceba, quando fecha os olhos por um segundo. Antes de sair vejo uma rapariga, que usa um gancho verde no cabelo. Está de sandálias, mas tem os dedos muito tortos. Tem a cara gasta. Lembro-me de alguém, que também vi no metro.
Uma tarde fugia para casa, entrei na carruagem e tentei escolher alguém. À minha frente estava uma rapariga. Aproximei-me com cuidado. Parei quando vi as lágrimas. Ela chorava sem parar. Um choro que não se ouvia, um choro sem o soluçar, só lágrimas atrás de lágrimas, sem vergonha, sem se importar. Fiquei a olhar para ela, que não me via, por também estar sozinha. Mas senti a sua dor. Então reparei, nos dedos cortados, amputados ao acaso. O verniz disfarçava alguns, outros era impossível. Fiquei paralisado, na repulsa, ao mesmo tempo zangado, mas com vontade de fugir, ao chocar com os meus medos. Resisti, fiquei, olhei, obriguei-me a olhar, para as mãos imperfeitas, até esquecer. Voltei ao choro, a uma tristeza sem fim. Senti vontade de a abraçar, de dizer que estava tudo bem, que podia descansar, que podia deitar a cabeça no meu colo. Não senti pena, não venci o medo, de lhe tocar nos dedos, de fechar as minhas mãos nas dela. Mas devia tê-la abraçado, tê-la escondido em mim, sentir o seu corpo.
Estou sozinho, mas continuo a gritar, até perder o medo, de me lembrar.
No metro viajo de pé, caminho devagar, olho cada pessoa em silêncio, demoro, arrisco, antes de continuar. À minha frente está um homem musculado, com uma camisola apertada. Tem o cabelo molhado, madeixas separadas pelo suor, que revelam um segredo. Um pássaro tatuado, uma serpente, sangue, uma escolha minha. Olho para baixo e reparo nuns sapatos de mulher muitos velhos, estranho as meias castanhas no calor. Uma delas está rasgada, até perceber. Levanto os olhos e vejo que a mulher não é branca, que as meias não existem, apenas uma cicatriz de tom rosado. Sorrio com a confusão e observo-a. Um fato cinzento que parece encolher, no meio de muito vermelho, menos o fato e a pele. Ao longe outra mulher apanha o cabelo, na esperança de não ser reconhecida. Sei quem é, fala sempre confiante. Prefiro o metro, espreitar sem que perceba, quando fecha os olhos por um segundo. Antes de sair vejo uma rapariga, que usa um gancho verde no cabelo. Está de sandálias, mas tem os dedos muito tortos. Tem a cara gasta. Lembro-me de alguém, que também vi no metro.
Uma tarde fugia para casa, entrei na carruagem e tentei escolher alguém. À minha frente estava uma rapariga. Aproximei-me com cuidado. Parei quando vi as lágrimas. Ela chorava sem parar. Um choro que não se ouvia, um choro sem o soluçar, só lágrimas atrás de lágrimas, sem vergonha, sem se importar. Fiquei a olhar para ela, que não me via, por também estar sozinha. Mas senti a sua dor. Então reparei, nos dedos cortados, amputados ao acaso. O verniz disfarçava alguns, outros era impossível. Fiquei paralisado, na repulsa, ao mesmo tempo zangado, mas com vontade de fugir, ao chocar com os meus medos. Resisti, fiquei, olhei, obriguei-me a olhar, para as mãos imperfeitas, até esquecer. Voltei ao choro, a uma tristeza sem fim. Senti vontade de a abraçar, de dizer que estava tudo bem, que podia descansar, que podia deitar a cabeça no meu colo. Não senti pena, não venci o medo, de lhe tocar nos dedos, de fechar as minhas mãos nas dela. Mas devia tê-la abraçado, tê-la escondido em mim, sentir o seu corpo.
Estou sozinho, mas continuo a gritar, até perder o medo, de me lembrar.
Quarta-feira, Agosto 06, 2008
O Corcunda
Há demasiadas histórias de corcundas. Monstros, anjos escondidos de dentes podres, de sorrisos inocentes. Há demasiadas histórias sobre pessoas, porque todos o foram, um homem, uma mulher. Demasiadas histórias, sobre um destino alterado, por causa de um alto nas costas, de um curvar dorido. Nunca quis contar a minha, eu também disfarçado, preso nas sombras de uma casa velha. Mas hoje, nos meus últimos dias, já não consigo olhar o céu, só as palavras que escrevo, que desenho devagar. Desejo, sonho em morrer aqui, sobre a minha vida, feita de criar outras, de inventar destinos, em milhares de folhas pautadas. Sei que é difícil acreditar, mas eu não nasci corcunda. Difícil, para muitos impossível, descendo as escadas do casarão, contemplando as figuras, quadros pintados, dos que vieram antes de mim. Uma aberração atrás da outra, poupados ao circo, aos risos e espanto, mas para sempre marcados. Há anos que não desço as escadas, talvez por medo, de enfrentar o espaço vazio, guardado para um último quadro. Mas lembro-me da primeira vez que o fiz, que olhei de frente para a minha herança, e do orgulho nos olhos do meu pai, depois de correr até ele, de saltar para o seu colo e de lhe contar, que descobrira um segredo, que os homens nos quadros, estavam todos a sorrir. Quando fiz dez anos, no dia em que fiz dez anos, o meu mundo mudou. O meu pai, o meu avô, levaram-me até uma porta, que estava sempre fechada. A minha mãe escondeu as lágrimas, abraçada às minhas duas avós, não por medo, por tristeza, mas por saber, que ali, naquele momento, tudo começava, mais uma vez. Entrei à frente, depois o meu pai, o meu avô mais devagar, sempre no escuro, até a porta se fechar, sem ninguém lhe tocar. Só então a luz, mil velas acesas, sem perceber porquê. Nesse segundo vi, escadas sem fim, portas, mesas de trabalho. Só depois reparei, que as paredes, todas as paredes, não estavam pintadas, nem forradas a papel, mas sim tapadas, de forma perfeita, por milhares, milhões, por livros que não era possível contar. O meu pai esperou, aguardou uns minutos antes de falar, depois do meu avô anuir. Contou-me a história, que também era a minha, de todos os que ali tinham entrado, do tesouro que guardavam, escondido, mas que deveria crescer, porque sempre haveria espaço, um lugar vazio numa estante, à espera de outro livro, de mais histórias. Seria essa a minha tarefa, como tinha sido de tantos antes de mim, a partir daquele dia. Lembro-me de olhar para os dois homens ao meu lado, principalmente para o meu avô, duas vezes pai, mais curvado, apoiado numa bengala escura, que o afastava do chão. Lembro-me de ele me começar a explicar, sem pedir desculpa, que eu seria como eles, uma maldição que não era verdadeira, só aos olhos dos outros. Um dever, que não podia ser leve, e só por isso pesado. Ouvi-o em silêncio, em respeito e amor, ouvi o que já sabia, desde que a porta se fechara, quando senti a pressão nas costas, pela primeira vez.
Quarta-feira, Julho 30, 2008
O Vento
Quando Ana chegou reconheceu o cheiro do chão. Era uma mistura de ervas secas com pequenas flores. Em miúda vendia-as em segredo, nas brincadeiras com o irmão, no terraço da casa dos avós. Alugou uma casa perto do mar, com janelas azuis e fechos ferrugentos. Deitada na cama conseguia ouvir as ondas e todos os dias jurava que sentia o seu gosto. Os dias eram todos iguais. Um livro lido em cima da colcha branca, morangos e amoras comidos com cuidado, um dormir sem horas, sem contar. Ao fim da tarde espreguiçava-se na rede, dava balanço na parede caiada, pintava os pés de branco. Antes de anoitecer saía para respirar, somava cada dia ao anterior, prometia não ter pressa. No primeiro dia reparou num velho sentado no miradouro, fingiu que não o viu, mas sentiu-o antes do resto. Inventou uma brincadeira, um desafio, conseguir não pensar nele durante um dia, depois dois, até onde fosse capaz. Desistiu, ele estava lá, mesmo que ela não olhasse. Sentava-se num banco feito nas rochas, a um passo do vazio. O velho era cego, a senhora que a recebera tinha-lhe contado que ele era cego, disse-o várias vezes, como se tivesse medo que ela se fosse esquecer, depois benzeu-se e saiu. Ana ficou a pensar, sem coragem de perguntar.
— Dizem que o senhor é cego.
Ele inclinou-se para a frente, de cajado a baloiçar entre as mãos.
— Dizem o que eu lhes disse, mais não sabem.
O banco onde o velho estava sentado era feito de rocha cinzenta, esculpido na forma de muitos anos. Ana sentou-se, sentiu a pedra, um aconchego ligeiro, afastado em silêncio.
— E o que é que eles não sabem? — perguntou ela sem tremer a voz.
O velho enfrentou-a no escuro, como se conseguisse ver.
— Perguntas sem saber criança — disse ele.
Ela sufocou as palavras. Queria saber, precisava de saber. O velho contou a sua história.
Sempre amara a mulher, que tinha morrido há dois anos, um desejo que não esquecia. Ela morrera a sorrir, de mãos dadas nas dele, mãos que só podia sentir. Depois veio o fim, o resto de uma vida, uma espera contada, minuto a minuto, em cada bater do coração, no sangue que corria lento. Tinham começado a namorar em miúdos, antes de serem diferentes, antes de respirarem mais depressa. Casaram em Maio, num dia quente, sem nuvens no céu. Adormeceram de olhos no céu, sem desejos para pedir, agarrados com força, pois o vento tenta a sua sorte, leva-nos se não temos cuidado. Um ano, as noites na praia só duraram um ano. Um dia ela não acordou, ardia em febre, pintava os lençóis de vermelho, sem conseguir falar. O velho, nesse tempo um miúdo, subiu ao penhasco mais alto, gritou, suplicou um favor, ofereceu tudo o que tinha, mesmo o que não devia. Nunca descobriu quem respondeu, se o céu ou o inferno, nem branco nem vermelho. A alma foi recusada, não pode ser vendida, não pode ser trocada. Escolheria um dos sentidos, uma parte do mundo, que deveria perder. A resposta foi rápida. Sentiu o cheiro do mar, o barulho das ondas, o sabor a sal, o calor da pele dela nas mãos. Fechou os olhos, no último raio de sol, e respondeu sem querer. Encontraram-no assustado, demoraram a perceber, na pressa de contar. Ela tinha acordado, com a face rosada, mas de sorriso ainda cansado. Pediu para a levarem à janela, para ver o pôr-do-sol.
Ana ficou a olhar para o velho, tentando adivinhar o momento certo.
— Não foi... não foi por causa... ela melhorou sozinha, não foi?
— Sim, não fui eu.
— Mas então... porque é que ficou cego? — perguntou ela em desespero, como se tudo estivesse a acontecer outra vez. — Não faz sentido... não faz sentido.
O velho encostou o cajado à pedra, brincou com as mãos, fez desenhos no ar. Depois continuou.
— O meu pedido, o meu desejo... — disse ele devagar.
— Sim — disse ela ansiosa.
— Eu só pedi, implorei, que me fosse concedido um desejo.
Os olhos de Ana brilharam.
— Ela ficou melhor antes — disse ela, sem precisar de uma resposta.
— Sim, ficou.
Ana correu para casa. Fugiu do passado, de uma história que não era a sua. Durante uma semana não saiu de casa, tentou esquecer, arranjou mil desculpas, mil explicações. Teve vontade de desistir, de ir embora daquele lugar. Mas sabia que o velho estava lá fora, de olhos no mar, sem o poder ver. Sabia que ele esperava por ela, que confiava nela. Ainda não tinha acabado, sabia que ainda não tinha acabado.
— O que é que pediu? — perguntou ela, enquanto se sentava ao lado do velho.
— Desde miúdo, o sonho foi sempre o mesmo — disse ele a sorrir.
— Os sonhos são iguais para todos? — perguntou ela enrugando a testa.
Ele esperou um pouco, agarrou-lhe a mão direita, depois de a procurar.
— Qual é o teu nome?
— Ana, chamo-me Ana.
— Voar Ana, desde pequeno que queria voar — disse ele quase em sussurro.
Ela percebeu, e sentiu um aperto no peito.
— Para voar não é preciso ver, basta que alguém nos ajude, que alguém veja por nós — disse ela ao mesmo tempo que pensava. — Mas nunca o fez, pois não?
Ele sorriu.
— Eu nunca lhe contei, não podia contar, ela nunca me teria perdoado.
— Porquê?
— Porque não era a maneira dela. Um sacrifício. Um pacto com o mal ou com o bem. A certeza de sermos iguais, de não sermos melhores, de sermos um só. Ela nunca me teria perdoado, e eu não podia voar com mais ninguém. Às vezes, nas noites sem lua, quando o vento sopra forte, às vezes, aproximo-me do precipício, e finjo que é o vento que me segura. Mais não posso.
— E o anjo, o demónio, nunca mais o chamou, nunca mais gritou por ele? — perguntou ela, de coração apertado.
— Não, nunca mais. Mas ele aparece à noite, desde a primeira noite, todas as noites, invade os meus sonhos, seduz-me, diz-me que basta um sacrifício.
— Um sacrifico? — perguntou, tentando entender.
— Sim, de alguém que eu ame, de alguém que me ame. — Parou de falar e limpou as lágrimas com um lenço velho amarrotado. — Nem por um minuto Ana, nem por um único segundo, nunca hesitei. Sei que nunca mais vou ver, mas foi sempre uma tentação inútil, pois eu convenci-me, desde o primeiro dia, que morreria na escuridão.
Ana levantou-se e deu um passo até à beira da rocha, sentiu o vazio, o abismo por baixo dela. Então sorriu, escondeu as lágrimas e sorriu. Esticou um braço em direcção ao velho e inspirou fundo antes de o chamar.
— Eu acredito, eu acredito em si. — As lágrimas começaram a cair, a descer pela cara, em direcção ao peito. — Dê-me a sua mão! Eu mostro-lhe o caminho.
Ele esperou uns segundos, antes de esticar a mão direita, de tocar ao de leve na mão dela. Ana atirou-se devagar para trás, fechou os olhos e esperou, até ao último momento esperou, por uma mão que se fechou.
A queda foi rápida, a dor desapareceu depressa, o corpo já não era o seu. Sentia apenas o gosto do sangue quente na boca, um ligeiro tremor, um frio que lhe roubava a visão, que mudava o mundo à sua volta, um mundo que ficava cada vez mais turvo. Conseguiu olhar para cima, ver uma silhueta de braços abertos, inclinada de uma forma impossível. Sorriu, uma última vez.
O velho ficou a olhar para a mão fechada, até o último raio de sol tocar em cada dedo que se abria, até acreditar, que conseguia ver. Abriu os braços e atirou-se contra o vento, uma última vez.
— Dizem que o senhor é cego.
Ele inclinou-se para a frente, de cajado a baloiçar entre as mãos.
— Dizem o que eu lhes disse, mais não sabem.
O banco onde o velho estava sentado era feito de rocha cinzenta, esculpido na forma de muitos anos. Ana sentou-se, sentiu a pedra, um aconchego ligeiro, afastado em silêncio.
— E o que é que eles não sabem? — perguntou ela sem tremer a voz.
O velho enfrentou-a no escuro, como se conseguisse ver.
— Perguntas sem saber criança — disse ele.
Ela sufocou as palavras. Queria saber, precisava de saber. O velho contou a sua história.
Sempre amara a mulher, que tinha morrido há dois anos, um desejo que não esquecia. Ela morrera a sorrir, de mãos dadas nas dele, mãos que só podia sentir. Depois veio o fim, o resto de uma vida, uma espera contada, minuto a minuto, em cada bater do coração, no sangue que corria lento. Tinham começado a namorar em miúdos, antes de serem diferentes, antes de respirarem mais depressa. Casaram em Maio, num dia quente, sem nuvens no céu. Adormeceram de olhos no céu, sem desejos para pedir, agarrados com força, pois o vento tenta a sua sorte, leva-nos se não temos cuidado. Um ano, as noites na praia só duraram um ano. Um dia ela não acordou, ardia em febre, pintava os lençóis de vermelho, sem conseguir falar. O velho, nesse tempo um miúdo, subiu ao penhasco mais alto, gritou, suplicou um favor, ofereceu tudo o que tinha, mesmo o que não devia. Nunca descobriu quem respondeu, se o céu ou o inferno, nem branco nem vermelho. A alma foi recusada, não pode ser vendida, não pode ser trocada. Escolheria um dos sentidos, uma parte do mundo, que deveria perder. A resposta foi rápida. Sentiu o cheiro do mar, o barulho das ondas, o sabor a sal, o calor da pele dela nas mãos. Fechou os olhos, no último raio de sol, e respondeu sem querer. Encontraram-no assustado, demoraram a perceber, na pressa de contar. Ela tinha acordado, com a face rosada, mas de sorriso ainda cansado. Pediu para a levarem à janela, para ver o pôr-do-sol.
Ana ficou a olhar para o velho, tentando adivinhar o momento certo.
— Não foi... não foi por causa... ela melhorou sozinha, não foi?
— Sim, não fui eu.
— Mas então... porque é que ficou cego? — perguntou ela em desespero, como se tudo estivesse a acontecer outra vez. — Não faz sentido... não faz sentido.
O velho encostou o cajado à pedra, brincou com as mãos, fez desenhos no ar. Depois continuou.
— O meu pedido, o meu desejo... — disse ele devagar.
— Sim — disse ela ansiosa.
— Eu só pedi, implorei, que me fosse concedido um desejo.
Os olhos de Ana brilharam.
— Ela ficou melhor antes — disse ela, sem precisar de uma resposta.
— Sim, ficou.
Ana correu para casa. Fugiu do passado, de uma história que não era a sua. Durante uma semana não saiu de casa, tentou esquecer, arranjou mil desculpas, mil explicações. Teve vontade de desistir, de ir embora daquele lugar. Mas sabia que o velho estava lá fora, de olhos no mar, sem o poder ver. Sabia que ele esperava por ela, que confiava nela. Ainda não tinha acabado, sabia que ainda não tinha acabado.
— O que é que pediu? — perguntou ela, enquanto se sentava ao lado do velho.
— Desde miúdo, o sonho foi sempre o mesmo — disse ele a sorrir.
— Os sonhos são iguais para todos? — perguntou ela enrugando a testa.
Ele esperou um pouco, agarrou-lhe a mão direita, depois de a procurar.
— Qual é o teu nome?
— Ana, chamo-me Ana.
— Voar Ana, desde pequeno que queria voar — disse ele quase em sussurro.
Ela percebeu, e sentiu um aperto no peito.
— Para voar não é preciso ver, basta que alguém nos ajude, que alguém veja por nós — disse ela ao mesmo tempo que pensava. — Mas nunca o fez, pois não?
Ele sorriu.
— Eu nunca lhe contei, não podia contar, ela nunca me teria perdoado.
— Porquê?
— Porque não era a maneira dela. Um sacrifício. Um pacto com o mal ou com o bem. A certeza de sermos iguais, de não sermos melhores, de sermos um só. Ela nunca me teria perdoado, e eu não podia voar com mais ninguém. Às vezes, nas noites sem lua, quando o vento sopra forte, às vezes, aproximo-me do precipício, e finjo que é o vento que me segura. Mais não posso.
— E o anjo, o demónio, nunca mais o chamou, nunca mais gritou por ele? — perguntou ela, de coração apertado.
— Não, nunca mais. Mas ele aparece à noite, desde a primeira noite, todas as noites, invade os meus sonhos, seduz-me, diz-me que basta um sacrifício.
— Um sacrifico? — perguntou, tentando entender.
— Sim, de alguém que eu ame, de alguém que me ame. — Parou de falar e limpou as lágrimas com um lenço velho amarrotado. — Nem por um minuto Ana, nem por um único segundo, nunca hesitei. Sei que nunca mais vou ver, mas foi sempre uma tentação inútil, pois eu convenci-me, desde o primeiro dia, que morreria na escuridão.
Ana levantou-se e deu um passo até à beira da rocha, sentiu o vazio, o abismo por baixo dela. Então sorriu, escondeu as lágrimas e sorriu. Esticou um braço em direcção ao velho e inspirou fundo antes de o chamar.
— Eu acredito, eu acredito em si. — As lágrimas começaram a cair, a descer pela cara, em direcção ao peito. — Dê-me a sua mão! Eu mostro-lhe o caminho.
Ele esperou uns segundos, antes de esticar a mão direita, de tocar ao de leve na mão dela. Ana atirou-se devagar para trás, fechou os olhos e esperou, até ao último momento esperou, por uma mão que se fechou.
A queda foi rápida, a dor desapareceu depressa, o corpo já não era o seu. Sentia apenas o gosto do sangue quente na boca, um ligeiro tremor, um frio que lhe roubava a visão, que mudava o mundo à sua volta, um mundo que ficava cada vez mais turvo. Conseguiu olhar para cima, ver uma silhueta de braços abertos, inclinada de uma forma impossível. Sorriu, uma última vez.
O velho ficou a olhar para a mão fechada, até o último raio de sol tocar em cada dedo que se abria, até acreditar, que conseguia ver. Abriu os braços e atirou-se contra o vento, uma última vez.
Domingo, Junho 08, 2008
Esquecer
Contei quatro degraus, quatro degraus cinzentos, gastos, rachados. Senti o vento nas costas e olhei à procura do carro. Tinha a certeza que o tinha deixado perto, de ter jogado com a sorte. Se arranjasse lugar à porta do trabalho o dia correria bem. Uma velha brincadeira, que nunca funcionava. Procurei mais de vinte minutos, fiz a rua para cima e para baixo várias vezes. Cansado, sentei-me num banco castanho. Lembrei-me de uma história antiga, um livro de ficção científica que tinha lido há muitos anos. Era um livro de contos, o primeiro era sobre um homem que um dia saía do emprego e se esquecia onde morava, como se chamava, quem era. No fim, perdido, sozinho, descobria que não era deste mundo, que as memórias esquecidas não eram dele, apenas decoradas. Ri-me, apesar do frio no estômago ri-me, sabia o meu nome, sabia onde morava, só não sabia do carro, mas tinha recordado a história do livro. Tirei o telefone do bolso do casaco para telefonar, por um breve segundo soube, mas esqueci-me para quem ia ligar. Não me lembrava se tinha alguma pessoa, se era casado, se estava alguém à minha espera. Senti-me sozinho. Lembrei-me de uns enormes olhos verdes, disse o nome dela num sussurro, senti o sabor dos lábios, o cheiro da pele. Podia contar todos os beijos que tínhamos trocado, um a um, podia desenhar as cores das camisolas que ela usava, mas não sabia quem me abraçava, quem me embalava antes de dormir. Tive medo de ir para casa, de encontrar alguém que não conhecia, de estar a enlouquecer. Tinha uma aliança na mão esquerda, tirei-a do dedo, segurei-a durante um segundo, depois procurei um nome. Uma data, a aliança só tinha gravada uma data, que não me dizia nada, que me deixava assustado. Esqueci-me de quantos anos tinha, procurei algum sinal nas mãos, marcas de tempo, feridas, a cor dos pêlos. Lembrei-me de um tronco velho, do musgo na madeira, lembrei-me dos insectos na lama, de os guardar dentro de um frasquinho, da minha mãe a ralhar. Lembrei-me da minha mãe, do nome, da cara, da voz, de soprar cinco velas num bolo. Depois esqueci-me, como se num momento corresse no riacho, e no seguinte estivesse perdido. Levantei-me, vi o meu reflexo no vidro de um carro, não era novo, não era velho, continuava a saber quem era, sabia o meu nome, sabia onde trabalhava, o nome de todos no escritório, tive vontade de voltar atrás, de perguntar, de pedir ajuda. Não tive coragem. Esqueci-me do meu pai, pensei outra vez na minha mãe e descobri que não tinha pai, não tinha mãos fortes a segurarem-me, de correr atrás dele, de jogar à bola. Não me lembrava da barba por fazer, do fumo dos cigarros. Lembrei-me da montanha, sorri, tive vontade de chorar, lembrei-me de estar por cima das nuvens, do verde, do barulho da água, do vazio, do medo das alturas, de uma mão que apertava a minha. Abrimos os braços, lembrei-me de abrirmos os braços, de gritar contra o vento, de rir, de sentir que podia voar, de amar. Lembrei-me de mil músicas, da chuva, de todos os dias de chuva, da praia à noite, dos barulhos da floresta, da lua, senti todos os cortes, todas as feridas, a dor em todos os momentos, lembrei-me de todas as vezes que ri, do cheiro da comida ao lume, dos meus avós, da casa fechada, do medo dos fantasmas, de correr, dos pés descalços na areia, dos castelos, senti o sol na cara, as sombras no chão, o céu cor-de-laranja, as histórias, os sítios secretos, o desejo de viajar, de fugir, o medo da tempestade, os arrepios, o coração a bater mais depressa, o Inverno que por fim chegava. Esqueci-me, esqueci-me de tudo, de mim, dos outros, senti o corpo a cair, a visão a ficar turva, que ia perder os sentidos. Sorri, antes de adormecer, desejei estar a morrer, sem saber, mas por tudo sentir, sorri, antes de os olhos fechar, voltei à montanha, ao riacho, aos olhos verdes, aos livros, ao silêncio...
Quinta-feira, Maio 29, 2008
Time Flies
Fiquei sozinha, acabei por ficar sozinha, mesmo antes de o saber. Deixei crescer o cabelo, o cabelo cinzento que sempre admirei na minha avó, o cabelo que as mulheres sós não pintam, que deixam solto e seco, para voar contra a cara, para magoar a pele fina. Não quis gatos, os gatos são para mulheres divorciadas. Eu nunca cheguei a casar, porque não soube, porque não vi, porque era tarde, porque não olhei para trás, aguentei a dor na barriga. Chamo-me Teresa, nome de mãe, da mãe que não fui, antes de secar, de já não poder. Uso sapatos rasos, digo mal dos outros, de inveja de não os ter, de não saber ensinar as pernas, uso sapatos às cores, só para irritar quem olha, para explicar quem sou, a quem não quer saber. Tenho um lenço com muitas cores, juro que já as tentei contar, mas o vento mistura-as, provoca-me, faz-me rir, por vezes sorrir.
Desci para a praia descalça, senti o verão a chegar, escondido no frio da manhã. Trazia na cabeça o meu chapéu de palha, daqueles que parecem ir desfazer-se a qualquer momento, que fazem sombras engraçadas, que gosto de contar, de tocar com os dedos, de me lembrar do piano. Perdi-me antes de o ver, um segundo antes de o ver, para voltar a mim. Arrisquei algumas palavras.
— Olá, eu sou a Teresa.
O homem virou-se devagar, sem pressa do conhecer. Parecia saborear.
— Olá Teresa, eu sou o Luís.
O silêncio voltou. O Luís olhava o horizonte, dividia o céu com um pincel na mão. Dei um passo à frente, não consegui dar mais, mas consegui ver o quadro que ele pintava. Ele explicou, antes de eu perguntar.
— Estou a pintar a noite.
— O que explica o preto — disse eu sem rir.
Ele murmurou qualquer coisa, antes de se virar.
— Na verdade não é preto, eu sei que parece, mas tem uma gota de tinta branca.
Olhou para o quadro durante uns segundos, acho que a decidir. Depois continuou.
— Consegues ver?
Eu só via preto. Esforçava-me para ver o que ele me queria mostrar, mas só via preto, não percebia a diferença. Falei irritada.
— Deves ter posto mesmo muito pouco branco.
Ele riu-se, encheu-me com o seu riso, esticou a mão para a minha. Leu-me outra vez, pensou antes de mim.
— À noite não consigo, está demasiado escuro, venho cá só para decorar, para mais tarde me lembrar, depois volto de manhã, tento acertar com o branco.
Ri-me antes dele acabar.
Sinto o tempo a voar, dor nos braços, dificuldade em respirar, a ansiedade a crescer. Com o tempo aprendi a lutar, crises do nada, medo de morrer, de não aguentar o segundo a seguir, em longos minutos. Aprendi a estremecer, um arrepio de frio, para me fazer esquecer, para não cair. Mas vivo assustada, feliz e amarga, mas assustada. Gostava de embalar, de cantar baixinho, afastar o diabo, as bruxas más, para a noite ir embora, para correr depressa.
Sentámo-nos na areia. Ele tinha mãos perfeitas, brancas, pequenas, velhas, contavam histórias. Agarrou as minhas, olhou-me nos olhos.
— És uma boa mãe.
Não contive as lágrimas, sem ficar zangada.
— Mas eu nunca... eu não tenho filhos.
— Eu sei. Vejo a forma em ti, mas tenho a certeza, és uma boa mãe.
Não lutei com ele, fechei os olhos e ouvi. Ele respirou fundo antes de falar.
— A minha mãe morreu o ano passado. Uma vida desgraçada, feita de dor, de muita dor, de sangue nos lábios, mordidos durante anos, demasiados anos. Acabou louca, esteve vinte anos internada, sem dizer uma única palavra, a olhar sempre para o mesmo sítio na parede. Nunca percebi para onde ela olhava, procurei, cheguei a levar uma lupa, mas não descobri nada, só o branco da parede, lisa, sem uma imperfeição. Desisti, com o tempo desisti.
— Achas que sofreu? — perguntei sem angústia.
— Morreu numa manhã, fechou os olhos, apenas fechou os olhos, não se despediu, não gritou, não chorou. Num segundo respirou, no outro já não.
— E tu? — perguntei.
Vi na cara dele, o sorriso mais bonito, o mais bonito que alguém alguma vez sorriu.
— Eu acordo todas as manhãs, abro os olhos e lembro-me dela. Todos os dias Teresa. É a primeira coisa em que penso. Lembro-me de uma tarde, quando tinha uns cinco ou seis anos, de estar com a cabeça no colo dela, de ela me estar a secar o cabelo, sinto o cheiro a queimado do secador, sinto o cheiro dela, das mãos, de sabão, do suor, da pele arrepiada. E choro, choro todos os dias, por este sonho repetido, que me aconchega, para sempre dentro de mim.
Olhei para cima para o quadro, procurei no meio do preto. Falei devagar, quase a cantar.
— Acho que está ali uma parte mais clara.
Ele riu-se. Depois pensou, esperou, escolheu as palavras.
— És uma menina assustada. É por isso que consegues ver.
Fechei os olhos, apertei-os muito, antes de os voltar a abrir.
Fiquei sozinha, acabei por ficar sozinha, aprendi a ficar sozinha. Tenho uma mão ao meu lado, que às vezes agarro, aperto até doer. Mas no meu mundo só estou eu, feliz, magoada, irritada, triste, risonha, inspirada, serena. O medo vem, chega sem cuidado, rebenta em mim, parte-me por dentro, rasga-me o corpo. Olho outra vez para a mão, para a mão esticada ao meu lado, hesito, espero, antes de a aceitar, porque sei que não preciso. No céu aparecem mil estrelas, que riscam a noite. E peço um desejo, só desta vez, ser a única a vê-las.
Desci para a praia descalça, senti o verão a chegar, escondido no frio da manhã. Trazia na cabeça o meu chapéu de palha, daqueles que parecem ir desfazer-se a qualquer momento, que fazem sombras engraçadas, que gosto de contar, de tocar com os dedos, de me lembrar do piano. Perdi-me antes de o ver, um segundo antes de o ver, para voltar a mim. Arrisquei algumas palavras.
— Olá, eu sou a Teresa.
O homem virou-se devagar, sem pressa do conhecer. Parecia saborear.
— Olá Teresa, eu sou o Luís.
O silêncio voltou. O Luís olhava o horizonte, dividia o céu com um pincel na mão. Dei um passo à frente, não consegui dar mais, mas consegui ver o quadro que ele pintava. Ele explicou, antes de eu perguntar.
— Estou a pintar a noite.
— O que explica o preto — disse eu sem rir.
Ele murmurou qualquer coisa, antes de se virar.
— Na verdade não é preto, eu sei que parece, mas tem uma gota de tinta branca.
Olhou para o quadro durante uns segundos, acho que a decidir. Depois continuou.
— Consegues ver?
Eu só via preto. Esforçava-me para ver o que ele me queria mostrar, mas só via preto, não percebia a diferença. Falei irritada.
— Deves ter posto mesmo muito pouco branco.
Ele riu-se, encheu-me com o seu riso, esticou a mão para a minha. Leu-me outra vez, pensou antes de mim.
— À noite não consigo, está demasiado escuro, venho cá só para decorar, para mais tarde me lembrar, depois volto de manhã, tento acertar com o branco.
Ri-me antes dele acabar.
Sinto o tempo a voar, dor nos braços, dificuldade em respirar, a ansiedade a crescer. Com o tempo aprendi a lutar, crises do nada, medo de morrer, de não aguentar o segundo a seguir, em longos minutos. Aprendi a estremecer, um arrepio de frio, para me fazer esquecer, para não cair. Mas vivo assustada, feliz e amarga, mas assustada. Gostava de embalar, de cantar baixinho, afastar o diabo, as bruxas más, para a noite ir embora, para correr depressa.
Sentámo-nos na areia. Ele tinha mãos perfeitas, brancas, pequenas, velhas, contavam histórias. Agarrou as minhas, olhou-me nos olhos.
— És uma boa mãe.
Não contive as lágrimas, sem ficar zangada.
— Mas eu nunca... eu não tenho filhos.
— Eu sei. Vejo a forma em ti, mas tenho a certeza, és uma boa mãe.
Não lutei com ele, fechei os olhos e ouvi. Ele respirou fundo antes de falar.
— A minha mãe morreu o ano passado. Uma vida desgraçada, feita de dor, de muita dor, de sangue nos lábios, mordidos durante anos, demasiados anos. Acabou louca, esteve vinte anos internada, sem dizer uma única palavra, a olhar sempre para o mesmo sítio na parede. Nunca percebi para onde ela olhava, procurei, cheguei a levar uma lupa, mas não descobri nada, só o branco da parede, lisa, sem uma imperfeição. Desisti, com o tempo desisti.
— Achas que sofreu? — perguntei sem angústia.
— Morreu numa manhã, fechou os olhos, apenas fechou os olhos, não se despediu, não gritou, não chorou. Num segundo respirou, no outro já não.
— E tu? — perguntei.
Vi na cara dele, o sorriso mais bonito, o mais bonito que alguém alguma vez sorriu.
— Eu acordo todas as manhãs, abro os olhos e lembro-me dela. Todos os dias Teresa. É a primeira coisa em que penso. Lembro-me de uma tarde, quando tinha uns cinco ou seis anos, de estar com a cabeça no colo dela, de ela me estar a secar o cabelo, sinto o cheiro a queimado do secador, sinto o cheiro dela, das mãos, de sabão, do suor, da pele arrepiada. E choro, choro todos os dias, por este sonho repetido, que me aconchega, para sempre dentro de mim.
Olhei para cima para o quadro, procurei no meio do preto. Falei devagar, quase a cantar.
— Acho que está ali uma parte mais clara.
Ele riu-se. Depois pensou, esperou, escolheu as palavras.
— És uma menina assustada. É por isso que consegues ver.
Fechei os olhos, apertei-os muito, antes de os voltar a abrir.
Fiquei sozinha, acabei por ficar sozinha, aprendi a ficar sozinha. Tenho uma mão ao meu lado, que às vezes agarro, aperto até doer. Mas no meu mundo só estou eu, feliz, magoada, irritada, triste, risonha, inspirada, serena. O medo vem, chega sem cuidado, rebenta em mim, parte-me por dentro, rasga-me o corpo. Olho outra vez para a mão, para a mão esticada ao meu lado, hesito, espero, antes de a aceitar, porque sei que não preciso. No céu aparecem mil estrelas, que riscam a noite. E peço um desejo, só desta vez, ser a única a vê-las.
Quarta-feira, Março 19, 2008
Pai
Viro a cabeça ao ouvir o som de metal no chão. Um homem pragueja e pega no recipiente onde larga as moedas que apanha curvado. Outra pessoa passa a correr e as moedas voam de novo para longe. O homem amaldiçoa a sorte, o mundo, a chuva, sem perceber que está no caminho dos outros. Uma rapariga ajuda-o a procurar as moedas e ele não agradece. Afasto a imagem do meu pai e desço as escadas rolantes.
À espera do metro está um rapaz com um acordeão. É um quadro antigo, igual em tantas recordações, pele escura, dedos sujos, um pequeno cão que nunca cresce, nenhum dos dois cresce, uma garrafa de plástico cortada ao meio, um pedaço de cordel na boca do animal. O rapaz não vê ninguém, distraído com um jogo electrónico nas mãos. O brinquedo deve ter custado mais do que um dia de esmolas, mas ele não se importa. Tenho a certeza que o vai esconder, quando começar a pedir. Lembro-me outra vez do meu pai, não consigo esquecer.
Depois do apitar das portas ouço um cego. Conheço os cegos do metro todos de cor, separo-os em grupos, divido-os por cheiros, pela pena que sinto. Existe um que me irrita, por um dia ter falado mal a uma senhora, mesmo tendo razão. Reconheço-o depressa, jogo com o destino, digo que o dia me vai correr mal se ele me tocar. Ele não me vê, mas dá-me um encontrão quando passa por mim. Segue o seu caminho, mais escuro do que o meu.
A vida do meu pai sempre foi improvável, o Homem-Impossível, como eu lhe chamava, um super-herói imaginado. Um dia comprou um carro, ele comprava um carro novo todos os anos. Fui buscá-lo com ele, brinquei com os dedos na pintura creme, antes de reparar na matrícula. As duas primeiras letras eram as iniciais dele, os números o dia do aniversário. Vi os olhos do vendedor, vi demasiadas vezes aquele olhar. Todos os meses ia ao Bingo, sentava-se numas cadeiras vermelhas, que tinham sido vermelhas. Fazia sempre uma linha, sempre no segundo cartão da noite. Fingia que não acertava em mais nenhum número, de braços sobre a mesa, escondendo o jogo. Os empregados sabiam, calavam-se por simpatia, por pequenas gratificações, por medo. Um dia perguntei-lhe porque o fazia. Riu-se e disse que um dia iria perceber. Nunca percebi, o tempo passou e eu nunca percebi.
As histórias de guerra eram segredo, guardava-as no ar triste, na cara sempre contraída. Só não podia esconder as cicatrizes, seis riscos no rosto, três do lado esquerdo, mais três do lado direito. Contou-me, depois de choros e ameaças. Tinham disparado perto, seis balas que apenas o queimaram, que desenharam uma expressão. Tornou-se uma lenda, caminhava sempre à frente dos outros, que pisavam o mesmo caminho com cuidado. Nunca ia aos encontros de antigos combatentes, não mantinha contacto com aquela outra vida. Mas todos os anos, sempre no mesmo dia de Março, recebia um embrulho cheio de coisas esquisitas. Amuletos, pedaços de tecido camuflado, crucifixos, fotografias de homens feridos. Não perguntei, nunca tive coragem de perguntar.
Volto ao homem que corria atrás das moedas. Imagino-o o dia todo a repetir as mesmas palavras, raiva, dor, ajuda, fome, angústia. Vejo a cidade cinzenta, toda em tons de cinzento. Pergunto como é que as pessoas mudam, porque me parecem todas iguais. À minha frente um ecrã mostra a hora e o dia. Sorrio pelo impossível, porque sempre herdamos algo, mesmo o que fica escondido.
Escolho a chuva e peço três desejos, que o calor que sinto seja o mesmo, que o meu choro seja igual, que um dia se juntem num só.
À espera do metro está um rapaz com um acordeão. É um quadro antigo, igual em tantas recordações, pele escura, dedos sujos, um pequeno cão que nunca cresce, nenhum dos dois cresce, uma garrafa de plástico cortada ao meio, um pedaço de cordel na boca do animal. O rapaz não vê ninguém, distraído com um jogo electrónico nas mãos. O brinquedo deve ter custado mais do que um dia de esmolas, mas ele não se importa. Tenho a certeza que o vai esconder, quando começar a pedir. Lembro-me outra vez do meu pai, não consigo esquecer.
Depois do apitar das portas ouço um cego. Conheço os cegos do metro todos de cor, separo-os em grupos, divido-os por cheiros, pela pena que sinto. Existe um que me irrita, por um dia ter falado mal a uma senhora, mesmo tendo razão. Reconheço-o depressa, jogo com o destino, digo que o dia me vai correr mal se ele me tocar. Ele não me vê, mas dá-me um encontrão quando passa por mim. Segue o seu caminho, mais escuro do que o meu.
A vida do meu pai sempre foi improvável, o Homem-Impossível, como eu lhe chamava, um super-herói imaginado. Um dia comprou um carro, ele comprava um carro novo todos os anos. Fui buscá-lo com ele, brinquei com os dedos na pintura creme, antes de reparar na matrícula. As duas primeiras letras eram as iniciais dele, os números o dia do aniversário. Vi os olhos do vendedor, vi demasiadas vezes aquele olhar. Todos os meses ia ao Bingo, sentava-se numas cadeiras vermelhas, que tinham sido vermelhas. Fazia sempre uma linha, sempre no segundo cartão da noite. Fingia que não acertava em mais nenhum número, de braços sobre a mesa, escondendo o jogo. Os empregados sabiam, calavam-se por simpatia, por pequenas gratificações, por medo. Um dia perguntei-lhe porque o fazia. Riu-se e disse que um dia iria perceber. Nunca percebi, o tempo passou e eu nunca percebi.
As histórias de guerra eram segredo, guardava-as no ar triste, na cara sempre contraída. Só não podia esconder as cicatrizes, seis riscos no rosto, três do lado esquerdo, mais três do lado direito. Contou-me, depois de choros e ameaças. Tinham disparado perto, seis balas que apenas o queimaram, que desenharam uma expressão. Tornou-se uma lenda, caminhava sempre à frente dos outros, que pisavam o mesmo caminho com cuidado. Nunca ia aos encontros de antigos combatentes, não mantinha contacto com aquela outra vida. Mas todos os anos, sempre no mesmo dia de Março, recebia um embrulho cheio de coisas esquisitas. Amuletos, pedaços de tecido camuflado, crucifixos, fotografias de homens feridos. Não perguntei, nunca tive coragem de perguntar.
Volto ao homem que corria atrás das moedas. Imagino-o o dia todo a repetir as mesmas palavras, raiva, dor, ajuda, fome, angústia. Vejo a cidade cinzenta, toda em tons de cinzento. Pergunto como é que as pessoas mudam, porque me parecem todas iguais. À minha frente um ecrã mostra a hora e o dia. Sorrio pelo impossível, porque sempre herdamos algo, mesmo o que fica escondido.
Escolho a chuva e peço três desejos, que o calor que sinto seja o mesmo, que o meu choro seja igual, que um dia se juntem num só.
Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
Olhos Tristes
amo-te
porque não sei o que sinto
sem saber se te quero
porque sei que te tenho
sem te poder tocar
em todos os dias de chuva
no frio que me abraça
de todas as noites sem fim
— Quando é que escreveste isto? — perguntou ela, disfarçando os olhos tristes.
— Não sei... Ontem... Há uns anos... Parece-me que o escrevo desde sempre.
Maria sentou-se no sofá e puxou João para ela.
— Este amor... Ela existiu?
— Não te sei responder Maria, não tenho a certeza, já não tenho a certeza de nada.
Maria suspirou, sentido o calor de um ombro, embalado no seu.
— Alguma vez te escreveram uma carta de amor? — perguntou ele, com um ar envergonhado.
— Hum... Acho que não. Não, não me lembro de nenhuma. Triste, não é? Tu recebeste?
— Quando era miúdo — respondeu orgulhoso.
— Conta-me!
João deitou a cabeça no colo de Maria, esperou antes de começar a falar, como se primeiro tivesse de sentir.
— Eu tinha nove anos, acho que ela era um ano mais nova. Andávamos os dois na ginástica, ela costumava rir-se para mim. Como sempre não tive coragem de lhe falar, pedi ao irmão dela que o fizesse, que lhe contasse que gostava dela.
— Um emissário — brincou Maria.
— Sim. Uns dias mais tarde fiquei doente, uma semana em casa com anginas. Já não me lembro como é que ela soube, nós nem éramos da mesma turma. Mas um dia o meu irmão trouxe-me uma carta.
— E o que dizia? — perguntou Maria impaciente.
— Que sabia que eu gostava dela, que também gostava de mim, que queria ser minha namorada, coisas de miúdos.
— Que lindo! — disse ela num tom brincalhão.
— Não gozes — disse ele zangado, sem o estar.
— Foi a tua primeira namorada?
— Sim, foi.
— E?
— O que queres saber?
— Vá lá, não sejas assim. Conta-me! O que aconteceu depois?
João esperou outra vez, antes de recomeçar.
— Nada, eu passava por ela e apenas sorria, nem sequer parava. Um dia descobri que ela já tinha outro namorado, devo ter sido o último a saber. Mas também eu nem me aproximava, não tinha coragem. Há coisas que sempre foram assim, que hão-de ser sempre iguais.
Maria passou a mão pelo cabelo curto de João, aconchegou-o nos seus braços.
— Ela não te merecia — disse a rir, um riso que o contagiou.
— Sabes — disse, de olhos no tecto —, durante algum tempo fiquei triste, mas acho que foi o amor mais perfeito que já tive, tão puro que não precisava de quase nada. Não havia o tocar, o cheiro, a roupa entre os dedos, para mim bastavam as palavras que ela escreveu, de saber que gostava de mim. O resto era demasiado real, e eu ainda não sabia como lidar com isso, percebes?
— Sim — respondeu Maria. — E a carta, sabes onde está?
— Não, não sei, apesar de a ter guardado durante muito tempo.
— Estás a brincar — disse ela de olhos muito abertos.
— Não. Durante anos guardei-a a numa gaveta de uma escrivaninha que havia no meu quarto. Lia-a imensas vezes, tantas que o papel começou a rasgar-se nos sítios onde estava dobrado. Gosto de pensar que se desfez em pó, que um dia lhe toquei e as palavras desapareceram à frente dos meus olhos.
— Só tu, só mesmo tu — disse ela a sorrir. — E a rapariga? Continuaste a fugir dela?
— Sim, continuei — disse ele, enquanto tapava a cara com as mãos. — Mas a história não acaba aqui.
— Não? — perguntou ela intrigada.
— Não. Se o mundo, se a vida fizesse sentido, nunca mais a tinha visto, ou se calhar tínhamos vivido um romance trágico, um amor como os dos livros.
Maria conteve a curiosidade, deixou-o continuar.
— Um dia encontrei-a numa festa, acho que devia ter uns dezasseis anos. Nunca mais tínhamos falado, se é que alguma vez o fizemos. Eu pouco sabia dela.
— E o que aconteceu?
— Ela veio chamar-me para dançar, mais do que uma vez. Quando dei por mim estava mais perto do que alguma vez tinha estado. Senti o calor dela na minha cara, senti-a a respirar, senti o corpo junto ao meu. E por um momento, tudo à nossa volta desapareceu, só havia a música, e nós dois a rodar. Então aproximei os meus lábios dos dela devagar, tão perto que ela me beijou. Um beijo que soube a medo.
— A medo? — perguntou Maria.
— Sim, a medo. Não sei explicar melhor. Foi um momento mágico, mas havia algo, alguma coisa que eu não cheguei a perceber. Se calhar foi só de já não termos nove anos, ou então outra coisa qualquer. Não sei, não sei o que foi.
— Viste-a mais alguma vez?
— Sim, nesse mesmo dia, à noite. Não tive coragem de lhe dizer nada, nem sei se queria. Depois disso nunca mais a vi.
Maria ficou pensativa.
— Esse beijo, esse encontro quando já eras mais velho, não faz sentido. Isso que contaste não faz sentido.
— Eu sei Maria. Não penso muitas vezes nisto, não sei porquê esqueço-me desta história, mas sim, foi estranho.
Maria levantou-se, obrigando João a sair do seu colo.
— Bolas, tenho que ir comer um chocolate, queres? — perguntou ela, tentando segurar o riso.
João sentiu um arrepio, um sabor na boca, que desaparecia devagar. Depois riu-se também, e esqueceu-se outra vez.
— Sim, também quero chocolate.
porque não sei o que sinto
sem saber se te quero
porque sei que te tenho
sem te poder tocar
em todos os dias de chuva
no frio que me abraça
de todas as noites sem fim
— Quando é que escreveste isto? — perguntou ela, disfarçando os olhos tristes.
— Não sei... Ontem... Há uns anos... Parece-me que o escrevo desde sempre.
Maria sentou-se no sofá e puxou João para ela.
— Este amor... Ela existiu?
— Não te sei responder Maria, não tenho a certeza, já não tenho a certeza de nada.
Maria suspirou, sentido o calor de um ombro, embalado no seu.
— Alguma vez te escreveram uma carta de amor? — perguntou ele, com um ar envergonhado.
— Hum... Acho que não. Não, não me lembro de nenhuma. Triste, não é? Tu recebeste?
— Quando era miúdo — respondeu orgulhoso.
— Conta-me!
João deitou a cabeça no colo de Maria, esperou antes de começar a falar, como se primeiro tivesse de sentir.
— Eu tinha nove anos, acho que ela era um ano mais nova. Andávamos os dois na ginástica, ela costumava rir-se para mim. Como sempre não tive coragem de lhe falar, pedi ao irmão dela que o fizesse, que lhe contasse que gostava dela.
— Um emissário — brincou Maria.
— Sim. Uns dias mais tarde fiquei doente, uma semana em casa com anginas. Já não me lembro como é que ela soube, nós nem éramos da mesma turma. Mas um dia o meu irmão trouxe-me uma carta.
— E o que dizia? — perguntou Maria impaciente.
— Que sabia que eu gostava dela, que também gostava de mim, que queria ser minha namorada, coisas de miúdos.
— Que lindo! — disse ela num tom brincalhão.
— Não gozes — disse ele zangado, sem o estar.
— Foi a tua primeira namorada?
— Sim, foi.
— E?
— O que queres saber?
— Vá lá, não sejas assim. Conta-me! O que aconteceu depois?
João esperou outra vez, antes de recomeçar.
— Nada, eu passava por ela e apenas sorria, nem sequer parava. Um dia descobri que ela já tinha outro namorado, devo ter sido o último a saber. Mas também eu nem me aproximava, não tinha coragem. Há coisas que sempre foram assim, que hão-de ser sempre iguais.
Maria passou a mão pelo cabelo curto de João, aconchegou-o nos seus braços.
— Ela não te merecia — disse a rir, um riso que o contagiou.
— Sabes — disse, de olhos no tecto —, durante algum tempo fiquei triste, mas acho que foi o amor mais perfeito que já tive, tão puro que não precisava de quase nada. Não havia o tocar, o cheiro, a roupa entre os dedos, para mim bastavam as palavras que ela escreveu, de saber que gostava de mim. O resto era demasiado real, e eu ainda não sabia como lidar com isso, percebes?
— Sim — respondeu Maria. — E a carta, sabes onde está?
— Não, não sei, apesar de a ter guardado durante muito tempo.
— Estás a brincar — disse ela de olhos muito abertos.
— Não. Durante anos guardei-a a numa gaveta de uma escrivaninha que havia no meu quarto. Lia-a imensas vezes, tantas que o papel começou a rasgar-se nos sítios onde estava dobrado. Gosto de pensar que se desfez em pó, que um dia lhe toquei e as palavras desapareceram à frente dos meus olhos.
— Só tu, só mesmo tu — disse ela a sorrir. — E a rapariga? Continuaste a fugir dela?
— Sim, continuei — disse ele, enquanto tapava a cara com as mãos. — Mas a história não acaba aqui.
— Não? — perguntou ela intrigada.
— Não. Se o mundo, se a vida fizesse sentido, nunca mais a tinha visto, ou se calhar tínhamos vivido um romance trágico, um amor como os dos livros.
Maria conteve a curiosidade, deixou-o continuar.
— Um dia encontrei-a numa festa, acho que devia ter uns dezasseis anos. Nunca mais tínhamos falado, se é que alguma vez o fizemos. Eu pouco sabia dela.
— E o que aconteceu?
— Ela veio chamar-me para dançar, mais do que uma vez. Quando dei por mim estava mais perto do que alguma vez tinha estado. Senti o calor dela na minha cara, senti-a a respirar, senti o corpo junto ao meu. E por um momento, tudo à nossa volta desapareceu, só havia a música, e nós dois a rodar. Então aproximei os meus lábios dos dela devagar, tão perto que ela me beijou. Um beijo que soube a medo.
— A medo? — perguntou Maria.
— Sim, a medo. Não sei explicar melhor. Foi um momento mágico, mas havia algo, alguma coisa que eu não cheguei a perceber. Se calhar foi só de já não termos nove anos, ou então outra coisa qualquer. Não sei, não sei o que foi.
— Viste-a mais alguma vez?
— Sim, nesse mesmo dia, à noite. Não tive coragem de lhe dizer nada, nem sei se queria. Depois disso nunca mais a vi.
Maria ficou pensativa.
— Esse beijo, esse encontro quando já eras mais velho, não faz sentido. Isso que contaste não faz sentido.
— Eu sei Maria. Não penso muitas vezes nisto, não sei porquê esqueço-me desta história, mas sim, foi estranho.
Maria levantou-se, obrigando João a sair do seu colo.
— Bolas, tenho que ir comer um chocolate, queres? — perguntou ela, tentando segurar o riso.
João sentiu um arrepio, um sabor na boca, que desaparecia devagar. Depois riu-se também, e esqueceu-se outra vez.
— Sim, também quero chocolate.
Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Mudança
Desde que tinham entrado no carro Margarida estava calada, sempre com a cabeça encostada ao vidro. Rui repetia em voz baixa o convite que não tinha planeado, tentava perceber o que queria, entender o desejo, a falta de calor.
— Para onde estás a olhar? — perguntou quase irritado.
— Estou a contar as luzes ao longe — respondeu ela sem virar a cara. — Não me digas que nunca o fizeste.
— Quando era criança — disse pensativo —, agora esqueço-me, esqueço-me de o fazer.
Margarida endireitou-se no banco.
— Porque é que me pediste para vir contigo? Nós acabámos de nos conhecer.
— Porque é que aceitaste? — perguntou ele.
— Disseste que me mostravas um sítio secreto, como podia resistir?
Rui acendeu um cigarro, inspirou-o lentamente e ofereceu-o de dedos esticados. Ela recusou. Ele respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Soube no momento em que te vi — disse, enquanto mudava a música. — Quis perguntar-te logo, ainda não tinha ouvido sequer a tua voz.
Margarida não respondeu e virou-se outra vez para a noite.
A areia era grossa, daquela que não se solta da pele. Os dois olhavam o céu deitados de barriga para cima. Margarida tentava lembrar-se do nome das estrelas, mas tinha sido há demasiado tempo. Deitou-se de lado antes de começar a falar.
— Quando é que é suposto começar a cena romântica? — perguntou num tom divertido.
Rui desatou a rir.
— Não é suposto Margarida, acredita que não é suposto — respondeu.
— Qual é a tua história? — perguntou ela com um ar muito sério.
Rui voltou atrás, a um livro de banda desenhada que lera quando tinha treze ou catorze anos. No alto de um prédio um homem rezava, pedia perdão pelo que ia fazer, olhava os carros lá em baixo e ganhava coragem. No último momento arrependia-se, desejava viver, abraçar a mulher, proteger os filhos ainda pequenos. Mas o vento não o ouvia, empurrava-o para o vazio, quase sem tempo para gritar. O livro acabava em tons de vermelho, sobre a neve que cobria a cidade.
— Eu trabalhei no metro — disse ele de repente.
— E? Não estás à espera que eu diga nada, pois não? Para mim é um trabalho como outro qualquer.
Era a brusquidão dela que o atraía.
— Posso continuar? — perguntou, fingindo estar zangado.
— Sim, desculpa — disse ela envergonhada.
— Um dia atirou-se um homem para a linha, mesmo à frente do metro. — Fez uma pausa antes de continuar. — Eu não consegui parar o metro, não dava para parar.
Margarida agarrou as mãos dele, estavam suadas e frias.
— Rui, tens a certeza que queres falar nisto?
Ele baixou a cabeça e continuou.
— Tiveram de me tirar de dentro da carruagem em braços. Fiquei paralisado, na expressão do homem que saltou, nos olhos dele nos meus. — Fez outra pausa, para recuperar o fôlego. — Foi a última coisa que ele viu, o meu olhar assustado.
Uma onda rebentou e encheu a noite de pequenos salpicos, de sal que se conseguia sentir lambendo as gotas nos lábios. Margarida juntou-se a ele, abraçou-o com força e esperou que ele continuasse.
— Dois anos! Dois anos Margarida! Foi o tempo que aguentei, todos os dias, estação a estação, sempre a olhar as pessoas, sempre a tentar adivinhar, sempre com um frio no estômago.
Outra onda rebentou com força, como se o mar sentisse o medo. Margarida desistiu de todas as palavras em que pensou, do consolo que não sabia como dar, encostou-se apenas a ele e ouviu o seu coração acelerado.
— E depois? — perguntou ela.
— Um dia conheci um senhor, um homem na paragem do autocarro. Ele meteu conversa, já nem me lembro sobre o quê, só sei que acabei a contar-lhe da minha prisão, dos meus dias sem fim. Acho que ele me fez lembrar o meu avô, ele conseguia sempre fazer conversa com as pessoas na rua.
— Conheço o género — disse ela a sorrir. — Mas e depois? Disse-te alguma coisa que te ajudou?
— Contou-me uma história, sobre uma briga que tinha tido com um amigo de infância. Uma coisa estranha, conheciam-se desde sempre, mas um dia começaram a discutir por causa de algo sem importãncia e acabaram à pancada. Quando os separaram praguejaram, disseram o que não sentiam, amaldiçoaram-se mutuamente.
— Homens! — disse ela com um ar de reprovação.
— Pois, homens — disse ele sem convicção. — Mas o outro, o que tinha sido amigo do senhor que me contou a história, parece que lhe lançou uma praga muito estranha.
— Como assim? — perguntou ela intrigada.
— Disse-lhe que no dia em que iria morrer, que nesse dia ouviria uma determinada música antes de morrer.
— Uma música? — perguntou ela, cada vez mais curiosa.
— Sim, uma música. Ele até me disse qual era, mas sinceramente não decorei.
Margarida ficou em silêncio. Pensou como reagiria a algo assim, como seria viver cada dia à espera de uma música, que anunciaria a sua morte.
— Sabes o que é que fez o senhor a quem foi lançada a praga? — perguntou ele.
— Não consigo imaginar — respondeu ela. — Passou a viver apavorado?
— Não! — disse ele com um ar triunfante. — Sabes o que é que ele fez? Eu não acreditei quando ele me contou.
— Conta-me Rui! — gritou ela impaciente.
— A partir desse dia, logo na manhã seguinte, a primeira coisa que ele passou a fazer foi ouvir a música, a que o devia matar.
— Bolas! — exclamou ela. — Ele enfrentou o medo, imagino até que o tenha feito desaparecer. Já o estou a ver, a colocar a agulha sobre o disco, um ritual que às tantas deixou de fazer sentido, que continuou só por hábito.
Rui olhou-a, escondendo o resto da história durante um minuto.
— Não Margarida, ele contou-me, que não havia um só dia, um único dia, em que não sentisse medo, quando a música começava a tocar.
Margarida sentiu a respiração de Rui, a vontade, o pavor de continuar sozinho. Sorriu antes de falar.
— Deixaste o emprego no metro no dia seguinte, não deixaste?
Rui esperou um segundo, para sentir que era verdade.
— Sim, desisti.
Margarida olhava as luzes outra vez. Inspirava o fumo que enchia o carro, que lhe lembrava as viagens com os pais, ela e a irmã à espera do cheiro de um fósforo riscado, da madeira a arder, do ardor na garganta. Encostou a cabeça no ombro de Rui e fechou os olhos. Deixou-se embalar pelo caminho.
— Para onde estás a olhar? — perguntou quase irritado.
— Estou a contar as luzes ao longe — respondeu ela sem virar a cara. — Não me digas que nunca o fizeste.
— Quando era criança — disse pensativo —, agora esqueço-me, esqueço-me de o fazer.
Margarida endireitou-se no banco.
— Porque é que me pediste para vir contigo? Nós acabámos de nos conhecer.
— Porque é que aceitaste? — perguntou ele.
— Disseste que me mostravas um sítio secreto, como podia resistir?
Rui acendeu um cigarro, inspirou-o lentamente e ofereceu-o de dedos esticados. Ela recusou. Ele respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Soube no momento em que te vi — disse, enquanto mudava a música. — Quis perguntar-te logo, ainda não tinha ouvido sequer a tua voz.
Margarida não respondeu e virou-se outra vez para a noite.
A areia era grossa, daquela que não se solta da pele. Os dois olhavam o céu deitados de barriga para cima. Margarida tentava lembrar-se do nome das estrelas, mas tinha sido há demasiado tempo. Deitou-se de lado antes de começar a falar.
— Quando é que é suposto começar a cena romântica? — perguntou num tom divertido.
Rui desatou a rir.
— Não é suposto Margarida, acredita que não é suposto — respondeu.
— Qual é a tua história? — perguntou ela com um ar muito sério.
Rui voltou atrás, a um livro de banda desenhada que lera quando tinha treze ou catorze anos. No alto de um prédio um homem rezava, pedia perdão pelo que ia fazer, olhava os carros lá em baixo e ganhava coragem. No último momento arrependia-se, desejava viver, abraçar a mulher, proteger os filhos ainda pequenos. Mas o vento não o ouvia, empurrava-o para o vazio, quase sem tempo para gritar. O livro acabava em tons de vermelho, sobre a neve que cobria a cidade.
— Eu trabalhei no metro — disse ele de repente.
— E? Não estás à espera que eu diga nada, pois não? Para mim é um trabalho como outro qualquer.
Era a brusquidão dela que o atraía.
— Posso continuar? — perguntou, fingindo estar zangado.
— Sim, desculpa — disse ela envergonhada.
— Um dia atirou-se um homem para a linha, mesmo à frente do metro. — Fez uma pausa antes de continuar. — Eu não consegui parar o metro, não dava para parar.
Margarida agarrou as mãos dele, estavam suadas e frias.
— Rui, tens a certeza que queres falar nisto?
Ele baixou a cabeça e continuou.
— Tiveram de me tirar de dentro da carruagem em braços. Fiquei paralisado, na expressão do homem que saltou, nos olhos dele nos meus. — Fez outra pausa, para recuperar o fôlego. — Foi a última coisa que ele viu, o meu olhar assustado.
Uma onda rebentou e encheu a noite de pequenos salpicos, de sal que se conseguia sentir lambendo as gotas nos lábios. Margarida juntou-se a ele, abraçou-o com força e esperou que ele continuasse.
— Dois anos! Dois anos Margarida! Foi o tempo que aguentei, todos os dias, estação a estação, sempre a olhar as pessoas, sempre a tentar adivinhar, sempre com um frio no estômago.
Outra onda rebentou com força, como se o mar sentisse o medo. Margarida desistiu de todas as palavras em que pensou, do consolo que não sabia como dar, encostou-se apenas a ele e ouviu o seu coração acelerado.
— E depois? — perguntou ela.
— Um dia conheci um senhor, um homem na paragem do autocarro. Ele meteu conversa, já nem me lembro sobre o quê, só sei que acabei a contar-lhe da minha prisão, dos meus dias sem fim. Acho que ele me fez lembrar o meu avô, ele conseguia sempre fazer conversa com as pessoas na rua.
— Conheço o género — disse ela a sorrir. — Mas e depois? Disse-te alguma coisa que te ajudou?
— Contou-me uma história, sobre uma briga que tinha tido com um amigo de infância. Uma coisa estranha, conheciam-se desde sempre, mas um dia começaram a discutir por causa de algo sem importãncia e acabaram à pancada. Quando os separaram praguejaram, disseram o que não sentiam, amaldiçoaram-se mutuamente.
— Homens! — disse ela com um ar de reprovação.
— Pois, homens — disse ele sem convicção. — Mas o outro, o que tinha sido amigo do senhor que me contou a história, parece que lhe lançou uma praga muito estranha.
— Como assim? — perguntou ela intrigada.
— Disse-lhe que no dia em que iria morrer, que nesse dia ouviria uma determinada música antes de morrer.
— Uma música? — perguntou ela, cada vez mais curiosa.
— Sim, uma música. Ele até me disse qual era, mas sinceramente não decorei.
Margarida ficou em silêncio. Pensou como reagiria a algo assim, como seria viver cada dia à espera de uma música, que anunciaria a sua morte.
— Sabes o que é que fez o senhor a quem foi lançada a praga? — perguntou ele.
— Não consigo imaginar — respondeu ela. — Passou a viver apavorado?
— Não! — disse ele com um ar triunfante. — Sabes o que é que ele fez? Eu não acreditei quando ele me contou.
— Conta-me Rui! — gritou ela impaciente.
— A partir desse dia, logo na manhã seguinte, a primeira coisa que ele passou a fazer foi ouvir a música, a que o devia matar.
— Bolas! — exclamou ela. — Ele enfrentou o medo, imagino até que o tenha feito desaparecer. Já o estou a ver, a colocar a agulha sobre o disco, um ritual que às tantas deixou de fazer sentido, que continuou só por hábito.
Rui olhou-a, escondendo o resto da história durante um minuto.
— Não Margarida, ele contou-me, que não havia um só dia, um único dia, em que não sentisse medo, quando a música começava a tocar.
Margarida sentiu a respiração de Rui, a vontade, o pavor de continuar sozinho. Sorriu antes de falar.
— Deixaste o emprego no metro no dia seguinte, não deixaste?
Rui esperou um segundo, para sentir que era verdade.
— Sim, desisti.
Margarida olhava as luzes outra vez. Inspirava o fumo que enchia o carro, que lhe lembrava as viagens com os pais, ela e a irmã à espera do cheiro de um fósforo riscado, da madeira a arder, do ardor na garganta. Encostou a cabeça no ombro de Rui e fechou os olhos. Deixou-se embalar pelo caminho.
Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
Violeta
A mulher vestida de cinzento lembra-me a minha tia Inês, traz-me o seu sorriso de volta, as suas histórias contadas, repetidas vezes sem conta, até já não ter coragem de pedir. O autocarro embala-me a manhã, mergulhando-me em sonhos, afastando o acordar. Lembro-me da minha história preferida.
Era uma vez uma menina, uma princesa que vivia num lugar distante, um mundo feito de erva verde, de montes redondos que escondiam o Sol. A menina chamava-se Violeta, um nome escolhido pelo vento, trazido em murmúrios, no barulho das folhas, da água a correr. Violeta não era filha de um Rei, não conhecera sequer o colo de uma mãe, uma Rainha de coroa dourada, vestida com roupas de seda. Era apenas uma princesa, uma menina, mas senhora de um mundo, de campos que não tinham fim. Nesse mundo não havia noite, só a manhã e o entardecer, só o momento antes da primeira estrela, que chamava a luz outra vez, girassóis gigantes que dançavam sem parar, quase sem descanso, num reflexo eterno. Um dia Violeta conheceu um rapaz, ainda não era um homem quando o descobriu, com uma pequena barba de pêlos louros, trepando às árvores, saltando nas pedras do rio. O rapaz era delicado, educado, ensinado a encantar, virtudes que não faziam sentido no mundo de Violeta, que se apaixonara sem as perceber, mesmo antes de descobrir o que escondiam. Ela ficou presa nas palavras, nas aventuras, em reinos longínquos, em histórias de amor, mas também num raro saber, de conseguir ver melhor, de contar mais cores nos insectos, no apontar de uma flor, de um pôr-do-sol, que nunca chegava a acontecer.
O autocarro trava bruscamente. Sinto uma dor no estômago, um murro invisível, igual ao que sentia, no momento em que o mundo perfeito da menina ruía, nas palavras da tia Inês, quando eu só suportava ouvir o resto, de mãos muito apertadas nas dela.
Uma cor apareceu pela primeira vez, desconhecida, perigosa. Violeta espreitou escondida, não por medo, que não conhecia, não por desconfiança, que não existia, só pelo estranhar, dos braços enormes, cheios de pêlos, só pelo tom da noite, que nunca caía. Aproximou-se devagar, do monstro que era o rapaz, sentiu o cheiro intenso, um odor vermelho, um desejo, que não a conseguiu afastar. O monstro feriu-a, rasgou-lhe a carne, magoou-a para sempre, para ela não esquecer, um último aviso, antes de se transformar, da pele branca voltar a brilhar. O rapaz tocou a ferida, fechou-a com um sopro, mas a cicatriz nunca mais desapareceu. Violeta enamorou-se outra vez, sem o ter deixado de estar, sem esquecer, por nada haver a lembrar. Acreditou, fechou os olhos e ouviu, viu o seu mundo perfeito a brilhar, sentiu algo novo, a primeira vez, o descobrir, o começar. Deu uma das mãos ao rapaz, a outra pousou-a no chão, onde uma trepadeira nascia, procurando um tronco de árvore. A planta enrolou-se no seu braço, apertando-o com cuidado, subindo devagar, sem tocar na cicatriz, até o tapar quase todo, prendendo-a, com medo de a perder. O dia nasceu, sem nunca ter adormecido.
Um bêbado grita, berra, chama pela mãe, ajoelha-se no chão e reza, antes de começar a chorar. O autocarro arranca, deixa para trás o homem, deitado no chão, de olhos no céu. Eu ganho coragem para continuar, inspiro o fumo dos outros, entorpeço os sentidos, tento fugir de mim, para conseguir.
Um bramido fez Violeta correr, pedir, que pudesse estar a sonhar. O monstro tinha as garras espetadas num alce, um amigo antigo, sem tempo de ver, de olhar o mundo à sua volta, com os olhos fechados à força, com um último respirar, do seu próprio morrer. O monstro devorou a carne voraz, cresceu o peito para cima, queimou a terra à sua volta, um desafio em fúria, feito de medo, de ira, de tudo o que não podia existir ali, abrindo uma ferida, que nunca iria sarar. Violeta ficou parada à frente dele, chamou o rapaz uma última vez, por uma resposta que não podia esperar. Tocou-lhe no pêlo com o braço ferido, hesitando só por um fragmento de tempo, antes de se despedir sem mágoa. O monstro era duas vezes maior, mas ficou junto ao chão, aceitando o castigo, pelo qual sempre esperou. Violeta viu os olhos do rapaz, antes de gritar em silêncio. A besta elevou-se no ar, escondendo a dor, quando ouviu as palavras antigas, que o transformaram em pó. A princesa ajoelhou-se, ordenou ao vento que soprasse forte, que afastasse a cor escura do seu mundo. O vento obedeceu, levou com ele o que antes tinha sido o monstro, o rapaz, as histórias, a dor, a cor, a água fria, o belo, o disforme. Cobriu o céu com o pó negro, e fez a primeira noite. A menina, a princesa, deixou por fim as lágrimas caírem, mil lágrimas brilhantes, que se partiram cada uma em outras mil, e essas em outras, até ao fim do tempo. Entregou-as também ao vento, que as espalhou na noite escura, criando as estrelas.
Desço para a rua, e espero o anoitecer. Dói-me esta história, sempre me doeu esta história, mas imagino a menina a olhar o céu, a sorrir, a fazer desenhos com os dedos no ar, unindo as estrelas na forma de um monstro, na forma de um rapaz.
Era uma vez uma menina, uma princesa que vivia num lugar distante, um mundo feito de erva verde, de montes redondos que escondiam o Sol. A menina chamava-se Violeta, um nome escolhido pelo vento, trazido em murmúrios, no barulho das folhas, da água a correr. Violeta não era filha de um Rei, não conhecera sequer o colo de uma mãe, uma Rainha de coroa dourada, vestida com roupas de seda. Era apenas uma princesa, uma menina, mas senhora de um mundo, de campos que não tinham fim. Nesse mundo não havia noite, só a manhã e o entardecer, só o momento antes da primeira estrela, que chamava a luz outra vez, girassóis gigantes que dançavam sem parar, quase sem descanso, num reflexo eterno. Um dia Violeta conheceu um rapaz, ainda não era um homem quando o descobriu, com uma pequena barba de pêlos louros, trepando às árvores, saltando nas pedras do rio. O rapaz era delicado, educado, ensinado a encantar, virtudes que não faziam sentido no mundo de Violeta, que se apaixonara sem as perceber, mesmo antes de descobrir o que escondiam. Ela ficou presa nas palavras, nas aventuras, em reinos longínquos, em histórias de amor, mas também num raro saber, de conseguir ver melhor, de contar mais cores nos insectos, no apontar de uma flor, de um pôr-do-sol, que nunca chegava a acontecer.
O autocarro trava bruscamente. Sinto uma dor no estômago, um murro invisível, igual ao que sentia, no momento em que o mundo perfeito da menina ruía, nas palavras da tia Inês, quando eu só suportava ouvir o resto, de mãos muito apertadas nas dela.
Uma cor apareceu pela primeira vez, desconhecida, perigosa. Violeta espreitou escondida, não por medo, que não conhecia, não por desconfiança, que não existia, só pelo estranhar, dos braços enormes, cheios de pêlos, só pelo tom da noite, que nunca caía. Aproximou-se devagar, do monstro que era o rapaz, sentiu o cheiro intenso, um odor vermelho, um desejo, que não a conseguiu afastar. O monstro feriu-a, rasgou-lhe a carne, magoou-a para sempre, para ela não esquecer, um último aviso, antes de se transformar, da pele branca voltar a brilhar. O rapaz tocou a ferida, fechou-a com um sopro, mas a cicatriz nunca mais desapareceu. Violeta enamorou-se outra vez, sem o ter deixado de estar, sem esquecer, por nada haver a lembrar. Acreditou, fechou os olhos e ouviu, viu o seu mundo perfeito a brilhar, sentiu algo novo, a primeira vez, o descobrir, o começar. Deu uma das mãos ao rapaz, a outra pousou-a no chão, onde uma trepadeira nascia, procurando um tronco de árvore. A planta enrolou-se no seu braço, apertando-o com cuidado, subindo devagar, sem tocar na cicatriz, até o tapar quase todo, prendendo-a, com medo de a perder. O dia nasceu, sem nunca ter adormecido.
Um bêbado grita, berra, chama pela mãe, ajoelha-se no chão e reza, antes de começar a chorar. O autocarro arranca, deixa para trás o homem, deitado no chão, de olhos no céu. Eu ganho coragem para continuar, inspiro o fumo dos outros, entorpeço os sentidos, tento fugir de mim, para conseguir.
Um bramido fez Violeta correr, pedir, que pudesse estar a sonhar. O monstro tinha as garras espetadas num alce, um amigo antigo, sem tempo de ver, de olhar o mundo à sua volta, com os olhos fechados à força, com um último respirar, do seu próprio morrer. O monstro devorou a carne voraz, cresceu o peito para cima, queimou a terra à sua volta, um desafio em fúria, feito de medo, de ira, de tudo o que não podia existir ali, abrindo uma ferida, que nunca iria sarar. Violeta ficou parada à frente dele, chamou o rapaz uma última vez, por uma resposta que não podia esperar. Tocou-lhe no pêlo com o braço ferido, hesitando só por um fragmento de tempo, antes de se despedir sem mágoa. O monstro era duas vezes maior, mas ficou junto ao chão, aceitando o castigo, pelo qual sempre esperou. Violeta viu os olhos do rapaz, antes de gritar em silêncio. A besta elevou-se no ar, escondendo a dor, quando ouviu as palavras antigas, que o transformaram em pó. A princesa ajoelhou-se, ordenou ao vento que soprasse forte, que afastasse a cor escura do seu mundo. O vento obedeceu, levou com ele o que antes tinha sido o monstro, o rapaz, as histórias, a dor, a cor, a água fria, o belo, o disforme. Cobriu o céu com o pó negro, e fez a primeira noite. A menina, a princesa, deixou por fim as lágrimas caírem, mil lágrimas brilhantes, que se partiram cada uma em outras mil, e essas em outras, até ao fim do tempo. Entregou-as também ao vento, que as espalhou na noite escura, criando as estrelas.
Desço para a rua, e espero o anoitecer. Dói-me esta história, sempre me doeu esta história, mas imagino a menina a olhar o céu, a sorrir, a fazer desenhos com os dedos no ar, unindo as estrelas na forma de um monstro, na forma de um rapaz.
Terça-feira, Dezembro 04, 2007
O Quarto Lilás
Os olhos de Maria procuravam no escuro, sabia de cor as paredes, a arca dos brinquedos, o cavalinho de madeira escura. Conseguia ouvir os pais na sala ao fim do corredor, o passar das folhas do jornal, a colher na chávena de chá, o bule pousado devagar. Tinham-se habituado aos silêncios da filha, pequenos passos na alcatifa, num correr abafado, e a segredos escondidos, por trás de um sorriso irrequieto. Maria tinha apenas quatro anos, mas explorava a casa como se fosse uma caçadora experiente, esperando, observando, descobrindo os cheiros, caminhando devagar, por entre as ervas secas da savana. No quarto, um barulho trouxe o medo, a barriga fria, duas mãos esticadas, num abraço esperado. Dois olhos brilharam, por cima de dentes aguçados, de dedos deformados, em garras afiadas, de um tocar gentil. Maria não conteve um grito, um desejo que se transformou, que chamou os passos pesados na madeira. O pai acendeu a luz, antes de uma prece rápida, por não conseguir perceber. A mãe caiu em desmaio, ao ver as mãos da filha, vermelhas de sangue vivo, que escorria até aos seus pés. Maria chorou baixinho, quando ouviu um esconder apressado, seguido de uma porta fechada.
— Queres esperar? — perguntou João.
Maria não respondeu, ficou parada no princípio das escadas. A casa por fora estava na mesma, a madeira pintada de branco, o telhado feito de telhas negras. Pelas janelas conseguia ver os cortinados de rendas perfeitas, pequenos desenhos que lhe traziam imagens à cabeça. Lembrava-se da mãe a bordar, de se deitar no seu colo, fugindo da sombra no chão, fechando os olhos para o Sol.
— Não acredito que ele não a tenha vendido — disse quase a chorar. — Não acredito que ele não tenha dito nada, mesmo nestes últimos anos. Achas que era por isso que ele sorria, mesmo antes de fechar os olhos?
— Não sei mana, não sei — disse João, ao mesmo tempo que olhava intrigado para a casa. — Acho que ninguém podia adivinhar, depois de tudo o que se passou.
Maria olhou para ele, à espera da pergunta.
— Maria...
— Nunca perguntaste João, tu nunca perguntaste — disse ela olhando-o nos olhos.
— Sim, eu sei... bolas! Tu tinhas quatro anos, eu nem sei o que te perguntar. — Subiu dois degraus sem reparar. — Eu já nasci com o segredo guardado, para mim não era sequer uma hipótese perguntar.
— Eu lembro-me de tudo — disse ela, ao mesmo tempo que subia também os degraus. — Lembro-me de tudo o que se passou naquela noite.
— A sério? — perguntou ele.
— Todos os dias da minha vida, todos os dias da minha vida.
— O que era? — perguntou, relembrando os medos de criança, de histórias assustadoras, que não lhe souberam explicar. — Quem estava contigo no quarto?
— Um amigo João — disse ela, enquanto subia mais um degrau, aproximando-se da porta da entrada. — Era apenas um amigo.
— Mas era real? — perguntou ele, pedindo desculpa com o olhar.
Maria sorriu.
— Para mim era João, para mim era.
Subiram até um pequeno alpendre, empurraram a porta pintada de verde, de tinta ressequida que lhes sujou as mãos. Sentiram o cheiro do pó, de anos de vazio, de silêncio forçado. João entrou à frente, protegendo a irmã, escondendo o medo.
— Onde é o quarto?
— No fim do corredor — respondeu ela, enquanto passava à frente dele, correndo até a uma porta fechada.
— Maria, queres entrar sozinha? — perguntou ele, tentando adivinhar qual era o desejo da irmã.
Ela sorriu outra vez.
— Não João, podes entrar comigo. Só preciso de me lembrar, de ter a certeza, de que nunca me vou esquecer.
— Mana...
— O que foi? — perguntou ela, disfarçando a impaciência, com a mão no puxador da porta.
— Obrigado por partilhares isto comigo, por me levares nas tuas aventuras.
— Tonto — disse ela a rir, com os olhos cheios de lágrimas. — Anda, não vais acreditar na cor das paredes.
— Queres esperar? — perguntou João.
Maria não respondeu, ficou parada no princípio das escadas. A casa por fora estava na mesma, a madeira pintada de branco, o telhado feito de telhas negras. Pelas janelas conseguia ver os cortinados de rendas perfeitas, pequenos desenhos que lhe traziam imagens à cabeça. Lembrava-se da mãe a bordar, de se deitar no seu colo, fugindo da sombra no chão, fechando os olhos para o Sol.
— Não acredito que ele não a tenha vendido — disse quase a chorar. — Não acredito que ele não tenha dito nada, mesmo nestes últimos anos. Achas que era por isso que ele sorria, mesmo antes de fechar os olhos?
— Não sei mana, não sei — disse João, ao mesmo tempo que olhava intrigado para a casa. — Acho que ninguém podia adivinhar, depois de tudo o que se passou.
Maria olhou para ele, à espera da pergunta.
— Maria...
— Nunca perguntaste João, tu nunca perguntaste — disse ela olhando-o nos olhos.
— Sim, eu sei... bolas! Tu tinhas quatro anos, eu nem sei o que te perguntar. — Subiu dois degraus sem reparar. — Eu já nasci com o segredo guardado, para mim não era sequer uma hipótese perguntar.
— Eu lembro-me de tudo — disse ela, ao mesmo tempo que subia também os degraus. — Lembro-me de tudo o que se passou naquela noite.
— A sério? — perguntou ele.
— Todos os dias da minha vida, todos os dias da minha vida.
— O que era? — perguntou, relembrando os medos de criança, de histórias assustadoras, que não lhe souberam explicar. — Quem estava contigo no quarto?
— Um amigo João — disse ela, enquanto subia mais um degrau, aproximando-se da porta da entrada. — Era apenas um amigo.
— Mas era real? — perguntou ele, pedindo desculpa com o olhar.
Maria sorriu.
— Para mim era João, para mim era.
Subiram até um pequeno alpendre, empurraram a porta pintada de verde, de tinta ressequida que lhes sujou as mãos. Sentiram o cheiro do pó, de anos de vazio, de silêncio forçado. João entrou à frente, protegendo a irmã, escondendo o medo.
— Onde é o quarto?
— No fim do corredor — respondeu ela, enquanto passava à frente dele, correndo até a uma porta fechada.
— Maria, queres entrar sozinha? — perguntou ele, tentando adivinhar qual era o desejo da irmã.
Ela sorriu outra vez.
— Não João, podes entrar comigo. Só preciso de me lembrar, de ter a certeza, de que nunca me vou esquecer.
— Mana...
— O que foi? — perguntou ela, disfarçando a impaciência, com a mão no puxador da porta.
— Obrigado por partilhares isto comigo, por me levares nas tuas aventuras.
— Tonto — disse ela a rir, com os olhos cheios de lágrimas. — Anda, não vais acreditar na cor das paredes.
Terça-feira, Novembro 27, 2007
Fado
Três mulheres esperavam encostadas à parede. Sentadas num banco de madeira esfregavam os pés, escondiam as meias cheias de buracos. Estavam todas vestidas de negro, como se o sentir da música a isso obrigasse. Rui não gostava de fado, só sentia falta do cheiro das velas, do vinho vermelho no copo, do sabor a cortiça enrolado na língua. Desde que chegara pouco comera, meia morcela assada, duas fatias de pão mal cozido, e azeitonas, muitas azeitonas. Prometeu a si próprio que só tinha de esperar mais uns minutos, a Lurdes ia cantar, e ela chorava sempre no fim.
O frio da rua recebeu-o, roubou-o ao calor da lareira, das braseiras escondidas debaixo das mesas. Desceu a Rua do Alecrim, contando as moedas perdidas nos bolsos, sonhando com o fim da noite, com Licor Beirão na tasca do Silva, antes do demorado adormecer.
Um homem. Estava um homem à beira da estrada, com metade dos sapatos fora do passeio. Um carro parou perto dele, julgando que queria atravessar. O homem sorriu, de forma gentil indicou a passagem, o caminho que nunca estivera tapado. O carro arrancou, apenas para logo travar bruscamente, por causa de um rapaz louro que passou a correr, que nunca chegou a perceber, que ali, num segundo, cabia toda a sua vida.
Rui olhou para o homem, estava vestido com um sobretudo preto, cabelo curto, mãos nuas, sapatos engraxados. Dirigiu-se a ele.
— O rapaz podia ter morrido — disse, sem coragem de atravessar a rua.
O homem olhou espantado.
— Vês-me criança? — perguntou em voz alta.
Rui não respondeu, ficou paralisado com o grito.
— Responde-me! Tu consegues ver-me? — gritou outra vez.
Rui aproximou-se. O medo desapareceu, no momento em que percebeu.
— Tu és o destino — disse com uma voz calma.
O homem sorriu, cresceu numa gargalhada, num riso aos soluços.
— Anda, vem comigo — disse, começando a andar.
Caminharam em silêncio durante mais de uma hora, numa noite sem lua, sem barulho de animais. Os homens do lixo sacudiam os contentores para os camiões, as ruas eram lavadas com mangueiras compridas, água suja que escorria para as sarjetas. Rui guardou as perguntas, esperou em nervos, numa ânsia disfarçada.
Perto do rio o homem parou e tirou-lhe o cigarro da boca.
— Isso vai acabar por te matar.
Rui olhou para o chão. Pisou a beata, esmagou-a de raiva.
— Calma, era só uma expressão — disse o homem a rir.
— Mas não está já escrito? — perguntou com medo.
O homem ficou calado. Rui não aguentou.
— Não percebo. Se tu... se está escrito, porque é que tens de intervir? O rapaz louro... ele devia ter... não era isso que estava... não era isso que devia ter acontecido?
O homem continuou calado.
— E eu? São os cigarros, o vinho? Não tenhas pena de mim, por favor, tudo menos pena. O destino é isso, não é? Tudo está escrito, páginas e páginas, com tudo o que aconteceu, com tudo o que vai acontecer.
O homem puxou-o com força. Agarrou-lhe a cara com as duas mãos.
— Rui, tu tens um dom, vês o que os outros não conseguem. Não estragues tudo, são demasiadas respostas.
Afastou-se, depois de um beijo, um toque de lábios, sem calor nem frio. Rui ficou a vê-lo a ir, resistindo ao chamar, agradecendo baixinho. O vento trouxe palavras, que mal conseguiu ouvir.
— São acertos criança, são só pequenos acertos.
O frio da rua recebeu-o, roubou-o ao calor da lareira, das braseiras escondidas debaixo das mesas. Desceu a Rua do Alecrim, contando as moedas perdidas nos bolsos, sonhando com o fim da noite, com Licor Beirão na tasca do Silva, antes do demorado adormecer.
Um homem. Estava um homem à beira da estrada, com metade dos sapatos fora do passeio. Um carro parou perto dele, julgando que queria atravessar. O homem sorriu, de forma gentil indicou a passagem, o caminho que nunca estivera tapado. O carro arrancou, apenas para logo travar bruscamente, por causa de um rapaz louro que passou a correr, que nunca chegou a perceber, que ali, num segundo, cabia toda a sua vida.
Rui olhou para o homem, estava vestido com um sobretudo preto, cabelo curto, mãos nuas, sapatos engraxados. Dirigiu-se a ele.
— O rapaz podia ter morrido — disse, sem coragem de atravessar a rua.
O homem olhou espantado.
— Vês-me criança? — perguntou em voz alta.
Rui não respondeu, ficou paralisado com o grito.
— Responde-me! Tu consegues ver-me? — gritou outra vez.
Rui aproximou-se. O medo desapareceu, no momento em que percebeu.
— Tu és o destino — disse com uma voz calma.
O homem sorriu, cresceu numa gargalhada, num riso aos soluços.
— Anda, vem comigo — disse, começando a andar.
Caminharam em silêncio durante mais de uma hora, numa noite sem lua, sem barulho de animais. Os homens do lixo sacudiam os contentores para os camiões, as ruas eram lavadas com mangueiras compridas, água suja que escorria para as sarjetas. Rui guardou as perguntas, esperou em nervos, numa ânsia disfarçada.
Perto do rio o homem parou e tirou-lhe o cigarro da boca.
— Isso vai acabar por te matar.
Rui olhou para o chão. Pisou a beata, esmagou-a de raiva.
— Calma, era só uma expressão — disse o homem a rir.
— Mas não está já escrito? — perguntou com medo.
O homem ficou calado. Rui não aguentou.
— Não percebo. Se tu... se está escrito, porque é que tens de intervir? O rapaz louro... ele devia ter... não era isso que estava... não era isso que devia ter acontecido?
O homem continuou calado.
— E eu? São os cigarros, o vinho? Não tenhas pena de mim, por favor, tudo menos pena. O destino é isso, não é? Tudo está escrito, páginas e páginas, com tudo o que aconteceu, com tudo o que vai acontecer.
O homem puxou-o com força. Agarrou-lhe a cara com as duas mãos.
— Rui, tu tens um dom, vês o que os outros não conseguem. Não estragues tudo, são demasiadas respostas.
Afastou-se, depois de um beijo, um toque de lábios, sem calor nem frio. Rui ficou a vê-lo a ir, resistindo ao chamar, agradecendo baixinho. O vento trouxe palavras, que mal conseguiu ouvir.
— São acertos criança, são só pequenos acertos.
Segunda-feira, Novembro 19, 2007
Tudo o que somos
Sentei-me à espera do metro. Passei as mãos pelo cabelo, apenas para respirar fundo, para lembrar a mim mesmo que estava triste. Ao meu lado estava uma senhora, uma mulher de cabelos brancos com as mãos aquecidas debaixo de um xaile. Passou um homem vestido com um casaco creme e atirou uma moeda para a frente dela. Olhei para o chão e vi um pano cinzento cheio de moedas, demasiadas moedas. Dei por mim a falar, antes de ganhar coragem para o fazer.
- Desculpe, isso não é seu, pois não?
Ela esboçou um sorriso muito leve. Respondeu de olhos nos meus.
- Já cá estava quando cheguei, mas não tinha moedas, deve ser do cabelo comprido.
Não percebi o que ela dizia.
- Como assim?
Ela repetiu com paciência.
- Disse que deve ser do cabelo comprido, as mulheres mais velhas não o usam comprido, muito menos sem o pintarem.
Achei que o silêncio falava por mim, dizia que eu percebia. Passaram duas raparigas por nós e cada uma delas deixou uma moeda. A senhora agradeceu, desejando sorte e saúde. Eu voltei às perguntas.
- Estão aí muitas moedas. Há quanto tempo está aqui?
Ela olhou para um relógio pequeno que tirou de um bolso.
- Há umas duas horas. É de facto muito dinheiro.
Tentei contar, ela interrompeu-me.
- E tirei de lá as notas, o metro a passar fazia-as voar.
Rebentei de ansiedade e falei em voz alta.
- Eu sou invisível, sabia?
Ela não se assustou e falou devagar.
- São como os bares dos filmes, não são?
Não percebi a pergunta, ela explicou antes de eu perguntar.
- Os transportes públicos, acho que são como os bares dos filmes, aqueles onde há sempre um conselho atrás do balcão.
Sorri para ela antes de continuar.
- Sinto-me invisível, sinto-me vazio, sem nada a que me agarrar. Às vezes acho que não existo para os outros, que acabo sempre sozinho.
Ela olhou para mim sem expressão. Tive medo.
- Não me vai dizer que devia dar graças por tudo o que tenho, pois não?
Ela não respondeu. Eu continuei.
- Não me vai dizer que as pessoas é que criam os problemas, vai?
Senti uma mão quente na minha.
- Não, não vou. Queres ouvir uma história?
Disse que sim. Ela inspirou antes de começar, eu percebi que não a podia interromper.
Contou-me que tinha nascido numa aldeia muito longe, a terra dos dias compridos, como lhe costumava chamar. Todos trabalhavam a terra, endureciam as mãos na enxada, vergavam as costas até não se conseguirem endireitar. Era gente pobre, gente de pouca conversa, que as palavras secavam a boca, mesmo a quem tinha pouco que dizer. Ela tinha nascido de destino já feito, entre casas de pedra escura, de barulhos de cascos no chão, de água sempre fria, de jantares em silêncio, de velas contadas para a noite, do adormecer no escuro, de orações repetidas, sem ter nada que pedir, enquanto o terço escorregava entre os seus dedos de miúda. Um dia, devia ter uns doze anos, chegou à aldeia um rapaz. Diziam que era filho de um padre, que o mandara para ali antes de se matar, por não aguentar a vergonha. O rapaz ficou a viver em casa de um prima do padre, que se passou a vestir sempre de negro, mas que não conseguia esconder o ouro, os fios brilhantes entrelaçados ao pescoço, uma riqueza que viria a amaldiçoar. Uma noite, pouco tempo depois do rapaz ter vindo para a aldeia, o pai dela entrou em casa a falar muito alto, tão alto que ela parou de rezar. Encostou-se à porta do quarto e ouviu-o a contar à mãe o que andavam a dizer sobre o rapaz, que ele não era normal, que tinha um pacto com o diabo, que os animais gemiam de medo quando passava, que as árvores perto do riacho estavam a secar, desde que ele começara a passar os dias deitado perto da água. Mas o pai tinha mais para contar, lembrava-se que tinha baixado a voz para ela não o ouvir, mas que não tinha obedecido ao medo e ouviu, o pai falou muito baixo, mas ela ouviu. Todos comentavam que o rapaz não tinha sombra, que não deixava pegadas atrás dele, mesmo quando caminhava na lama, que a sua voz não voltava com o eco, o seu sopro não fazia tremer a chama das velas, que o caminho dele não ficava marcado no mundo, como os espíritos que o terço afastava. Nunca tinha ouvido o pai tão preocupado, o que só compreendera mais tarde, pois aquele mundo fechado, aquele mundo que era igual desde sempre, tinha sido abalado, tinha sido perturbado no seu equilíbrio. No dia seguinte saiu de casa sem avisar, desafiando o que sabia ser a vontade do pai, correu em direcção ao riacho sem saber porque o fazia, sem conseguir deixar de o fazer. Ao chegar viu que as árvores estavam despidas de folhas, mas que pequenos rebentos verdes nasciam nos ramos. O rapaz estava sentado numa pedra. Ela chegou perto dele e tocou-lhe, para saber se era verdade, para saber se ele existia. Ele esperou que ela sentisse o calor, antes de lhe agarrar o braço com força, antes de a magoar sem maldade, de a ferir com cuidado. No dia seguinte ela fugiu, com a ajuda do choro escondido da mãe. Só voltou à aldeia dez anos depois, a tempo de ver o pai sorrir pela primeira vez na vida, antes do seu último suspiro. O rapaz tinha desaparecido pouco tempo depois dela ter fugido, ninguém sabia o que lhe tinha acontecido.
O metro apitou antes de fechar as portas e eu voltei a mim. A senhora agarrava o pulso direito com a mão esquerda. Eu precisei de ter a certeza, para acreditar.
- Posso ver?
Ela não respondeu. Puxou a manga da camisa para trás e mostrou-me o braço. Não tinha nenhuma marca, só o passar dos anos, escritos na pele branca e enrugada. Fiquei preso numa vertigem, tentando perceber o sentido.
- Mas o seu braço não está marcado.
Ela sorriu.
- Pois não, mas não há um dia que passe que não o sinta.
- Desculpe, isso não é seu, pois não?
Ela esboçou um sorriso muito leve. Respondeu de olhos nos meus.
- Já cá estava quando cheguei, mas não tinha moedas, deve ser do cabelo comprido.
Não percebi o que ela dizia.
- Como assim?
Ela repetiu com paciência.
- Disse que deve ser do cabelo comprido, as mulheres mais velhas não o usam comprido, muito menos sem o pintarem.
Achei que o silêncio falava por mim, dizia que eu percebia. Passaram duas raparigas por nós e cada uma delas deixou uma moeda. A senhora agradeceu, desejando sorte e saúde. Eu voltei às perguntas.
- Estão aí muitas moedas. Há quanto tempo está aqui?
Ela olhou para um relógio pequeno que tirou de um bolso.
- Há umas duas horas. É de facto muito dinheiro.
Tentei contar, ela interrompeu-me.
- E tirei de lá as notas, o metro a passar fazia-as voar.
Rebentei de ansiedade e falei em voz alta.
- Eu sou invisível, sabia?
Ela não se assustou e falou devagar.
- São como os bares dos filmes, não são?
Não percebi a pergunta, ela explicou antes de eu perguntar.
- Os transportes públicos, acho que são como os bares dos filmes, aqueles onde há sempre um conselho atrás do balcão.
Sorri para ela antes de continuar.
- Sinto-me invisível, sinto-me vazio, sem nada a que me agarrar. Às vezes acho que não existo para os outros, que acabo sempre sozinho.
Ela olhou para mim sem expressão. Tive medo.
- Não me vai dizer que devia dar graças por tudo o que tenho, pois não?
Ela não respondeu. Eu continuei.
- Não me vai dizer que as pessoas é que criam os problemas, vai?
Senti uma mão quente na minha.
- Não, não vou. Queres ouvir uma história?
Disse que sim. Ela inspirou antes de começar, eu percebi que não a podia interromper.
Contou-me que tinha nascido numa aldeia muito longe, a terra dos dias compridos, como lhe costumava chamar. Todos trabalhavam a terra, endureciam as mãos na enxada, vergavam as costas até não se conseguirem endireitar. Era gente pobre, gente de pouca conversa, que as palavras secavam a boca, mesmo a quem tinha pouco que dizer. Ela tinha nascido de destino já feito, entre casas de pedra escura, de barulhos de cascos no chão, de água sempre fria, de jantares em silêncio, de velas contadas para a noite, do adormecer no escuro, de orações repetidas, sem ter nada que pedir, enquanto o terço escorregava entre os seus dedos de miúda. Um dia, devia ter uns doze anos, chegou à aldeia um rapaz. Diziam que era filho de um padre, que o mandara para ali antes de se matar, por não aguentar a vergonha. O rapaz ficou a viver em casa de um prima do padre, que se passou a vestir sempre de negro, mas que não conseguia esconder o ouro, os fios brilhantes entrelaçados ao pescoço, uma riqueza que viria a amaldiçoar. Uma noite, pouco tempo depois do rapaz ter vindo para a aldeia, o pai dela entrou em casa a falar muito alto, tão alto que ela parou de rezar. Encostou-se à porta do quarto e ouviu-o a contar à mãe o que andavam a dizer sobre o rapaz, que ele não era normal, que tinha um pacto com o diabo, que os animais gemiam de medo quando passava, que as árvores perto do riacho estavam a secar, desde que ele começara a passar os dias deitado perto da água. Mas o pai tinha mais para contar, lembrava-se que tinha baixado a voz para ela não o ouvir, mas que não tinha obedecido ao medo e ouviu, o pai falou muito baixo, mas ela ouviu. Todos comentavam que o rapaz não tinha sombra, que não deixava pegadas atrás dele, mesmo quando caminhava na lama, que a sua voz não voltava com o eco, o seu sopro não fazia tremer a chama das velas, que o caminho dele não ficava marcado no mundo, como os espíritos que o terço afastava. Nunca tinha ouvido o pai tão preocupado, o que só compreendera mais tarde, pois aquele mundo fechado, aquele mundo que era igual desde sempre, tinha sido abalado, tinha sido perturbado no seu equilíbrio. No dia seguinte saiu de casa sem avisar, desafiando o que sabia ser a vontade do pai, correu em direcção ao riacho sem saber porque o fazia, sem conseguir deixar de o fazer. Ao chegar viu que as árvores estavam despidas de folhas, mas que pequenos rebentos verdes nasciam nos ramos. O rapaz estava sentado numa pedra. Ela chegou perto dele e tocou-lhe, para saber se era verdade, para saber se ele existia. Ele esperou que ela sentisse o calor, antes de lhe agarrar o braço com força, antes de a magoar sem maldade, de a ferir com cuidado. No dia seguinte ela fugiu, com a ajuda do choro escondido da mãe. Só voltou à aldeia dez anos depois, a tempo de ver o pai sorrir pela primeira vez na vida, antes do seu último suspiro. O rapaz tinha desaparecido pouco tempo depois dela ter fugido, ninguém sabia o que lhe tinha acontecido.
O metro apitou antes de fechar as portas e eu voltei a mim. A senhora agarrava o pulso direito com a mão esquerda. Eu precisei de ter a certeza, para acreditar.
- Posso ver?
Ela não respondeu. Puxou a manga da camisa para trás e mostrou-me o braço. Não tinha nenhuma marca, só o passar dos anos, escritos na pele branca e enrugada. Fiquei preso numa vertigem, tentando perceber o sentido.
- Mas o seu braço não está marcado.
Ela sorriu.
- Pois não, mas não há um dia que passe que não o sinta.
Segunda-feira, Novembro 12, 2007
Julieta
Julieta era uma rapariga muito magra, de braços finos e dedos compridos. Tinha olhos negros, muito negros, que quase desapareciam na cara. Todos achavam que sofria de alguma doença, de um mal que a iria consumir, dia após dia, ano após ano, até morrer num suspiro, num sopro que não se conseguiria ouvir. Ninguém sabia a verdade, Julieta, como outras raparigas de olhar triste, era uma fada. No Inverno costumava passear sozinha, pouco depois do sol nascer, corria por entre os arbustos de braços abertos, sem tocar as gotas presas nas folhas. No verão respirava o ar quente da tarde, tossia a terra seca, o pó que se levantava com o bater dos pés. De dia andava descalça, de pedra em pedra, sorrindo para o seu reflexo no rio. À noite calçava sapatos brilhantes, por cima de pequenas meias, com delicadas rendas nos tornozelos. Julieta esperava um homem, mesmo sendo ainda uma criança, porque as fadas nunca são mulheres. Um sonho que trouxera o castigo, de viver longe do bosque, sem nunca mais poder voltar. As fadas não crescem, mesmo as amaldiçoadas, as que sangram no corte de uma folha. São crianças para sempre, presas em corpos delicados, que mostram os primeiros sinais de amor, que querem explodir de sentir, proibidas de o ser. Julieta sabia que um dia iria morrer, fecharia os olhos distante, mas acreditava, sem se arrepender, no sonho de um homem, com as mãos nas dela. Por isso cantava, repetia em voz baixa, no medo de não conseguir.
vem meu amor
sente a minha mão
ajoelha-te num pedido
em palavras sem fim
vem meu amor
que a morte corre veloz
para me roubar a vida
que eu prometi guardar
vem meu amor
encosta o teu peito ao meu
sente o calor do sol
antes do frio da noite
vem meu amor
sente a minha mão
ajoelha-te num pedido
em palavras sem fim
vem meu amor
que a morte corre veloz
para me roubar a vida
que eu prometi guardar
vem meu amor
encosta o teu peito ao meu
sente o calor do sol
antes do frio da noite
Sábado, Novembro 03, 2007
A Rapariga Sem Nome
— Sua puta! — gritou o homem do casaco preto, ao mesmo tempo que acertava na cara da rapariga do cachecol verde e lilás. — Não pediste àqueles dois armados em hippies. Filhos da puta de meninos da mamã.
A rapariga dirigiu-se ao casal vestido com roupas largas e coloridas. Eles deram-lhe mais sorrisos do que dinheiro. Acho que tiveram pena. O homem continuou a praguejar.
— Merda, assim não consigo. — Largou a guitarra e levantou-se enquanto gritava. — Vou ver se como qualquer coisa. Vê lá se tomas conta das coisas. Puta distraída, andas sempre com os cornos noutro mundo.
Não resisti e aproximei-me.
— Porque é que deixas ele tratar-te assim? — perguntei eu, depois de lhe ter dado duas moedas, de lhe ter tocado nas mãos.
— Ele não é sempre assim, falta-lhe... ele ainda... ele ainda não comeu.
A resposta era envergonhada, mas ela nem por um segundo baixou a cabeça. Não estava a mentir, sabia o que eu sabia, o que todos sabiam.
— Não vejo o que vês — disse eu.
— Não tenhas pena de mim — disse ela de forma calma. — Foi ele o primeiro, o único que me ouviu, que escreveu para mim, as canções... as músicas que eu esperava desde sempre.
Lembro-me dos olhos cinzentos, daqueles que se misturam com todas as outras cores. A cara dela mostrava o pouco que tinha, magra, seca, queimada do sol. Mas não apagava a beleza, era impossível esconder, o que ela parecia determinada em esquecer. Os dedos da mão esquerda estavam quase castanhos, marcados por demasiados cigarros.
— Não os consegues fumar, pois não? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Ela riu-se.
— Foda-se! Não consigo mesmo, alguns só lhes dou uma passa para os acender, essa merda faz mal aos pulmões.
— Tu também não... — Arrependi-me. — Desculpa, não tenho nada a ver com isso.
— Deixa, não há problema. Sim, não fumo, não bebo e não me drogo. — Inspirou o ar da noite antes de continuar, a noite que eu não tinha visto chegar. — Por outro lado vivo na rua, com um músico drogado, bêbado e que ainda por cima me bate, por isso não me dês já os parabéns.
Rebentámos numa gargalhada a dois, depois de um segundo de riso contido.
— Como é que ele se chama? — perguntei, estranhando a minha curiosidade.
— Fernando — respondeu ela pensativa, como quem tem algo mais a dizer. — Fernando, Fernando, senhor Fernando, que me tem presa num feitiço.
— E como é que ele te enfeitiçou?
Ela sorriu, e eu senti o coração apertado, por saber que nunca mais a ia ver.
— É engraçado — disse ela meio a rir.
— Então? — perguntei.
— Devia ter sido ao contrário. Ele ouviu-me um dia a cantar, sentada ali em cima no miradouro. Sabes onde é?
Eu acenei que sim, mentindo só para ela não parar a história.
— Esteve uma hora a ouvir-me escondido, pelo menos foi o que ele disse. Uns dias depois encontrou-me no mesmo sítio. Trazia com ele um monte de folhas todas amarrotadas, escritas a lápis com uma letra muito bonita. Contou-me que não dormia há dois dias, que só pensava em mim, que tinha escrito e composto sem parar, que eu o inspirava. Pediu-me que fosse dele, muito antes de me beijar.
Fiquei a olhar para ela, contendo as lágrimas, invejando a sorte deles.
— Deve ter sido especial — disse, sentindo o vento que passava por ela.
A rapariga sorriu de olhos cintilantes, antes de responder.
— Ainda é... pelo menos quando me consigo lembrar. — As lágrimas correram pelo rosto dela abaixo, riscando o pó e a rua, colados à sua pele. — Obrigada! Obrigada por teres perguntado.
Senti vontade de a levar dali, de a proteger, de lhe perguntar se tinha esperança. Não me atrevi. Ela percebeu.
— Queres ouvir-me cantar?
— E ele? — perguntei com medo que ela desistisse.
— Não te preocupes, ele vai demorar. — Pegou na guitarra e puxou-me pela mão. — Vou mostrar-te o miradouro, aquele que tu fingiste que conhecias.
A rapariga dirigiu-se ao casal vestido com roupas largas e coloridas. Eles deram-lhe mais sorrisos do que dinheiro. Acho que tiveram pena. O homem continuou a praguejar.
— Merda, assim não consigo. — Largou a guitarra e levantou-se enquanto gritava. — Vou ver se como qualquer coisa. Vê lá se tomas conta das coisas. Puta distraída, andas sempre com os cornos noutro mundo.
Não resisti e aproximei-me.
— Porque é que deixas ele tratar-te assim? — perguntei eu, depois de lhe ter dado duas moedas, de lhe ter tocado nas mãos.
— Ele não é sempre assim, falta-lhe... ele ainda... ele ainda não comeu.
A resposta era envergonhada, mas ela nem por um segundo baixou a cabeça. Não estava a mentir, sabia o que eu sabia, o que todos sabiam.
— Não vejo o que vês — disse eu.
— Não tenhas pena de mim — disse ela de forma calma. — Foi ele o primeiro, o único que me ouviu, que escreveu para mim, as canções... as músicas que eu esperava desde sempre.
Lembro-me dos olhos cinzentos, daqueles que se misturam com todas as outras cores. A cara dela mostrava o pouco que tinha, magra, seca, queimada do sol. Mas não apagava a beleza, era impossível esconder, o que ela parecia determinada em esquecer. Os dedos da mão esquerda estavam quase castanhos, marcados por demasiados cigarros.
— Não os consegues fumar, pois não? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Ela riu-se.
— Foda-se! Não consigo mesmo, alguns só lhes dou uma passa para os acender, essa merda faz mal aos pulmões.
— Tu também não... — Arrependi-me. — Desculpa, não tenho nada a ver com isso.
— Deixa, não há problema. Sim, não fumo, não bebo e não me drogo. — Inspirou o ar da noite antes de continuar, a noite que eu não tinha visto chegar. — Por outro lado vivo na rua, com um músico drogado, bêbado e que ainda por cima me bate, por isso não me dês já os parabéns.
Rebentámos numa gargalhada a dois, depois de um segundo de riso contido.
— Como é que ele se chama? — perguntei, estranhando a minha curiosidade.
— Fernando — respondeu ela pensativa, como quem tem algo mais a dizer. — Fernando, Fernando, senhor Fernando, que me tem presa num feitiço.
— E como é que ele te enfeitiçou?
Ela sorriu, e eu senti o coração apertado, por saber que nunca mais a ia ver.
— É engraçado — disse ela meio a rir.
— Então? — perguntei.
— Devia ter sido ao contrário. Ele ouviu-me um dia a cantar, sentada ali em cima no miradouro. Sabes onde é?
Eu acenei que sim, mentindo só para ela não parar a história.
— Esteve uma hora a ouvir-me escondido, pelo menos foi o que ele disse. Uns dias depois encontrou-me no mesmo sítio. Trazia com ele um monte de folhas todas amarrotadas, escritas a lápis com uma letra muito bonita. Contou-me que não dormia há dois dias, que só pensava em mim, que tinha escrito e composto sem parar, que eu o inspirava. Pediu-me que fosse dele, muito antes de me beijar.
Fiquei a olhar para ela, contendo as lágrimas, invejando a sorte deles.
— Deve ter sido especial — disse, sentindo o vento que passava por ela.
A rapariga sorriu de olhos cintilantes, antes de responder.
— Ainda é... pelo menos quando me consigo lembrar. — As lágrimas correram pelo rosto dela abaixo, riscando o pó e a rua, colados à sua pele. — Obrigada! Obrigada por teres perguntado.
Senti vontade de a levar dali, de a proteger, de lhe perguntar se tinha esperança. Não me atrevi. Ela percebeu.
— Queres ouvir-me cantar?
— E ele? — perguntei com medo que ela desistisse.
— Não te preocupes, ele vai demorar. — Pegou na guitarra e puxou-me pela mão. — Vou mostrar-te o miradouro, aquele que tu fingiste que conhecias.
Segunda-feira, Outubro 29, 2007
Tokyo Moon
Num segundo andei para trás no tempo. O medo de sair à rua. A noite só se tornou perigosa por causa de tanto a repetir, mas o tempo disfarçou a verdade, de que nunca iria esquecer. Uma lâmina dançou à minha frente, incomodando-me menos que o cheiro de dentes podres, de riso inventado. Abri a camisa, arranquei botões que caíram ao chão, um de cada vez. Enchi o peito, mostrei o coração em provocação, beijei o ar entre nós. Enlouqueci, por um breve momento enlouqueci. No dia seguinte estava dentro de um avião. Levei mais de um dia a chegar, sem a bênção do sono, contando estrelas através da janela. Desembarquei quase do outro lado do mundo, onde o sol devia nascer, mas só me lembro da chuva. Demorei uma hora para sair do aeroporto, ébrio de sensações novas, de aromas irreconhecíveis, da falta das palavras, substituídas por brilhos sempre presentes. Por várias vezes ajoelhei-me em tonturas, vertigens que me obrigaram a tocar o chão, a sentir o calor das pedras alisadas. A porta giratória apareceu à minha frente, oferecendo uma oportunidade de fuga. Primeiro hesitei, temendo ficar preso, depois saí para a rua, respirei fundo e encontrei a noite. Nada me podia ter preparado. O barulho era ensurdecedor, as luzes lutavam para me cegar, milhões de luzes, de todas as cores. Olhei para o céu, um pequeno pedaço de céu que conseguia ver entre os arranha-céus. Então vi-a, despida das nuvens, escondida atrás de um guindaste. Uma lua perfeita, que me tinha seguido. Corri, atirei-me para a frente de carros que se desviavam sem um protesto, larguei as malas e comecei a rir como um miúdo pequeno. Gritei e imitei barulhos de animais. Era invisível para os estranhos à minha volta. Levantei os braços para a chuva, não havia sentido, só repetia o que vira num filme. O medo estava lá, nunca tinha deixado de estar. Mas a lua era a mesma, o que me trazia conforto. Demoraram dois dias a encontrar-me, no meio do lixo, de comida que não experimentei. A água era demasiado quente, o cheiro a incenso fez-me vomitar. Não compreendi os rituais, como se houvesse algo que não podia levar de volta, como se me obrigassem a ver, a ordem que não podia ser desfeita. Eu não lhes podia contar, que nos libertamos sem saber como. Viajei em silêncio, sem estar sozinho.
Quarta-feira, Outubro 17, 2007
A Casa Abandonada
Estás sentada num sofá feito de um verde esquecido, tapado por uma manta de cores esbatidas, que os meus olhos ainda vêem garridas. Deixo o tempo passar antes de falar.
— Tenho tão pouco para te dar.
Olhas para mim a chorar. As palavras chegam antes de um beijo.
— E ainda assim é tanto.
No Jardim
— Anda Rui! Despacha-te! Deve estar quase alguém a passar.
Eu olhava para o muro e hesitava, estava coberto de trepadeiras, armadilhas que me podiam fazer escorregar. Foste sempre tu que indicaste o caminho, que desafiaste o medo. Pisei o muro apenas durante meio segundo, num equilíbrio que não podia manter, sem perceber a escolha, antes de decidir saltar. Tu recebeste-me a sorrir.
— Achei que ias desistir — disseste, escondendo o riso. — Pensei que caías para o outro lado.
— Achas que ninguém vai aparecer? — perguntei.
— Não sejas tonto, a casa está abandonada há anos. Só tinha medo que nos vissem a entrar.
— Desculpa — disse envergonhado. — Precisei de ganhar coragem.
Já não te ouvi a dizer que não fazia mal, enquanto corrias por entre as árvores.
— Espera por mim! — gritei.
Estava muito calor e a roupa colava-se ao corpo, num prazer de sentir, de cheirar o mundo à nossa volta. Caminhei atrás de ti de olhos fechados, com as mãos à minha frente, para afastar os ramos da cara. O Sol passava entre as folhas e as sombras tremiam por cima de mim. Imaginei que estava num comboio, que viajava de cabelo ao vento, que esticava os braços num voo fingido. Quase que conseguia sentir o cheiro a queimado, era um comboio antigo, que se alimentava de fogo, e respirava um fumo espesso. Mais uma vez chamaste-me, trouxeste-me até ao teu mundo, que se confundia com o meu.
— Anda ver, descobri um sítio incrível.
Ainda tentei perguntar, o que os teus gritos responderam, enquanto rebolavas por um monte abaixo. Deitei-me e rebolei também sobre a erva alta, perdendo a conta às voltas, rindo sem pensar em mais nada, até a barriga doer, até ficar enjoado, tonto de tanto repetir. Sentámo-nos sem forças, o Sol brilhava atrás de um telhado, brincava às escondidas comigo, mostrando-se sempre só um pouco, mesmo antes de desaparecer. Senti o teu cheiro, que não sabia existir, senti a tua mão na minha, e os teus olhos nos meus, a minha boca na tua, os lábios juntos, as cócegas no pescoço, a roupa amarrotada, um sino de uma igreja ao longe, um último raio de Sol, no meio dos teus cabelos.
— Diz-me! — disse, sem me afastar. — Como é que vai ser quando formos crescidos?
Os teus olhos brilharam.
— Rui, nós nunca vamos crescer.
— Tenho tão pouco para te dar.
Olhas para mim a chorar. As palavras chegam antes de um beijo.
— E ainda assim é tanto.
No Jardim
— Anda Rui! Despacha-te! Deve estar quase alguém a passar.
Eu olhava para o muro e hesitava, estava coberto de trepadeiras, armadilhas que me podiam fazer escorregar. Foste sempre tu que indicaste o caminho, que desafiaste o medo. Pisei o muro apenas durante meio segundo, num equilíbrio que não podia manter, sem perceber a escolha, antes de decidir saltar. Tu recebeste-me a sorrir.
— Achei que ias desistir — disseste, escondendo o riso. — Pensei que caías para o outro lado.
— Achas que ninguém vai aparecer? — perguntei.
— Não sejas tonto, a casa está abandonada há anos. Só tinha medo que nos vissem a entrar.
— Desculpa — disse envergonhado. — Precisei de ganhar coragem.
Já não te ouvi a dizer que não fazia mal, enquanto corrias por entre as árvores.
— Espera por mim! — gritei.
Estava muito calor e a roupa colava-se ao corpo, num prazer de sentir, de cheirar o mundo à nossa volta. Caminhei atrás de ti de olhos fechados, com as mãos à minha frente, para afastar os ramos da cara. O Sol passava entre as folhas e as sombras tremiam por cima de mim. Imaginei que estava num comboio, que viajava de cabelo ao vento, que esticava os braços num voo fingido. Quase que conseguia sentir o cheiro a queimado, era um comboio antigo, que se alimentava de fogo, e respirava um fumo espesso. Mais uma vez chamaste-me, trouxeste-me até ao teu mundo, que se confundia com o meu.
— Anda ver, descobri um sítio incrível.
Ainda tentei perguntar, o que os teus gritos responderam, enquanto rebolavas por um monte abaixo. Deitei-me e rebolei também sobre a erva alta, perdendo a conta às voltas, rindo sem pensar em mais nada, até a barriga doer, até ficar enjoado, tonto de tanto repetir. Sentámo-nos sem forças, o Sol brilhava atrás de um telhado, brincava às escondidas comigo, mostrando-se sempre só um pouco, mesmo antes de desaparecer. Senti o teu cheiro, que não sabia existir, senti a tua mão na minha, e os teus olhos nos meus, a minha boca na tua, os lábios juntos, as cócegas no pescoço, a roupa amarrotada, um sino de uma igreja ao longe, um último raio de Sol, no meio dos teus cabelos.
— Diz-me! — disse, sem me afastar. — Como é que vai ser quando formos crescidos?
Os teus olhos brilharam.
— Rui, nós nunca vamos crescer.
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Mãe
Toda a vida vi a minha mãe a chorar quando lia. Não conseguia tirar este pensamento da cabeça, a livraria estava quase a fechar e eu só pensava nela agarrada a romances antigos, daqueles que pareciam ter tido sempre as folhas amarelas, quase castanhas. Não sei onde é que ela os ia buscar, alguns tinham as capas rasgadas, outros não tinham sequer as primeiras páginas, o que não a parecia incomodar, quase podendo jurar que a maior parte das vezes começava a meio, em histórias já conhecidas. À minha frente vi um desenho que me atraiu a atenção, passei os dedos sobre um relevo que não existia, como se pudesse sentir, para poder escolher. Pequei no livro e dirigi-me ao balcão. Estavam duas pessoas à minha frente, um rapaz que insistia numa queixa qualquer, uma rapariga longe, de olhos muito abertos, que piscavam um de cada vez. Voltei às tardes de criança. Esqueci-me do tempo.
— Boa tarde — disse a rapariga atrás do balcão. — É só o livro?
— Sim — respondi, despertado do sonho.
O barulho da máquina registadora fez-me levantar os olhos, que me levaram a outros em lágrimas. A rapariga tentava secar as gotas que manchavam o vermelho da capa.
— Desculpe, acho que é melhor levar outro — disse ela. — Não faço ideia se vai ficar marcado.
Não resisti à pergunta.
— Posso perguntar porquê?
Ela sorriu antes de responder.
— Não são lágrimas tristes, este livro traz-me boas recordações, sempre que o leio farto-me de chorar.
Lembrei-me da minha mãe, naquele preciso momento lembrei-me de anos de dor.
— Sabe, esse livro é para a minha mãe — disse, de olhos presos aos da rapariga. — Ela chorava sempre que lia.
— Disse que ela chorava, já não o faz? — perguntou ela.
— Acabo sempre a falar no passado — disse eu depois de pensar um segundo. — Acho que o faço de forma automática, aconteceram muitas coisas no passado.
— Eram os melhores momentos, não eram? — perguntou ela num tom impaciente, de quem conseguia adivinhar.
Fui apanhado de surpresa. Nas palavras dela percebi. Levei um minuto a responder. Ela esperou, sem precisar de repetir a pergunta.
— Bolas! Nunca tinha pensado nisso — disse eu com o peito a rebentar. — Sim, eram os melhores momentos, quando a apanhava a chorar, no medo de perguntar, para apenas descobrir, que as lágrimas eram pequenos sorrisos, no sentir de histórias de paixão.
Esperei outra vez, antes de continuar.
— Sim, foram os únicos momentos, em que tenho a certeza que ela estava feliz.
No dia seguinte ofereci outro livro à minha mãe, com uma dedicatória que a fez chorar. O livro de capa vermelha ficou para mim, as manchas das lágrimas nunca saíram, e ainda me fazem sorrir.
— Boa tarde — disse a rapariga atrás do balcão. — É só o livro?
— Sim — respondi, despertado do sonho.
O barulho da máquina registadora fez-me levantar os olhos, que me levaram a outros em lágrimas. A rapariga tentava secar as gotas que manchavam o vermelho da capa.
— Desculpe, acho que é melhor levar outro — disse ela. — Não faço ideia se vai ficar marcado.
Não resisti à pergunta.
— Posso perguntar porquê?
Ela sorriu antes de responder.
— Não são lágrimas tristes, este livro traz-me boas recordações, sempre que o leio farto-me de chorar.
Lembrei-me da minha mãe, naquele preciso momento lembrei-me de anos de dor.
— Sabe, esse livro é para a minha mãe — disse, de olhos presos aos da rapariga. — Ela chorava sempre que lia.
— Disse que ela chorava, já não o faz? — perguntou ela.
— Acabo sempre a falar no passado — disse eu depois de pensar um segundo. — Acho que o faço de forma automática, aconteceram muitas coisas no passado.
— Eram os melhores momentos, não eram? — perguntou ela num tom impaciente, de quem conseguia adivinhar.
Fui apanhado de surpresa. Nas palavras dela percebi. Levei um minuto a responder. Ela esperou, sem precisar de repetir a pergunta.
— Bolas! Nunca tinha pensado nisso — disse eu com o peito a rebentar. — Sim, eram os melhores momentos, quando a apanhava a chorar, no medo de perguntar, para apenas descobrir, que as lágrimas eram pequenos sorrisos, no sentir de histórias de paixão.
Esperei outra vez, antes de continuar.
— Sim, foram os únicos momentos, em que tenho a certeza que ela estava feliz.
No dia seguinte ofereci outro livro à minha mãe, com uma dedicatória que a fez chorar. O livro de capa vermelha ficou para mim, as manchas das lágrimas nunca saíram, e ainda me fazem sorrir.
Quinta-feira, Agosto 30, 2007
O Livro Perdido
Desde sempre que existem, não os vemos porque não sabemos como, mas eles caminham na nossa sombra, escolhendo o chão que não pisamos, ocupando o espaço vazio entre nós. Os mais pequenos têm a altura de um arbusto de Fevereiro, nem um cabelo a mais, uma obrigação que não questionam, que os faz curvar, e os afasta do céu. Os maiores tocam as árvores, as folhas mais baixas de um pinheiro com seis anos, esticando-se em dor, longe da terra e do cheiro da erva. A uns chamaram-lhes elfos, duendes, gnomos, seres antigos que conheciam feitiços secretos. Mas eles só guardam o que esquecemos, todas as ideias que temos, mas que não sabemos recordar. Os outros foram trolls, ogres, monstros terríveis, em histórias de assustar. Mas eles só guardam o que perdemos, todas as coisas que pensamos serem nossas, mas que desistimos de procurar. Existem duas salas, a primeira está cheia de livros, folhas antigas escritas à mão, letras desenhadas muito devagar, palavras que se juntam uma última vez, depois da certeza, de que nunca mais serão lembradas. A segunda sala está cheia de caixas, arrumadas por gigantes que não sabem ler nem escrever, que as separam por sons, barulhos que só eles conseguem ouvir. Esta é a história de um livro perdido.
As oficinas
A espera era a melhor parte, antes de tudo começar a ser esquecido, de ser escondido para sempre. O pequeno ser aguardava as palavras, preparava-se para decorar o que não seria repetido, estalava os dedos antes de começar a escrever. Atrás dele outros não fingiam entusiasmo, as ideias eram quase sempre pobres, pequenos recados sem importância, que escreviam sem prazer, mas de forma cuidada. O pequeno ser era o único que sonhava, que acreditava que nem tudo estava escrito no mundo dos homens, que ainda era possível, um último pensamento inspirado, por alguma razão esquecido, que ele tivesse a missão de guardar.
O gigante olhava o monte à sua frente, um trabalho que sabia não ter fim. Agarrou num objecto brilhante e abanou-o junto ao ouvido, fingindo que decidia, antes de o atirar para dentro de uma caixa. Os outros desprezavam-no, invejando a sua sorte, de olhos feitos de esperança, de que um dia iria achar um tesouro, mesmo que há mais de dois séculos isso não acontecesse. Mas o gigante não procurava o que todos pensavam, num desejo que escondia, dia após dia, esperando que ninguém descobrisse.
De repente as palavras pararam, os objectos deixaram de cair, o silêncio instalou-se de uma forma desconhecida. Era um livro, só podia ser um livro. Os dois sabiam, os dois conheciam a lenda, de uma disputa que durara cem anos, para saber quem guardaria um livro, uma história perfeita encadernada a ouro, uma oferta a um Rei louco, que a levara consigo na morte. Os dois esperaram pela decisão, jurando que outros cem anos passavam. Mas desta vez a capa era de cabedal velho. O gigante controlou a dor.
Um encontro raro
O pequeno ser abriu o livro devagar, quase esquecera o toque, habituado às palavras que não eram escritas. Os livros eram quase sempre para os gigantes, sem nada que os distinguisse, contando histórias banais, tantas vezes repetidas, que nunca eram esquecidas. Mas sentia que aquele era especial, pois tinha parado as oficinas, numa dúvida pouco comum, em quem sabia escolher. A primeira surpresa não o desanimou, pois a capa era velha, mas as folhas ainda eram brancas, uma mescla improvável, que tentou não perceber. O segundo olhar trouxe o desconforto, ao mesmo tempo que a porta abanou, no mesmo momento que o livro se fechou. O bater era demasiado forte, obrigando-o a olhar para cima, antes mesmo de abrir. A voz era doce.
— O livro está perdido — disse o gigante sem olhar para ele.
Não havia palavras a mais, os dois só argumentariam por cortesia.
— A escolha foi feita — respondeu calmamente.
O gigante olhou para baixo.
— Não é antigo, pois não?
O pequeno ser respondeu em pose orgulhosa, que não sabia imitar.
— Vocês não deviam vir até aqui.
O gigante sorriu.
— Não é proibido, é errado, mas não é proibido. — Fez uma pausa antes de continuar. — Não é antigo, pois não?
Nenhum dos dois sabia mentir.
— Não, para nós não é antigo — respondeu o ser que tinha a altura de um arbusto. — Como podes saber?
— Porque estive à espera — disse aquele que trazia agulhas de pinheiro presas no cabelo.
— Eu também — disse o pequeno ser.
Uma confiança rara
O convite foi feito, cumprindo as regras que nunca tinham percebido, por não ser possível. O gigante sentou-se no chão, desafiando os seus. O livro foi aberto entre os dois, as páginas viradas à vez, passando pelo que sabiam não ser importante, sentindo a ansiedade do descobrir. Mais de vinte páginas antes do fim, uma, duas, três páginas atrás, seis linhas escritas à mão, no meio do que não tinha sentido, seis linhas que não podiam ter adivinhado, que trouxeram lágrimas contidas, num choro que não sabiam. O desafio chegou sem estranheza.
— Também tens de o copiar? — perguntou aquele que estava sentado.
— Sim, os livros também são copiados — respondeu aquele que teimava em respeitar a altura, o tamanho do segundo mês dos homens. — As cópias são guardadas na primeira sala, os originais são queimados no terceiro forno.
— Este não será.
O pequeno ser não disse nada.
Uma viagem rara
A estrada era quase um mito, poucas vezes falada, feita de perigos escondidos, mas bem desenhada. Pequenas ervas marcavam o caminho, de cada um dos lados da terra batida, sem se atreverem, conservando as curvas do trilho mágico, da única passagem para o outro mundo. Não existiam árvores perto da estrada, como se os bosques tivessem medo, como se tudo pudesse desaparecer. O pequeno ser tentava não ouvir o vento, que trazia promessas difíceis, de clareiras ao Sol. Falou para conseguir.
— Pensas nele?
— Penso no que escreveu — disse o gigante. — Com tão poucas palavras...
— Vocês não sabem ler — disse o mais pequeno dos dois.
— Vocês também estão proibidos de sonhar — disse aquele que tinha de esperar no andar, respeitando as diferenças.
O pequeno ser levantou um pouco a cabeça, quebrando pela primeira vez o juramento. Antes de responder sentiu que podia sorrir, sabia que o outro fingiria não ver.
— Sempre acreditei no sonho, de que algo podia surgir do escuro — disse, voltando aos poucos ao seu andar, feliz pela breve sensação de ser livre. — Só não percebo como se pode esquecer.
— O livro está perdido — disse o gigante quase em sussurro.
O pequeno ser não disse nada. Não tinha a certeza.
A noite caiu, sem estrelas, sem barulhos de animais. Estavam perto da encruzilhada, onde havia uma pedra que tinha sido partida em dez partes iguais, onde um coração tinha sido enterrado. As pedras marcavam diferentes caminhos, que não eram difíceis de escolher, para quem esperara durante tanto tempo. Seguiram pelo terceiro, contando a partir da segunda árvore, no sentido do vento. Faltava pouco, os dois sabiam que faltava pouco.
O menino assustado
O homem estava sentado numa cadeira que baloiçava. Parecia um miúdo, mesmo depois de muitos anos. A pele tinha rugas largas, o cabelo era cinzento, sobre um castanho que desaparecia todos os dias, mas as mãos eram pequenas, como se tivessem desejado não crescer. O pequeno ser reconheceu uma pequena corcunda, vencida mas não esquecida, de quem suportara o peso do mundo, antes de aprender a sentir. Os dois avançaram em silêncio, sabendo que ele não os podia ver, mas esperando pacientemente por um fechar de olhos, um ligeiro dormitar, que recebesse o livro que seguravam. Uma voz afastou os pássaros das árvores, uma mão fechou-se sobre a capa de cabedal. Já não era possível voltar.
— Rui! Rui! Estás aí? Acho que vai chover, senti o vento forte nas janelas.
O homem não respondeu. Uma mulher aproximou-se, pisando a madeira descalça, como fazia quando era ainda uma rapariga.
— Rui, o que se passa? Porque não respondes?
Sentou-se no chão à frente dele, depois de perceber as lágrimas.
Ele abriu o livro, começando a contar as páginas pelo fim. Depois leu devagar, antes de começar a falar.
— Fui eu que escrevi estas linhas — disse, lutando contra o soluçar.
Ela sorriu antes de responder.
— Eu sei Rui.
— Como? — perguntou ele.
— Porque as repetes muitas vezes, quando adormeço no teu colo.
O homem transformou-se num rapaz, num menino pequeno que não se importava de chorar. A mulher era também uma menina, que lhe segurava a mão com força.
— Porque não guardaste o livro? — perguntou ela, ao mesmo tempo que percebeu.
Ele levantou-se e puxou-a para cima.
— Anda, vamos para dentro.
— E o livro?
— Tenho de o perder outra vez — disse a sorrir.
O princípio
O pequeno ser ficou a vê-los entrar dentro da casa de madeira. Falou em poucas palavras, não por cortesia, apenas porque não precisava.
— Não estava esquecido.
Sentiu o respirar por cima dele.
— Não, não estava esquecido.
As oficinas
A espera era a melhor parte, antes de tudo começar a ser esquecido, de ser escondido para sempre. O pequeno ser aguardava as palavras, preparava-se para decorar o que não seria repetido, estalava os dedos antes de começar a escrever. Atrás dele outros não fingiam entusiasmo, as ideias eram quase sempre pobres, pequenos recados sem importância, que escreviam sem prazer, mas de forma cuidada. O pequeno ser era o único que sonhava, que acreditava que nem tudo estava escrito no mundo dos homens, que ainda era possível, um último pensamento inspirado, por alguma razão esquecido, que ele tivesse a missão de guardar.
O gigante olhava o monte à sua frente, um trabalho que sabia não ter fim. Agarrou num objecto brilhante e abanou-o junto ao ouvido, fingindo que decidia, antes de o atirar para dentro de uma caixa. Os outros desprezavam-no, invejando a sua sorte, de olhos feitos de esperança, de que um dia iria achar um tesouro, mesmo que há mais de dois séculos isso não acontecesse. Mas o gigante não procurava o que todos pensavam, num desejo que escondia, dia após dia, esperando que ninguém descobrisse.
De repente as palavras pararam, os objectos deixaram de cair, o silêncio instalou-se de uma forma desconhecida. Era um livro, só podia ser um livro. Os dois sabiam, os dois conheciam a lenda, de uma disputa que durara cem anos, para saber quem guardaria um livro, uma história perfeita encadernada a ouro, uma oferta a um Rei louco, que a levara consigo na morte. Os dois esperaram pela decisão, jurando que outros cem anos passavam. Mas desta vez a capa era de cabedal velho. O gigante controlou a dor.
Um encontro raro
O pequeno ser abriu o livro devagar, quase esquecera o toque, habituado às palavras que não eram escritas. Os livros eram quase sempre para os gigantes, sem nada que os distinguisse, contando histórias banais, tantas vezes repetidas, que nunca eram esquecidas. Mas sentia que aquele era especial, pois tinha parado as oficinas, numa dúvida pouco comum, em quem sabia escolher. A primeira surpresa não o desanimou, pois a capa era velha, mas as folhas ainda eram brancas, uma mescla improvável, que tentou não perceber. O segundo olhar trouxe o desconforto, ao mesmo tempo que a porta abanou, no mesmo momento que o livro se fechou. O bater era demasiado forte, obrigando-o a olhar para cima, antes mesmo de abrir. A voz era doce.
— O livro está perdido — disse o gigante sem olhar para ele.
Não havia palavras a mais, os dois só argumentariam por cortesia.
— A escolha foi feita — respondeu calmamente.
O gigante olhou para baixo.
— Não é antigo, pois não?
O pequeno ser respondeu em pose orgulhosa, que não sabia imitar.
— Vocês não deviam vir até aqui.
O gigante sorriu.
— Não é proibido, é errado, mas não é proibido. — Fez uma pausa antes de continuar. — Não é antigo, pois não?
Nenhum dos dois sabia mentir.
— Não, para nós não é antigo — respondeu o ser que tinha a altura de um arbusto. — Como podes saber?
— Porque estive à espera — disse aquele que trazia agulhas de pinheiro presas no cabelo.
— Eu também — disse o pequeno ser.
Uma confiança rara
O convite foi feito, cumprindo as regras que nunca tinham percebido, por não ser possível. O gigante sentou-se no chão, desafiando os seus. O livro foi aberto entre os dois, as páginas viradas à vez, passando pelo que sabiam não ser importante, sentindo a ansiedade do descobrir. Mais de vinte páginas antes do fim, uma, duas, três páginas atrás, seis linhas escritas à mão, no meio do que não tinha sentido, seis linhas que não podiam ter adivinhado, que trouxeram lágrimas contidas, num choro que não sabiam. O desafio chegou sem estranheza.
— Também tens de o copiar? — perguntou aquele que estava sentado.
— Sim, os livros também são copiados — respondeu aquele que teimava em respeitar a altura, o tamanho do segundo mês dos homens. — As cópias são guardadas na primeira sala, os originais são queimados no terceiro forno.
— Este não será.
O pequeno ser não disse nada.
Uma viagem rara
A estrada era quase um mito, poucas vezes falada, feita de perigos escondidos, mas bem desenhada. Pequenas ervas marcavam o caminho, de cada um dos lados da terra batida, sem se atreverem, conservando as curvas do trilho mágico, da única passagem para o outro mundo. Não existiam árvores perto da estrada, como se os bosques tivessem medo, como se tudo pudesse desaparecer. O pequeno ser tentava não ouvir o vento, que trazia promessas difíceis, de clareiras ao Sol. Falou para conseguir.
— Pensas nele?
— Penso no que escreveu — disse o gigante. — Com tão poucas palavras...
— Vocês não sabem ler — disse o mais pequeno dos dois.
— Vocês também estão proibidos de sonhar — disse aquele que tinha de esperar no andar, respeitando as diferenças.
O pequeno ser levantou um pouco a cabeça, quebrando pela primeira vez o juramento. Antes de responder sentiu que podia sorrir, sabia que o outro fingiria não ver.
— Sempre acreditei no sonho, de que algo podia surgir do escuro — disse, voltando aos poucos ao seu andar, feliz pela breve sensação de ser livre. — Só não percebo como se pode esquecer.
— O livro está perdido — disse o gigante quase em sussurro.
O pequeno ser não disse nada. Não tinha a certeza.
A noite caiu, sem estrelas, sem barulhos de animais. Estavam perto da encruzilhada, onde havia uma pedra que tinha sido partida em dez partes iguais, onde um coração tinha sido enterrado. As pedras marcavam diferentes caminhos, que não eram difíceis de escolher, para quem esperara durante tanto tempo. Seguiram pelo terceiro, contando a partir da segunda árvore, no sentido do vento. Faltava pouco, os dois sabiam que faltava pouco.
O menino assustado
O homem estava sentado numa cadeira que baloiçava. Parecia um miúdo, mesmo depois de muitos anos. A pele tinha rugas largas, o cabelo era cinzento, sobre um castanho que desaparecia todos os dias, mas as mãos eram pequenas, como se tivessem desejado não crescer. O pequeno ser reconheceu uma pequena corcunda, vencida mas não esquecida, de quem suportara o peso do mundo, antes de aprender a sentir. Os dois avançaram em silêncio, sabendo que ele não os podia ver, mas esperando pacientemente por um fechar de olhos, um ligeiro dormitar, que recebesse o livro que seguravam. Uma voz afastou os pássaros das árvores, uma mão fechou-se sobre a capa de cabedal. Já não era possível voltar.
— Rui! Rui! Estás aí? Acho que vai chover, senti o vento forte nas janelas.
O homem não respondeu. Uma mulher aproximou-se, pisando a madeira descalça, como fazia quando era ainda uma rapariga.
— Rui, o que se passa? Porque não respondes?
Sentou-se no chão à frente dele, depois de perceber as lágrimas.
Ele abriu o livro, começando a contar as páginas pelo fim. Depois leu devagar, antes de começar a falar.
— Fui eu que escrevi estas linhas — disse, lutando contra o soluçar.
Ela sorriu antes de responder.
— Eu sei Rui.
— Como? — perguntou ele.
— Porque as repetes muitas vezes, quando adormeço no teu colo.
O homem transformou-se num rapaz, num menino pequeno que não se importava de chorar. A mulher era também uma menina, que lhe segurava a mão com força.
— Porque não guardaste o livro? — perguntou ela, ao mesmo tempo que percebeu.
Ele levantou-se e puxou-a para cima.
— Anda, vamos para dentro.
— E o livro?
— Tenho de o perder outra vez — disse a sorrir.
O princípio
O pequeno ser ficou a vê-los entrar dentro da casa de madeira. Falou em poucas palavras, não por cortesia, apenas porque não precisava.
— Não estava esquecido.
Sentiu o respirar por cima dele.
— Não, não estava esquecido.
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
Lua
A rapariga tinha um lenço feito de vermelho e branco. Atado atrás da cabeça, cobrindo-lhe quase todo o cabelo, escondia desenhos de luas nas dobras do tecido. A pele era escura, os olhos à noite eram pretos, de manhã acordavam azuis, um segredo revelado no meio do riso, um desafio que reflectia a luz de uma fogueira. Uma pedra brilhava no colo, uma jóia de lados iguais, que era impossível contar. Uma pergunta fez-me tremer, quando a mão já não era minha.
- Queres saber o que diz?
A voz traiu-me, no que não sabia.
- Quem é que te disse que eu quero saber o futuro?
Não suportei o olhar, que chegou antes das palavras.
- Eu não falei no futuro, eu não sei nada do futuro. Mas posso dizer quem és... achas que tens coragem?
A pedra rodou e mostrou o quarto crescente. Esqueci-me de mim. Gritei.
- Não te mexas! Por favor não te mexas, tens a lua presa dentro da tua pedra. Não é um reflexo, ela está mesmo lá dentro. Eu... eu não acredito...
Ela ficou quieta. Estava assustada, por saber, por não estar preparada. Mas não precisou de olhar para ver, o que ouvira em histórias antigas, o que era proibido ler. Fechou a minha mão antes de falar.
- Desculpa mas não posso, não tenho nada para te dizer.
Afastou-se meio passo, mas a lua continuava a brilhar. Eu queria ouvir.
- E fico sem saber quem sou?
Ela sorriu, ela apenas sorriu, segurando as lágrimas, apertando os lábios. Eu fechei os olhos no perceber. Aproximei-me. Descobri o seu cheiro.
- Porquê o medo?
- Não é medo, eu não tenho medo, mas...
Uma madeixa de cabelo soltou-se sobre a cara dela. Era áspero. Eu adivinhava os seus pensamentos.
- Mas não nos ensinam a acreditar.
- Não... não ensinam.
A lua escondeu-se entre nós.
- Queres saber o que diz?
A voz traiu-me, no que não sabia.
- Quem é que te disse que eu quero saber o futuro?
Não suportei o olhar, que chegou antes das palavras.
- Eu não falei no futuro, eu não sei nada do futuro. Mas posso dizer quem és... achas que tens coragem?
A pedra rodou e mostrou o quarto crescente. Esqueci-me de mim. Gritei.
- Não te mexas! Por favor não te mexas, tens a lua presa dentro da tua pedra. Não é um reflexo, ela está mesmo lá dentro. Eu... eu não acredito...
Ela ficou quieta. Estava assustada, por saber, por não estar preparada. Mas não precisou de olhar para ver, o que ouvira em histórias antigas, o que era proibido ler. Fechou a minha mão antes de falar.
- Desculpa mas não posso, não tenho nada para te dizer.
Afastou-se meio passo, mas a lua continuava a brilhar. Eu queria ouvir.
- E fico sem saber quem sou?
Ela sorriu, ela apenas sorriu, segurando as lágrimas, apertando os lábios. Eu fechei os olhos no perceber. Aproximei-me. Descobri o seu cheiro.
- Porquê o medo?
- Não é medo, eu não tenho medo, mas...
Uma madeixa de cabelo soltou-se sobre a cara dela. Era áspero. Eu adivinhava os seus pensamentos.
- Mas não nos ensinam a acreditar.
- Não... não ensinam.
A lua escondeu-se entre nós.
Sexta-feira, Junho 29, 2007
For The Dark Finds Ways of Being
Rui esperava nas escadas, preso entre o dia e a noite, olhando a lua que aparecia por cima das árvores. Pela primeira vez em anos sentia-se bem, sabia respirar o ar fresco que chegava devagar. Não era capaz de dizer há quanto tempo ali estava, sorria ao pensar que podia ser desde sempre, que era capaz de acreditar. Viu um brilho num arbusto e disse as palavras, de quem pede em vez de mandar. A luz escondeu-se, na impaciência de se mostrar.
Margarida aproximou-se em silêncio, com um beijo demasiado perto, e um tocar delicado de dedos compridos. Falou no tempo certo, de quem aprendera a esperar.
- Estás aqui há muito tempo?
Ele sorriu antes de responder.
- Sim, estou. Queres ver uma coisa?
O coração dela bateu mais depressa.
- Sim, mostra-me.
Rui esticou uma das mãos em direcção aos arbustos, a outra ofereceu-a a Margarida, que a apertou com muita força. Ao princípio nada aconteceu, apenas o vento nas folhas, e a noite que continuava a chegar. De repente uma luz, que se acendia e apagava, depois outra, com o mesmo brilho incerto, até que apareceram mais, pequenos pontos cintilantes que se juntaram num só. Rui fechou a mão que estava esticada, e trouxe-a até ao seu peito. Margarida não conseguiu conter um riso, quando a luz se dividiu em mil, numa explosão em direcção a eles, no momento em que a tarde se despediu. Falou sem largar a mão dele.
- Rui, são pirilampos.
Ele aproximou-se dela, sentindo o mundo à sua volta, antes dos lábios se tocarem. Por fim a noite chegou.
Margarida aproximou-se em silêncio, com um beijo demasiado perto, e um tocar delicado de dedos compridos. Falou no tempo certo, de quem aprendera a esperar.
- Estás aqui há muito tempo?
Ele sorriu antes de responder.
- Sim, estou. Queres ver uma coisa?
O coração dela bateu mais depressa.
- Sim, mostra-me.
Rui esticou uma das mãos em direcção aos arbustos, a outra ofereceu-a a Margarida, que a apertou com muita força. Ao princípio nada aconteceu, apenas o vento nas folhas, e a noite que continuava a chegar. De repente uma luz, que se acendia e apagava, depois outra, com o mesmo brilho incerto, até que apareceram mais, pequenos pontos cintilantes que se juntaram num só. Rui fechou a mão que estava esticada, e trouxe-a até ao seu peito. Margarida não conseguiu conter um riso, quando a luz se dividiu em mil, numa explosão em direcção a eles, no momento em que a tarde se despediu. Falou sem largar a mão dele.
- Rui, são pirilampos.
Ele aproximou-se dela, sentindo o mundo à sua volta, antes dos lábios se tocarem. Por fim a noite chegou.
Segunda-feira, Junho 25, 2007
O Aviso
Tenho uma história para contar, uma história que ainda não acabou. Mas primeiro tenho de falar nos livros, nos livros em geral, em todos os que já li, todos os que nunca acabei, ou mesmo os que ainda não abri.
Nunca marquei os livros, desde muito pequeno, quando lia aventuras passadas em ilhas de piratas, de lanches de pão com vegetais frescos, que me pareciam esquisitos, e ao mesmo tempo perfeitos. Nessa altura acabava os livros no dia em que os começava. Acho que foi por isso que ganhei o hábito de não marcar as folhas, porque a maior parte das vezes não chegava a parar. Depois comecei a ler livros maiores, que me passaram a acompanhar durante alguns dias, uns durante semanas. Continuei a não marcar o sítio onde parava, o que me obrigava a procurar, ou então a decorar o número da página, o que hoje não sei se seria capaz, por o sentir tão difícil, um número que não quer dizer nada, no meio de tantas outras hipóteses. Somos estranhos, com a nossa capacidade de perceber diferenças, que temo só existam em nós, como distinguir o lado esquerdo do direito, o azul do vermelho, ou reconhecer um riso no meio da multidão.
Uma noite comecei a escrever, depois de mil tentativas falhadas. Escrevi em dor, no meio de sangue e frio, de perda e redenção, até um final de tarde, em tons de amarelo-torrado. No momento em que acabei percebi, contive as lágrimas no saber, que tinha conseguido dizer o que sentia, mais, que tinha conseguido gritar o que estava tão fundo dentro de mim. Depois desse dia escrevi de forma compulsiva, dizendo o que era impossível de outra forma, sofrendo e sorrindo com as histórias que criava. Mais sofrendo do que sorrindo. E parei de ler. Os livros passaram a ser como portas, aberturas para outras realidades. Bastavam algumas páginas lidas, e começava a criar as minhas histórias, fechando os livros dos outros, que eram apenas pontos de partida.
A história
Três anos depois, um pouco mais talvez, juntei dois ou três livros para as férias, um hábito antigo, mesmo sabendo que não os ia ler. Já com a escolha feita olhei para a estante e hesitei, setecentas páginas pareceram-me demais, mas não consegui resistir. Comecei por esse livro, que falava de magia, de feitiços antigos, de magos e de bruxas. Fiquei preso, sempre foram as minhas histórias preferidas, mas que nunca escrevi, preferindo as pessoas, as experiências que não vivi, mas que consigo contar, por tanto as imaginar. Sorri, por voltar ao meu mundo, por sentir que tinha recuperado uma parte de mim, voando depressa através das páginas, assistindo a bailes no meio de sonhos, num mundo de fantasia, com elfos, fadas, corvos, feiticeiros, espelhos, um mundo onde o bem e o mal não se distinguem, onde é mais difícil escolher o caminho.
Não reparei no primeiro sinal, um pequeno sinal, mas que devia ter observado com mais atenção. Um dedo, como prova de um acordo, um pagamento que seria exigido, num contrato feito só de palavras, e num confiar arriscado. Era esse o segredo de uma das minhas histórias, que chegou na forma de um sonho, o mais completo que já tive, que me fez levantar e escrever, para não esquecer, para conseguir contar mais tarde. Um dedo, que faltava na mão de uma mulher, um pequeno detalhe escondido, que nunca contei a ninguém, um prazer só meu, no criar além das palavras, não dizendo tudo o que sei.
Um dia acordei de outro sonho, no tremer de um beijo, sem conseguir perceber, se o beijo pertencia ao sonho, ou ao meu desejo já acordado, uma diferença enorme, entre o que está no outro mundo, ao que acontece depois, mesmo que no mesmo segundo. Como sempre que acontece, fiquei melancólico, lutando por não ter de decidir, por não ter de saber. Acabei com o livro nas mãos, ignorando o aviso, de que o sentimento de falta é mau companheiro, nas dúvidas que chegam com a manhã.
Foi na página cento e sessenta e quatro. Foi nessa página que tudo mudou, que julguei enlouquecer, por ter a certeza de já ter lido aquelas palavras, de já as ter partilhado, de já as ter repetido vezes sem fim. No medo fechei o livro, senti o coração a bater mais depressa, senti uma vertigem que me fez segurar, um frio no estômago do qual não me consegui libertar. Não percebi o que estava a acontecer, pois apesar de o esperar, ninguém está preparado para ver o reflexo num espelho, sem saber de que lado se está. E ali fiquei, tendo sempre desejado o impossível, sempre chamado o outro mundo até mim, sem saber o que iria sentir, quando o visse à distância de um querer. Quando voltei a abrir o livro, demorei a encontrar, porque não tinha marcado, porque quase posso jurar, que as palavras já não eram as mesmas.
Hoje espero, porque sei, porque é a única verdade que conheço, que algumas vezes, em certos momentos, tudo faz sentido, até que no momento seguinte, a realidade apaga a certeza, talvez por não ser verdade, ou porque ainda não sabemos compreender, enquanto um livro aguarda, com um marcador no meio das folhas, numa página que não decorei.
Nunca marquei os livros, desde muito pequeno, quando lia aventuras passadas em ilhas de piratas, de lanches de pão com vegetais frescos, que me pareciam esquisitos, e ao mesmo tempo perfeitos. Nessa altura acabava os livros no dia em que os começava. Acho que foi por isso que ganhei o hábito de não marcar as folhas, porque a maior parte das vezes não chegava a parar. Depois comecei a ler livros maiores, que me passaram a acompanhar durante alguns dias, uns durante semanas. Continuei a não marcar o sítio onde parava, o que me obrigava a procurar, ou então a decorar o número da página, o que hoje não sei se seria capaz, por o sentir tão difícil, um número que não quer dizer nada, no meio de tantas outras hipóteses. Somos estranhos, com a nossa capacidade de perceber diferenças, que temo só existam em nós, como distinguir o lado esquerdo do direito, o azul do vermelho, ou reconhecer um riso no meio da multidão.
Uma noite comecei a escrever, depois de mil tentativas falhadas. Escrevi em dor, no meio de sangue e frio, de perda e redenção, até um final de tarde, em tons de amarelo-torrado. No momento em que acabei percebi, contive as lágrimas no saber, que tinha conseguido dizer o que sentia, mais, que tinha conseguido gritar o que estava tão fundo dentro de mim. Depois desse dia escrevi de forma compulsiva, dizendo o que era impossível de outra forma, sofrendo e sorrindo com as histórias que criava. Mais sofrendo do que sorrindo. E parei de ler. Os livros passaram a ser como portas, aberturas para outras realidades. Bastavam algumas páginas lidas, e começava a criar as minhas histórias, fechando os livros dos outros, que eram apenas pontos de partida.
A história
Três anos depois, um pouco mais talvez, juntei dois ou três livros para as férias, um hábito antigo, mesmo sabendo que não os ia ler. Já com a escolha feita olhei para a estante e hesitei, setecentas páginas pareceram-me demais, mas não consegui resistir. Comecei por esse livro, que falava de magia, de feitiços antigos, de magos e de bruxas. Fiquei preso, sempre foram as minhas histórias preferidas, mas que nunca escrevi, preferindo as pessoas, as experiências que não vivi, mas que consigo contar, por tanto as imaginar. Sorri, por voltar ao meu mundo, por sentir que tinha recuperado uma parte de mim, voando depressa através das páginas, assistindo a bailes no meio de sonhos, num mundo de fantasia, com elfos, fadas, corvos, feiticeiros, espelhos, um mundo onde o bem e o mal não se distinguem, onde é mais difícil escolher o caminho.
Não reparei no primeiro sinal, um pequeno sinal, mas que devia ter observado com mais atenção. Um dedo, como prova de um acordo, um pagamento que seria exigido, num contrato feito só de palavras, e num confiar arriscado. Era esse o segredo de uma das minhas histórias, que chegou na forma de um sonho, o mais completo que já tive, que me fez levantar e escrever, para não esquecer, para conseguir contar mais tarde. Um dedo, que faltava na mão de uma mulher, um pequeno detalhe escondido, que nunca contei a ninguém, um prazer só meu, no criar além das palavras, não dizendo tudo o que sei.
Um dia acordei de outro sonho, no tremer de um beijo, sem conseguir perceber, se o beijo pertencia ao sonho, ou ao meu desejo já acordado, uma diferença enorme, entre o que está no outro mundo, ao que acontece depois, mesmo que no mesmo segundo. Como sempre que acontece, fiquei melancólico, lutando por não ter de decidir, por não ter de saber. Acabei com o livro nas mãos, ignorando o aviso, de que o sentimento de falta é mau companheiro, nas dúvidas que chegam com a manhã.
Foi na página cento e sessenta e quatro. Foi nessa página que tudo mudou, que julguei enlouquecer, por ter a certeza de já ter lido aquelas palavras, de já as ter partilhado, de já as ter repetido vezes sem fim. No medo fechei o livro, senti o coração a bater mais depressa, senti uma vertigem que me fez segurar, um frio no estômago do qual não me consegui libertar. Não percebi o que estava a acontecer, pois apesar de o esperar, ninguém está preparado para ver o reflexo num espelho, sem saber de que lado se está. E ali fiquei, tendo sempre desejado o impossível, sempre chamado o outro mundo até mim, sem saber o que iria sentir, quando o visse à distância de um querer. Quando voltei a abrir o livro, demorei a encontrar, porque não tinha marcado, porque quase posso jurar, que as palavras já não eram as mesmas.
Hoje espero, porque sei, porque é a única verdade que conheço, que algumas vezes, em certos momentos, tudo faz sentido, até que no momento seguinte, a realidade apaga a certeza, talvez por não ser verdade, ou porque ainda não sabemos compreender, enquanto um livro aguarda, com um marcador no meio das folhas, numa página que não decorei.
Segunda-feira, Junho 11, 2007
À Chuva
João olhava para o mar de lágrimas nos olhos. Desde que chegara à praia que chorava sem parar, perdido no meio de pensamentos que repetia vezes demais, de músicas que já deviam fazer parte do passado. Esperava por Maria sem ter a certeza de que ela ia aparecer, sem saber se ia poder desabafar com a única pessoa que o percebia.
Ouviu atrás dele um barulho de carro a parar, seguido de uma porta que se abriu e fechou. A madeira estalou com o peso de alguém a andar em cima dela. João continuou a olhar o mar, apesar de tudo a ansiedade não era tão grande como antes, podia esperar para saber.
Uma voz chegou, sentida como um abraço, apesar do tom brusco.
— Bolas João! Não podes continuar a fazer isto! Sabes em quantos sítios já procurei por ti?
Maria conhecia-o demasiado bem, o que nem sempre ajudava, em desencontros que a irritavam.
— Desculpa ter desligado o telefone — disse, antecipando a crítica —, não era para que tu não me encontrasses.
Ela sentou-se ao lado dele no banco de madeira.
— Pois, espero que não, depois de cinco mensagens a dizer que precisavas de falar comigo. Não podias ter dito onde estavas?
— Eu não sabia Maria, quando dei por mim estava aqui, nem me lembro bem de ter guiado até cá.
Dos olhos verdes continuavam a cair lágrimas, pequenas gotas que se misturavam com a areia. Ela esperava sem perguntar, os dois eram como dois pratos de uma balança, sempre em posições opostas, sempre em equilíbrio, mas nunca à mesma altura. No último ano era sempre o prato dele que estava em baixo, suportando um peso que Maria não carregava.
— Sabes o meu antigo chefe? — disse ele, tentando controlar o soluçar na voz. — Ontem vi-o no metro.
— Aquele em que bateste?
A recordação ainda trazia de volta o sentimento de raiva, mas que, estranhamente, começava a diminuir.
— Eu não lhe bati — disse sem convicção. — Aquilo foi mais um empurrão, ele é que caiu mal.
Maria largou uma gargalhada.
— Caiu mal? Caiu mal de cabeça, queres tu dizer.
— Tens muita piada.
Ela controlou o riso, recordando os momentos difíceis que o amigo passara.
— Desculpa — disse ela, ao mesmo tempo que lhe roubava uma lágrima da face. — Eu sei que tu sofreste muito por causa dele. Mas porque é que te lembraste disso agora?
João falou devagar, como quem pensa em cada palavra antes de a dizer.
— Vi-o ontem no metro, acompanhado de uma mulher, uma rapariga.
Maria esperou.
— Ela devia ter uns trinta anos, um pouco gordinha, mas não era feia, não era... — Tossiu antes de continuar. — Eu nunca achei que houvesse uma mulher neste mundo que o quisesse, era uma garantia minha, de que a vida podia ser justa.
— Castigando-o? — perguntou ela.
— Sim, castigando-o. Eu sei que não é correcto, que não faz sentido passar o resto da vida à espera de o ver infeliz, mas ali naquele momento não fui capaz de conter a frustração, pela bondade no olhar da rapariga, por uma beleza simples, uma beleza que eu achei que ele não merecia.
— Mas não foi só isso, pois não? — disse ela, ao mesmo tempo que o empurrava com o ombro, tentando acalmá-lo.
João tossiu outra vez antes de continuar.
— Não, não foi. O que aconteceu depois deixou-me desarmado.
— Como assim? — perguntou ela de olhos semi-cerrados, por causa da luz e da curiosidade.
— Maria, eles iam um pouco à minha frente, conversando enquanto caminhavam. Eu não os conseguia ouvir, mas consegui perceber que algo se passava, sentia-se um problema qualquer entre eles, como se um dos dois fosse começar a chorar a qualquer momento.
— E depois? — Maria estava ansiosa, dominando as perguntas com medo que ele se calasse.
— Depois? Depois dei por mim a imaginar o que conversavam, a inventar palavras saídas da boca deles, a ter a certeza que estavam a acabar um namoro, que nem sequer sei se existe.
— E?
— E aí começou o meu problema — disse ele em voz baixa. — Dei por mim a desejar que ela não o deixasse, que resolvessem aquilo, que fossem felizes. Merda! Dei por mim parado nas escadas do metro, a desejar que fossem felizes. Percebes isto Maria? Consegues explicar-me isto? Eu sei que não sou assim tão boa pessoa.
Ela olhou para ele e sorriu. João estava com a barba por fazer, uma barba que começava a ser branca e lhe dava um ar engraçado, pois continuava com um ar de miúdo. Maria tinha a certeza que ele seria sempre assim, mesmo quando fosse muito velho.
— Achas que foi pena? — perguntou ela enquanto lhe dava a mão.
— Não, o pior é isso, tenho a certeza que não foi por pena que senti o que te disse. Sabes, eu odeio aquele homem, eu ainda sinto o coração a bater mais depressa quando me lembro de tudo o que ele fez, de tudo o que me aconteceu depois daquele acidente estúpido. Eu não o desculpo, nem acho que ele seja boa pessoa, mas... mas Maria, ontem, enquanto olhava para ele a conversar com a rapariga, nesse preciso momento, senti... — A voz tremia-lhe e mordeu o lábio de baixo. — Bolas! Queres saber a verdade? Senti-me próximo dele, senti uma vontade enorme de que eles ficassem bem, senti que isso era muito importante para mim.
Maria sorriu outra vez, desejando que ele entendesse.
— Olha, já ouviste falar em pessoas que viajam até sítios sobre os quais leram? — A pergunta pareceu estranha, mas deixou João curioso.
— Como assim? Lês algo que se passou num lugar e depois vais visitá-lo?
— Mais ou menos, começou por ser isso. Algumas agências de viagens começaram a aproveitar o sucesso de alguns livros e depois a organizar viagens que seguiam os sítios onde a história se passava.
— Acho que li alguma coisa sobre isso — disse ele sem perceber porque é que ela se tinha lembrado de falar naquilo. — Sinceramente sempre achei que era o tipo de coisas para turistas americanos, daqueles que andam sempre com camisas coloridas.
— Sim, eu sei — disse ela a rir. — Mas houve quem tivesse agarrado nessa ideia e tivesse se lembrado de uma coisa mais simples.
— Algo mais simples? — disse ele intrigado.
— Sim, a ideia é a de ler os livros num sítio que tenha a ver com o título ou com a história dos mesmos.
João passou as mãos no cabelo, tentado perceber o sentido do que Maria lhe estava a dizer.
— Mas não é o mesmo das viagens?
— Não, nada tão elaborado — disse ela entusiasmada. — O livro fala numa praia, tu só o podes ler numa praia, o título é O Comboio Fantasma, tu...
— Leio-o no comboio — completou ele.
— Mas que não tem de ser assombrado — disse ela. — Percebes? A ideia é ser uma coisa simples.
— Maria, acho a ideia muito boa, mas... — A frase ficou a meio de propósito.
— Queres saber porque falo nisto?
Ele fechou os olhos, por não precisar de responder.
— Lembrei-me de uma pessoa — disse ela, aproveitando para recordar. — Uma pessoa que lhe aconteceu uma coisa, não importa o quê, mas algo que lhe mudou a vida.
— E o que é que isso tem a ver com os livros? — perguntou ele.
— Ele... essa pessoa, ele adorava ler dessa maneira, raramente lia um livro sem seguir o ritual de procurar, embora eu ache que às vezes fazia ao contrário, escolhia primeiro o sítio e depois o livro — disse ela no meio de um sorriso.
João sentiu que percebia, antes de ter a certeza.
— E depois? — perguntou ele.
— Aquilo que eu disse que lhe aconteceu, foi uma coisa muito traumática, muito forte, num lugar onde ele esteve anos sem conseguir ir, até que... João, ele um dia apareceu-me em casa, numa noite de temporal, e trazia debaixo da roupa um monte de folhas escritas à mão.
— O que eram? — perguntou ele impaciente, desejando que ela contasse a história mais depressa.
— João, ele escreveu sobre o que tinha acontecido anos atrás, sobre o que carregava com ele todos os dias. — Fez uma pausa antes de continuar. — Ele foi lá, foi lá onde tudo aconteceu e leu o que escreveu, libertou-se, percebes? Se tu o tivesses visto, chorou a noite toda, parecia uma criança.
João ouvia Maria sem dizer uma palavra.
— De manhã queimou os papéis, disse que não precisava mais deles. — Não conseguiu impedir uma lágrima de cair, João fingiu que não reparou.
— Era alguém muito importante para ti? — perguntou com medo da resposta.
— Sim, mas não dessa maneira que estás pensar — respondeu ela. — Foi o meu pai.
João voltou a olhar o mar, lembrou-se dos últimos dias e do que o tinha levado ali. Lembrou-se de tudo o que não entendia, de tudo o que lhe enchia a cabeça. Pensou na história que acabara de ouvir, mais uma vez sentindo, antes de saber.
— Maria, desculpa mas... é que é disto que eu tenho tentado fugir, de tudo o que parece fazer sentido, dos números que escondem segredos, das palavras que parecem ter sido escritas para nós, das músicas que nos fazem doer o estômago. É de todas as obsessões que tento me ver livre, de achar que num segundo posso mudar tudo, dizendo a mim próprio, vezes sem conta, que não existe uma fórmula secreta para resolver todos os problemas.
— Sim, eu sei — disse ela de forma calma.
— Sabes? Então porque é que me contaste isto tudo? O que é que é suposto eu fazer, agarrar em tudo que escrevi nos últimos anos e ir de sítio em sítio ler sobre cada problema da minha vida?
— Não João, tu já resolveste os teus problemas, só não deste ainda conta disso.
O dia ficou mais cinzento, por causa de uma nuvem que tapou o Sol, uma ameaça de chuva que os fez sorrir aos dois, no recordar de tardes de Inverno, em corridas de perder o fôlego.
— Maria, às vezes tenho vontade de te beijar.
Ela sorriu envergonhada, mas sem desviar os olhos dos dele.
— Não sei porque demoras tanto.
A chuva começou a cair.
Ouviu atrás dele um barulho de carro a parar, seguido de uma porta que se abriu e fechou. A madeira estalou com o peso de alguém a andar em cima dela. João continuou a olhar o mar, apesar de tudo a ansiedade não era tão grande como antes, podia esperar para saber.
Uma voz chegou, sentida como um abraço, apesar do tom brusco.
— Bolas João! Não podes continuar a fazer isto! Sabes em quantos sítios já procurei por ti?
Maria conhecia-o demasiado bem, o que nem sempre ajudava, em desencontros que a irritavam.
— Desculpa ter desligado o telefone — disse, antecipando a crítica —, não era para que tu não me encontrasses.
Ela sentou-se ao lado dele no banco de madeira.
— Pois, espero que não, depois de cinco mensagens a dizer que precisavas de falar comigo. Não podias ter dito onde estavas?
— Eu não sabia Maria, quando dei por mim estava aqui, nem me lembro bem de ter guiado até cá.
Dos olhos verdes continuavam a cair lágrimas, pequenas gotas que se misturavam com a areia. Ela esperava sem perguntar, os dois eram como dois pratos de uma balança, sempre em posições opostas, sempre em equilíbrio, mas nunca à mesma altura. No último ano era sempre o prato dele que estava em baixo, suportando um peso que Maria não carregava.
— Sabes o meu antigo chefe? — disse ele, tentando controlar o soluçar na voz. — Ontem vi-o no metro.
— Aquele em que bateste?
A recordação ainda trazia de volta o sentimento de raiva, mas que, estranhamente, começava a diminuir.
— Eu não lhe bati — disse sem convicção. — Aquilo foi mais um empurrão, ele é que caiu mal.
Maria largou uma gargalhada.
— Caiu mal? Caiu mal de cabeça, queres tu dizer.
— Tens muita piada.
Ela controlou o riso, recordando os momentos difíceis que o amigo passara.
— Desculpa — disse ela, ao mesmo tempo que lhe roubava uma lágrima da face. — Eu sei que tu sofreste muito por causa dele. Mas porque é que te lembraste disso agora?
João falou devagar, como quem pensa em cada palavra antes de a dizer.
— Vi-o ontem no metro, acompanhado de uma mulher, uma rapariga.
Maria esperou.
— Ela devia ter uns trinta anos, um pouco gordinha, mas não era feia, não era... — Tossiu antes de continuar. — Eu nunca achei que houvesse uma mulher neste mundo que o quisesse, era uma garantia minha, de que a vida podia ser justa.
— Castigando-o? — perguntou ela.
— Sim, castigando-o. Eu sei que não é correcto, que não faz sentido passar o resto da vida à espera de o ver infeliz, mas ali naquele momento não fui capaz de conter a frustração, pela bondade no olhar da rapariga, por uma beleza simples, uma beleza que eu achei que ele não merecia.
— Mas não foi só isso, pois não? — disse ela, ao mesmo tempo que o empurrava com o ombro, tentando acalmá-lo.
João tossiu outra vez antes de continuar.
— Não, não foi. O que aconteceu depois deixou-me desarmado.
— Como assim? — perguntou ela de olhos semi-cerrados, por causa da luz e da curiosidade.
— Maria, eles iam um pouco à minha frente, conversando enquanto caminhavam. Eu não os conseguia ouvir, mas consegui perceber que algo se passava, sentia-se um problema qualquer entre eles, como se um dos dois fosse começar a chorar a qualquer momento.
— E depois? — Maria estava ansiosa, dominando as perguntas com medo que ele se calasse.
— Depois? Depois dei por mim a imaginar o que conversavam, a inventar palavras saídas da boca deles, a ter a certeza que estavam a acabar um namoro, que nem sequer sei se existe.
— E?
— E aí começou o meu problema — disse ele em voz baixa. — Dei por mim a desejar que ela não o deixasse, que resolvessem aquilo, que fossem felizes. Merda! Dei por mim parado nas escadas do metro, a desejar que fossem felizes. Percebes isto Maria? Consegues explicar-me isto? Eu sei que não sou assim tão boa pessoa.
Ela olhou para ele e sorriu. João estava com a barba por fazer, uma barba que começava a ser branca e lhe dava um ar engraçado, pois continuava com um ar de miúdo. Maria tinha a certeza que ele seria sempre assim, mesmo quando fosse muito velho.
— Achas que foi pena? — perguntou ela enquanto lhe dava a mão.
— Não, o pior é isso, tenho a certeza que não foi por pena que senti o que te disse. Sabes, eu odeio aquele homem, eu ainda sinto o coração a bater mais depressa quando me lembro de tudo o que ele fez, de tudo o que me aconteceu depois daquele acidente estúpido. Eu não o desculpo, nem acho que ele seja boa pessoa, mas... mas Maria, ontem, enquanto olhava para ele a conversar com a rapariga, nesse preciso momento, senti... — A voz tremia-lhe e mordeu o lábio de baixo. — Bolas! Queres saber a verdade? Senti-me próximo dele, senti uma vontade enorme de que eles ficassem bem, senti que isso era muito importante para mim.
Maria sorriu outra vez, desejando que ele entendesse.
— Olha, já ouviste falar em pessoas que viajam até sítios sobre os quais leram? — A pergunta pareceu estranha, mas deixou João curioso.
— Como assim? Lês algo que se passou num lugar e depois vais visitá-lo?
— Mais ou menos, começou por ser isso. Algumas agências de viagens começaram a aproveitar o sucesso de alguns livros e depois a organizar viagens que seguiam os sítios onde a história se passava.
— Acho que li alguma coisa sobre isso — disse ele sem perceber porque é que ela se tinha lembrado de falar naquilo. — Sinceramente sempre achei que era o tipo de coisas para turistas americanos, daqueles que andam sempre com camisas coloridas.
— Sim, eu sei — disse ela a rir. — Mas houve quem tivesse agarrado nessa ideia e tivesse se lembrado de uma coisa mais simples.
— Algo mais simples? — disse ele intrigado.
— Sim, a ideia é a de ler os livros num sítio que tenha a ver com o título ou com a história dos mesmos.
João passou as mãos no cabelo, tentado perceber o sentido do que Maria lhe estava a dizer.
— Mas não é o mesmo das viagens?
— Não, nada tão elaborado — disse ela entusiasmada. — O livro fala numa praia, tu só o podes ler numa praia, o título é O Comboio Fantasma, tu...
— Leio-o no comboio — completou ele.
— Mas que não tem de ser assombrado — disse ela. — Percebes? A ideia é ser uma coisa simples.
— Maria, acho a ideia muito boa, mas... — A frase ficou a meio de propósito.
— Queres saber porque falo nisto?
Ele fechou os olhos, por não precisar de responder.
— Lembrei-me de uma pessoa — disse ela, aproveitando para recordar. — Uma pessoa que lhe aconteceu uma coisa, não importa o quê, mas algo que lhe mudou a vida.
— E o que é que isso tem a ver com os livros? — perguntou ele.
— Ele... essa pessoa, ele adorava ler dessa maneira, raramente lia um livro sem seguir o ritual de procurar, embora eu ache que às vezes fazia ao contrário, escolhia primeiro o sítio e depois o livro — disse ela no meio de um sorriso.
João sentiu que percebia, antes de ter a certeza.
— E depois? — perguntou ele.
— Aquilo que eu disse que lhe aconteceu, foi uma coisa muito traumática, muito forte, num lugar onde ele esteve anos sem conseguir ir, até que... João, ele um dia apareceu-me em casa, numa noite de temporal, e trazia debaixo da roupa um monte de folhas escritas à mão.
— O que eram? — perguntou ele impaciente, desejando que ela contasse a história mais depressa.
— João, ele escreveu sobre o que tinha acontecido anos atrás, sobre o que carregava com ele todos os dias. — Fez uma pausa antes de continuar. — Ele foi lá, foi lá onde tudo aconteceu e leu o que escreveu, libertou-se, percebes? Se tu o tivesses visto, chorou a noite toda, parecia uma criança.
João ouvia Maria sem dizer uma palavra.
— De manhã queimou os papéis, disse que não precisava mais deles. — Não conseguiu impedir uma lágrima de cair, João fingiu que não reparou.
— Era alguém muito importante para ti? — perguntou com medo da resposta.
— Sim, mas não dessa maneira que estás pensar — respondeu ela. — Foi o meu pai.
João voltou a olhar o mar, lembrou-se dos últimos dias e do que o tinha levado ali. Lembrou-se de tudo o que não entendia, de tudo o que lhe enchia a cabeça. Pensou na história que acabara de ouvir, mais uma vez sentindo, antes de saber.
— Maria, desculpa mas... é que é disto que eu tenho tentado fugir, de tudo o que parece fazer sentido, dos números que escondem segredos, das palavras que parecem ter sido escritas para nós, das músicas que nos fazem doer o estômago. É de todas as obsessões que tento me ver livre, de achar que num segundo posso mudar tudo, dizendo a mim próprio, vezes sem conta, que não existe uma fórmula secreta para resolver todos os problemas.
— Sim, eu sei — disse ela de forma calma.
— Sabes? Então porque é que me contaste isto tudo? O que é que é suposto eu fazer, agarrar em tudo que escrevi nos últimos anos e ir de sítio em sítio ler sobre cada problema da minha vida?
— Não João, tu já resolveste os teus problemas, só não deste ainda conta disso.
O dia ficou mais cinzento, por causa de uma nuvem que tapou o Sol, uma ameaça de chuva que os fez sorrir aos dois, no recordar de tardes de Inverno, em corridas de perder o fôlego.
— Maria, às vezes tenho vontade de te beijar.
Ela sorriu envergonhada, mas sem desviar os olhos dos dele.
— Não sei porque demoras tanto.
A chuva começou a cair.
Domingo, Abril 29, 2007
A Casa da Bruxa
Foi numa manhã de Abril que me voltei a lembrar de uma história de infância, a da casa da bruxa. O dia começou no cansaço de uma noite de insónia, embalada pelos gritos de uma mulher, uma prostituta que nem deve ter aceite o dinheiro, de tanto prazer que agradeceu aos céus. Afectava-me o desempenho do meu vizinho, que não precisava de pagar, mas que se recusava a dar de outra forma, a partilhar um pouco que fosse do seu dom.
Acordei cedo e lutei para não me deixar ficar na cama, fugi em direcção a um sítio que queria visitar há anos. Demorei menos de uma hora a chegar ao fim da estrada, o resto tinha de ser feito a pé, uma coragem que estranhei, perguntando a mim mesmo porque é que não estava deitado, sorrindo com os cumprimentos matinais que tinha recebido na estação de serviço. Andei pelo meio das árvores até chegar ao cimo de um caminho feito de pedras arredondadas, uns degraus muito gastos serviam de porta de entrada ao miradouro e subi-os dois a dois até ficar cego com o Sol da manhã, antes de conseguir ver a paisagem que me tinham prometido. Jurei a mim mesmo que dali conseguia ver o mundo inteiro e que no dia em que conseguisse voar, seria do alto daquelas pedras que saltaria para o vazio. Um sonho antigo.
Meti-me outra vez à estrada, com outro desejo escondido no sorriso, tinha de deitar fora a ansiedade que me acompanhava nas últimas semanas. Em Abril a minha praia ainda devia estar quase deserta, apenas visitada por doidos e mães divorciadas, acompanhadas por pequenas miúdas de cabelos dourados, que se afastavam para poder brincar.
Deve ter sido a música, só pode ter sido a música que me distraiu, no repetir exagerado, chorando e rindo em partes que sabia de cor. Dei por mim numa estrada desconhecida, com placas que indicavam o destino traçado, mas sem conhecer as casas por que passava, sem saber para que lado a estrada seguia, depois de cada curva feita devagar. Continuei a cantar, voltando sempre ao início da música, sem me preocupar, sabendo que mais cedo ou mais tarde havia de chegar.
Mal vi a casa percebi que já ali tinha estado, era o caminho antigo feito pelos meus avós, antes das auto-estradas, antes de viajarmos sem olhar. Nesses tempos sentia sempre um arrepio na espinha, um medo que demorava, uma vontade de me benzer à qual não cedia, por ter medo que Deus se zangasse, por ter medo que a bruxa estivesse à janela, distribuindo maldições aos que se atrevessem a rezar. Tive de parar.
A casa da bruxa estava na mesma, com os azulejos castanhos e o alpendre cheio de enormes potes de barro. Quando era miúdo só pensava na bruxa, no mal que ela me podia fazer, nunca pensei no bizarro de toda aquela história, uma bruxa que vivia numa casa à beira da estrada, uma casa que não parecia assombrada, que não estava no meio de um bosque sombrio. Nunca me tinha importado com a falta de um ambiente sinistro, sem deixar adivinhar o que estava por trás. Só naquela manhã de Abril decidi que não podia ficar sem saber, que tinha de descobrir o porquê da fama da mulher, que eu nem sabia se existia.
Aproximei-me da porta nervoso, tinham sido muitos anos de virar os olhos, de contar até mil para não pensar em mais nada. A primeira surpresa veio com o toque da campainha, feita de cantos de pássaros, rouxinóis e canários, que não foram suficientes para soltar o riso, para deixar de sentir o medo. A porta abriu-se sem perguntas, ao mesmo tempo que percebi que estava uma chave do lado de fora, um convite que não me deixava descansado, na confusão da simpatia, com uma armadilha montada.
Uma voz chegou até mim, sincera como os olhos da rapariga que apareceu à minha frente.
- Bom-dia, posso ajudá-lo?
Respondi ao mesmo tempo que dei um passo atrás, num gesto automático que não consegui evitar.
- Bom-dia, eu vi que vendem potes e queria...
O olhar da rapariga desarmou-me, mas falou sem parecer zangada.
- Nunca tirei a placa, nunca tive coragem para a tirar. Acho que é uma forma de dizer que estou em casa, uma forma de não me sentir sozinha.
Fiquei a olhar para ela sem conseguir dizer nada. Ela continuou a falar de forma despreocupada.
- Não me estou a queixar, não estou a dizer que me sinto sozinha, não é isso. Estava só a dizer que os potes me fazem companhia, me trazem boas recordações, recordações que não quero esquecer.
No meio da surpresa pelas palavras dela, não consegui evitar a pergunta.
- Mas esta, mas esta não é a casa da bruxa?
A rapariga parou um segundo, ficou completamente imobilizada, antes de rebentar numa gargalhada, um riso que me irritou, ao mesmo tempo que me prendeu. Ela demorou um pouco a recompor-se. Falou ainda no meio de pequenos ataques de riso.
- Ai, não posso, desculpa mas não estava à espera disto. A casa da bruxa? Ai, ai, que eu não aguento.
Esperei mudo pela explicação. Ela esforçava-se por parar de rir, um riso contagioso que me magoava cada vez menos. Devia ser um pouco mais nova do que eu e era muito bonita, o que eu tinha demorado a perceber, por estar à espera de uma bruxa. Ela continuou mais calma.
- Ai, desculpa. Não sei o que me deu. A casa da bruxa? Tu deves estar a falar da bruxa da serra. Sim, é verdade, agora que penso nisso, acho que as casas são parecidas, mas isso fica um pouco longe daqui.
Percebi o meu erro, tinha sido por causa da música.
- Desculpe... desculpa, acho que vinha distraído. E de repente vi a casa.
- E?
A pergunta trouxe um ar curioso, com pequenas rugas nos olhos.
- É que quando eu era pequeno tinha muito medo de passar aqui.
- Na outra casa, queres tu dizer.
- Sim, na outra casa, tinha muito medo de passar perto da outra casa. E hoje o dia começou tão bem, depois de uma noite tão má, que eu... eu nem sei porque parei. Acho que tinha esta dúvida desde sempre.
Ela sorriu, mostrando-me que percebia.
- Às vezes é preciso voltar um pouco atrás, não é?
O meu ar de dúvida não a fez parar.
- Às vezes sentimos que temos de resolver o passado para seguir em frente.
Concordei, sem nunca ter pensado no que era óbvio, no que me prendia.
- Sim, acho que sim.
Ela fechou a porta atrás dela, não para se proteger, apenas por hábito. Sentou-se nas escadas do alpendre e puxou-me uma das mãos.
- Sabes, eu não tenho a certeza que tenha de ser assim.
Sentei-me ao lado dela, num conforto que me fazia sentir bem.
- O voltar atrás?
- Sim, mas eu tenho a resposta na mesma.
- A resposta?
O ar dela era triunfante, como um miúdo pequeno quando sabe um segredo.
- A história da bruxa, a minha mãe uma vez falou-me nela, quando passámos pela casa, embora ache que ela não tenha reparado na semelhança com a nossa.
Esperou um pouco para dominar outra vez o riso. Fez um ar sério antes de falar.
- É uma história simples, uma história triste.
A ansiedade tomou conta de mim.
- Havia mesmo uma bruxa?
- Uma pobre mulher, que numa brincadeira, numa festa, fez algumas adivinhas.
- Adivinhas?
- Sim, acho que se pôs a adivinhar o futuro de todos os que estavam na festa. Não sei porque fez isso.
- E?
- Não sei bem o que aconteceu, a minha mãe também não sabia, mas acho que deve ter acertado em alguma coisa, algo que veio a acontecer a uma das pessoas.
Imaginei a festa, vi todos à volta da senhora, imaginei os olhares apreensivos e as conversas em voz baixa. Mesmo sem saber, percebi que o que a mulher adivinhou não tinha sido agradável. Perguntei com medo da resposta.
- Sabes o que é que ela previu? Não deve ter sido nada de muito bom.
Ela concordou.
- Sim, não deve ter sido. Mas não sei, só sei que foi uma brincadeira que mudou a vida da mulher.
- Porquê?
- Não sei os pormenores, a minha mãe só sabia da história porque havia uma senhora que trabalhou aqui connosco que era de lá, que tinha família para esses lados. Só sei que ela e o marido tiveram de se mudar.
- Foram embora?
- Sim.
Voltei às viagens com os meus avós, às centenas de vezes que passei pela casa que me assustava.
- Então, quando eu passava na estrada...
Ela percebeu.
- Sim, não estava lá ninguém, só uma história que se espalhou, uma história triste. Desculpa, quando perguntaste pela bruxa só me deu para rir, não pensei logo nisto. Lembro-me do dia em que a minha mãe me contou, lembro-me de nesse dia ter vindo para casa a pensar como é que tinha sido o resto da vida daquela mulher.
Fiquei um pouco calado, tentando arrumar recordações antigas.
- Bolas, que história! Uma coisa tão simples e uma marca que ficou para sempre.
Ela apenas fechou os olhos, sem precisar de responder. Não senti a obrigação de fazer conversa, mas falei na mesma, deixei as palavras saírem sem pensar.
- E tu? Vendes potes?
Ela riu-se de uma forma que me fez tremer.
- Não, eram da minha mãe. Ela e o meu pai foram viver para o norte, para ficarem mais perto dos meus avós.
- E tu ficaste?
- Eu estive a estudar fora, tinha acabado de voltar e decidir ficar, muitas das coisas que mais amo estão perto daqui. Na altura tinha imensos planos para mudar a casa, mas foi sempre assim que a conheci e ainda não decidi arriscar, um dia deste tenho de pensar nisso outra vez.
- E nunca vem cá ninguém tentar comprar nada?
- Não. Estranho não é? Mas pessoas a fazer perguntas sobre bruxas, isso é quase todos os dias.
O riso voltou e o final da manhã ficou perfeito. Ela fez um ar arrependido antes de continuar, um pequeno sorriso que eu tentei decorar.
- Eu sou a Raquel, queres entrar?
Lembrei-me que ia a caminho da minha praia.
- Eu sou o Rui e adorava entrar, mas...
- Mas...
- Eu ia a caminho de um sítio, é um sítio secreto, onde nunca levei ninguém.
Ela esperou que eu continuasse.
- Queres ir comigo?
- Nunca lá levaste ninguém?
Sorri envergonhado.
- Não.
Ela devolveu o sorriso.
- Sim Rui, quero ir.
Foi nessa manhã de Abril, uma manhã de caminhos trocados, de músicas repetidas, de segredos partilhados, foi nessa manhã que me voltei a lembrar da casa da bruxa, um medo de pequeno que se transformou, mas que nunca esqueci.
Acordei cedo e lutei para não me deixar ficar na cama, fugi em direcção a um sítio que queria visitar há anos. Demorei menos de uma hora a chegar ao fim da estrada, o resto tinha de ser feito a pé, uma coragem que estranhei, perguntando a mim mesmo porque é que não estava deitado, sorrindo com os cumprimentos matinais que tinha recebido na estação de serviço. Andei pelo meio das árvores até chegar ao cimo de um caminho feito de pedras arredondadas, uns degraus muito gastos serviam de porta de entrada ao miradouro e subi-os dois a dois até ficar cego com o Sol da manhã, antes de conseguir ver a paisagem que me tinham prometido. Jurei a mim mesmo que dali conseguia ver o mundo inteiro e que no dia em que conseguisse voar, seria do alto daquelas pedras que saltaria para o vazio. Um sonho antigo.
Meti-me outra vez à estrada, com outro desejo escondido no sorriso, tinha de deitar fora a ansiedade que me acompanhava nas últimas semanas. Em Abril a minha praia ainda devia estar quase deserta, apenas visitada por doidos e mães divorciadas, acompanhadas por pequenas miúdas de cabelos dourados, que se afastavam para poder brincar.
Deve ter sido a música, só pode ter sido a música que me distraiu, no repetir exagerado, chorando e rindo em partes que sabia de cor. Dei por mim numa estrada desconhecida, com placas que indicavam o destino traçado, mas sem conhecer as casas por que passava, sem saber para que lado a estrada seguia, depois de cada curva feita devagar. Continuei a cantar, voltando sempre ao início da música, sem me preocupar, sabendo que mais cedo ou mais tarde havia de chegar.
Mal vi a casa percebi que já ali tinha estado, era o caminho antigo feito pelos meus avós, antes das auto-estradas, antes de viajarmos sem olhar. Nesses tempos sentia sempre um arrepio na espinha, um medo que demorava, uma vontade de me benzer à qual não cedia, por ter medo que Deus se zangasse, por ter medo que a bruxa estivesse à janela, distribuindo maldições aos que se atrevessem a rezar. Tive de parar.
A casa da bruxa estava na mesma, com os azulejos castanhos e o alpendre cheio de enormes potes de barro. Quando era miúdo só pensava na bruxa, no mal que ela me podia fazer, nunca pensei no bizarro de toda aquela história, uma bruxa que vivia numa casa à beira da estrada, uma casa que não parecia assombrada, que não estava no meio de um bosque sombrio. Nunca me tinha importado com a falta de um ambiente sinistro, sem deixar adivinhar o que estava por trás. Só naquela manhã de Abril decidi que não podia ficar sem saber, que tinha de descobrir o porquê da fama da mulher, que eu nem sabia se existia.
Aproximei-me da porta nervoso, tinham sido muitos anos de virar os olhos, de contar até mil para não pensar em mais nada. A primeira surpresa veio com o toque da campainha, feita de cantos de pássaros, rouxinóis e canários, que não foram suficientes para soltar o riso, para deixar de sentir o medo. A porta abriu-se sem perguntas, ao mesmo tempo que percebi que estava uma chave do lado de fora, um convite que não me deixava descansado, na confusão da simpatia, com uma armadilha montada.
Uma voz chegou até mim, sincera como os olhos da rapariga que apareceu à minha frente.
- Bom-dia, posso ajudá-lo?
Respondi ao mesmo tempo que dei um passo atrás, num gesto automático que não consegui evitar.
- Bom-dia, eu vi que vendem potes e queria...
O olhar da rapariga desarmou-me, mas falou sem parecer zangada.
- Nunca tirei a placa, nunca tive coragem para a tirar. Acho que é uma forma de dizer que estou em casa, uma forma de não me sentir sozinha.
Fiquei a olhar para ela sem conseguir dizer nada. Ela continuou a falar de forma despreocupada.
- Não me estou a queixar, não estou a dizer que me sinto sozinha, não é isso. Estava só a dizer que os potes me fazem companhia, me trazem boas recordações, recordações que não quero esquecer.
No meio da surpresa pelas palavras dela, não consegui evitar a pergunta.
- Mas esta, mas esta não é a casa da bruxa?
A rapariga parou um segundo, ficou completamente imobilizada, antes de rebentar numa gargalhada, um riso que me irritou, ao mesmo tempo que me prendeu. Ela demorou um pouco a recompor-se. Falou ainda no meio de pequenos ataques de riso.
- Ai, não posso, desculpa mas não estava à espera disto. A casa da bruxa? Ai, ai, que eu não aguento.
Esperei mudo pela explicação. Ela esforçava-se por parar de rir, um riso contagioso que me magoava cada vez menos. Devia ser um pouco mais nova do que eu e era muito bonita, o que eu tinha demorado a perceber, por estar à espera de uma bruxa. Ela continuou mais calma.
- Ai, desculpa. Não sei o que me deu. A casa da bruxa? Tu deves estar a falar da bruxa da serra. Sim, é verdade, agora que penso nisso, acho que as casas são parecidas, mas isso fica um pouco longe daqui.
Percebi o meu erro, tinha sido por causa da música.
- Desculpe... desculpa, acho que vinha distraído. E de repente vi a casa.
- E?
A pergunta trouxe um ar curioso, com pequenas rugas nos olhos.
- É que quando eu era pequeno tinha muito medo de passar aqui.
- Na outra casa, queres tu dizer.
- Sim, na outra casa, tinha muito medo de passar perto da outra casa. E hoje o dia começou tão bem, depois de uma noite tão má, que eu... eu nem sei porque parei. Acho que tinha esta dúvida desde sempre.
Ela sorriu, mostrando-me que percebia.
- Às vezes é preciso voltar um pouco atrás, não é?
O meu ar de dúvida não a fez parar.
- Às vezes sentimos que temos de resolver o passado para seguir em frente.
Concordei, sem nunca ter pensado no que era óbvio, no que me prendia.
- Sim, acho que sim.
Ela fechou a porta atrás dela, não para se proteger, apenas por hábito. Sentou-se nas escadas do alpendre e puxou-me uma das mãos.
- Sabes, eu não tenho a certeza que tenha de ser assim.
Sentei-me ao lado dela, num conforto que me fazia sentir bem.
- O voltar atrás?
- Sim, mas eu tenho a resposta na mesma.
- A resposta?
O ar dela era triunfante, como um miúdo pequeno quando sabe um segredo.
- A história da bruxa, a minha mãe uma vez falou-me nela, quando passámos pela casa, embora ache que ela não tenha reparado na semelhança com a nossa.
Esperou um pouco para dominar outra vez o riso. Fez um ar sério antes de falar.
- É uma história simples, uma história triste.
A ansiedade tomou conta de mim.
- Havia mesmo uma bruxa?
- Uma pobre mulher, que numa brincadeira, numa festa, fez algumas adivinhas.
- Adivinhas?
- Sim, acho que se pôs a adivinhar o futuro de todos os que estavam na festa. Não sei porque fez isso.
- E?
- Não sei bem o que aconteceu, a minha mãe também não sabia, mas acho que deve ter acertado em alguma coisa, algo que veio a acontecer a uma das pessoas.
Imaginei a festa, vi todos à volta da senhora, imaginei os olhares apreensivos e as conversas em voz baixa. Mesmo sem saber, percebi que o que a mulher adivinhou não tinha sido agradável. Perguntei com medo da resposta.
- Sabes o que é que ela previu? Não deve ter sido nada de muito bom.
Ela concordou.
- Sim, não deve ter sido. Mas não sei, só sei que foi uma brincadeira que mudou a vida da mulher.
- Porquê?
- Não sei os pormenores, a minha mãe só sabia da história porque havia uma senhora que trabalhou aqui connosco que era de lá, que tinha família para esses lados. Só sei que ela e o marido tiveram de se mudar.
- Foram embora?
- Sim.
Voltei às viagens com os meus avós, às centenas de vezes que passei pela casa que me assustava.
- Então, quando eu passava na estrada...
Ela percebeu.
- Sim, não estava lá ninguém, só uma história que se espalhou, uma história triste. Desculpa, quando perguntaste pela bruxa só me deu para rir, não pensei logo nisto. Lembro-me do dia em que a minha mãe me contou, lembro-me de nesse dia ter vindo para casa a pensar como é que tinha sido o resto da vida daquela mulher.
Fiquei um pouco calado, tentando arrumar recordações antigas.
- Bolas, que história! Uma coisa tão simples e uma marca que ficou para sempre.
Ela apenas fechou os olhos, sem precisar de responder. Não senti a obrigação de fazer conversa, mas falei na mesma, deixei as palavras saírem sem pensar.
- E tu? Vendes potes?
Ela riu-se de uma forma que me fez tremer.
- Não, eram da minha mãe. Ela e o meu pai foram viver para o norte, para ficarem mais perto dos meus avós.
- E tu ficaste?
- Eu estive a estudar fora, tinha acabado de voltar e decidir ficar, muitas das coisas que mais amo estão perto daqui. Na altura tinha imensos planos para mudar a casa, mas foi sempre assim que a conheci e ainda não decidi arriscar, um dia deste tenho de pensar nisso outra vez.
- E nunca vem cá ninguém tentar comprar nada?
- Não. Estranho não é? Mas pessoas a fazer perguntas sobre bruxas, isso é quase todos os dias.
O riso voltou e o final da manhã ficou perfeito. Ela fez um ar arrependido antes de continuar, um pequeno sorriso que eu tentei decorar.
- Eu sou a Raquel, queres entrar?
Lembrei-me que ia a caminho da minha praia.
- Eu sou o Rui e adorava entrar, mas...
- Mas...
- Eu ia a caminho de um sítio, é um sítio secreto, onde nunca levei ninguém.
Ela esperou que eu continuasse.
- Queres ir comigo?
- Nunca lá levaste ninguém?
Sorri envergonhado.
- Não.
Ela devolveu o sorriso.
- Sim Rui, quero ir.
Foi nessa manhã de Abril, uma manhã de caminhos trocados, de músicas repetidas, de segredos partilhados, foi nessa manhã que me voltei a lembrar da casa da bruxa, um medo de pequeno que se transformou, mas que nunca esqueci.
Domingo, Abril 08, 2007
Fugir
Sentada na areia Joana esperava, de olhos no mar, de pele beijada pelo vento, de mãos em contar infinito, da areia que escorria. O barulho de passos não calou os lábios secos, no dizer de um poema. João esperou um pouco antes de falar.
- Eras capaz de repetir isso para sempre, não eras?
Joana não respondeu logo, não precisava de responder. Sentia a cara quente por causa do Sol, imaginava a marca do dia seguinte, mas resistia a mexer-se. A praia estava quase deserta, mas em breve deixaria de ser sua, até ao Outono, até aos últimos dias de Setembro.
- Viste o teu pai?
João respondeu, entre os dedos fechados sobre a boca.
- Foi esquisito.
O mar desapareceu.
- Esquisito como?
- Eu estava sentado no café e vi-o ao longe.
Parecia que escolhia as palavras.
- Eu sei que parece impossível, mas acho que nunca tinha observado o meu pai ao longe, como quando olhamos outra pessoa, um desconhecido qualquer.
- E o que viste?
- Vi um homem cansado, de aspecto frágil. Vi um homem velho, de pernas magras, de cabelos brancos e olhar triste, desorientado. Sabes, ali no meio do centro comercial, entre centenas de desconhecidos, acho que olhei para ele como não fazia há muitos anos. Doeu muito Joana.
Ela hesitou, na história que queria contar, sem saber se conseguia.
- Alguma vez te contei da vez que o meu pai desapareceu?
- Não, acho que não deves ter contado, sou eu que estou sempre a falar do meu.
Joana inspirou fundo antes de começar.
- Quando o meu pai fez trinta e oito anos, no dia em que fez trinta e oito anos, a minha mãe deixou-o dormir até tarde, ele gostava de dormir de manhã. Nesse dia ela pediu-me para o acordar para o almoço, lembro-me como se fosse hoje, de ter subido as escadas depressa, de levar um beijo preparado, um abraço desejado, que me protegia, que me fazia sentir segura. Mas encontrei uma cama vazia.
- Como assim?
- Em cima da cama estava um papel, uma mensagem com poucas palavras, que dizia para não nos preocuparmos, que apenas nos dizia para não nos preocuparmos.
- Mas... onde? E a tua mãe?
A recordação do momento era dolorosa, mesmo depois de compreender, era sempre dolorosa.
- A minha mãe? A minha mãe estava na cozinha, lembro-me que estava a pôr um bolo no forno quando entrei aos gritos, era um bolo de chocolate, daqueles que eu nunca vou conseguir fazer.
- Mas e ela?
João percebeu a dor, misturada no meio de sorrisos.
- Ela ficou calada uns minutos, depois continuou a preparar a festa, que ambas sabíamos já não ir acontecer.
Fez uma pausa antes de continuar. João não a apressou.
- Voltou uma semana depois, exausto, com a barba por fazer. Trazia pequenas folhas presas no meio do cabelo, a roupa manchada de castanho e verde, e cheirava a flores.
- A flores?
- Sim, não deve ter tomado banho em toda aquela semana, e só cheirava a flores.
João imaginou o pai de Joana todo coberto de folhas, sentiu vontade de desaparecer também.
- Ele não contou, pois não?
Ela sorriu.
- Não, nunca disse uma palavra sobre o assunto.
- E a tua mãe?
Os olhos de Joana abriram-se muito. Uma vez João pedira-lhe para tirar os óculos escuros, para ver a sua expressão, para poder ver através deles, para sentir as histórias que contava. Desde esse dia, desde esse primeiro pedido, era sempre a primeira coisa que ela fazia quando estavam juntos, no meio de sorriso partilhados.
- João, se tu pudesses ter visto o brilho nos olhos dele, se o tivesses visto quando entrou em casa. Era impossível ter perguntado.
- Joana...
Ela sabia o que ele ia perguntar, esperou pelas palavras.
- Joana, eu vi o meu pai pela primeira vez, não foi? Eu hoje, quando o vi a andar sem ele saber, foi isso que estranhei, foi ter percebido que ele tem uma vida, para além de ser pai, de ser marido, de também ser filho. É isso que me estás a querer dizer, não é?
Como em tantas outras tardes, Joana ficou em silêncio, no prazer de poder esperar, de não ter pressa em responder.
- Eras capaz de repetir isso para sempre, não eras?
Joana não respondeu logo, não precisava de responder. Sentia a cara quente por causa do Sol, imaginava a marca do dia seguinte, mas resistia a mexer-se. A praia estava quase deserta, mas em breve deixaria de ser sua, até ao Outono, até aos últimos dias de Setembro.
- Viste o teu pai?
João respondeu, entre os dedos fechados sobre a boca.
- Foi esquisito.
O mar desapareceu.
- Esquisito como?
- Eu estava sentado no café e vi-o ao longe.
Parecia que escolhia as palavras.
- Eu sei que parece impossível, mas acho que nunca tinha observado o meu pai ao longe, como quando olhamos outra pessoa, um desconhecido qualquer.
- E o que viste?
- Vi um homem cansado, de aspecto frágil. Vi um homem velho, de pernas magras, de cabelos brancos e olhar triste, desorientado. Sabes, ali no meio do centro comercial, entre centenas de desconhecidos, acho que olhei para ele como não fazia há muitos anos. Doeu muito Joana.
Ela hesitou, na história que queria contar, sem saber se conseguia.
- Alguma vez te contei da vez que o meu pai desapareceu?
- Não, acho que não deves ter contado, sou eu que estou sempre a falar do meu.
Joana inspirou fundo antes de começar.
- Quando o meu pai fez trinta e oito anos, no dia em que fez trinta e oito anos, a minha mãe deixou-o dormir até tarde, ele gostava de dormir de manhã. Nesse dia ela pediu-me para o acordar para o almoço, lembro-me como se fosse hoje, de ter subido as escadas depressa, de levar um beijo preparado, um abraço desejado, que me protegia, que me fazia sentir segura. Mas encontrei uma cama vazia.
- Como assim?
- Em cima da cama estava um papel, uma mensagem com poucas palavras, que dizia para não nos preocuparmos, que apenas nos dizia para não nos preocuparmos.
- Mas... onde? E a tua mãe?
A recordação do momento era dolorosa, mesmo depois de compreender, era sempre dolorosa.
- A minha mãe? A minha mãe estava na cozinha, lembro-me que estava a pôr um bolo no forno quando entrei aos gritos, era um bolo de chocolate, daqueles que eu nunca vou conseguir fazer.
- Mas e ela?
João percebeu a dor, misturada no meio de sorrisos.
- Ela ficou calada uns minutos, depois continuou a preparar a festa, que ambas sabíamos já não ir acontecer.
Fez uma pausa antes de continuar. João não a apressou.
- Voltou uma semana depois, exausto, com a barba por fazer. Trazia pequenas folhas presas no meio do cabelo, a roupa manchada de castanho e verde, e cheirava a flores.
- A flores?
- Sim, não deve ter tomado banho em toda aquela semana, e só cheirava a flores.
João imaginou o pai de Joana todo coberto de folhas, sentiu vontade de desaparecer também.
- Ele não contou, pois não?
Ela sorriu.
- Não, nunca disse uma palavra sobre o assunto.
- E a tua mãe?
Os olhos de Joana abriram-se muito. Uma vez João pedira-lhe para tirar os óculos escuros, para ver a sua expressão, para poder ver através deles, para sentir as histórias que contava. Desde esse dia, desde esse primeiro pedido, era sempre a primeira coisa que ela fazia quando estavam juntos, no meio de sorriso partilhados.
- João, se tu pudesses ter visto o brilho nos olhos dele, se o tivesses visto quando entrou em casa. Era impossível ter perguntado.
- Joana...
Ela sabia o que ele ia perguntar, esperou pelas palavras.
- Joana, eu vi o meu pai pela primeira vez, não foi? Eu hoje, quando o vi a andar sem ele saber, foi isso que estranhei, foi ter percebido que ele tem uma vida, para além de ser pai, de ser marido, de também ser filho. É isso que me estás a querer dizer, não é?
Como em tantas outras tardes, Joana ficou em silêncio, no prazer de poder esperar, de não ter pressa em responder.
Quinta-feira, Março 29, 2007
Dormir
Rui olhou para a cadeira partida e mordeu o lábio de baixo. O gosto de sangue na boca não o fez mexer.
- Filhos da puta!
A mãe gritava desesperada, lutava por se libertar dos braços fortes que a agarravam. No meio de palavras sem sentido mordia, arranhava, esmurrava. A sua cara era a mais perfeita imagem de dor que alguma vez tinha visto. Como se todos os músculos da cara tivessem paralisado num segundo, como se ela se tivesse transformado numa estátua, no momento de maior sofrimento de uma vida. Não parava de gritar.
- Eu não quero! Eu não quero! Deixem-me!
Não conseguia desviar os olhos da cadeira, da madeira sobre o tapete. Sempre ali estivera à espera, até ser destruída em poucos segundos. Um som abafado chamou-o de volta. O pai deixou a mão esquerda debaixo do braço, na tentativa de esconder, de não conseguir confessar, de não ter coragem de pedir perdão, pelo que ninguém o culpava. A mãe caiu desamparada, depois de um momento de equilíbrio impossível. Desejou que estivesse morta e hesitou na ajuda, no baixar em esforço, no cansaço de tantos dias, do afecto esquecido, que já não acreditava ter tido.
- Pai... eu não aguento.
O pai ajoelhou-se sem responder. Tocou no cabelo dela e penteou-o com as mãos, desfez-lhe as rugas de dor com cuidado, num saber feito de dedos acostumados. Moldou um sorriso suave, em jeito de despedida, da melhor maneira que sabia. Amava-a, no meio da loucura continuava a amá-la, mais do que tudo.
- Vai Rui! Ela não vai demorar a acordar, se queres vai agora, não saias com ela aos gritos, não a leves assim contigo, vai-te pesar para sempre.
O pai chorava enquanto falava, num controlo que parecia frágil, mas sem ceder ao desespero, sem poder ceder ao desespero.
- Pai, eu não queria que fosse assim, mas... mas eu não aguento, eu preciso...
- Tens de viver... eu sei, tu tens de viver.
Rui fechou os olhos, imaginou-se a dormir, em cobertores aconchegados, no toque frio de lençóis. A cadeira continuava a um canto, num desafio que não suportava, por lhe mostrar que não era capaz, que não tinha força para ficar. O resto da sala olhava, sofás castanhos de pele, com pequenos ornamentos de metal, quadros de olhos desviados, de sombras em chão de pedra, com pessoas a dançar. Ao fundo um enorme móvel de madeira escura, quase preta. Tinha resistido a tudo, ao repetido desmontar, na tentativa de fugir, ao passar do tempo, que parecia sempre maior. No meio tinha umas gavetas com puxadores dourados, gavetas que estavam sempre vazias. Lembrava-se de as abrir e fechar, de aprender a contar nesse gesto supersticioso, de ter medo do que pensava, de repetir boas palavras, no meio de pensamentos tristes. No tecto um candeeiro feito de mil vidros, imitações de cristal, que quase não faziam barulho. Tinha uma única recordação, de uma tarde de sol, de reflexos na parede, de adormecer devagar.
- Pai...
- Não expliques, não digas nada, vai... vai antes que ela acorde, peço-te... vai antes que ela acorde.
Rui limpou as lágrimas, antes de sorrir.
- Pai, ajuda-me a pô-la no sofá.
Abraçaram-se, num choro que era dos dois, que nunca os ia deixar longe, em dias que não podiam adivinhar. Rui tocou na cara da mãe, tentando aprender, deixando os dedos perceber, um sorriso que teimava em desaparecer.
- Filhos da puta!
A mãe gritava desesperada, lutava por se libertar dos braços fortes que a agarravam. No meio de palavras sem sentido mordia, arranhava, esmurrava. A sua cara era a mais perfeita imagem de dor que alguma vez tinha visto. Como se todos os músculos da cara tivessem paralisado num segundo, como se ela se tivesse transformado numa estátua, no momento de maior sofrimento de uma vida. Não parava de gritar.
- Eu não quero! Eu não quero! Deixem-me!
Não conseguia desviar os olhos da cadeira, da madeira sobre o tapete. Sempre ali estivera à espera, até ser destruída em poucos segundos. Um som abafado chamou-o de volta. O pai deixou a mão esquerda debaixo do braço, na tentativa de esconder, de não conseguir confessar, de não ter coragem de pedir perdão, pelo que ninguém o culpava. A mãe caiu desamparada, depois de um momento de equilíbrio impossível. Desejou que estivesse morta e hesitou na ajuda, no baixar em esforço, no cansaço de tantos dias, do afecto esquecido, que já não acreditava ter tido.
- Pai... eu não aguento.
O pai ajoelhou-se sem responder. Tocou no cabelo dela e penteou-o com as mãos, desfez-lhe as rugas de dor com cuidado, num saber feito de dedos acostumados. Moldou um sorriso suave, em jeito de despedida, da melhor maneira que sabia. Amava-a, no meio da loucura continuava a amá-la, mais do que tudo.
- Vai Rui! Ela não vai demorar a acordar, se queres vai agora, não saias com ela aos gritos, não a leves assim contigo, vai-te pesar para sempre.
O pai chorava enquanto falava, num controlo que parecia frágil, mas sem ceder ao desespero, sem poder ceder ao desespero.
- Pai, eu não queria que fosse assim, mas... mas eu não aguento, eu preciso...
- Tens de viver... eu sei, tu tens de viver.
Rui fechou os olhos, imaginou-se a dormir, em cobertores aconchegados, no toque frio de lençóis. A cadeira continuava a um canto, num desafio que não suportava, por lhe mostrar que não era capaz, que não tinha força para ficar. O resto da sala olhava, sofás castanhos de pele, com pequenos ornamentos de metal, quadros de olhos desviados, de sombras em chão de pedra, com pessoas a dançar. Ao fundo um enorme móvel de madeira escura, quase preta. Tinha resistido a tudo, ao repetido desmontar, na tentativa de fugir, ao passar do tempo, que parecia sempre maior. No meio tinha umas gavetas com puxadores dourados, gavetas que estavam sempre vazias. Lembrava-se de as abrir e fechar, de aprender a contar nesse gesto supersticioso, de ter medo do que pensava, de repetir boas palavras, no meio de pensamentos tristes. No tecto um candeeiro feito de mil vidros, imitações de cristal, que quase não faziam barulho. Tinha uma única recordação, de uma tarde de sol, de reflexos na parede, de adormecer devagar.
- Pai...
- Não expliques, não digas nada, vai... vai antes que ela acorde, peço-te... vai antes que ela acorde.
Rui limpou as lágrimas, antes de sorrir.
- Pai, ajuda-me a pô-la no sofá.
Abraçaram-se, num choro que era dos dois, que nunca os ia deixar longe, em dias que não podiam adivinhar. Rui tocou na cara da mãe, tentando aprender, deixando os dedos perceber, um sorriso que teimava em desaparecer.
Domingo, Março 11, 2007
O Homem na Esquina
Rui adorava aquela altura do ano, quando ainda não fazia calor, quando o suor ainda não lhe escorria pelas costas, e sentia arrepios pela manhã. Ia todos os dias a pé para o emprego, para poder olhar as pessoas, sentir o cheiro das últimas castanhas, trazido pelo vento, que lhe lembrava o frio. A cidade habituara-se a ele, ao seu andar devagar, ao sorriso escondido, à música repetida em voz baixa.
Ao chegar à Rua Augusta, uma última mania, uma obsessão antiga, raspar o ombro numa das esquinas, sujar o casaco na pedra. Sempre que não usava o Metro passava por ali, tocava na parede, um ritual que não podia explicar. Naquele dia, como em tantos outros, avançou decidido, antecipando a dor, que não chegou a sentir. Encostado ao prédio, um homem de barba cinzenta, mal cortada mas limpa. Ficou parado no meio da rua, sem saber o que fazer. Não podia continuar, não tinha por onde passar, mesmo que pudesse esperar, por um leve afastar, por meio metro de caminho. Nunca poderia passar entre o homem e a esquina, ficariam para sempre ligados, com as vidas cruzadas.
Passaram dez minutos e sentou-se no chão, mais tarde podia telefonar, para mentir, uma desculpa qualquer, mas não podia sair dali, estava preso. O seu adversário parecia ter tempo, nem sequer olhava para ele, apenas murmurava algumas palavras, rezas que imaginava. Observou-o várias vezes, até o decorar, cabelo comprido debaixo de um boné azul, roupa lavada, de certeza emprestada, e mãos perfeitas. Era isso que o incomodava, as mãos eram perfeitas, as unhas estavam arranjadas, sem o poderem estar. Era como se tivessem tirado um vagabundo da rua, o limpassem durante semanas, lhe dessem comida quente, uma cama com lençóis de flanela e uma manta às riscas. Mas não pudessem apagar a rua, marcada na pele, nos olhos quase fechados. Ouviu pela primeira vez a voz dela.
- Não consegues passar, pois não?
Respondeu sem olhar.
- Não, não consigo.
- É na parede que tocas?
Não valia a pena mentir.
- Na esquina, mesmo onde ele está.
Ela sentou-se ao seu lado.
- Já reparaste que parece fazer de propósito?
- Sim, não sei como, mas ele parece saber. Acho que não vou sair daqui tão cedo.
Demorou muito tempo a virar a cara, depois de a tentar adivinhar. Continuou.
- Sabes, não estava à espera, julgava que já era capaz de superar isto. Mas ele está tão agarrado à parede.
- Já não te acontecia há muito tempo?
- Sim, desde que o escrevi em história. Pensei que me tinha libertado.
Estavam sentados a uns cinco metros do homem, mas não tinha a certeza que ele não os ouvisse. Ela continuou, em palavras esperadas.
- Quem foi?
Ele riu-se.
- A minha avó materna.
- Alguma vez fizeste a pergunta, alguma vez te explicou porque o fazia?
- Sim, mas só em sonhos, em palavras escritas.
- E ela, nunca leu essas palavras?
- Não, não tive coragem, nela é tão natural. Uma vez montaram uma escada à porta de casa, umas obras quaisquer no andar de cima. E ela para sair tinha de passar debaixo da escada.
Sentiu o olhar curioso, antes da pergunta.
- E ela?
- Esteve dois meses sem sair, a minha mãe tinha de lá ir todos os dias levar comida.
- A sério?
- Sim, mas sabes o mais engraçado?
- Diz.
- Eu acho que nem era bem uma escada, mas ela enfiou aquilo na cabeça.
O homem não se mexia um milímetro.
- E essa história, a que escreveste, como é que acabava?
- Como todas as outras, meio perdidas, no desejo que as consigam perceber.
Ficaram calados, de ombros colados, ao som dos carros que passavam. Rui gostava de imaginar, de sonhar a rua cheia de saltimbancos, com tochas a arder que iluminavam as caras que espreitavam, com o tilintar das moedas, sacos cheios de ouro, chapéus com guizos, fogo cuspido, pequenos cães que andavam em duas patas.
Continuava sem saber o nome rapariga. Sentia-se confortável com isso, desejava não ter perguntado sempre, ter descoberto mais cedo, o prazer de esperar. Ela interrompeu os seus sonhos, pelo menos parte deles.
- E tu, porque é que voltaste a ser um rapaz assustado? Ou nunca deixaste de o ser?
A resposta era simples
- Vivia num sonho, recusando viver, por ter tudo o que queria. Um dia quiseram acordar-me, trazer-me de volta ao mundo.
- Médicos?
Rui fez um ar misterioso, que não conseguiu manter, por causa da vontade de rir.
- Eu gosto de os ver como feiticeiros.
Ela sorriu, com os olhos a brilhar. Ele imaginou que reflectiam o fogo das tochas.
- E porque é que voltaste?
Respondeu de olhos fechados, como quem pede permissão.
- Na verdade demorei, quiseram que decidisse, que escolhesse entre duas vidas.
- E?
- Estive dois anos internado.
Ela não conseguiu esconder o espanto.
- Foi difícil?
Ele hesitou, mas continuou.
- Não percebes, eu escolhi o sonho.
- Durante dois anos?
- Podiam ter sido mais, ou apenas um dia, não era importante, só me lembro do dia em que saí, de estar sentado numa cama, com uma mala à minha frente. Nem fui eu que a fiz.
Sentiu uma mão na sua.
- Mas voltaste.
- Sim, voltei.
- Queres contar?
- Um dia... um dia ela desafiou-me...
- Ela... desculpa, continua.
- Ela desafiou-me, a viver também neste mundo.
Antes de continuar olhou para a rua, prometeu que iria voltar à noite, sabia que ia estar cheia de magia, de pequenos teatros de marionetas, de mulheres contorcionistas, de pessoas pequenas, e de gigantes brincalhões, a cumprimentar quem passa.
- E conseguiste?
Rui levantou-se e ajudou-a a erguer-se.
- Mais ou menos, ainda fico preso...
- Por pessoas no caminho?
Sabia que ela o entendia, desde a primeira pergunta.
- Sim, por pessoas no caminho.
- Rui... e ela?
Estranhou, por nunca ter dito o seu nome. Respondeu no respirar.
- Ainda ando à procura, os dois mundos são diferentes.
Demorou um segundo, numa pausa para pensar.
- Se calhar és tu...
Um som de guitarra chegou até eles, trouxe palavras simples, mil vezes ouvidas, mil vezes repetidas. Começou a pensar na noite, a escolher as palavras, no momento certo para a convidar. Ela tentou disfarçar um sorriso, um sorriso do tamanho do mundo.
- Queres voltar para trás?
Ele olhou mais uma vez para a rua, já não conseguia fugir do sonho, da noite que demorava em chegar.
- Não, não é preciso, vou passar. Acho até que lhe devia agradecer, por me ter feito parar.
Ela continuava a sorrir.
- Podes estar cá às oito?
- Sim Rui, estou aqui às oito, neste mesmo sítio.
Não houve despedida, apenas um saber, um sentir, de um noite mágica, com a qual não conseguiam deixar de sonhar.
O homem na esquina sorriu, antes de se afastar devagar.
Ao chegar à Rua Augusta, uma última mania, uma obsessão antiga, raspar o ombro numa das esquinas, sujar o casaco na pedra. Sempre que não usava o Metro passava por ali, tocava na parede, um ritual que não podia explicar. Naquele dia, como em tantos outros, avançou decidido, antecipando a dor, que não chegou a sentir. Encostado ao prédio, um homem de barba cinzenta, mal cortada mas limpa. Ficou parado no meio da rua, sem saber o que fazer. Não podia continuar, não tinha por onde passar, mesmo que pudesse esperar, por um leve afastar, por meio metro de caminho. Nunca poderia passar entre o homem e a esquina, ficariam para sempre ligados, com as vidas cruzadas.
Passaram dez minutos e sentou-se no chão, mais tarde podia telefonar, para mentir, uma desculpa qualquer, mas não podia sair dali, estava preso. O seu adversário parecia ter tempo, nem sequer olhava para ele, apenas murmurava algumas palavras, rezas que imaginava. Observou-o várias vezes, até o decorar, cabelo comprido debaixo de um boné azul, roupa lavada, de certeza emprestada, e mãos perfeitas. Era isso que o incomodava, as mãos eram perfeitas, as unhas estavam arranjadas, sem o poderem estar. Era como se tivessem tirado um vagabundo da rua, o limpassem durante semanas, lhe dessem comida quente, uma cama com lençóis de flanela e uma manta às riscas. Mas não pudessem apagar a rua, marcada na pele, nos olhos quase fechados. Ouviu pela primeira vez a voz dela.
- Não consegues passar, pois não?
Respondeu sem olhar.
- Não, não consigo.
- É na parede que tocas?
Não valia a pena mentir.
- Na esquina, mesmo onde ele está.
Ela sentou-se ao seu lado.
- Já reparaste que parece fazer de propósito?
- Sim, não sei como, mas ele parece saber. Acho que não vou sair daqui tão cedo.
Demorou muito tempo a virar a cara, depois de a tentar adivinhar. Continuou.
- Sabes, não estava à espera, julgava que já era capaz de superar isto. Mas ele está tão agarrado à parede.
- Já não te acontecia há muito tempo?
- Sim, desde que o escrevi em história. Pensei que me tinha libertado.
Estavam sentados a uns cinco metros do homem, mas não tinha a certeza que ele não os ouvisse. Ela continuou, em palavras esperadas.
- Quem foi?
Ele riu-se.
- A minha avó materna.
- Alguma vez fizeste a pergunta, alguma vez te explicou porque o fazia?
- Sim, mas só em sonhos, em palavras escritas.
- E ela, nunca leu essas palavras?
- Não, não tive coragem, nela é tão natural. Uma vez montaram uma escada à porta de casa, umas obras quaisquer no andar de cima. E ela para sair tinha de passar debaixo da escada.
Sentiu o olhar curioso, antes da pergunta.
- E ela?
- Esteve dois meses sem sair, a minha mãe tinha de lá ir todos os dias levar comida.
- A sério?
- Sim, mas sabes o mais engraçado?
- Diz.
- Eu acho que nem era bem uma escada, mas ela enfiou aquilo na cabeça.
O homem não se mexia um milímetro.
- E essa história, a que escreveste, como é que acabava?
- Como todas as outras, meio perdidas, no desejo que as consigam perceber.
Ficaram calados, de ombros colados, ao som dos carros que passavam. Rui gostava de imaginar, de sonhar a rua cheia de saltimbancos, com tochas a arder que iluminavam as caras que espreitavam, com o tilintar das moedas, sacos cheios de ouro, chapéus com guizos, fogo cuspido, pequenos cães que andavam em duas patas.
Continuava sem saber o nome rapariga. Sentia-se confortável com isso, desejava não ter perguntado sempre, ter descoberto mais cedo, o prazer de esperar. Ela interrompeu os seus sonhos, pelo menos parte deles.
- E tu, porque é que voltaste a ser um rapaz assustado? Ou nunca deixaste de o ser?
A resposta era simples
- Vivia num sonho, recusando viver, por ter tudo o que queria. Um dia quiseram acordar-me, trazer-me de volta ao mundo.
- Médicos?
Rui fez um ar misterioso, que não conseguiu manter, por causa da vontade de rir.
- Eu gosto de os ver como feiticeiros.
Ela sorriu, com os olhos a brilhar. Ele imaginou que reflectiam o fogo das tochas.
- E porque é que voltaste?
Respondeu de olhos fechados, como quem pede permissão.
- Na verdade demorei, quiseram que decidisse, que escolhesse entre duas vidas.
- E?
- Estive dois anos internado.
Ela não conseguiu esconder o espanto.
- Foi difícil?
Ele hesitou, mas continuou.
- Não percebes, eu escolhi o sonho.
- Durante dois anos?
- Podiam ter sido mais, ou apenas um dia, não era importante, só me lembro do dia em que saí, de estar sentado numa cama, com uma mala à minha frente. Nem fui eu que a fiz.
Sentiu uma mão na sua.
- Mas voltaste.
- Sim, voltei.
- Queres contar?
- Um dia... um dia ela desafiou-me...
- Ela... desculpa, continua.
- Ela desafiou-me, a viver também neste mundo.
Antes de continuar olhou para a rua, prometeu que iria voltar à noite, sabia que ia estar cheia de magia, de pequenos teatros de marionetas, de mulheres contorcionistas, de pessoas pequenas, e de gigantes brincalhões, a cumprimentar quem passa.
- E conseguiste?
Rui levantou-se e ajudou-a a erguer-se.
- Mais ou menos, ainda fico preso...
- Por pessoas no caminho?
Sabia que ela o entendia, desde a primeira pergunta.
- Sim, por pessoas no caminho.
- Rui... e ela?
Estranhou, por nunca ter dito o seu nome. Respondeu no respirar.
- Ainda ando à procura, os dois mundos são diferentes.
Demorou um segundo, numa pausa para pensar.
- Se calhar és tu...
Um som de guitarra chegou até eles, trouxe palavras simples, mil vezes ouvidas, mil vezes repetidas. Começou a pensar na noite, a escolher as palavras, no momento certo para a convidar. Ela tentou disfarçar um sorriso, um sorriso do tamanho do mundo.
- Queres voltar para trás?
Ele olhou mais uma vez para a rua, já não conseguia fugir do sonho, da noite que demorava em chegar.
- Não, não é preciso, vou passar. Acho até que lhe devia agradecer, por me ter feito parar.
Ela continuava a sorrir.
- Podes estar cá às oito?
- Sim Rui, estou aqui às oito, neste mesmo sítio.
Não houve despedida, apenas um saber, um sentir, de um noite mágica, com a qual não conseguiam deixar de sonhar.
O homem na esquina sorriu, antes de se afastar devagar.
Domingo, Março 04, 2007
O Carro Antigo
Era a única pessoa na praia. Lembro-me de ser a única pessoa na praia quando vi o carro a descer a estrada. Era um carocha dos antigos, feito de um verde quase azul, de tantas pinturas. Não podia acreditar que o tinhas, pensei que gozavas comigo ao telefone, quando me avisaste, quando me disseste como ias aparecer. Sorria ao ver, tinham passado quinze anos, mas o carro tinha de certeza muitos mais.
Paraste ao meu lado e eu não hesitei, em ouvir o ranger da porta, num esforço de lábios fechados. Não falava com ninguém há dois dias, o cumprimento saiu em forma de voz rouca.
- Olá!
- Olá Júlio, não mudaste nada.
Passei as mãos pelo cabelo, para ter a certeza que mentias, para provar a mim próprio que o tempo passara, voara sem eu dar por isso, até te ver de novo.
- És simpática, mas a verdade é que mudei.
Sentei-me no banco de pele castanha, senti um toque áspero nas mãos, como um aviso, que não me deixava esquecer.
- Ainda não acredito que andas nisto, já devia ser uma antiguidade quando te foste embora.
- Era do meu avô, o carro era do meu avô.
- Ele?
- Sim, morreu há dez anos.
Arrependi-me no momento, lembrei-me de ouvir uma voz chamar-te, lembrei-me de sermos crianças, em brincadeiras sem fim.
- Desculpa, ele era como um avô para todos nós.
Os teus olhos brilharam.
- Não consigo vendê-lo, acredita que já tentei.
Riste de forma sincera, como só tu sabias, como só tu sabes.
- Se soubesses quantas vezes já fiquei parada.
Ri-me também, por educação, por partilha, sem saber porquê. Não me sentia nervoso, tudo era como tinha de ser.
- Júlio, deves estar a pensar...
Não a deixei acabar.
- Não Luísa, não estou a pensar em nada, estou só contente de te ver.
Inclinaste a cabeça, como quem olha pela primeira vez. Eu insisti.
- Eu não estava a mentir, mudei mesmo.
- Estou a ver, percebo que sim.
Nunca vou esquecer, o meu olhar demorado, um vestido de cores vivas, com um perfume de fazer fechar os olhos. No colo um botão aberto, reflexos de um fio de prata, que já brincara no meio dos meus dedos. Em silêncio relembrava a letra de uma música, um pedido em tom suave, para ficares comigo. Então deixei a minha mão na tua, o teu cabelo encostado a mim, da cor dos raios de Sol, que se escondiam no meio das folhas das árvores. Falei em voz baixa, continuei a pedir para ficares, para nunca nos perdermos. Tu apenas sorrias.
Era a única pessoa na praia. Repetia para mim o que não era verdade, pois os teus braços estavam no meio dos meus, os teus lábios passavam-me segredos, em beijos cheios de ti. Quando fecho os olhos, vejo sempre a luz no vidro, ouço o mar ao longe, sinto o teu cheiro, a tua pele nas minhas mãos, os seios descaídos, num envelhecer que me trazia a certeza, o saber, a calma, de já nada importar.
Um beijo, só desejava um beijo, como o primeiro, em jogos de miúdos, em tardes de Verão. Mas tinha-te em mim, como nunca tinha tido, como nunca tinha conseguido ter, por não saber como. E escrevo, transformo em palavras o que recordo, como se visse tudo de fora, dois corpos sem idade, num silêncio imaginado.
Ao fim da tarde
Sentámo-nos na areia, a trocar um cigarro, inspirando o fumo à nossa volta. Repito as tuas palavras, para não as esquecer.
- Nunca imaginei ver-te a fumar.
Roubei um pouco do que não era meu, ao respirar com mais força.
- Só em ocasiões especiais.
Ela riu.
- Como quando tens sexo com uma... O que somos nós Júlio? Ia dizer com uma velha, mas acho que ainda não sou uma velha, mas também não sou... O que somos nós Júlio?
Lembro-me do que respondi, só o escrevo por querer sentir.
- Luísa, não sentes? Não sentes este torpor que percorre o corpo, um estremecer que demora?
Ela parou para pensar.
- Sim, sim... acho que tens razão. Júlio... podemos ficar aqui, podemos ficar sem falar?
Nunca cheguei a responder.
Paraste ao meu lado e eu não hesitei, em ouvir o ranger da porta, num esforço de lábios fechados. Não falava com ninguém há dois dias, o cumprimento saiu em forma de voz rouca.
- Olá!
- Olá Júlio, não mudaste nada.
Passei as mãos pelo cabelo, para ter a certeza que mentias, para provar a mim próprio que o tempo passara, voara sem eu dar por isso, até te ver de novo.
- És simpática, mas a verdade é que mudei.
Sentei-me no banco de pele castanha, senti um toque áspero nas mãos, como um aviso, que não me deixava esquecer.
- Ainda não acredito que andas nisto, já devia ser uma antiguidade quando te foste embora.
- Era do meu avô, o carro era do meu avô.
- Ele?
- Sim, morreu há dez anos.
Arrependi-me no momento, lembrei-me de ouvir uma voz chamar-te, lembrei-me de sermos crianças, em brincadeiras sem fim.
- Desculpa, ele era como um avô para todos nós.
Os teus olhos brilharam.
- Não consigo vendê-lo, acredita que já tentei.
Riste de forma sincera, como só tu sabias, como só tu sabes.
- Se soubesses quantas vezes já fiquei parada.
Ri-me também, por educação, por partilha, sem saber porquê. Não me sentia nervoso, tudo era como tinha de ser.
- Júlio, deves estar a pensar...
Não a deixei acabar.
- Não Luísa, não estou a pensar em nada, estou só contente de te ver.
Inclinaste a cabeça, como quem olha pela primeira vez. Eu insisti.
- Eu não estava a mentir, mudei mesmo.
- Estou a ver, percebo que sim.
Nunca vou esquecer, o meu olhar demorado, um vestido de cores vivas, com um perfume de fazer fechar os olhos. No colo um botão aberto, reflexos de um fio de prata, que já brincara no meio dos meus dedos. Em silêncio relembrava a letra de uma música, um pedido em tom suave, para ficares comigo. Então deixei a minha mão na tua, o teu cabelo encostado a mim, da cor dos raios de Sol, que se escondiam no meio das folhas das árvores. Falei em voz baixa, continuei a pedir para ficares, para nunca nos perdermos. Tu apenas sorrias.
Era a única pessoa na praia. Repetia para mim o que não era verdade, pois os teus braços estavam no meio dos meus, os teus lábios passavam-me segredos, em beijos cheios de ti. Quando fecho os olhos, vejo sempre a luz no vidro, ouço o mar ao longe, sinto o teu cheiro, a tua pele nas minhas mãos, os seios descaídos, num envelhecer que me trazia a certeza, o saber, a calma, de já nada importar.
Um beijo, só desejava um beijo, como o primeiro, em jogos de miúdos, em tardes de Verão. Mas tinha-te em mim, como nunca tinha tido, como nunca tinha conseguido ter, por não saber como. E escrevo, transformo em palavras o que recordo, como se visse tudo de fora, dois corpos sem idade, num silêncio imaginado.
Ao fim da tarde
Sentámo-nos na areia, a trocar um cigarro, inspirando o fumo à nossa volta. Repito as tuas palavras, para não as esquecer.
- Nunca imaginei ver-te a fumar.
Roubei um pouco do que não era meu, ao respirar com mais força.
- Só em ocasiões especiais.
Ela riu.
- Como quando tens sexo com uma... O que somos nós Júlio? Ia dizer com uma velha, mas acho que ainda não sou uma velha, mas também não sou... O que somos nós Júlio?
Lembro-me do que respondi, só o escrevo por querer sentir.
- Luísa, não sentes? Não sentes este torpor que percorre o corpo, um estremecer que demora?
Ela parou para pensar.
- Sim, sim... acho que tens razão. Júlio... podemos ficar aqui, podemos ficar sem falar?
Nunca cheguei a responder.
Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007
A rapariga do sorriso
- Lembro-me como se fosse hoje. Lembro-me de ter descido as escadas do metro ao som da música, marcando cada tempo em degraus gastos. Era tarde e caminhava lentamente para casa, para um jantar de olhos na televisão, de comida mal mastigada. Quando me sentei à espera senti um olhar, um observar escondido, feito de roupas cinzentas. Olhei por entre as pessoas e um sorriso cresceu para mim, lábios perfeitos, juntos sem esforço. Levantei-me depressa, numa corrida disfarçada, num aproximar nervoso. E fiquei junto a ela.
Maria ficou a olhar para João sem dizer nada, ansiava pela história, verdadeira ou não, desde que a fizesse chorar. Ele continuou.
- Mas não percebi logo, distraído pelos sapatos dela.
- Os sapatos?
- Sim, os sapatos estavam gastos, eram velhos, com umas fivelas muito feias.
- Mas ela...
- Ela estava bem vestida, em tons de cinzento, já te disse. Parecia ter saído de uma montra.
Maria falou, de riso tapado.
- Menos os sapatos...
Ele assentiu, de punhos cerrados.
- Sim, menos os sapatos.
- João, foi aqui?
Ela sabia que sim.
- Sim, eu estava sentado neste mesmo banco.
Maria parou de contar as pessoas, um vício antigo, de horas de espera. Aguardou as palavras em forma de poema, como João sempre fazia. Ao longe ouviu o metro que se aproximava e viu todos a levantaram-se. Eles deixaram-se estar, era o metro das oito, que vinha sempre vazio, reservado, sem paragens. Todas as quintas-feiras vinham ali, assistir à passagem daquele comboio fantasma, que deixava todos nervosos, que lhes trazia risos contidos, na educação de não magoar.
- Fala-me do sorriso.
João fez um ar de indecisão, que não sentia.
- Como é que sabes que vou contar a história do sorriso?
Os olhos dela brilharam.
- Prometes-me que a contas há tanto tempo.
Ele começou a falar, com as mãos juntas em prece, em que não acreditava.
- Maria, ela sorria... ela sorria.
- Sim, eu isso já percebi. Mas porque é que esse sorriso foi tão especial? Era para ti?
- Ao princípio achei que sim, depois duvidei, porque ela... eu nem tinha a certeza que ela estivesse a sorrir.
Uma música começou a tocar na cabeça de Maria. Acontecia sempre que não percebia alguma coisa, quando se zangava, quando estava confusa, trauteava sempre a mesma música, sem fazer um único som. Esperou que ele continuasse.
- É que... é que a cara dela, a cara dela podia ser assim mesmo, percebes?
- Não, não percebo.
Os olhos dele abriram-se, em nervos de não poder continuar a história.
- Maria, eu não sabia se ela estava a sorrir, ou se era a forma da sua cara, da sua boca, um sorriso eterno, um sorriso leve, mas que durava para sempre.
As palavras fizeram sentido, e ela deixou-se cair sobre a parede de metal, que lhe deixava um gosto esquisito na boca.
- Sim, percebo. E o que é que fizeste?
- Entrei atrás dela no metro, queria-me sentar à sua frente, para decidir sobre o que me incomodava, ao mesmo tempo que me dava conforto. Mas só sobrou um lugar ao lado dela, que me escondia, que não me deixava ver.
- Não conseguias ver o sorriso?
- Não, só as unhas pintadas de vermelho.
Maria não conseguiu evitar uma leve ironia, um tom diferente na voz.
- Mas não tinhas dito que eram só os sapatos?
Ele fingiu que não percebeu.
- Disse, mas as unhas também estavam pintadas, com um vermelho muito vivo.
Ela adorava o dramatismo, o sentir, em pequenas coisas.
- Mas afinal qual era o mal das unhas? O vermelho não é assim tão mau.
- Não percebes, não era só a cor, elas... as unhas estavam pintadas como... como se...
Maria sabia bem o que é que ele queria dizer e libertou-o da tortura, de não conseguir.
- Como quando as miúdas pequenas pintam as unhas.
Ele suspirou de alívio.
- Isso, sim, é isso. Mas não estavam... o verniz não saía para fora das unhas, percebes?
- Como assim?
- Era como se tivesse muitas camadas, como se ela as tivesse pintado vezes sem conta. E depois... eram muito pequenas, cortadas até ao limite da dor, em dedos sem vida, pouco elegantes.
A música voltou, Maria deixou-se embalar.
- E o que é que fizeste?
- Ela saiu logo na estação seguinte.
Maria quase se levantou.
- O quê? Sem perceberes o sorriso? Desculpa, mas como é que conseguiste viver sem saber?
Um segundo, João demorou apenas um segundo a responder.
- Não consegui, fui atrás dela.
Chegou um metro e dezenas de pessoas saíram apressadas. João foi o primeiro a parar de rir.
- Acho que ainda não foi desta.
- Parece que não, mas eu sei João, sei que um dia destes vai acontecer.
- Sim, dois reservados, um a seguir ao outro.
Maria fez um ar muito sério, em que nenhum dos dois acreditou.
- Sabes do que é que eu sinto mesmo falta?
- Não.
- Papel de parede.
Era a vez dele ouvir.
- Se soubesses como sinto a falta de passar as mãos pelos desenhos, como em casa da minha avó. Há coisas que nunca deviam desaparecer.
- Eu segui-a.
- O quê?
- Ouviste bem, segui-a, como um daqueles tipos dos filmes, obcecados por alguém.
- Mas, e... conta-me tudo, e ela? João! Diz-me que esta tem um final feliz, por favor.
Ele encheu o peito de ar, como se fosse contar tudo num só respirar. Respondeu em ar traquina.
- Ela esperou por mim atrás de uma esquina, atirou-se para a minha frente em desafio.
- Não acredito! E tu?
- Maria, eu já ia com os olhos cheios de lágrimas, de desespero de a perder.
- Tem um final feliz, eu sei que tem um final feliz.
Maria pôs-se de pé em cima do banco e gritou, girou sobre si mesma, de saia feita de vermelho e amarelo. As pessoas riam-se ao passar, de inveja de não saber. Então agarrou na cara de João e puxou-a até ela.
- Conta-me!
Outro segundo, apenas outro segundo, mais longo do que qualquer outro.
- Um beijo, de lágrimas que se tocaram, num abraço quente...
Não aguentou e completou a frase dele.
- Que nunca conseguiste esquecer.
- Sim.
Maria apertou a boca com força, fechou um soluço com os dedos, sem conseguir respirar, até o soltar, de olhos quase fechados em dor. Falou a chorar, num sentimento sem nome, em breve sorriso, e palavras ditas devagar.
- Tu... sabes ao menos o nome dela?
Ela percebeu o tremor nele, um arrepio que lhe trouxe um sorriso.
- Sim, mas é um segredo que não posso contar.
Maria ficou a olhar para João sem dizer nada, ansiava pela história, verdadeira ou não, desde que a fizesse chorar. Ele continuou.
- Mas não percebi logo, distraído pelos sapatos dela.
- Os sapatos?
- Sim, os sapatos estavam gastos, eram velhos, com umas fivelas muito feias.
- Mas ela...
- Ela estava bem vestida, em tons de cinzento, já te disse. Parecia ter saído de uma montra.
Maria falou, de riso tapado.
- Menos os sapatos...
Ele assentiu, de punhos cerrados.
- Sim, menos os sapatos.
- João, foi aqui?
Ela sabia que sim.
- Sim, eu estava sentado neste mesmo banco.
Maria parou de contar as pessoas, um vício antigo, de horas de espera. Aguardou as palavras em forma de poema, como João sempre fazia. Ao longe ouviu o metro que se aproximava e viu todos a levantaram-se. Eles deixaram-se estar, era o metro das oito, que vinha sempre vazio, reservado, sem paragens. Todas as quintas-feiras vinham ali, assistir à passagem daquele comboio fantasma, que deixava todos nervosos, que lhes trazia risos contidos, na educação de não magoar.
- Fala-me do sorriso.
João fez um ar de indecisão, que não sentia.
- Como é que sabes que vou contar a história do sorriso?
Os olhos dela brilharam.
- Prometes-me que a contas há tanto tempo.
Ele começou a falar, com as mãos juntas em prece, em que não acreditava.
- Maria, ela sorria... ela sorria.
- Sim, eu isso já percebi. Mas porque é que esse sorriso foi tão especial? Era para ti?
- Ao princípio achei que sim, depois duvidei, porque ela... eu nem tinha a certeza que ela estivesse a sorrir.
Uma música começou a tocar na cabeça de Maria. Acontecia sempre que não percebia alguma coisa, quando se zangava, quando estava confusa, trauteava sempre a mesma música, sem fazer um único som. Esperou que ele continuasse.
- É que... é que a cara dela, a cara dela podia ser assim mesmo, percebes?
- Não, não percebo.
Os olhos dele abriram-se, em nervos de não poder continuar a história.
- Maria, eu não sabia se ela estava a sorrir, ou se era a forma da sua cara, da sua boca, um sorriso eterno, um sorriso leve, mas que durava para sempre.
As palavras fizeram sentido, e ela deixou-se cair sobre a parede de metal, que lhe deixava um gosto esquisito na boca.
- Sim, percebo. E o que é que fizeste?
- Entrei atrás dela no metro, queria-me sentar à sua frente, para decidir sobre o que me incomodava, ao mesmo tempo que me dava conforto. Mas só sobrou um lugar ao lado dela, que me escondia, que não me deixava ver.
- Não conseguias ver o sorriso?
- Não, só as unhas pintadas de vermelho.
Maria não conseguiu evitar uma leve ironia, um tom diferente na voz.
- Mas não tinhas dito que eram só os sapatos?
Ele fingiu que não percebeu.
- Disse, mas as unhas também estavam pintadas, com um vermelho muito vivo.
Ela adorava o dramatismo, o sentir, em pequenas coisas.
- Mas afinal qual era o mal das unhas? O vermelho não é assim tão mau.
- Não percebes, não era só a cor, elas... as unhas estavam pintadas como... como se...
Maria sabia bem o que é que ele queria dizer e libertou-o da tortura, de não conseguir.
- Como quando as miúdas pequenas pintam as unhas.
Ele suspirou de alívio.
- Isso, sim, é isso. Mas não estavam... o verniz não saía para fora das unhas, percebes?
- Como assim?
- Era como se tivesse muitas camadas, como se ela as tivesse pintado vezes sem conta. E depois... eram muito pequenas, cortadas até ao limite da dor, em dedos sem vida, pouco elegantes.
A música voltou, Maria deixou-se embalar.
- E o que é que fizeste?
- Ela saiu logo na estação seguinte.
Maria quase se levantou.
- O quê? Sem perceberes o sorriso? Desculpa, mas como é que conseguiste viver sem saber?
Um segundo, João demorou apenas um segundo a responder.
- Não consegui, fui atrás dela.
Chegou um metro e dezenas de pessoas saíram apressadas. João foi o primeiro a parar de rir.
- Acho que ainda não foi desta.
- Parece que não, mas eu sei João, sei que um dia destes vai acontecer.
- Sim, dois reservados, um a seguir ao outro.
Maria fez um ar muito sério, em que nenhum dos dois acreditou.
- Sabes do que é que eu sinto mesmo falta?
- Não.
- Papel de parede.
Era a vez dele ouvir.
- Se soubesses como sinto a falta de passar as mãos pelos desenhos, como em casa da minha avó. Há coisas que nunca deviam desaparecer.
- Eu segui-a.
- O quê?
- Ouviste bem, segui-a, como um daqueles tipos dos filmes, obcecados por alguém.
- Mas, e... conta-me tudo, e ela? João! Diz-me que esta tem um final feliz, por favor.
Ele encheu o peito de ar, como se fosse contar tudo num só respirar. Respondeu em ar traquina.
- Ela esperou por mim atrás de uma esquina, atirou-se para a minha frente em desafio.
- Não acredito! E tu?
- Maria, eu já ia com os olhos cheios de lágrimas, de desespero de a perder.
- Tem um final feliz, eu sei que tem um final feliz.
Maria pôs-se de pé em cima do banco e gritou, girou sobre si mesma, de saia feita de vermelho e amarelo. As pessoas riam-se ao passar, de inveja de não saber. Então agarrou na cara de João e puxou-a até ela.
- Conta-me!
Outro segundo, apenas outro segundo, mais longo do que qualquer outro.
- Um beijo, de lágrimas que se tocaram, num abraço quente...
Não aguentou e completou a frase dele.
- Que nunca conseguiste esquecer.
- Sim.
Maria apertou a boca com força, fechou um soluço com os dedos, sem conseguir respirar, até o soltar, de olhos quase fechados em dor. Falou a chorar, num sentimento sem nome, em breve sorriso, e palavras ditas devagar.
- Tu... sabes ao menos o nome dela?
Ela percebeu o tremor nele, um arrepio que lhe trouxe um sorriso.
- Sim, mas é um segredo que não posso contar.
Domingo, Janeiro 21, 2007
Em Verso
O coração de João batia mais forte, como se fosse rebentar, um fim longe de casa, numa estúpida viagem, que não queria ter feito.
- Não aguento, não posso mais, é que neste momento, para mim é demais.
Ana sentou-se nas escadas a rir, da rima e da sua sorte. João tinha decidido só falar em verso, depois de um desgosto de amor. Mas para quem não nascera poeta, a decisão levara ao silêncio, a palavras estranhas, de sentidos trocados. O riso fê-la esquecer a tortura, de seis meses contados, antes de começar a falar.
- Não desistes pois não? Homem, ela foi embora, não volta mais, percebes? E tu não podes continuar com este disparate, vais afastar todos.
Ele continuava a respirar com dificuldade, sem responder. Ana levantou-se, de cara zangada.
- Chega, eu não alinho mais nisto, vou-me embora! Podes ir pensando, podes ir decorando, palavras que rimem com “sozinho”. Eu continuo o meu caminho.
Desceu as escadas, dois degraus de cada vez, numa pressa que não queria esconder. João ficou a olhar para ela, até ser apenas um pequeno ponto, que se misturou com o rio de gente, que passava numa rua abaixo. Falou, porque ninguém o podia ouvir.
- Desculpa, eu também estou farto disto.
Pela primeira vez em meses não rimou, sentindo um vazio, pelo que já não fazia sentido. Olhou para cima e viu uma varanda cheia de flores, uma cortina branca que esvoaçava, ao som de um piano, de notas tristes repetidas. Não conseguiu reprimir um grito, um chamar por alguém, que não sabia se existia.
- Olá! Olá! Quem está aí a tocar?
A música parou e a cortina caiu de forma suave, pela falta de vento. Um senhor muito velho mostrou-se à tarde, vestido com uma espécie de roupão, muito gasto nas mangas. O cabelo tinha sido louro, mas faltava demasiado, para ser possível perceber, porque é que o penteava, com cuidados de cavalheiro. João ficou à espera que ele falasse, que lhe respondesse, mas ele mantinha os lábios juntos, segurando um cigarro, que voltara a acender. João não aguentou.
- Senhor! Boa tarde, eu... era o senhor que estava a tocar piano?
O velho tossiu antes de responder.
- Sim, era eu. Era você que estava aos gritos? É difícil tocar, é difícil a ouvir gritar.
- Sim, era eu e...
Ana já devia estar no hotel.
- Era eu e uma amiga. Ela foi-se embora, eu... eu tenho estado insuportável.
O velho tossiu outra vez, enquanto sorria.
- Suba! É o primeiro esquerdo, a porta do prédio está aberta, como se alguém fosse entrar.
Não percebeu a frase do homem, mas a porta estava mesmo aberta, uma porta antiga, que já tinha sido verde. As escadas eram de madeira, de uma cor diferente do corrimão, de verniz a estalar. O cheiro era quase insuportável, por ser tão forte, de recordações, tantas vezes vividas, para sempre guardadas. A tosse veio antes da voz.
- Sentiu, não sentiu?
Não sabia do que ele falava, o cheiro roubava-lhe a razão.
- Desculpe, não percebo.
O resto do cigarro ardeu todo de uma só vez.
- Claro que percebe.
Hesitou na certeza, antes de responder.
- É... é o cheiro, o pó no ar, o toque da madeira, eles contam...
O velho sorriu de orelha a orelha.
- Vidas, eles contam vidas. Sabe porque é que é assim? Eu tenho uma teoria.
- Uma teoria?
- Sim! É da madeira, ela absorve tudo.
João fechou os olhos, para sentir mais uma vez, antes de entrar no apartamento. Ele tinha razão.
A casa estava demasiado cheia, como se cada canto tivesse esperado, por um candeeiro em forma de mulher, por um relógio de marfim, uma máscara africana, de olhos assustadores. Percebeu que podia ficar ali dias inteiros, sem precisar que lhe contassem, por preferir imaginar, viagens sem fim.
- Tem aqui muitas histórias.
Duas mãos envelhecidas acordaram o piano, notas tocadas quase em silêncio.
- Não se ofenda por não olhar para si, a música também nos aproxima, também nos faz compreender, perceber os outros.
- A música?
O velho sorriu, antes de responder, numa frase demorada, quase cantada.
- Sim, a música pode ser melhor que as palavras, quase tão perfeita como o toque. Meu rapaz, se conseguir conhecer alguém desta forma, se ela também...
João percebeu o que o homem fazia, depois de estranhar. Ele falava ao mesmo tempo que a música, ao mesmo ritmo que os dedos tocavam no piano, num entoar que só fazia sentido, depois de se acreditar. E juraria para sempre, que o fazia a chorar.
- Eu fazia versos, eu só falava em verso, rimas difíceis, que me deixavam preso, no que não conseguia dizer.
A música parou e o homem virou-se para ele. Parecia tão velho, e ao mesmo tempo tão limpo, tão doce, que lhe apeteceu abraça-lo, num choro que recusava, que esquecia, há demasiado tempo. Sentiu conforto na voz dele, mesmo no meio do silêncio.
- Rapaz, temos muito que falar.
Lembrou-se de casa, e de chá com canela, em tardes de Inverno.
- Não aguento, não posso mais, é que neste momento, para mim é demais.
Ana sentou-se nas escadas a rir, da rima e da sua sorte. João tinha decidido só falar em verso, depois de um desgosto de amor. Mas para quem não nascera poeta, a decisão levara ao silêncio, a palavras estranhas, de sentidos trocados. O riso fê-la esquecer a tortura, de seis meses contados, antes de começar a falar.
- Não desistes pois não? Homem, ela foi embora, não volta mais, percebes? E tu não podes continuar com este disparate, vais afastar todos.
Ele continuava a respirar com dificuldade, sem responder. Ana levantou-se, de cara zangada.
- Chega, eu não alinho mais nisto, vou-me embora! Podes ir pensando, podes ir decorando, palavras que rimem com “sozinho”. Eu continuo o meu caminho.
Desceu as escadas, dois degraus de cada vez, numa pressa que não queria esconder. João ficou a olhar para ela, até ser apenas um pequeno ponto, que se misturou com o rio de gente, que passava numa rua abaixo. Falou, porque ninguém o podia ouvir.
- Desculpa, eu também estou farto disto.
Pela primeira vez em meses não rimou, sentindo um vazio, pelo que já não fazia sentido. Olhou para cima e viu uma varanda cheia de flores, uma cortina branca que esvoaçava, ao som de um piano, de notas tristes repetidas. Não conseguiu reprimir um grito, um chamar por alguém, que não sabia se existia.
- Olá! Olá! Quem está aí a tocar?
A música parou e a cortina caiu de forma suave, pela falta de vento. Um senhor muito velho mostrou-se à tarde, vestido com uma espécie de roupão, muito gasto nas mangas. O cabelo tinha sido louro, mas faltava demasiado, para ser possível perceber, porque é que o penteava, com cuidados de cavalheiro. João ficou à espera que ele falasse, que lhe respondesse, mas ele mantinha os lábios juntos, segurando um cigarro, que voltara a acender. João não aguentou.
- Senhor! Boa tarde, eu... era o senhor que estava a tocar piano?
O velho tossiu antes de responder.
- Sim, era eu. Era você que estava aos gritos? É difícil tocar, é difícil a ouvir gritar.
- Sim, era eu e...
Ana já devia estar no hotel.
- Era eu e uma amiga. Ela foi-se embora, eu... eu tenho estado insuportável.
O velho tossiu outra vez, enquanto sorria.
- Suba! É o primeiro esquerdo, a porta do prédio está aberta, como se alguém fosse entrar.
Não percebeu a frase do homem, mas a porta estava mesmo aberta, uma porta antiga, que já tinha sido verde. As escadas eram de madeira, de uma cor diferente do corrimão, de verniz a estalar. O cheiro era quase insuportável, por ser tão forte, de recordações, tantas vezes vividas, para sempre guardadas. A tosse veio antes da voz.
- Sentiu, não sentiu?
Não sabia do que ele falava, o cheiro roubava-lhe a razão.
- Desculpe, não percebo.
O resto do cigarro ardeu todo de uma só vez.
- Claro que percebe.
Hesitou na certeza, antes de responder.
- É... é o cheiro, o pó no ar, o toque da madeira, eles contam...
O velho sorriu de orelha a orelha.
- Vidas, eles contam vidas. Sabe porque é que é assim? Eu tenho uma teoria.
- Uma teoria?
- Sim! É da madeira, ela absorve tudo.
João fechou os olhos, para sentir mais uma vez, antes de entrar no apartamento. Ele tinha razão.
A casa estava demasiado cheia, como se cada canto tivesse esperado, por um candeeiro em forma de mulher, por um relógio de marfim, uma máscara africana, de olhos assustadores. Percebeu que podia ficar ali dias inteiros, sem precisar que lhe contassem, por preferir imaginar, viagens sem fim.
- Tem aqui muitas histórias.
Duas mãos envelhecidas acordaram o piano, notas tocadas quase em silêncio.
- Não se ofenda por não olhar para si, a música também nos aproxima, também nos faz compreender, perceber os outros.
- A música?
O velho sorriu, antes de responder, numa frase demorada, quase cantada.
- Sim, a música pode ser melhor que as palavras, quase tão perfeita como o toque. Meu rapaz, se conseguir conhecer alguém desta forma, se ela também...
João percebeu o que o homem fazia, depois de estranhar. Ele falava ao mesmo tempo que a música, ao mesmo ritmo que os dedos tocavam no piano, num entoar que só fazia sentido, depois de se acreditar. E juraria para sempre, que o fazia a chorar.
- Eu fazia versos, eu só falava em verso, rimas difíceis, que me deixavam preso, no que não conseguia dizer.
A música parou e o homem virou-se para ele. Parecia tão velho, e ao mesmo tempo tão limpo, tão doce, que lhe apeteceu abraça-lo, num choro que recusava, que esquecia, há demasiado tempo. Sentiu conforto na voz dele, mesmo no meio do silêncio.
- Rapaz, temos muito que falar.
Lembrou-se de casa, e de chá com canela, em tardes de Inverno.
Domingo, Janeiro 14, 2007
O Espelho
Passo frente a um espelho, daqueles que esquecemos na parede, gastos nos cantos. Vejo uma cara envelhecida, pelo passar das horas, minutos de que perdi a conta. Estou despido, pêlos brancos no peito, mostram o caminho fechado, de volta ao passado. Fecho os olhos, até ver os teus.
Combinámos que serias tu a escolher o sítio, mas agora duvido, por estar perdido. O teu carro ao longe, demasiado lento, aumenta a minha ansiedade, em saber o que queres de mim, depois de quase te conseguir esquecer. A porta abre-se devagar, o convite confunde-se com a dúvida, e fico junto ao muro, por não conseguir andar. Espero por ti. Pela voz que nunca deixei de ouvir.
- Olá.
Desisto das primeiras palavras, todas inúteis, desajustadas do momento. Fico em silêncio, para não errar, para não começar a perder, mais do que já sinto.
- Não dizes nada?
Sou obrigado a arriscar.
- Estás bonita, estás sempre bonita.
- Obrigado.
Hesitas, mas sabes que tens de continuar, foste tu que me chamaste.
- Rui, eu... deves estar a pensar porque é que pedi para vires aqui.
Respondo irritado, mas só eu é que percebo.
- Não, na verdade não estou, só não consegui dizer que não. Mas juro Leonor, juro que se me disseres, neste momento, daqui a um minuto, se me disseres que te vais embora, que desistes de falar, juro que não faço nenhuma pergunta, que não olho para trás.
A tua pele muda de cor, por espanto e dor, por saberes que falo a sério, mesmo no meio do medo, que me faz tremer a voz.
- Não, eu não vou mudar de ideias, não te chamei por impulso, mas por precisar de te dizer, por ter de confessar, o que tu sempre soubeste, o que...
Interrompo-te, no meio do que quero ouvir.
- Não, mil vezes não! Não vais dizer que me amas, mas que não podes ficar, ou que não queres ficar.
- Mas...
Não te deixo continuar, mais uma vez.
- Não, já te disse que não, não quero saber.
- Mas eu sofro...
Rebento em choro, de vontade de te abraçar.
- Sofres? Tu sofres? E eu Leonor, como se chama o que eu sinto?
Não respondes, sei que não podes responder.
- Cinco anos! Cinco anos Leonor! Sem uma palavra tua, sem ao menos fingires, sem pelo menos me enganares, numa amizade sem sentido, que me fizesse esquecer, a solidão de todas as manhãs, de todos os dias, contados um a um.
Olho para ti, o mais tarde que consigo. Na tua cara um reflexo, do mar ao longe, e uma lágrima fica segura, como se o tempo parasse, antes de cair. Desisto, de não te deixar falar.
- Rui, eu não tenho mais nada para dizer, a não ser o que não queres ouvir, dizer que te amo, antes de morrer, antes que daqui a trinta anos, acorde em sobressalto, por palavras que fechei em mim, sem as poder gritar.
A dor é insuportável, de te querer abraçar, mas continuo a ouvir.
- E sim, tens toda a razão, de me julgar, de não me perdoar, mas ouve-me por favor, porque nunca mais nos vamos ver, deixa-me, uma vez na vida, a última vez na vida, dizer o que sinto, e chorar contigo. Eu amo-te, eu amo-te!
Falo de forma fria, que sabes não sentir.
- E o que é que queres que eu diga? Que fico feliz em saber, que te desejo boa sorte, uma despedida, de sorriso fingido, de não ser quem sou...
Não consigo continuar, e espero pelas tuas palavras.
- Não, eu só queria... Rui... eu só queria...
Choro como nunca chorei na vida, como não chorei, na outra despedida, de mentiras repetidas, em que não acreditei. E então desisto, para te abraçar, num cheiro que conheço, que reconheço, para não esquecer.
- Amo-te tanto Leonor, amo-te tanto...
A tarde desaparece, numa noite fria. O abraço dura para sempre.
Sinto o frio do chão, que me traz de volta a mim, ao meu reflexo no espelho, que me olha a sorrir. Lembro-me de nós, de músicas, palavras, risos, cigarros de mão em mão, da roupa molhada, da noite, da água fria, lembro-me do vento, do teu cabelo a voar, de lábios a brilhar, depois do pôr-do-sol, de sapatos coloridos, mãos dadas, olhos fechados, de correr, beijos, sonhos, sussurros, em versos, de sentir. Fecho os olhos, e deixo o corpo estremecer, como no refrão de uma música, que estou sempre a ouvir, quando penso em ti.
Combinámos que serias tu a escolher o sítio, mas agora duvido, por estar perdido. O teu carro ao longe, demasiado lento, aumenta a minha ansiedade, em saber o que queres de mim, depois de quase te conseguir esquecer. A porta abre-se devagar, o convite confunde-se com a dúvida, e fico junto ao muro, por não conseguir andar. Espero por ti. Pela voz que nunca deixei de ouvir.
- Olá.
Desisto das primeiras palavras, todas inúteis, desajustadas do momento. Fico em silêncio, para não errar, para não começar a perder, mais do que já sinto.
- Não dizes nada?
Sou obrigado a arriscar.
- Estás bonita, estás sempre bonita.
- Obrigado.
Hesitas, mas sabes que tens de continuar, foste tu que me chamaste.
- Rui, eu... deves estar a pensar porque é que pedi para vires aqui.
Respondo irritado, mas só eu é que percebo.
- Não, na verdade não estou, só não consegui dizer que não. Mas juro Leonor, juro que se me disseres, neste momento, daqui a um minuto, se me disseres que te vais embora, que desistes de falar, juro que não faço nenhuma pergunta, que não olho para trás.
A tua pele muda de cor, por espanto e dor, por saberes que falo a sério, mesmo no meio do medo, que me faz tremer a voz.
- Não, eu não vou mudar de ideias, não te chamei por impulso, mas por precisar de te dizer, por ter de confessar, o que tu sempre soubeste, o que...
Interrompo-te, no meio do que quero ouvir.
- Não, mil vezes não! Não vais dizer que me amas, mas que não podes ficar, ou que não queres ficar.
- Mas...
Não te deixo continuar, mais uma vez.
- Não, já te disse que não, não quero saber.
- Mas eu sofro...
Rebento em choro, de vontade de te abraçar.
- Sofres? Tu sofres? E eu Leonor, como se chama o que eu sinto?
Não respondes, sei que não podes responder.
- Cinco anos! Cinco anos Leonor! Sem uma palavra tua, sem ao menos fingires, sem pelo menos me enganares, numa amizade sem sentido, que me fizesse esquecer, a solidão de todas as manhãs, de todos os dias, contados um a um.
Olho para ti, o mais tarde que consigo. Na tua cara um reflexo, do mar ao longe, e uma lágrima fica segura, como se o tempo parasse, antes de cair. Desisto, de não te deixar falar.
- Rui, eu não tenho mais nada para dizer, a não ser o que não queres ouvir, dizer que te amo, antes de morrer, antes que daqui a trinta anos, acorde em sobressalto, por palavras que fechei em mim, sem as poder gritar.
A dor é insuportável, de te querer abraçar, mas continuo a ouvir.
- E sim, tens toda a razão, de me julgar, de não me perdoar, mas ouve-me por favor, porque nunca mais nos vamos ver, deixa-me, uma vez na vida, a última vez na vida, dizer o que sinto, e chorar contigo. Eu amo-te, eu amo-te!
Falo de forma fria, que sabes não sentir.
- E o que é que queres que eu diga? Que fico feliz em saber, que te desejo boa sorte, uma despedida, de sorriso fingido, de não ser quem sou...
Não consigo continuar, e espero pelas tuas palavras.
- Não, eu só queria... Rui... eu só queria...
Choro como nunca chorei na vida, como não chorei, na outra despedida, de mentiras repetidas, em que não acreditei. E então desisto, para te abraçar, num cheiro que conheço, que reconheço, para não esquecer.
- Amo-te tanto Leonor, amo-te tanto...
A tarde desaparece, numa noite fria. O abraço dura para sempre.
Sinto o frio do chão, que me traz de volta a mim, ao meu reflexo no espelho, que me olha a sorrir. Lembro-me de nós, de músicas, palavras, risos, cigarros de mão em mão, da roupa molhada, da noite, da água fria, lembro-me do vento, do teu cabelo a voar, de lábios a brilhar, depois do pôr-do-sol, de sapatos coloridos, mãos dadas, olhos fechados, de correr, beijos, sonhos, sussurros, em versos, de sentir. Fecho os olhos, e deixo o corpo estremecer, como no refrão de uma música, que estou sempre a ouvir, quando penso em ti.
Domingo, Dezembro 24, 2006
O Homem dos Dados
- Já ouviste falar no homem dos dados?
Sónia acordou de um sonho.
- Como?
João repetiu de forma paciente, sabia que ela estava longe.
- Estou a perguntar se já te falaram no homem dos dados.
- Dados? Não, nunca ouvi falar.
Puxou a cadeira à frente e olhou para a esplanada. Estava completamente cheia, como se não estivessem em Dezembro, como se não estivesse um dos dias mais frios do ano. Gostava de se sentar ali ao fim da tarde, de ver as pessoas a passar com sacos de compras. João tossiu.
- Desculpa, não te estou a prestar atenção, pois não?
Ele desculpou-a com o olhar.
- É um homem que costuma estar na Rua Augusta.
- E os dados? Porque é que o chamam assim? É algum jogo?
João gostava da forma como ela mudava de repente.
- Ele tem dois dados, mas não são dados normais, cada um tem dez lados, numerados de zero a nove.
- De zero a nove? Mas porquê?
A demora na resposta irritou-a, mas ela sabia que se dissesse alguma coisa ele ia demorar ainda mais.
- Ele lança um dado de cada vez, obtendo um número...
Sónia completou a frase.
- De zero a noventa e nove.
Ele confirmou.
- Sim, de zero a noventa e nove.
- Mas porquê, o que é que ele faz com os dados?
João puxou de um cigarro, agora que tinha a atenção dela, podia falar sem pressa, podia pensar as palavras. Só continuou quando o cigarro já ia a meio.
- A idade, ele diz-nos a idade com que vamos morrer.
Sónia voltou atrás no tempo, a passeios de mão dada, cheiros antigos e uma voz que estava sempre com ela.
- Lembras-te do meu avô?
Ele lembrava-se e esperou que ela continuasse.
- Ele tinha uma colecção de dados, não pensava nisto há anos. Ele costumava deixar-me tocar neles, admirar as diferentes formas e cores, mas... sabes, ele nunca me deixava lança-los. Nunca me explicou porquê.
- Tens saudades dele, não tens?
Ela esfregou os olhos.
- Sim, todos os dias.
Nenhum dos dois falou durante vários minutos. A noite não se distinguia da tarde e estava cada vez mais frio. Passou por eles um homem vestido de verde, que falava sozinho, que trazia com ele uma vara muito comprida, com uma lanterna antiga na ponta, uma lanterna de metal e vidro, com uma vela no interior. A luz parecia iluminar a rua inteira.
- João, ele... o homem dos dados...
- Sim?
- Ele não tem como falhar, ele... não tem queixas, pois não?
João não sabia porque é que a conseguia entender tão bem, porque é que entre eles era tudo tão simples.
- Sim, acho que tens razão, os que morrerem antes não vão reclamar, os que morrerem depois...
Ela interrompeu-o.
- Vão achar que ficam a ganhar.
- Exacto.
- Mas... só há um problema, quando os dados derem um número, quando...
Ele continuou, adivinhando a pergunta, que também já fora sua.
- Se uma pessoa já tiver passado a idade, é isso que estás a pensar?
- Sim, o que é que significa?
João sorriu, de olhos brilhantes, de quem sabe um segredo.
- Isso nunca aconteceu.
- Como?
- É o que as pessoas contam, que isso nunca aconteceu.
Sónia encheu peito de ar, ganhando coragem.
- João, leva-me lá! Eu quero saber.
Ele não estava à espera do pedido dela, há meses que evitava a Rua Augusta, um medo que não aceitava, fingindo não perceber.
- Tens a certeza?
- Sim, tenho.
- Então vamos, vamos ver se ele está lá.
Ao chegarem a meio da Rua Augusta descobriram o homem sentado no chão. Sónia não estranhou os modos rudes, a barba branca por fazer, o casaco habituado à rua. Não se importou com o cabelo despenteado, com os sapatos gastos, nem com as mãos sujas que lançavam os dados de cor púrpura.
- Quanto é preciso dar para ele lançar os dados?
- Uma moeda.
- Mas de quanto?
João repetiu.
- Uma moeda, ele só quer uma moeda.
- João, tu já alguma vez...
Não precisou de ouvir a resposta para saber.
- Não, nunca tive coragem, deixas-me ir primeiro?
- Claro, vai.
João avançou e deixou cair uma moeda num copo de plástico vazio. O homem lançou os dados um a um, sem olhar para ele, apanhando-os quase sem dar tempo para ver os números, para ver o futuro, revelado no chão de pedra. Setenta e cinco, um número grande, que primeiro pareceu suficiente, antes de começar a pensar. Voltou para perto de Sónia, que se tinha afastado um pouco.
- Então?
Ele sorriu nervoso.
- Não morro amanhã.
Ela não perguntou mais nada, dirigiu-se ao homem e estendeu a mão com uma moeda. Mas antes de a deixar cair, ele fez um movimento brusco, tapando o copo com uma das mãos. Olhou-a antes de falar.
- Para si não, eu não posso lançar os dados para a menina.
Sónia abriu a boca, num protesto que não conseguiu transformar em palavras. Lembrou-se do avô. Falou com um sorriso nos lábios.
- Então, vou ter de viver o resto da vida, sem saber?
O homem não respondeu e guardou os dados num bolso do casaco. Ela virou costas sem dizer mais nada, fechou os olhos e pensou em como era bom sentir o frio da noite. João esperava-a com um ar espantado.
- O que aconteceu?
Ela esperou um segundo antes de falar.
- Obrigado, obrigado por me teres trazido aqui.
- Mas eu, eu... não percebi o que se passou.
- Anda, vamos comer um gelado.
- Mas estamos em Dezembro.
Ela respondeu com um ar brincalhão.
- Tens medo do quê? Não disseste que não morrias amanhã?
Sónia acordou de um sonho.
- Como?
João repetiu de forma paciente, sabia que ela estava longe.
- Estou a perguntar se já te falaram no homem dos dados.
- Dados? Não, nunca ouvi falar.
Puxou a cadeira à frente e olhou para a esplanada. Estava completamente cheia, como se não estivessem em Dezembro, como se não estivesse um dos dias mais frios do ano. Gostava de se sentar ali ao fim da tarde, de ver as pessoas a passar com sacos de compras. João tossiu.
- Desculpa, não te estou a prestar atenção, pois não?
Ele desculpou-a com o olhar.
- É um homem que costuma estar na Rua Augusta.
- E os dados? Porque é que o chamam assim? É algum jogo?
João gostava da forma como ela mudava de repente.
- Ele tem dois dados, mas não são dados normais, cada um tem dez lados, numerados de zero a nove.
- De zero a nove? Mas porquê?
A demora na resposta irritou-a, mas ela sabia que se dissesse alguma coisa ele ia demorar ainda mais.
- Ele lança um dado de cada vez, obtendo um número...
Sónia completou a frase.
- De zero a noventa e nove.
Ele confirmou.
- Sim, de zero a noventa e nove.
- Mas porquê, o que é que ele faz com os dados?
João puxou de um cigarro, agora que tinha a atenção dela, podia falar sem pressa, podia pensar as palavras. Só continuou quando o cigarro já ia a meio.
- A idade, ele diz-nos a idade com que vamos morrer.
Sónia voltou atrás no tempo, a passeios de mão dada, cheiros antigos e uma voz que estava sempre com ela.
- Lembras-te do meu avô?
Ele lembrava-se e esperou que ela continuasse.
- Ele tinha uma colecção de dados, não pensava nisto há anos. Ele costumava deixar-me tocar neles, admirar as diferentes formas e cores, mas... sabes, ele nunca me deixava lança-los. Nunca me explicou porquê.
- Tens saudades dele, não tens?
Ela esfregou os olhos.
- Sim, todos os dias.
Nenhum dos dois falou durante vários minutos. A noite não se distinguia da tarde e estava cada vez mais frio. Passou por eles um homem vestido de verde, que falava sozinho, que trazia com ele uma vara muito comprida, com uma lanterna antiga na ponta, uma lanterna de metal e vidro, com uma vela no interior. A luz parecia iluminar a rua inteira.
- João, ele... o homem dos dados...
- Sim?
- Ele não tem como falhar, ele... não tem queixas, pois não?
João não sabia porque é que a conseguia entender tão bem, porque é que entre eles era tudo tão simples.
- Sim, acho que tens razão, os que morrerem antes não vão reclamar, os que morrerem depois...
Ela interrompeu-o.
- Vão achar que ficam a ganhar.
- Exacto.
- Mas... só há um problema, quando os dados derem um número, quando...
Ele continuou, adivinhando a pergunta, que também já fora sua.
- Se uma pessoa já tiver passado a idade, é isso que estás a pensar?
- Sim, o que é que significa?
João sorriu, de olhos brilhantes, de quem sabe um segredo.
- Isso nunca aconteceu.
- Como?
- É o que as pessoas contam, que isso nunca aconteceu.
Sónia encheu peito de ar, ganhando coragem.
- João, leva-me lá! Eu quero saber.
Ele não estava à espera do pedido dela, há meses que evitava a Rua Augusta, um medo que não aceitava, fingindo não perceber.
- Tens a certeza?
- Sim, tenho.
- Então vamos, vamos ver se ele está lá.
Ao chegarem a meio da Rua Augusta descobriram o homem sentado no chão. Sónia não estranhou os modos rudes, a barba branca por fazer, o casaco habituado à rua. Não se importou com o cabelo despenteado, com os sapatos gastos, nem com as mãos sujas que lançavam os dados de cor púrpura.
- Quanto é preciso dar para ele lançar os dados?
- Uma moeda.
- Mas de quanto?
João repetiu.
- Uma moeda, ele só quer uma moeda.
- João, tu já alguma vez...
Não precisou de ouvir a resposta para saber.
- Não, nunca tive coragem, deixas-me ir primeiro?
- Claro, vai.
João avançou e deixou cair uma moeda num copo de plástico vazio. O homem lançou os dados um a um, sem olhar para ele, apanhando-os quase sem dar tempo para ver os números, para ver o futuro, revelado no chão de pedra. Setenta e cinco, um número grande, que primeiro pareceu suficiente, antes de começar a pensar. Voltou para perto de Sónia, que se tinha afastado um pouco.
- Então?
Ele sorriu nervoso.
- Não morro amanhã.
Ela não perguntou mais nada, dirigiu-se ao homem e estendeu a mão com uma moeda. Mas antes de a deixar cair, ele fez um movimento brusco, tapando o copo com uma das mãos. Olhou-a antes de falar.
- Para si não, eu não posso lançar os dados para a menina.
Sónia abriu a boca, num protesto que não conseguiu transformar em palavras. Lembrou-se do avô. Falou com um sorriso nos lábios.
- Então, vou ter de viver o resto da vida, sem saber?
O homem não respondeu e guardou os dados num bolso do casaco. Ela virou costas sem dizer mais nada, fechou os olhos e pensou em como era bom sentir o frio da noite. João esperava-a com um ar espantado.
- O que aconteceu?
Ela esperou um segundo antes de falar.
- Obrigado, obrigado por me teres trazido aqui.
- Mas eu, eu... não percebi o que se passou.
- Anda, vamos comer um gelado.
- Mas estamos em Dezembro.
Ela respondeu com um ar brincalhão.
- Tens medo do quê? Não disseste que não morrias amanhã?
Terça-feira, Novembro 28, 2006
Artur
- Odeio-vos a todos!
Clara gritava, puxava pela roupa, batia com os pés no chão molhado.
- A todos vocês, são uns cabrões, uns merdas, cuspo em cima de todos, odeio-vos!
As pessoas não paravam, andavam mais devagar, mas não paravam, com medo dela, com medo que lhes tocasse, que lhes pegasse uma doença má. Um rapaz vestido de preto tirava fotografias ao longe, apanhava-a a meio de uma queda desamparada, de joelhos em sangue, de mãos esfoladas da cor da calçada, de cabelos sobre o rosto. Mas estava demasiado afastado para ouvir, para ler os seus lábios feridos, que repetiam um choro sem lágrimas.
- Mãe... mãe... preciso de ti, mãe... ajuda-me, ajuda-me que morro, que caio sozinha... eu tenho tanto sono, preciso...
Um homem avançou por entre as pessoas e olhou todos com desprezo. Pegou-lhe ao colo com uma suavidade que ela não compreendia.
- Vão-se embora! Não podem ajudar, pois não? Então vão-se embora, ela não é ninguém para vocês, sigam o vosso caminho, Deus não vos vai castigar, acreditem em mim.
Clara acordou devagar, abriu os olhos com medo, sem saber quem era. Estava deitada num sofá que tinha o mesmo cheiro das bonecas de pano, que embalava antes de dormir. Olhou em redor, procurou uma porta para fugir, tinham tomado conta dela, as feridas estavam limpas, as mãos lavadas, o cabelo apanhado, escovado. As paredes da sala eram azuis, um azul muito escuro, que não fazia sentido, que não combinava com a madeira dos móveis. Fechou os olhos, desejou que tudo fosse um sonho, que toda a sua vida não tivesse existido. Ouviu passos atrás dela.
- Pensei que nunca fosses acordar.
- Que dia é hoje?
O homem fez um ar surpreendido e sentou-se à frente dela.
- E o que te interessa isso? Não importa muito, pois não? Na rua não há dias, não há tempo.
Tentou levantar-se irritada, o tempo era tudo o que lhe restava, depois de ter esquecido os nomes, depois de esquecer as vozes, de tudo se tornar cinzento. Encostou-se sem forças.
- Calma miúda, não te zangues.
Ela não respondeu. Ele falou num gaguejo nervoso.
- Desculpa, eu... eu estou quase sempre sozinho, não me habituo às pessoas... e passo demasiadas vezes por ti, vejo-te vezes sem fim, e olho para o lado, para não sentir.
As lágrimas lutavam para sair, mas Clara percebeu que aquele homem não chorava.
Ele continuou no meio de um sorriso forçado.
- Hoje é terça-feira.
- Terça? Mas... mas, eu dormi...
- Sim, dormiste muito, cheguei a pensar que ias dormir para sempre, que me morrias para aí.
Ele levantou-se e passou as mãos pelo cabelo. Ela tocou na camisa de dormir sobre a pele.
- Foste... foste tu que me trocou a roupa?
- Sim, mas não te preocupes, eu não jogo nesse campeonato, eu... eu... esquece, não olhei, não me interessa, percebes? Não correste perigo nenhum, é com se fosse teu pai... tu tens pai? Tens de ter, não é? De certeza que não nasceste na rua.
A agressividade do homem assustava-a, ao mesmo tempo que sentia pena. Tinha a certeza que não havia maldade nele, que só estava sozinho.
- Sim, tenho um pai. Ou acho que tenho, não o vejo há muitos anos, desde pequena, abandonou-nos às duas, a mim e à minha mãe.
- E ela?
Respondeu a chorar.
- Ela? Não sei, ela ficou, eu vim-me embora, deixei tudo, à procura de sonhos... e deixei-a para trás, nem sequer olhei, não tive coragem.
O homem olhou-a uns segundos, de cara fechada, que se abriu num sorriso.
- Achas que sabes voltar?
Clara riu.
- Acho que sim, sabemos sempre, não é? Mas não sei se quero, não sei se posso.
Ele abriu muito os olhos.
- Não foi isso que perguntei, sabes ou não sabes voltar? É uma pergunta simples, não é complicada, só quero saber se sabes voltar.
As lágrimas voltaram, aos olhos dos dois.
- Sim, sim... sei voltar, o comboio pára muito perto. Eu ouvia-o à noite, quando não conseguia dormir.
- Partes amanhã.
- Mas...
- Já disse, partes amanhã!
Ela não conseguiu responder, não conseguiu libertar-se da mão fechada, que lhe magoava o pulso.
- Agora descansa, eu vou buscar um pouco de sopa, precisas de comer.
O comboio apitou, chamou uma última vez. Clara esperava à porta da carruagem, esperava por uma viagem que não desejara, que lhe enchia o peito de saudades.
- Nunca me disseste o teu nome.
Ele sorriu, mas sem mexer os lábios, um olhar perfeito, que não seria esquecido.
- Eu chamo-me Artur... o meu nome é Artur. Sabes, há tantos anos que ninguém me perguntava pelo meu nome, às vezes dizia-o cem vezes antes de me deitar, para ter a certeza.
Clara passou a mão pela cara de Artur.
- Tens a morada, podes sempre aparecer... um dia.
- Sim, um dia...
O comboio começou a andar. Ela gritou mais alto.
- Artur! Obrigado!
Ele acenou sem olhar para trás. Caminhou devagar, de punhos cerrados, de uma vontade reprimida. No chão sentada, uma rapariga estendeu a mão, de dedos magros e sujos.
- Senhor, uma ajuda.
Ele não escondeu o olhar e tirou uma moeda do bolso.
- O meu nome é Artur.
Fechou a mão dela dentro das suas.
Clara gritava, puxava pela roupa, batia com os pés no chão molhado.
- A todos vocês, são uns cabrões, uns merdas, cuspo em cima de todos, odeio-vos!
As pessoas não paravam, andavam mais devagar, mas não paravam, com medo dela, com medo que lhes tocasse, que lhes pegasse uma doença má. Um rapaz vestido de preto tirava fotografias ao longe, apanhava-a a meio de uma queda desamparada, de joelhos em sangue, de mãos esfoladas da cor da calçada, de cabelos sobre o rosto. Mas estava demasiado afastado para ouvir, para ler os seus lábios feridos, que repetiam um choro sem lágrimas.
- Mãe... mãe... preciso de ti, mãe... ajuda-me, ajuda-me que morro, que caio sozinha... eu tenho tanto sono, preciso...
Um homem avançou por entre as pessoas e olhou todos com desprezo. Pegou-lhe ao colo com uma suavidade que ela não compreendia.
- Vão-se embora! Não podem ajudar, pois não? Então vão-se embora, ela não é ninguém para vocês, sigam o vosso caminho, Deus não vos vai castigar, acreditem em mim.
Clara acordou devagar, abriu os olhos com medo, sem saber quem era. Estava deitada num sofá que tinha o mesmo cheiro das bonecas de pano, que embalava antes de dormir. Olhou em redor, procurou uma porta para fugir, tinham tomado conta dela, as feridas estavam limpas, as mãos lavadas, o cabelo apanhado, escovado. As paredes da sala eram azuis, um azul muito escuro, que não fazia sentido, que não combinava com a madeira dos móveis. Fechou os olhos, desejou que tudo fosse um sonho, que toda a sua vida não tivesse existido. Ouviu passos atrás dela.
- Pensei que nunca fosses acordar.
- Que dia é hoje?
O homem fez um ar surpreendido e sentou-se à frente dela.
- E o que te interessa isso? Não importa muito, pois não? Na rua não há dias, não há tempo.
Tentou levantar-se irritada, o tempo era tudo o que lhe restava, depois de ter esquecido os nomes, depois de esquecer as vozes, de tudo se tornar cinzento. Encostou-se sem forças.
- Calma miúda, não te zangues.
Ela não respondeu. Ele falou num gaguejo nervoso.
- Desculpa, eu... eu estou quase sempre sozinho, não me habituo às pessoas... e passo demasiadas vezes por ti, vejo-te vezes sem fim, e olho para o lado, para não sentir.
As lágrimas lutavam para sair, mas Clara percebeu que aquele homem não chorava.
Ele continuou no meio de um sorriso forçado.
- Hoje é terça-feira.
- Terça? Mas... mas, eu dormi...
- Sim, dormiste muito, cheguei a pensar que ias dormir para sempre, que me morrias para aí.
Ele levantou-se e passou as mãos pelo cabelo. Ela tocou na camisa de dormir sobre a pele.
- Foste... foste tu que me trocou a roupa?
- Sim, mas não te preocupes, eu não jogo nesse campeonato, eu... eu... esquece, não olhei, não me interessa, percebes? Não correste perigo nenhum, é com se fosse teu pai... tu tens pai? Tens de ter, não é? De certeza que não nasceste na rua.
A agressividade do homem assustava-a, ao mesmo tempo que sentia pena. Tinha a certeza que não havia maldade nele, que só estava sozinho.
- Sim, tenho um pai. Ou acho que tenho, não o vejo há muitos anos, desde pequena, abandonou-nos às duas, a mim e à minha mãe.
- E ela?
Respondeu a chorar.
- Ela? Não sei, ela ficou, eu vim-me embora, deixei tudo, à procura de sonhos... e deixei-a para trás, nem sequer olhei, não tive coragem.
O homem olhou-a uns segundos, de cara fechada, que se abriu num sorriso.
- Achas que sabes voltar?
Clara riu.
- Acho que sim, sabemos sempre, não é? Mas não sei se quero, não sei se posso.
Ele abriu muito os olhos.
- Não foi isso que perguntei, sabes ou não sabes voltar? É uma pergunta simples, não é complicada, só quero saber se sabes voltar.
As lágrimas voltaram, aos olhos dos dois.
- Sim, sim... sei voltar, o comboio pára muito perto. Eu ouvia-o à noite, quando não conseguia dormir.
- Partes amanhã.
- Mas...
- Já disse, partes amanhã!
Ela não conseguiu responder, não conseguiu libertar-se da mão fechada, que lhe magoava o pulso.
- Agora descansa, eu vou buscar um pouco de sopa, precisas de comer.
O comboio apitou, chamou uma última vez. Clara esperava à porta da carruagem, esperava por uma viagem que não desejara, que lhe enchia o peito de saudades.
- Nunca me disseste o teu nome.
Ele sorriu, mas sem mexer os lábios, um olhar perfeito, que não seria esquecido.
- Eu chamo-me Artur... o meu nome é Artur. Sabes, há tantos anos que ninguém me perguntava pelo meu nome, às vezes dizia-o cem vezes antes de me deitar, para ter a certeza.
Clara passou a mão pela cara de Artur.
- Tens a morada, podes sempre aparecer... um dia.
- Sim, um dia...
O comboio começou a andar. Ela gritou mais alto.
- Artur! Obrigado!
Ele acenou sem olhar para trás. Caminhou devagar, de punhos cerrados, de uma vontade reprimida. No chão sentada, uma rapariga estendeu a mão, de dedos magros e sujos.
- Senhor, uma ajuda.
Ele não escondeu o olhar e tirou uma moeda do bolso.
- O meu nome é Artur.
Fechou a mão dela dentro das suas.
Segunda-feira, Novembro 20, 2006
A senhora nas escadas
Subiu as escadas do metro e desejou que a senhora estivesse lá, umas semanas antes tinha-lhe dado umas moedas e a sua sorte mudara. Desde esse dia passava por ali todas as sextas-feiras e colocava mais moedas na caixa. Mas naquele dia as escadas estavam vazias. Sorriu confiante, talvez não precisasse mais dela, talvez nunca tivesse precisado.
Saiu para a rua e apressou o passo, sentia que ia chover e não tinha trazido chapéu. Lembrou-se de ter olhado para ele, antes de sair de casa, e de decidir não o levar, apesar de ter ouvido na rádio, que o tempo ia piorar.
O primeiro pingo deixou-o no meio da rua, como se atingido por um raio, como se tivesse de tomar uma decisão, em poucos segundos. Olhou para o lado e viu que ainda havia espaço, debaixo de um toldo verde. Decidiu continuar a caminhar, não sabia porquê, mas continuou a andar, enquanto a chuva caía, cada vez com mais força. Nos auscultadores uma música, uma sensação de liberdade, algo de bom iria acontecer, mesmo sem o gesto de dar.
Percebeu que a porta de casa estava aberta, antes mesmo de lhe tocar, hesitou antes de empurrar, e esperar, pelo acordar que não veio. A casa estava vazia, de tudo o que era supérfluo, de tudo o que não precisava para viver, de tudo o que mais amava. Mas não havia gavetas abertas, nem objectos espalhados, um roubo feito de mil cuidados, com uma educação sem sentido.
Sentou-se no sofá, a olhar para as prateleiras vazias, tentando lembrar-se do sítio das coisas, o seguro iria pagar, mas de forma cega, com mais números numa conta. Tinha pena dos filmes que não tinha visto, dos discos que ouvira à pressa, o resto comprara por vaidade, para dizer a si mesmo quem era.
Fechou os olhos e repetiu cada momento do dia, o acordar cinzento, o gabinete vazio, o almoço de pé, as escadas do metro, o livro no chão. Levantou-se depressa, tinha visto um livro no chão, um segundo antes dos móveis vazios. Ajoelhou-se na alcatifa de cor clara, difícil de limpar, segurou o livro nas mãos e procurou a razão na capa. Pensou porque é que o teriam deixado, no meio de tanta delicadeza, em só lhe levar os sonhos. Perdeu-se numa figura, uma mulher sem idade, numa noite iluminada, uma mulher, que desejou conhecer.
A caminho do aeroporto, à procura do impossível, pediu ao taxista para parar, que eram só dois segundos, que assim ganhava mais. Chovia outra vez e correu para as escadas do metro, não acreditava, mas não podia deixar de tentar, antes de partir.
Não estava ninguém nos degraus, mas desceu-os como se estivesse, um xaile sobre as pernas, lenço preto na cabeça e óculos demasiado grandes. No chão um cartão esquecido, com três palavras lavadas, no lugar de um cumprimento, de um obrigado em silêncio, para todos os que passavam.
De volta ao táxi, um murmúrio a medo, dito outra vez mais alto, numa coragem que crescia, de desistir de fugir. Um medo de viver, que finalmente percebia, sem compreender, um desejo de mudança, que abandonava em dor. E o decorar de uma frase, para sempre recordada, do cartão apagada, nos seus lábios repetida.
- Saibam ser felizes, saibam ser felizes...
Saiu para a rua e apressou o passo, sentia que ia chover e não tinha trazido chapéu. Lembrou-se de ter olhado para ele, antes de sair de casa, e de decidir não o levar, apesar de ter ouvido na rádio, que o tempo ia piorar.
O primeiro pingo deixou-o no meio da rua, como se atingido por um raio, como se tivesse de tomar uma decisão, em poucos segundos. Olhou para o lado e viu que ainda havia espaço, debaixo de um toldo verde. Decidiu continuar a caminhar, não sabia porquê, mas continuou a andar, enquanto a chuva caía, cada vez com mais força. Nos auscultadores uma música, uma sensação de liberdade, algo de bom iria acontecer, mesmo sem o gesto de dar.
Percebeu que a porta de casa estava aberta, antes mesmo de lhe tocar, hesitou antes de empurrar, e esperar, pelo acordar que não veio. A casa estava vazia, de tudo o que era supérfluo, de tudo o que não precisava para viver, de tudo o que mais amava. Mas não havia gavetas abertas, nem objectos espalhados, um roubo feito de mil cuidados, com uma educação sem sentido.
Sentou-se no sofá, a olhar para as prateleiras vazias, tentando lembrar-se do sítio das coisas, o seguro iria pagar, mas de forma cega, com mais números numa conta. Tinha pena dos filmes que não tinha visto, dos discos que ouvira à pressa, o resto comprara por vaidade, para dizer a si mesmo quem era.
Fechou os olhos e repetiu cada momento do dia, o acordar cinzento, o gabinete vazio, o almoço de pé, as escadas do metro, o livro no chão. Levantou-se depressa, tinha visto um livro no chão, um segundo antes dos móveis vazios. Ajoelhou-se na alcatifa de cor clara, difícil de limpar, segurou o livro nas mãos e procurou a razão na capa. Pensou porque é que o teriam deixado, no meio de tanta delicadeza, em só lhe levar os sonhos. Perdeu-se numa figura, uma mulher sem idade, numa noite iluminada, uma mulher, que desejou conhecer.
A caminho do aeroporto, à procura do impossível, pediu ao taxista para parar, que eram só dois segundos, que assim ganhava mais. Chovia outra vez e correu para as escadas do metro, não acreditava, mas não podia deixar de tentar, antes de partir.
Não estava ninguém nos degraus, mas desceu-os como se estivesse, um xaile sobre as pernas, lenço preto na cabeça e óculos demasiado grandes. No chão um cartão esquecido, com três palavras lavadas, no lugar de um cumprimento, de um obrigado em silêncio, para todos os que passavam.
De volta ao táxi, um murmúrio a medo, dito outra vez mais alto, numa coragem que crescia, de desistir de fugir. Um medo de viver, que finalmente percebia, sem compreender, um desejo de mudança, que abandonava em dor. E o decorar de uma frase, para sempre recordada, do cartão apagada, nos seus lábios repetida.
- Saibam ser felizes, saibam ser felizes...
Domingo, Outubro 29, 2006
Maria
Tornou-se um vício, sem eu dar por isso tornou-se um vício. E hoje desço a avenida à procura de um canto onde o vinho seja mais barato, onde possa esquecer que existo. Doem-me os joelhos, doem-me muito os joelhos desde que o tempo mudou, desde que as manhãs voltaram a ser frias. Sinto-me tão sozinho.
Entro num daqueles cafés que podemos encontrar em toda a cidade, os mesmos azulejos brancos e azuis, as mesmas cadeiras gastas de cores bizarras e atrás do balcão um homem de camisa azul com um pano ao ombro. Pergunto o preço de uma taça e não percebo o que ele me diz. Finjo que tenho dinheiro e sento-me perto da porta.
- Não é de cá, pois não?
Mal tenho tempo de perceber que a mesa já estava ocupada e outra pergunta rebenta-me nos ouvidos.
- É um desgraçado, não é?
Olho desesperado para o balcão, mas o homem continua a tirar cervejas sem pressa, vou ter de esperar uns minutos pelo vinho que não posso pagar. Levanto a cabeça e vejo uma mulher de lábios vermelhos, demasiado vermelhos. Está vestida de preto como uma fadista das antigas, mas desconfio que ela não canta o fado, que nunca ninguém a ouviu cantar. Olho para ela e desafio-a.
- Não estejas com esse olhar, não olhes assim para mim.
Grita como uma louca, cerra os punhos à frente da minha cara e cospe para cima de mim. Ninguém se mexe um milímetro que seja, como se não existíssemos, apenas um sorriso trocista na boca do homem da camisa azul.
- Vá lá, senta-te lá e paga a bebida ao homem, afinal ele está na tua mesa, não?
Ela acalma-se e ri, um riso forçado que não me descansa. Lembra-me a minha mãe, a mulher que chamei de mãe, a única que conheci e que me criou como soube.
- Traz lá um copo de vinho, pode ser do mais barato, ele não se importa.
O homem dá uma gargalhada que enche a sala e eu tenho vontade de fugir. Mas não me levanto e fixo as tábuas do chão para não ver os outros que me olham.
Ela continua num tom de gozo.
- Bebe, bebe à vontade, é por minha conta, mas para o resto vais ter de sorrir.
Engasgo-me com as gargalhadas à minha volta e arrependo-me no momento em que pergunto.
- O resto?
O homem limpa as mãos no pano e vejo nos seus olhos que tem pena de mim. Aproxima-se de nós e fala com desprezo.
- És sempre a mesma, não és? Não resistes a um desgraçado. Devias ter sido mãe, davas uma boa mãe.
Ela arrasta-me dali para fora.
- Não ligues, antes puta que mãe dos filhos dele. E ele acha que me arrependo, pobre triste.
Sinto o coração a acelerar, não tinha entendido o que era óbvio. Ela percebe.
- Não olhes assim para mim, eu sou puta, tu és bêbado, achas mesmo que me podes julgar?
Não consigo responder.
Subimos umas escadas velhas, daquelas que sobem sempre a direito. Tenho medo que alguém nos veja, tenho medo que saibam que preciso de um abraço, que preciso de dormir aconchegado a alguém, mesmo que seja de uma mulher de lábios demasiado vermelhos. Paramos frente a uma porta verde e ela mete a chave na fechadura, ouço apenas um ligeiro barulho metálico, estava apenas fechada no trinco e eu sorrio sem olhar para ela. Entramos para uma sala que cheira a mofo, como se não vivesse ali ninguém há muito tempo. As paredes são forradas com um papel castanho e cinzento, cornucópias que me fazem ficar tonto. Deixo-me cair num sofá verde que me recorda o passado.
- Sabes... foi num sofá igual a este que dei o meu primeiro beijo, tinha treze anos e ela chamava-se Maria.
- E não nos chamamos todas?
Fecho os olhos e deixo-me adormecer num abraço quente.
Entro num daqueles cafés que podemos encontrar em toda a cidade, os mesmos azulejos brancos e azuis, as mesmas cadeiras gastas de cores bizarras e atrás do balcão um homem de camisa azul com um pano ao ombro. Pergunto o preço de uma taça e não percebo o que ele me diz. Finjo que tenho dinheiro e sento-me perto da porta.
- Não é de cá, pois não?
Mal tenho tempo de perceber que a mesa já estava ocupada e outra pergunta rebenta-me nos ouvidos.
- É um desgraçado, não é?
Olho desesperado para o balcão, mas o homem continua a tirar cervejas sem pressa, vou ter de esperar uns minutos pelo vinho que não posso pagar. Levanto a cabeça e vejo uma mulher de lábios vermelhos, demasiado vermelhos. Está vestida de preto como uma fadista das antigas, mas desconfio que ela não canta o fado, que nunca ninguém a ouviu cantar. Olho para ela e desafio-a.
- Não estejas com esse olhar, não olhes assim para mim.
Grita como uma louca, cerra os punhos à frente da minha cara e cospe para cima de mim. Ninguém se mexe um milímetro que seja, como se não existíssemos, apenas um sorriso trocista na boca do homem da camisa azul.
- Vá lá, senta-te lá e paga a bebida ao homem, afinal ele está na tua mesa, não?
Ela acalma-se e ri, um riso forçado que não me descansa. Lembra-me a minha mãe, a mulher que chamei de mãe, a única que conheci e que me criou como soube.
- Traz lá um copo de vinho, pode ser do mais barato, ele não se importa.
O homem dá uma gargalhada que enche a sala e eu tenho vontade de fugir. Mas não me levanto e fixo as tábuas do chão para não ver os outros que me olham.
Ela continua num tom de gozo.
- Bebe, bebe à vontade, é por minha conta, mas para o resto vais ter de sorrir.
Engasgo-me com as gargalhadas à minha volta e arrependo-me no momento em que pergunto.
- O resto?
O homem limpa as mãos no pano e vejo nos seus olhos que tem pena de mim. Aproxima-se de nós e fala com desprezo.
- És sempre a mesma, não és? Não resistes a um desgraçado. Devias ter sido mãe, davas uma boa mãe.
Ela arrasta-me dali para fora.
- Não ligues, antes puta que mãe dos filhos dele. E ele acha que me arrependo, pobre triste.
Sinto o coração a acelerar, não tinha entendido o que era óbvio. Ela percebe.
- Não olhes assim para mim, eu sou puta, tu és bêbado, achas mesmo que me podes julgar?
Não consigo responder.
Subimos umas escadas velhas, daquelas que sobem sempre a direito. Tenho medo que alguém nos veja, tenho medo que saibam que preciso de um abraço, que preciso de dormir aconchegado a alguém, mesmo que seja de uma mulher de lábios demasiado vermelhos. Paramos frente a uma porta verde e ela mete a chave na fechadura, ouço apenas um ligeiro barulho metálico, estava apenas fechada no trinco e eu sorrio sem olhar para ela. Entramos para uma sala que cheira a mofo, como se não vivesse ali ninguém há muito tempo. As paredes são forradas com um papel castanho e cinzento, cornucópias que me fazem ficar tonto. Deixo-me cair num sofá verde que me recorda o passado.
- Sabes... foi num sofá igual a este que dei o meu primeiro beijo, tinha treze anos e ela chamava-se Maria.
- E não nos chamamos todas?
Fecho os olhos e deixo-me adormecer num abraço quente.
Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Voltar
Rui parou o carro e ficou a olhar para a entrada do prédio à sua frente. Ainda se lembrava de não existir nada naquele sítio, de jogar às escondidas com os amigos no meio das ervas altas, até ao dia em que encontraram tudo fechado com tábuas velhas que não deixavam ver as árvores arrancadas. Nunca se conformara e chorara uma tarde inteira quando soube que ia ser ali a sua nova casa, implorara aos pais para que mudassem de ideias, mas eles apenas sorriram e disseram que ele ia habituar-se.
Desligou o motor mas não saiu do carro, deixou o rádio a tocar e tentou ganhar coragem para subir, tentou ganhar coragem para contar tudo o que se tinha passado nos últimos meses. Imaginava o seu pai a perguntar se já era director e irritava-se por ter de responder, por nunca o ter desejado, por não ser esse o seu plano de vida, por haver coisas mais importantes. Fechou a porta com força e subiu as escadas.
Quando entrou reparou no sorriso triste da sua mãe, ela sabia, ela conhecia-o em silêncio, nunca precisava de lhe contar porque ela sentia. Conteve as primeiras lágrimas quando a abraçou, a sua vontade era ficar deitado no seu colo como fazia quando era pequeno, quando se perdia nas músicas que o faziam adormecer.
- O pai?
- Está no escritório, eu vou chamá-lo.
- Não, eu vou.
Percorreu o corredor devagar e parou à porta do seu quarto, olhou a cama feita como se nunca tivesse saído daquela casa, como se voltasse depois de um dia de escola. Entrou e ficou parado no meio do quarto, como se estivesse a decidir que recordações o podiam ajudar. Dirigiu-se aos seus discos e passou os dedos pelas capas limpas, sabia que a mãe não falava verdade quando lhe perguntava quando é que ele levava as suas coisas para casa, era uma forma de nunca ir embora. Ouviu tossir e saiu do quarto.
A porta do escritório estava aberta e mal entrou viu o pai a escrever. Ele sorriu ao vê-lo, mas não se levantou, poisou apenas a caneta e esperou por um beijo.
- Fui eu que te dei essa caneta, não fui?
- Sim, foste. Deste-ma no meu último aniversário antes de ires para a universidade, tornou-se numa boa companheira. Tu já não sabes como é pois, pois não?
- Escrever com uma caneta?
- Sim.
- Acho que não. Fiquei com inveja quando te vi da porta, já há muito tempo que não faço isso, que não escrevo numa folha com uma caneta.
Rui sentou-se no sofá de dois lugares que estava encostado à parede e esfregou os olhos, estava cansado e não tinha vontade de falar sobre o que o trouxera ali. Olhou para a estante em frente ao sofá e relembrou um a um todos os livros arrumados de forma perfeita.
- Acho que não há aqui um livro que não tenha lido, devias comprar alguns novos, agora há por aí algumas coisas interessantes.
O pai sorriu.
- Eu sei que há filho, às vezes vou até à livraria do Sr. António, lembras-te dele?
- Como é que me podia esquecer?
- Às vezes vou até lá e sinto-me tentado a comprar alguma coisa nova, mas confesso que acabamos sempre os dois a falar dos velhos clássicos. Acho que sou um caso perdido.
- Pai, em princípio vão haver algumas alterações lá no emprego, muito provavelmente vão-me convidar para chefiar uma nova área.
O pai levantou-se e deu a volta à secretária. Sentou-se ao lado dele e esperou um segundo antes de falar enquanto passava o cachimbo apagado de uma mão para a outra.
- Mas não foi por isso que vieste cá, pois não?
Não respondeu, deixou-se perder no desenho do tapete e lembrou-se das tardes de domingo, lembrou-se do sol a entrar pela janela e de brincar naquele chão. Desejou poder voltar atrás trinta anos, voltar àquelas tardes perfeitas em que brincava em cima daquele tapete sem acordar o pai que dormia no sofá. Desejou sentir o cheiro de um bolo acabado de fazer que se sentia na casa toda, uma casa de que tinha saudades, mas que só agora percebia quanto. Olhou nos olhos de pai e respondeu.
- Não foi por isso, mas queria que a mãe estivesse aqui também, queria falar com os dois ao mesmo tempo.
- Eu estou aqui.
Sempre admirara a sua forma silenciosa de caminhar, mesmo quando o apanhava a fazer alguma coisa que não devia. Nos seus sonhos de criança imaginava que a mãe não tocava o chão, que deslizava de forma mágica por cima da alcatifa que cobria todo o chão da casa.
- Aconteceu uma coisa, uma coisa que não vos queria contar pelo telefone. A Teresa... a Teresa e eu acabámos.
Os pais ficaram em silêncio, esperaram tranquilamente que ele acabasse de falar.
- Nós... as coisas já não estavam bem há algum tempo e a semana passada tivemos uma conversa e decidimos que não valia a pena continuar.
O pai pousou uma das mãos no seu ombro e apertou com força antes de falar.
- E como é que estás? Como é que estão os dois?
- Como é que estou? Sei lá, acho... acho que as coisas não podiam ser de outra maneira, a conversa até foi muito calma, sem discussão, sem gritos, mas... mas eu...
A mãe sentou-se no braço do sofá e deu-lhe uma das mãos. Apetecia-lhe chorar, mas esforçou-se por não o fazer, sentia que ainda não era altura e deixou-se ficar entre os dois em silêncio. Ela falou.
- Sentes-te perdido, não é?
Sorriu por ela o conhecer tão bem, por adivinhar as suas palavras.
- Sim, sinto-me perdido. Eu sei que não é o fim do mundo, mas sempre achei que quando chegasse aos quarenta... sempre achei que as coisas iam ser diferentes, nunca imaginei que ia estar sozinho, que ia ter de começar tudo de novo outra vez.
O pai levantou-se e dirigiu-se à secretária. A mãe continuava com a mão nas suas sem dizer uma única palavra e sorria como fazia quando ele era pequeno e caía da bicicleta e esfolava um joelho. O pai voltou com uma folha de papel na mão.
- Sabes o que é isto?
- Não.
- Lembras-te de quando mudámos para cá? Lembras-te da rapariga que vivia aqui ao lado? Os pais dela mudaram-se para cá um mês depois de nós.
Rui pensou um pouco antes de responder
- A Sónia? Sim, a Sónia... que parvo, não me estava a lembrar. Claro que me lembro, eles mudaram-se um ou dois anos depois, não foi?
O pai assentiu com a cabeça.
- Sim, eles foram viver para o norte.
- Mas o que é que essa folha tem a ver com a Sónia?
- Esta folha foi onde tu escreveste uma carta para ela, na altura em que se foi embora. E ela respondeu na parte de trás. Há uns anos fizemos umas arrumações e encontrámos a carta no meio de uns cadernos teus, achei que a devia guardar. Queres lê-la?
Rui não precisou de ler a carta, só se irritou por ter esquecido, por terem passado tantos anos sem pensar nela e em tudo o que aconteceu. Como se tivesse traído as palavras que tinha escrito, por ter faltado à promessa de que nunca a ia esquecer, uma promessa que ela também fez. Não conseguiu deixar de sorrir quando falou.
- Era tudo tão complicado nessa altura, não era? Pensei que a minha vida acabava e... e agora precisei de uns segundos antes de me lembrar. Ai... acho que ainda sou o mesmo miúdo pateta.
Não aguentou e desatou a rir com o comentário que fez, os pais riram com ele.
Na manhã seguinte acordou e sentiu que tinha dormido durante anos. Tinham ficado a conversar até tarde, a relembrar histórias do passado e sentiu-se como se vivesse ali outra vez. Sentado no chão do quarto folheava os seus livros de super-heróis, tinham passado tantos anos e achava incrível como é que ainda se conseguia lembrar de todas as histórias, talvez por as ter lido tantas vezes, aventuras que o faziam sonhar, que o faziam querer ser um daqueles heróis de uniforme colorido, algo que ainda desejava secretamente. Ouviu a voz da mãe a chamar e sentiu o cheiro de um bolo acabado de fazer. Era bom estar em casa.
Desligou o motor mas não saiu do carro, deixou o rádio a tocar e tentou ganhar coragem para subir, tentou ganhar coragem para contar tudo o que se tinha passado nos últimos meses. Imaginava o seu pai a perguntar se já era director e irritava-se por ter de responder, por nunca o ter desejado, por não ser esse o seu plano de vida, por haver coisas mais importantes. Fechou a porta com força e subiu as escadas.
Quando entrou reparou no sorriso triste da sua mãe, ela sabia, ela conhecia-o em silêncio, nunca precisava de lhe contar porque ela sentia. Conteve as primeiras lágrimas quando a abraçou, a sua vontade era ficar deitado no seu colo como fazia quando era pequeno, quando se perdia nas músicas que o faziam adormecer.
- O pai?
- Está no escritório, eu vou chamá-lo.
- Não, eu vou.
Percorreu o corredor devagar e parou à porta do seu quarto, olhou a cama feita como se nunca tivesse saído daquela casa, como se voltasse depois de um dia de escola. Entrou e ficou parado no meio do quarto, como se estivesse a decidir que recordações o podiam ajudar. Dirigiu-se aos seus discos e passou os dedos pelas capas limpas, sabia que a mãe não falava verdade quando lhe perguntava quando é que ele levava as suas coisas para casa, era uma forma de nunca ir embora. Ouviu tossir e saiu do quarto.
A porta do escritório estava aberta e mal entrou viu o pai a escrever. Ele sorriu ao vê-lo, mas não se levantou, poisou apenas a caneta e esperou por um beijo.
- Fui eu que te dei essa caneta, não fui?
- Sim, foste. Deste-ma no meu último aniversário antes de ires para a universidade, tornou-se numa boa companheira. Tu já não sabes como é pois, pois não?
- Escrever com uma caneta?
- Sim.
- Acho que não. Fiquei com inveja quando te vi da porta, já há muito tempo que não faço isso, que não escrevo numa folha com uma caneta.
Rui sentou-se no sofá de dois lugares que estava encostado à parede e esfregou os olhos, estava cansado e não tinha vontade de falar sobre o que o trouxera ali. Olhou para a estante em frente ao sofá e relembrou um a um todos os livros arrumados de forma perfeita.
- Acho que não há aqui um livro que não tenha lido, devias comprar alguns novos, agora há por aí algumas coisas interessantes.
O pai sorriu.
- Eu sei que há filho, às vezes vou até à livraria do Sr. António, lembras-te dele?
- Como é que me podia esquecer?
- Às vezes vou até lá e sinto-me tentado a comprar alguma coisa nova, mas confesso que acabamos sempre os dois a falar dos velhos clássicos. Acho que sou um caso perdido.
- Pai, em princípio vão haver algumas alterações lá no emprego, muito provavelmente vão-me convidar para chefiar uma nova área.
O pai levantou-se e deu a volta à secretária. Sentou-se ao lado dele e esperou um segundo antes de falar enquanto passava o cachimbo apagado de uma mão para a outra.
- Mas não foi por isso que vieste cá, pois não?
Não respondeu, deixou-se perder no desenho do tapete e lembrou-se das tardes de domingo, lembrou-se do sol a entrar pela janela e de brincar naquele chão. Desejou poder voltar atrás trinta anos, voltar àquelas tardes perfeitas em que brincava em cima daquele tapete sem acordar o pai que dormia no sofá. Desejou sentir o cheiro de um bolo acabado de fazer que se sentia na casa toda, uma casa de que tinha saudades, mas que só agora percebia quanto. Olhou nos olhos de pai e respondeu.
- Não foi por isso, mas queria que a mãe estivesse aqui também, queria falar com os dois ao mesmo tempo.
- Eu estou aqui.
Sempre admirara a sua forma silenciosa de caminhar, mesmo quando o apanhava a fazer alguma coisa que não devia. Nos seus sonhos de criança imaginava que a mãe não tocava o chão, que deslizava de forma mágica por cima da alcatifa que cobria todo o chão da casa.
- Aconteceu uma coisa, uma coisa que não vos queria contar pelo telefone. A Teresa... a Teresa e eu acabámos.
Os pais ficaram em silêncio, esperaram tranquilamente que ele acabasse de falar.
- Nós... as coisas já não estavam bem há algum tempo e a semana passada tivemos uma conversa e decidimos que não valia a pena continuar.
O pai pousou uma das mãos no seu ombro e apertou com força antes de falar.
- E como é que estás? Como é que estão os dois?
- Como é que estou? Sei lá, acho... acho que as coisas não podiam ser de outra maneira, a conversa até foi muito calma, sem discussão, sem gritos, mas... mas eu...
A mãe sentou-se no braço do sofá e deu-lhe uma das mãos. Apetecia-lhe chorar, mas esforçou-se por não o fazer, sentia que ainda não era altura e deixou-se ficar entre os dois em silêncio. Ela falou.
- Sentes-te perdido, não é?
Sorriu por ela o conhecer tão bem, por adivinhar as suas palavras.
- Sim, sinto-me perdido. Eu sei que não é o fim do mundo, mas sempre achei que quando chegasse aos quarenta... sempre achei que as coisas iam ser diferentes, nunca imaginei que ia estar sozinho, que ia ter de começar tudo de novo outra vez.
O pai levantou-se e dirigiu-se à secretária. A mãe continuava com a mão nas suas sem dizer uma única palavra e sorria como fazia quando ele era pequeno e caía da bicicleta e esfolava um joelho. O pai voltou com uma folha de papel na mão.
- Sabes o que é isto?
- Não.
- Lembras-te de quando mudámos para cá? Lembras-te da rapariga que vivia aqui ao lado? Os pais dela mudaram-se para cá um mês depois de nós.
Rui pensou um pouco antes de responder
- A Sónia? Sim, a Sónia... que parvo, não me estava a lembrar. Claro que me lembro, eles mudaram-se um ou dois anos depois, não foi?
O pai assentiu com a cabeça.
- Sim, eles foram viver para o norte.
- Mas o que é que essa folha tem a ver com a Sónia?
- Esta folha foi onde tu escreveste uma carta para ela, na altura em que se foi embora. E ela respondeu na parte de trás. Há uns anos fizemos umas arrumações e encontrámos a carta no meio de uns cadernos teus, achei que a devia guardar. Queres lê-la?
Rui não precisou de ler a carta, só se irritou por ter esquecido, por terem passado tantos anos sem pensar nela e em tudo o que aconteceu. Como se tivesse traído as palavras que tinha escrito, por ter faltado à promessa de que nunca a ia esquecer, uma promessa que ela também fez. Não conseguiu deixar de sorrir quando falou.
- Era tudo tão complicado nessa altura, não era? Pensei que a minha vida acabava e... e agora precisei de uns segundos antes de me lembrar. Ai... acho que ainda sou o mesmo miúdo pateta.
Não aguentou e desatou a rir com o comentário que fez, os pais riram com ele.
Na manhã seguinte acordou e sentiu que tinha dormido durante anos. Tinham ficado a conversar até tarde, a relembrar histórias do passado e sentiu-se como se vivesse ali outra vez. Sentado no chão do quarto folheava os seus livros de super-heróis, tinham passado tantos anos e achava incrível como é que ainda se conseguia lembrar de todas as histórias, talvez por as ter lido tantas vezes, aventuras que o faziam sonhar, que o faziam querer ser um daqueles heróis de uniforme colorido, algo que ainda desejava secretamente. Ouviu a voz da mãe a chamar e sentiu o cheiro de um bolo acabado de fazer. Era bom estar em casa.
Quinta-feira, Outubro 05, 2006
As pessoas que eu gostava de conhecer
- E foi nesse momento, no segundo em que ela sorriu. Foi nesse exacto momento que eu soube que estava a olhar pela primeira vez para alguém que não se escondia.
- Não sei se percebo o que queres dizer.
Apaguei o cigarro no muro de cimento e tentei reviver o dia mais perfeito de toda a minha vida. Lembrei-me de te ver a caminhar de forma apressada, do casaco cinzento sobre uma camisola de malha às cores, da tatuagem no teu pulso, três estrelas que se escondiam.
- Quero dizer que a vi no estado mais puro que é possível ver uma pessoa, que senti que podia ler-lhe os pensamentos, que podia adivinhar cada palavra antes dela a dizer.
- E leste?
Não respondi e voei para longe, voltei a perseguir-te pelas ruas debaixo de chuva, com medo de te perder, de nunca mais olhar para a tua cara. Queria pelo menos ouvir a tua voz, queria dizer-te que te amava, ainda sem o saber.
- O que eu queria dizer é que são raras as vezes em que somos nós, em que deixamos de lado tudo o que aprendemos, em que olhamos sem pensar. Não sentes? Não sentes que falta sempre alguma coisa, que estamos a representar?
- A representar?
- Sim, a pensar ao mesmo tempo que falamos, a imaginar o que os outros pensam de nós, do que dizemos. Não percebes que isso muda tudo, que acabamos por reagir a cada expressão?
- Acho... acho que podemos sempre fechar os olhos.
Esperei antes de te tocar. Estendi a mão em direcção a ti, contornei o teu cabelo comprido sem tu saberes, sem me importar com os outros que olhavam, os outros que me ameaçavam, que invejavam estar tão perto. Chovia cada vez com mais força.
- Sim, podemos sempre fechar os olhos, mas só depois.
- Depois? Não fazes sentido, depois do quê?
Toquei-te. Agarrei-te com força, agarrei com demasiada força, de maneira que não pudesses fugir. Não ia perder-te, mesmo que te magoasse. Mas tu não tentaste afastar-te e quando vi os teus olhos percebi que era eu que estava preso.
- Não te zangues, não por causa disto. Eu só te queria contar... só te queria contar que existem momentos perfeitos, que há alturas em que parece que a música vai começar a tocar.
- Como nos filmes?
- Sim, como nos filmes. Percebes, não percebes?
Lembro-me do cheiro das velas, da cor das paredes, dos lençóis na cama acabada de fazer, do teu corpo no meu. Lembro-me de nos olharmos, de nos tocarmos, do tempo que parou, de me ter esquecido. Lembro-me do teu sorriso, o mais bonito de todos, que me ensinou, que me fez acreditar, que te ia amar para sempre.
- Sim, percebo... e invejo-te, como te invejo.
- Não sei se percebo o que queres dizer.
Apaguei o cigarro no muro de cimento e tentei reviver o dia mais perfeito de toda a minha vida. Lembrei-me de te ver a caminhar de forma apressada, do casaco cinzento sobre uma camisola de malha às cores, da tatuagem no teu pulso, três estrelas que se escondiam.
- Quero dizer que a vi no estado mais puro que é possível ver uma pessoa, que senti que podia ler-lhe os pensamentos, que podia adivinhar cada palavra antes dela a dizer.
- E leste?
Não respondi e voei para longe, voltei a perseguir-te pelas ruas debaixo de chuva, com medo de te perder, de nunca mais olhar para a tua cara. Queria pelo menos ouvir a tua voz, queria dizer-te que te amava, ainda sem o saber.
- O que eu queria dizer é que são raras as vezes em que somos nós, em que deixamos de lado tudo o que aprendemos, em que olhamos sem pensar. Não sentes? Não sentes que falta sempre alguma coisa, que estamos a representar?
- A representar?
- Sim, a pensar ao mesmo tempo que falamos, a imaginar o que os outros pensam de nós, do que dizemos. Não percebes que isso muda tudo, que acabamos por reagir a cada expressão?
- Acho... acho que podemos sempre fechar os olhos.
Esperei antes de te tocar. Estendi a mão em direcção a ti, contornei o teu cabelo comprido sem tu saberes, sem me importar com os outros que olhavam, os outros que me ameaçavam, que invejavam estar tão perto. Chovia cada vez com mais força.
- Sim, podemos sempre fechar os olhos, mas só depois.
- Depois? Não fazes sentido, depois do quê?
Toquei-te. Agarrei-te com força, agarrei com demasiada força, de maneira que não pudesses fugir. Não ia perder-te, mesmo que te magoasse. Mas tu não tentaste afastar-te e quando vi os teus olhos percebi que era eu que estava preso.
- Não te zangues, não por causa disto. Eu só te queria contar... só te queria contar que existem momentos perfeitos, que há alturas em que parece que a música vai começar a tocar.
- Como nos filmes?
- Sim, como nos filmes. Percebes, não percebes?
Lembro-me do cheiro das velas, da cor das paredes, dos lençóis na cama acabada de fazer, do teu corpo no meu. Lembro-me de nos olharmos, de nos tocarmos, do tempo que parou, de me ter esquecido. Lembro-me do teu sorriso, o mais bonito de todos, que me ensinou, que me fez acreditar, que te ia amar para sempre.
- Sim, percebo... e invejo-te, como te invejo.
Quinta-feira, Setembro 28, 2006
Um
À minha frente está sentado um homem de cabelo branco que olha o vazio atrás de mim, que olha os outros passageiros do metro. Penso se estará a tentar adivinhar as vidas e tenho vontade de lhe perguntar, tenho vontade de lhe dar a mão e sentir se está quente. Observo-o sem esconder o olhar e reparo que a camisa que tem vestida é muito velha, está remendada em demasiados sítios e desisto de os contar. Por cima da camisa um casaco sem cor, um companheiro de todos os dias, um casaco mágico. Imagino que nunca o pode tirar, que só o pode despir depois da noite cair, para não perder as memórias, as recordações em forma de cheiro, o tecido gasto pelo Sol. Vejo a mão dele a mexer-se, a apertar outra a seu lado, uma mão cheia de manchas, pequenos sinais que só os idosos sabem admirar, pois dizem que idade temos. A mão é de uma doce senhora, que eu consigo sentir, porque respiro o seu perfume, misturado com os outros que passam. Está vestida com uma camisa quase branca, que já foi branca, mas que agora é só limpa, de tantas vezes lavada, de muitas tardes de chá e de pequenas migalhas de bolo de chocolate. Um alto deforma as suas costas, uma corcunda esquecida, um andar dobrado, mas de cabeça erguida. Desvio os olhos para o lado e encontro lágrimas nos olhos do homem, um choro sem expressão, sem o contrair da cara, sem som, um choro que impressiona, por ser tão calmo. Sei que sonha, sei que recorda, uma vida tão cheia, uma tarde de verão, uma tarde perdida, para sempre lembrada. Ela sorri e descansa no casaco dele. Despeço-me, sem perguntar.
Terça-feira, Setembro 19, 2006
Medo
Era quase meia-noite e Carlos e Pedro desciam a Avenida Almirante Reis. Era o último dia de Verão, o último dia dos passeios pela cidade, uma Lisboa que parecia olhar para eles, que tomava conta de dois miúdos que se iam tornar adultos.
- Só tenho pena de uma coisa.
Pedro parou e acendeu um cigarro antes de falar.
- O que é que foi? Hoje? Hoje vais começar com as tuas merdas? Não podes caminhar calado? Não podes ficar calado uma vez na vida... não sabes... não sabes que é o último dia, a última vez que caminhamos sem destino?
As últimas palavras de Pedro já tinham sido ditas no meio de um choro quase descontrolado, um choro assustado. Carlos ficou com os músculos da cara todos contraídos, uma máscara de dor que o paralisava numa única expressão e falou de dentes cerrados.
- Parece que está sempre de noite, parece que é sempre tarde.
- O quê?
- A cidade... os prédios, os carros, não me vou conseguir lembrar deles de outra forma, como se nunca os tivesse visto à luz do dia.
Pedro passou a manga da camisa pela cara e ficou a olhar para o chão antes de falar.
- Mas não era disso que ias falar, não era da noite, pois não?
Carlos sorriu com esforço.
- Sabes sempre, não sabes?
- Acho que sim, acho que sei. Olha, desculpa... desculpa eu ter-me irritado. Eu estou a ouvir-te.
- Ia dizer que só tinha pena de não ter amado esta cidade durante tanto tempo, de só a ter amado quando deixei de ter medo.
- Não podia ter sido de outra maneira. Tu sabes que não podia ter sido de outra maneira. Se calhar foi tudo cedo demais, se calhar daqui a uns anos...
Não foi capaz de continuar, recomeçou a soluçar violentamente e ajoelhou-se encostado a um carro. Carlos aproximou-se, tocou-lhe com uma mão no ombro e fechou os dedos com toda a força. Foi sacudido por um empurrão.
- Sai da frente.
Os olhos de Pedro ainda estavam cheios de lágrimas mas já não chorava. Levantou-se e correu pela rua fora. Correu entre os carros aos gritos, correu como se fugisse de alguém, como se fosse um animal encurralado a tentar libertar-se de correntes. Carlos olhava para toda aquela loucura e não dizia nada, ele também se sentia preso, ele também tinha vontade de correr, ele também queria se libertar. Mas não conseguia, fechava apenas os olhos e cerrava os punhos. Gritou.
- Pedro! Pedro! Foge, foge por favor. Não aceites, não temos de ir, não temos de ir...
As palavras que chegaram até ele foram as mais calmas que alguma vez ouvira, as mais serenas que iria ouvir no resto da sua vida.
- Sabes que temos ir, tu sabes que temos de ir.
À sua frente Pedro olhava para ele a sorrir, já não tinha a camisa vestida e a sua pele suada reflectia a luz fraca dos candeeiros. Subiu para cima de um carro e abriu os braços, esticou os dedos como se quisesse agarrar algo, como se desafiasse o destino. Então, sentou-se no tejadilho e começou a cantar baixinho.
- Pai?
A voz de Teresa chamou-o de volta à realidade.
- Diz querida.
- A mãe pergunta se demoras, ficámos de estar em casa dos avós antes das oito.
- Não, não demoro. Diz à mãe que não demoro.
O olhar curioso da filha viu a fotografia nas suas mãos.
- Quem é?
Não teve medo de responder.
- O Pedro, um amigo, um grande amigo.
- Não me lembro de te ouvir falar nele.
Continuou sem hesitar.
- Ele morreu na guerra em África.
- Foram colegas lá?
Sorriu com a palavra que ela escolheu.
- Não, não fomos colegas lá, ele foi para outro lado. Vai descendo que eu vou já.
Teresa fechou a porta atrás dela e Carlos olhou uma última vez para a fotografia amarelecida pelo tempo. Lembrou-se outra vez daquela noite e deixou os olhos encherem-se de lágrimas.
- Só tenho pena de uma coisa.
Pedro parou e acendeu um cigarro antes de falar.
- O que é que foi? Hoje? Hoje vais começar com as tuas merdas? Não podes caminhar calado? Não podes ficar calado uma vez na vida... não sabes... não sabes que é o último dia, a última vez que caminhamos sem destino?
As últimas palavras de Pedro já tinham sido ditas no meio de um choro quase descontrolado, um choro assustado. Carlos ficou com os músculos da cara todos contraídos, uma máscara de dor que o paralisava numa única expressão e falou de dentes cerrados.
- Parece que está sempre de noite, parece que é sempre tarde.
- O quê?
- A cidade... os prédios, os carros, não me vou conseguir lembrar deles de outra forma, como se nunca os tivesse visto à luz do dia.
Pedro passou a manga da camisa pela cara e ficou a olhar para o chão antes de falar.
- Mas não era disso que ias falar, não era da noite, pois não?
Carlos sorriu com esforço.
- Sabes sempre, não sabes?
- Acho que sim, acho que sei. Olha, desculpa... desculpa eu ter-me irritado. Eu estou a ouvir-te.
- Ia dizer que só tinha pena de não ter amado esta cidade durante tanto tempo, de só a ter amado quando deixei de ter medo.
- Não podia ter sido de outra maneira. Tu sabes que não podia ter sido de outra maneira. Se calhar foi tudo cedo demais, se calhar daqui a uns anos...
Não foi capaz de continuar, recomeçou a soluçar violentamente e ajoelhou-se encostado a um carro. Carlos aproximou-se, tocou-lhe com uma mão no ombro e fechou os dedos com toda a força. Foi sacudido por um empurrão.
- Sai da frente.
Os olhos de Pedro ainda estavam cheios de lágrimas mas já não chorava. Levantou-se e correu pela rua fora. Correu entre os carros aos gritos, correu como se fugisse de alguém, como se fosse um animal encurralado a tentar libertar-se de correntes. Carlos olhava para toda aquela loucura e não dizia nada, ele também se sentia preso, ele também tinha vontade de correr, ele também queria se libertar. Mas não conseguia, fechava apenas os olhos e cerrava os punhos. Gritou.
- Pedro! Pedro! Foge, foge por favor. Não aceites, não temos de ir, não temos de ir...
As palavras que chegaram até ele foram as mais calmas que alguma vez ouvira, as mais serenas que iria ouvir no resto da sua vida.
- Sabes que temos ir, tu sabes que temos de ir.
À sua frente Pedro olhava para ele a sorrir, já não tinha a camisa vestida e a sua pele suada reflectia a luz fraca dos candeeiros. Subiu para cima de um carro e abriu os braços, esticou os dedos como se quisesse agarrar algo, como se desafiasse o destino. Então, sentou-se no tejadilho e começou a cantar baixinho.
- Pai?
A voz de Teresa chamou-o de volta à realidade.
- Diz querida.
- A mãe pergunta se demoras, ficámos de estar em casa dos avós antes das oito.
- Não, não demoro. Diz à mãe que não demoro.
O olhar curioso da filha viu a fotografia nas suas mãos.
- Quem é?
Não teve medo de responder.
- O Pedro, um amigo, um grande amigo.
- Não me lembro de te ouvir falar nele.
Continuou sem hesitar.
- Ele morreu na guerra em África.
- Foram colegas lá?
Sorriu com a palavra que ela escolheu.
- Não, não fomos colegas lá, ele foi para outro lado. Vai descendo que eu vou já.
Teresa fechou a porta atrás dela e Carlos olhou uma última vez para a fotografia amarelecida pelo tempo. Lembrou-se outra vez daquela noite e deixou os olhos encherem-se de lágrimas.
Quarta-feira, Setembro 06, 2006
A história de amor
- Avó, contas-me outra vez a história?
- Qual minha filha?
- A história de amor.
- Claro querida... claro que conto.
Não conseguia ver, tacteou à sua volta e sentiu o cheiro de cerveja derramada no chão cheio de palha. Havia também pão e carne seca, mas não era capaz de comer. Ao seu lado um monte de pêlos e sangue provocou-lhe mais um vómito violento. Contorcia-se, enrolava-se sobre si mesmo e sentia as lascas da madeira do chão a cravarem-se na carne. A dor trazia-o de volta à vida. Uma porta abriu-se e sentiu outro cheiro, fugiu para um canto escondendo a sua nudez, escondendo a pele suja, negra, áspera, as unhas partidas, as mãos demasiado fortes. Mas ela não se importava, nunca se tinha importado, lambera sempre as suas feridas com paciência, com amor, um amor que não fazia sentido, que não era natural, mas que o fazia adormecer. Repetiu a pergunta, suplicou, pediu a Deus que não tivesse acontecido outra vez, que o deixasse descansar. Era tudo o que desejava, tudo o que sonhava, tudo o que não podia ter. A visão voltava aos poucos, os olhos habituavam-se à luz e podia ver o vestido branco que o abraçava, podia ver o contorno de uma madeixa de cabelo, uma mão sobre a sua. Mas a respiração alterou-se, o coração bateu mais depressa e amaldiçoou os sentidos, o sangue que cheirava não era o seu, nem estava seco entre os seus dedos, era sangue vivo, que corria devagar, mas sem parar. O som de uma gota trouxe um grito que só podia ser seu e sentiu medo. Implorou para que os olhos dela não se fechassem, mas não teve resposta, apenas um último lamento, palavras ditas num sorriso que se fechou.
- Avó...
- Sim?
- Ficas um pouco comigo?
- Dorme, eu fico aqui.
- Qual minha filha?
- A história de amor.
- Claro querida... claro que conto.
Não conseguia ver, tacteou à sua volta e sentiu o cheiro de cerveja derramada no chão cheio de palha. Havia também pão e carne seca, mas não era capaz de comer. Ao seu lado um monte de pêlos e sangue provocou-lhe mais um vómito violento. Contorcia-se, enrolava-se sobre si mesmo e sentia as lascas da madeira do chão a cravarem-se na carne. A dor trazia-o de volta à vida. Uma porta abriu-se e sentiu outro cheiro, fugiu para um canto escondendo a sua nudez, escondendo a pele suja, negra, áspera, as unhas partidas, as mãos demasiado fortes. Mas ela não se importava, nunca se tinha importado, lambera sempre as suas feridas com paciência, com amor, um amor que não fazia sentido, que não era natural, mas que o fazia adormecer. Repetiu a pergunta, suplicou, pediu a Deus que não tivesse acontecido outra vez, que o deixasse descansar. Era tudo o que desejava, tudo o que sonhava, tudo o que não podia ter. A visão voltava aos poucos, os olhos habituavam-se à luz e podia ver o vestido branco que o abraçava, podia ver o contorno de uma madeixa de cabelo, uma mão sobre a sua. Mas a respiração alterou-se, o coração bateu mais depressa e amaldiçoou os sentidos, o sangue que cheirava não era o seu, nem estava seco entre os seus dedos, era sangue vivo, que corria devagar, mas sem parar. O som de uma gota trouxe um grito que só podia ser seu e sentiu medo. Implorou para que os olhos dela não se fechassem, mas não teve resposta, apenas um último lamento, palavras ditas num sorriso que se fechou.
- Avó...
- Sim?
- Ficas um pouco comigo?
- Dorme, eu fico aqui.
Sexta-feira, Setembro 01, 2006
O rapaz que escrevia ao contrário
Apaixonada, Susana descia uma das muitas escadas de Lisboa e assobiava acompanhando uma voz feminina, a única que conseguia ouvir nos últimos dias. As paredes estavam cheias de palavras pintadas a vermelho e eram como a letra da música que ouvia.
A doze degraus de distância um rapaz escrevia numa das paredes. Tinha a seu lado uma lata de onde escorria um fio de tinta e ela sorriu com mais uma aposta estúpida que não podia ganhar, mesmo assim cruzou os dedos numa jura que cumpriria, apesar de não acreditar no castigo.
- O que escreves?
- Letras erradas.
- Como?
- Tu ouviste, letras erradas.
Um pingo de tinta tocou outro degrau e decidiu o rumo da conversa.
- Mas não existem letras erradas, só palavras, só as palavras...
Ele afastou-se da parede e fez-lhe sinal para ela se aproximar.
- Diz-me o que vês.
Susana demorou a responder, as palavras não pareciam fazer sentido. Leu-as várias vezes e continuou sem perceber. Olhou para o rapaz que aguardava com um ar ansioso com as mãos juntas, uma prece involuntária, um desejo de partilhar um segredo.
- A solução é simples, não é?
- Sim.
- Estão ao contrário... que estúpida, estão ao contrário. Mas e as letras?
Ele ficou calado. Ela gritou entusiasmada.
- O acento! É o acento que falta no “a”? Mas não é uma letra errada, o acento só lhe vai dar sentido.
- Isso depende de ti...
Percebeu o que ele queria dizer e aceitou o pincel cheio de tinta da mão dele. Esperou um pouco antes de falar.
- Sabe bem.
- Eu sei. Olha, queres vir dar um passeio?
- Quero, quero muito. E a lata, fica aqui?
- Não sejas batoteira, a tinta ainda está a escorrer.
A doze degraus de distância um rapaz escrevia numa das paredes. Tinha a seu lado uma lata de onde escorria um fio de tinta e ela sorriu com mais uma aposta estúpida que não podia ganhar, mesmo assim cruzou os dedos numa jura que cumpriria, apesar de não acreditar no castigo.
- O que escreves?
- Letras erradas.
- Como?
- Tu ouviste, letras erradas.
Um pingo de tinta tocou outro degrau e decidiu o rumo da conversa.
- Mas não existem letras erradas, só palavras, só as palavras...
Ele afastou-se da parede e fez-lhe sinal para ela se aproximar.
- Diz-me o que vês.
Susana demorou a responder, as palavras não pareciam fazer sentido. Leu-as várias vezes e continuou sem perceber. Olhou para o rapaz que aguardava com um ar ansioso com as mãos juntas, uma prece involuntária, um desejo de partilhar um segredo.
- A solução é simples, não é?
- Sim.
- Estão ao contrário... que estúpida, estão ao contrário. Mas e as letras?
Ele ficou calado. Ela gritou entusiasmada.
- O acento! É o acento que falta no “a”? Mas não é uma letra errada, o acento só lhe vai dar sentido.
- Isso depende de ti...
Percebeu o que ele queria dizer e aceitou o pincel cheio de tinta da mão dele. Esperou um pouco antes de falar.
- Sabe bem.
- Eu sei. Olha, queres vir dar um passeio?
- Quero, quero muito. E a lata, fica aqui?
- Não sejas batoteira, a tinta ainda está a escorrer.
Sábado, Agosto 26, 2006
As irmãs P.
O anão
Hoje vi um anão no metro. E não percebo porque teimo em não acreditar que tudo faz sentido... porque há uns dias pensei que já não via um anão há muito tempo. Mas não era um anão qualquer, era um homem pequeno que se sentava tocando apenas com a ponta dos pés no chão. Pés pequenos, pés calçados com umas sapatilhas de criança, sapatilhas que não combinavam com o resto da roupa, pretas, modernas, diferentes da camisa amarrotada e das calças com bainha.
A bruxa
Amanhã vou ver um bruxa, uma rapariga chamada Dória P. E sei que me vou apaixonar pela irmã dela, sei que me vou deixar enfeitiçar pelos cabelos despenteados que cheiram a fumo, que cheiram ao fumo de uma lareira. Vou encostar a cara no seu colo e chorar.
Angelina P.
Porque vejo através dela, porque a amo sem ela saber... porque finjo que não sei. Angelina P. é a rapariga que desejamos secretamente, a rapariga aprisionada nos nossos sonhos. É o momento antes de adormecermos...
Hoje vi um anão no metro. E não percebo porque teimo em não acreditar que tudo faz sentido... porque há uns dias pensei que já não via um anão há muito tempo. Mas não era um anão qualquer, era um homem pequeno que se sentava tocando apenas com a ponta dos pés no chão. Pés pequenos, pés calçados com umas sapatilhas de criança, sapatilhas que não combinavam com o resto da roupa, pretas, modernas, diferentes da camisa amarrotada e das calças com bainha.
A bruxa
Amanhã vou ver um bruxa, uma rapariga chamada Dória P. E sei que me vou apaixonar pela irmã dela, sei que me vou deixar enfeitiçar pelos cabelos despenteados que cheiram a fumo, que cheiram ao fumo de uma lareira. Vou encostar a cara no seu colo e chorar.
Angelina P.
Porque vejo através dela, porque a amo sem ela saber... porque finjo que não sei. Angelina P. é a rapariga que desejamos secretamente, a rapariga aprisionada nos nossos sonhos. É o momento antes de adormecermos...
Terça-feira, Agosto 22, 2006
Ansiedade
Rui esperava dentro do carro. Não fumava há mais de dois anos e o fumo ardia-lhe nos pulmões como se fosse a primeira vez. Sabia que não devia estar ali, sabia que podia estar a alguns minutos de fazer a maior asneira da sua vida, mas esperava, esperava enquanto o cigarro ia ficando mais pequeno.
Num prédio em frente uma porta de vidro abriu-se, mais uma vez a ponta do cigarro brilhou e os seus olhos fecharam-se com o reflexo do Sol. Quando voltou a conseguir ver já uma figura caminhava em direcção a ele, não era quem esperava.
Olhou para o relógio que nunca usava e contou as horas, o calor era insuportável e perguntou-se mais uma vez porque é que tinha cedido à tentação de esperar ali por ela, porque é que se deixara guiar por uma obsessão. Sentia que ia estragar tudo de vez.
A porta abriu-se mais uma vez e não precisou de ver quem saía para ter a certeza. Tinha sido sempre assim, sentia... antes de ver.
Ela começou a andar devagar na sua direcção até que de repente parou, com ela era igual, sentiam-se, isso ela não podia negar. Rui sabia que eram feitos um para o outro, só não sabia porque é que tudo tinha falhado. Olhou para baixo à espera que ela chegasse.
Sentiu um vulto ao seu lado.
- O que é que estás aqui fazer?
Deixou-se estar sentado no carro, estático, sem reacção. Não tinha nenhum plano, só tivera coragem para guiar até àquele sítio. Não sabia o que dizer.
Joana tinha os olhos cheios de lágrimas que não deixava cair e perguntou mais uma vez.
- Ouviste o que eu perguntei? O que é que estás aqui a fazer? Como é que me encontraste?
Ele não conseguiu responder e ela começou a afastar-se do carro. Abriu a porta.
- Espera...
- Não temos nada a dizer. Só não sei como descobriste onde trabalho.
- Quando se deseja muito uma coisa não é assim tão difícil.
- Chegaste a pensar se eu desejava voltar a ver-te?
A voz dela não tinha o tom melodioso de antigamente, estava sempre presente uma agressividade, um apontar de culpa. Era impossível esquecer o que tinha acontecido. Olhava para ela e num segundo recordou tudo. Mas já não conseguia pensar nas coisas boas, só nas discussões, só nos gritos pela noite dentro. Só conseguia pensar no dia em que tudo mudara, quando lhe agarrara com força num braço, quando sentiu que tinha feito algo que não podia ser desfeito. Lembrava-se da cara dela e de a ver agarrada ao braço enquanto decidia. Continuava a não saber porque é que as coisas não tinham dado certo, mas sabia exactamente o momento em que se dera a ruptura, quando ela decidiu que o seu gesto não tinha desculpa... e se afastara sem dizer uma palavra.
Respondeu de forma atrapalhada.
- Eu... eu... tu sabes o que eu sinto por ti.
Joana pensou antes de responder.
- Sim... eu sei. Mas isso não chega, pois não?
- E ficamos assim? Depois de tudo, ficamos assim?
Ela não olhava sequer para a sua cara, como se não tivesse coragem de ver os seus olhos, como se não quisesse arriscar voltar atrás.
- Rui... não percebes que acabou? Não percebes que as coisas já não fazem sentido? Olha para ti, olha para o que estás a fazer, como é que é possível imaginares que podemos recomeçar tudo?
- Mas e o que sentimos?
Um ar de desespero antecipou a resposta.
- Rui, olha onde chegaste, tu estás a seguir-me... tu não te apercebes, pois não?
Ele não respondeu, na verdade já não estava a ouvir. Fixava um grupo de pessoas do outro lado da estrada e tentava adivinhar sobre o que falavam, tentava adivinhar as suas vidas. Sabia que Joana tinha razão e isso doía, doía saber que era última vez que olhava para ela.
- Tens razão.
Joana fez um ar espantado.
- O quê?
- Tens razão, não podemos voltar atrás. E não fiques com esse ar desconfiado, estou a falar a sério.
- Tens que admitir que é estranho, uma mudança tão súbita de comportamento.
- Eu acho que sempre soube, só não queria ver... e de repente fiquei cansado das minhas obsessões, de todos os disparates que fiz neste último ano... fiquei cansado de mim.
- Assim, de repente?
- Sim, assim de repente.
Joana olhou para ele sem medo, olhou para ele e viu uma pessoa que julgava já não existir. Mas era tarde.
- E... e ficas bem?
Rui sorriu.
- Não... claro que não fico bem.
Abriu a porta do carro e entrou sem se despedir dela, sentiu o calor na cara e os olhos a arder. Arrancou sem olhar para trás e ligou o rádio, uma música começou a tocar, uma música com palavras simples, "this is the first day of my life". Não conseguiu deixar de sorrir.
Num prédio em frente uma porta de vidro abriu-se, mais uma vez a ponta do cigarro brilhou e os seus olhos fecharam-se com o reflexo do Sol. Quando voltou a conseguir ver já uma figura caminhava em direcção a ele, não era quem esperava.
Olhou para o relógio que nunca usava e contou as horas, o calor era insuportável e perguntou-se mais uma vez porque é que tinha cedido à tentação de esperar ali por ela, porque é que se deixara guiar por uma obsessão. Sentia que ia estragar tudo de vez.
A porta abriu-se mais uma vez e não precisou de ver quem saía para ter a certeza. Tinha sido sempre assim, sentia... antes de ver.
Ela começou a andar devagar na sua direcção até que de repente parou, com ela era igual, sentiam-se, isso ela não podia negar. Rui sabia que eram feitos um para o outro, só não sabia porque é que tudo tinha falhado. Olhou para baixo à espera que ela chegasse.
Sentiu um vulto ao seu lado.
- O que é que estás aqui fazer?
Deixou-se estar sentado no carro, estático, sem reacção. Não tinha nenhum plano, só tivera coragem para guiar até àquele sítio. Não sabia o que dizer.
Joana tinha os olhos cheios de lágrimas que não deixava cair e perguntou mais uma vez.
- Ouviste o que eu perguntei? O que é que estás aqui a fazer? Como é que me encontraste?
Ele não conseguiu responder e ela começou a afastar-se do carro. Abriu a porta.
- Espera...
- Não temos nada a dizer. Só não sei como descobriste onde trabalho.
- Quando se deseja muito uma coisa não é assim tão difícil.
- Chegaste a pensar se eu desejava voltar a ver-te?
A voz dela não tinha o tom melodioso de antigamente, estava sempre presente uma agressividade, um apontar de culpa. Era impossível esquecer o que tinha acontecido. Olhava para ela e num segundo recordou tudo. Mas já não conseguia pensar nas coisas boas, só nas discussões, só nos gritos pela noite dentro. Só conseguia pensar no dia em que tudo mudara, quando lhe agarrara com força num braço, quando sentiu que tinha feito algo que não podia ser desfeito. Lembrava-se da cara dela e de a ver agarrada ao braço enquanto decidia. Continuava a não saber porque é que as coisas não tinham dado certo, mas sabia exactamente o momento em que se dera a ruptura, quando ela decidiu que o seu gesto não tinha desculpa... e se afastara sem dizer uma palavra.
Respondeu de forma atrapalhada.
- Eu... eu... tu sabes o que eu sinto por ti.
Joana pensou antes de responder.
- Sim... eu sei. Mas isso não chega, pois não?
- E ficamos assim? Depois de tudo, ficamos assim?
Ela não olhava sequer para a sua cara, como se não tivesse coragem de ver os seus olhos, como se não quisesse arriscar voltar atrás.
- Rui... não percebes que acabou? Não percebes que as coisas já não fazem sentido? Olha para ti, olha para o que estás a fazer, como é que é possível imaginares que podemos recomeçar tudo?
- Mas e o que sentimos?
Um ar de desespero antecipou a resposta.
- Rui, olha onde chegaste, tu estás a seguir-me... tu não te apercebes, pois não?
Ele não respondeu, na verdade já não estava a ouvir. Fixava um grupo de pessoas do outro lado da estrada e tentava adivinhar sobre o que falavam, tentava adivinhar as suas vidas. Sabia que Joana tinha razão e isso doía, doía saber que era última vez que olhava para ela.
- Tens razão.
Joana fez um ar espantado.
- O quê?
- Tens razão, não podemos voltar atrás. E não fiques com esse ar desconfiado, estou a falar a sério.
- Tens que admitir que é estranho, uma mudança tão súbita de comportamento.
- Eu acho que sempre soube, só não queria ver... e de repente fiquei cansado das minhas obsessões, de todos os disparates que fiz neste último ano... fiquei cansado de mim.
- Assim, de repente?
- Sim, assim de repente.
Joana olhou para ele sem medo, olhou para ele e viu uma pessoa que julgava já não existir. Mas era tarde.
- E... e ficas bem?
Rui sorriu.
- Não... claro que não fico bem.
Abriu a porta do carro e entrou sem se despedir dela, sentiu o calor na cara e os olhos a arder. Arrancou sem olhar para trás e ligou o rádio, uma música começou a tocar, uma música com palavras simples, "this is the first day of my life". Não conseguiu deixar de sorrir.
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