domingo, novembro 02, 2008

Nightswimming

Comecei a dormir mais, depois de atingir o limite comecei a dormir mais. Ao fim de duas semanas tudo tinha mudado. Passei a acordar durante a noite, como acontecia quando era mais novo. Os sonhos voltaram, o lembrar de longas histórias que decidi esquecer. Nas manhãs, em todas as manhãs, começou a fazer sentido acordar. O leite frio à janela, o pão com passas e canela, o arroz doce quase gelado, roubado ao dia anterior. No prédio em frente vivia uma senhora muita velha, tinha o cabelo mais branco que alguma vez vira. Em casa dela não havia homens, só a filha, uma senhora gorda com um olhar triste, e a neta, que fingia não me ver. Era como se o tempo se estendesse, trazendo história e histórias antigas, quase sempre de quando era miúdo, um rapaz magro, uma noite quente, um banho no escuro, a madeira de uma casa escondida. Um dia a rapariga, a neta da senhora muito velha, sentou-se numa cadeira e olhou para mim, sem desistir, como se ameaçasse ficar ali para sempre. Nesse momento, nesse preciso momento decidi voltar, nervoso, com o que iria encontrar.

Entrei na mercearia com medo, de ser reconhecido, de abraços apertados, de ninguém se lembrar. Uma voz grossa desfez a dúvida.
— Ora, ora! Olha só quem voltou.
Sorri ainda antes de me virar.
— Olá senhor Carlos.
— E lembra-se dos velhos — disse ele num riso sincero. — Maria! Anda cá mulher, que não vais acreditar quem aqui está.
Ouvi uma voz a pedir um minuto e observei a pequena loja enquanto o senhor Carlos atendia uma senhora toda vestida de preto. Passara tardes sem conta naquele sítio, o filho do senhor Carlos e da senhora Maria foi sempre o meu melhor amigo, desde a escola primária até ele emigrar para Inglaterra. Os pais nunca aceitaram a decisão dele, pelos menos era o que diziam, a mim parecia-me ver orgulho, no reflexo das lágrimas. Uma mão separou as fitas de uma porta, dois braços esticaram-se para mim.
— Rui!
— Olá senhora Maria — disse eu já no meio de um abraço. O cheiro dela era o mesmo.
— Ai rapaz! Estás igual, sempre com esses olhos verdes a brilhar.
— Eu? — disse envergonhado. — Vocês é que não mudaram nada. Na verdade, parece que nada mudou, parece que ainda foi ontem que eu e o Filipe corríamos por entre as caixas.
— E me comiam o bacalhau à dentada — disse o senhor Carlos a rir. — Cada vez que me lembro da senhora Júlia a olhar para as marcas dos vossos dentes. Tive de lhe oferecer uma caixa inteira, que a mulher jurava que aqui havia ratos, que nunca mais cá voltava. Lembrava-me bem desse dia, eu e o Filipe escondidos debaixo do balcão, divididos entre a vontade de rir, e a promessa de uma tareia.
— E o Filipe? — perguntei a medo.
O senhor Carlos virou a cabeça, fingiu fazer umas contas num papel.
— O Filipe está bem — disse a senhora Maria em voz baixa.
— Mas e vocês? Está tudo bem entre todos?
— Sim — disse ela a sorrir. — Não ligues a esse velho tonto. O Filipe vai ser pai e nós vamos lá no Natal. Adivinha lá quem já foi comprar os bilhetes de avião todo inchado?
— Ainda bem, eu penso muitas vezes nele, mas...
— Eu sei, não digas nada, a vida é mesmo assim — disse ela olhando para mim com ternura. — Mas e tu? Não esperava ver-te mais por aqui, principalmente depois dos teus pais terem ido embora. Eles estão bem?
— Sim, acho que sim — respondi sem saber bem o que dizer. — Não tenho estado muito com eles, mas sim, estão bem.
— Mas e tu, o que te trouxe cá? Não vieste só visitar estes velhotes — disse ela de forma serena. Não consegui responder.

Passei a tarde inteira na pensão, a contar os minutos, à espera que escurecesse. O encontro com Mariana tinha sido estranho, apesar de ter sonhado com aquele momento tantas vezes. Não esperava que chocássemos no meio da rua, que não precisasse de procurar. O convite chegou como um soco, repetido até eu responder, mas sem ela se parecer importar. Ela continuava a ir nadar ao lago, em todas as noites quentes, como se os anos tivessem sido dias, como se o tempo não demorasse a passar. Saí depois das oito, escolhendo o caminho mais longo, até não poder mais adiar. Parei o carro perto da casa velha, desliguei os faróis e fui engolido pela noite, não havia lua, só estrelas, milhões e milhões de estrelas. Pisei a madeira devagar e sentei-me ao lado dela.
— Demoraste a chegar — disse ela sem desviar os olhos da água. — Pensei se te tinhas esquecido.
— Não — disse com a voz a tremer. — Como é que me podia esquecer?
— Sei lá — disse ela meio a rir. — Podias ter adormecido, ou ficares preso num filme, um daqueles que não conseguimos parar de ver.
Esperei antes de falar, sabia que tinha de falar, ou então nunca iria dizer, tudo o que estava dentro de mim. Obriguei as palavras.
— Lembras-te de aqui termos estado?
Mariana olhou para mim, olhou-me nos olhos, como não fazia desde que éramos apenas dois miúdos.
— Sim, tenho ideia disso. Aconteceu alguma coisa de especial que eu me devesse lembrar? — perguntou numa gargalhada. — Estás com um ar tão sério.
— Aconteceu que essa noite, essa noite em particular, eu...
— Rui, não compliques, fala!
Inspirei fundo.
— É que, vais achar-me maluco, mas eu... eu faço uma coisa estranha, nem sei bem explicar.
— Tenta — disse ela, sem pressa na voz.
— Isto parece de malucos, mas às vezes, às vezes acontece algo completamente banal, uma folha a voar que me bate na mão, o vento numa flor, alguém que diz uma palavra com uma pronúncia esquisita...
— Todas as coisas que acontecem — interrompeu ela. — Estás a falar de tudo, não é?
— Sim, acho que sim.
— Mas e o que é que acontece? — perguntou ela.
— Bem, às vezes eu... às vezes algumas dessas coisas, apesar de não serem diferentes de tudo o que acontece a cada segundo, eu lembro-me delas, vejo-as na minha cabeça centenas de vezes.
Parei um segundo antes de continuar, senti o coração a bater como se fosse rebentar.
— E essa vez, quando aqui estivemos, sentámo-nos precisamente neste sítio e uma gota de suor escorreu-me pelas costas, e... e eu lembro-me disso, da sensação do suor nas costas, lembro-me disso quase todos os dias...
— Rui — interrompeu ela outra vez —, o que é que queres dizer?
Gritei dentro de mim.
— É que... também me lembro de ti, do teu corpo, num fato de banho preto, do cheiro do teu cabelo molhado. Todos os dias Mariana! Penso nessas coisas quase todos os dias, mas não queria, não queria...
Desisti de explicar, pela primeira vez na vida não tentei explicar, esperei, apenas esperei.
— Rui — disse ela, sem precisar de tempo para pensar. — Rui, eu lembro-me de aqui ter estado contigo, mas não me lembro do fato de banho que tinha, não me lembro do que falámos. Acho que o cheiro do cabelo é o mesmo, mas todos estes anos, não foram passados a pensar em ti.
Fiquei à espera que ela continuasse.
— Imagino que tenha sido um sonho bonito Rui.
— Muitos sonhos bonitos — disse eu.
— Mas foram sonhos teus, foram só sonhos teus.
Ficámos em silêncio, um silêncio que não trouxe desconforto, só o barulho da água. Depois, no momento certo ela falou, como se esperasse pelo refrão de uma música, que só ela conseguia ouvir.
— Agora vais-te embora, não é? — perguntou. — Eu sei que ainda não sabes, que não planeaste nada, mas pensa, é isso que vai acontecer, certo? Apesar de todos estes anos, de pensares em mim a toda a hora, de eu ser a razão de teres voltado, no fim vais acabar por ir embora, mesmo que eu te tivesse dito, que todas as vezes que aqui vim, que também sonhava contigo.
Ela tinha entrado em mim, como nunca ninguém tinha feito ela tinha entrado em mim, ao ponto de saber, de me conseguir ler. Mais uma vez desisti de falar, de explicar, para conseguir ouvir, para conseguir sentir. Mariana chegou-se a mim, tirou-me a camisola devagar e despiu também a dela. Tocou com uma das mãos nas minhas costas, durante um segundo apenas, o suficiente para eu me lembrar. O resto da roupa espalhou-se pelo chão e deslizámos para dentro de água, esperámos um minuto por um beijo, pelo entrelaçar dos corpos. No brilho das estrelas vi a expressão dela, o seu sorriso, que me fez lembrar o da senhora Maria, o mais tranquilo que conhecia, que tantas vezes desejei, que fosse o da minha mãe.
— Rui — disse ela, como se estivesse a cantar —, hoje dormes em minha casa, amanhã... para amanhã só quero que me prometas uma coisa.
— O quê? — perguntei.
— Que começas o dia, que vais começar o dia, como se fosse a primeira vez.
— Está bem Mariana, está bem...
Nadámos para o meio do lago, de olhos no céu.

2 comentários:

Patricia disse...

Lindo...

rmena disse...

São estas pequenas lembranças que nos ligam à vida e aos outros. Sem elas, não valia a pena sonhar!

Um abraço