segunda-feira, novembro 10, 2008

Humberto

Humberto comia multas de estacionamento, subia e descia a avenida cem vezes por dia, comia as multas que retirava dos carros. Contava aos amigos, os velhos que dormem na rua, que tinha um sonho, comer mil multas num só dia e depois morrer, rebentar, marcar para sempre a montra de uma loja fina. Um dia aconteceu, esperou vinte minutos pelo fiscal, gostava de lhes chamar assim, puxou-o para ver a infracção, a transgressão inaceitável, uns bandidos, todos mortos à paulada. Um último desejo, tinta permanente, um nome, uma assinatura, pelo menos uma vez, a última vez. Ofereceu a caneta ao fiscal, rapaz louro pouco esperto, que não teve tempo de a admirar, ficou coberto da cabeça aos pés, de Humberto e papel, carne, sangue e cuspo, que a saliva é dos ricos, corre pura sem espuma. Juntou-se uma multidão, dizem que eram ao todo mil, perdoados, livres num segundo. Ouviu-se então, ecoou pela avenida, um aplauso, como se fosse para um Rei, que acenava de uma carruagem. Humberto ficou famoso, guardado no coração dos que ali estavam, que só fugiram pela força, esmurrados, empurrados pelos canhões de água, que também lavaram o chão, tudo para a sarjeta. Ficou a dúvida, porque nada havia e a palavra deixou de valer. Restou um segredo, um sinal trocado entre os que viram, que o guardaram, até ao fim das suas vidas. Humberto fez-se cidade.

domingo, novembro 02, 2008

Nightswimming

Comecei a dormir mais, depois de atingir o limite comecei a dormir mais. Ao fim de duas semanas tudo tinha mudado. Passei a acordar durante a noite, como acontecia quando era mais novo. Os sonhos voltaram, o lembrar de longas histórias que decidi esquecer. Nas manhãs, em todas as manhãs, começou a fazer sentido acordar. O leite frio à janela, o pão com passas e canela, o arroz doce quase gelado, roubado ao dia anterior. No prédio em frente vivia uma senhora muita velha, tinha o cabelo mais branco que alguma vez vira. Em casa dela não havia homens, só a filha, uma senhora gorda com um olhar triste, e a neta, que fingia não me ver. Era como se o tempo se estendesse, trazendo história e histórias antigas, quase sempre de quando era miúdo, um rapaz magro, uma noite quente, um banho no escuro, a madeira de uma casa escondida. Um dia a rapariga, a neta da senhora muito velha, sentou-se numa cadeira e olhou para mim, sem desistir, como se ameaçasse ficar ali para sempre. Nesse momento, nesse preciso momento decidi voltar, nervoso, com o que iria encontrar.

Entrei na mercearia com medo, de ser reconhecido, de abraços apertados, de ninguém se lembrar. Uma voz grossa desfez a dúvida.
— Ora, ora! Olha só quem voltou.
Sorri ainda antes de me virar.
— Olá senhor Carlos.
— E lembra-se dos velhos — disse ele num riso sincero. — Maria! Anda cá mulher, que não vais acreditar quem aqui está.
Ouvi uma voz a pedir um minuto e observei a pequena loja enquanto o senhor Carlos atendia uma senhora toda vestida de preto. Passara tardes sem conta naquele sítio, o filho do senhor Carlos e da senhora Maria foi sempre o meu melhor amigo, desde a escola primária até ele emigrar para Inglaterra. Os pais nunca aceitaram a decisão dele, pelos menos era o que diziam, a mim parecia-me ver orgulho, no reflexo das lágrimas. Uma mão separou as fitas de uma porta, dois braços esticaram-se para mim.
— Rui!
— Olá senhora Maria — disse eu já no meio de um abraço. O cheiro dela era o mesmo.
— Ai rapaz! Estás igual, sempre com esses olhos verdes a brilhar.
— Eu? — disse envergonhado. — Vocês é que não mudaram nada. Na verdade, parece que nada mudou, parece que ainda foi ontem que eu e o Filipe corríamos por entre as caixas.
— E me comiam o bacalhau à dentada — disse o senhor Carlos a rir. — Cada vez que me lembro da senhora Júlia a olhar para as marcas dos vossos dentes. Tive de lhe oferecer uma caixa inteira, que a mulher jurava que aqui havia ratos, que nunca mais cá voltava. Lembrava-me bem desse dia, eu e o Filipe escondidos debaixo do balcão, divididos entre a vontade de rir, e a promessa de uma tareia.
— E o Filipe? — perguntei a medo.
O senhor Carlos virou a cabeça, fingiu fazer umas contas num papel.
— O Filipe está bem — disse a senhora Maria em voz baixa.
— Mas e vocês? Está tudo bem entre todos?
— Sim — disse ela a sorrir. — Não ligues a esse velho tonto. O Filipe vai ser pai e nós vamos lá no Natal. Adivinha lá quem já foi comprar os bilhetes de avião todo inchado?
— Ainda bem, eu penso muitas vezes nele, mas...
— Eu sei, não digas nada, a vida é mesmo assim — disse ela olhando para mim com ternura. — Mas e tu? Não esperava ver-te mais por aqui, principalmente depois dos teus pais terem ido embora. Eles estão bem?
— Sim, acho que sim — respondi sem saber bem o que dizer. — Não tenho estado muito com eles, mas sim, estão bem.
— Mas e tu, o que te trouxe cá? Não vieste só visitar estes velhotes — disse ela de forma serena. Não consegui responder.

Passei a tarde inteira na pensão, a contar os minutos, à espera que escurecesse. O encontro com Mariana tinha sido estranho, apesar de ter sonhado com aquele momento tantas vezes. Não esperava que chocássemos no meio da rua, que não precisasse de procurar. O convite chegou como um soco, repetido até eu responder, mas sem ela se parecer importar. Ela continuava a ir nadar ao lago, em todas as noites quentes, como se os anos tivessem sido dias, como se o tempo não demorasse a passar. Saí depois das oito, escolhendo o caminho mais longo, até não poder mais adiar. Parei o carro perto da casa velha, desliguei os faróis e fui engolido pela noite, não havia lua, só estrelas, milhões e milhões de estrelas. Pisei a madeira devagar e sentei-me ao lado dela.
— Demoraste a chegar — disse ela sem desviar os olhos da água. — Pensei se te tinhas esquecido.
— Não — disse com a voz a tremer. — Como é que me podia esquecer?
— Sei lá — disse ela meio a rir. — Podias ter adormecido, ou ficares preso num filme, um daqueles que não conseguimos parar de ver.
Esperei antes de falar, sabia que tinha de falar, ou então nunca iria dizer, tudo o que estava dentro de mim. Obriguei as palavras.
— Lembras-te de aqui termos estado?
Mariana olhou para mim, olhou-me nos olhos, como não fazia desde que éramos apenas dois miúdos.
— Sim, tenho ideia disso. Aconteceu alguma coisa de especial que eu me devesse lembrar? — perguntou numa gargalhada. — Estás com um ar tão sério.
— Aconteceu que essa noite, essa noite em particular, eu...
— Rui, não compliques, fala!
Inspirei fundo.
— É que, vais achar-me maluco, mas eu... eu faço uma coisa estranha, nem sei bem explicar.
— Tenta — disse ela, sem pressa na voz.
— Isto parece de malucos, mas às vezes, às vezes acontece algo completamente banal, uma folha a voar que me bate na mão, o vento numa flor, alguém que diz uma palavra com uma pronúncia esquisita...
— Todas as coisas que acontecem — interrompeu ela. — Estás a falar de tudo, não é?
— Sim, acho que sim.
— Mas e o que é que acontece? — perguntou ela.
— Bem, às vezes eu... às vezes algumas dessas coisas, apesar de não serem diferentes de tudo o que acontece a cada segundo, eu lembro-me delas, vejo-as na minha cabeça centenas de vezes.
Parei um segundo antes de continuar, senti o coração a bater como se fosse rebentar.
— E essa vez, quando aqui estivemos, sentámo-nos precisamente neste sítio e uma gota de suor escorreu-me pelas costas, e... e eu lembro-me disso, da sensação do suor nas costas, lembro-me disso quase todos os dias...
— Rui — interrompeu ela outra vez —, o que é que queres dizer?
Gritei dentro de mim.
— É que... também me lembro de ti, do teu corpo, num fato de banho preto, do cheiro do teu cabelo molhado. Todos os dias Mariana! Penso nessas coisas quase todos os dias, mas não queria, não queria...
Desisti de explicar, pela primeira vez na vida não tentei explicar, esperei, apenas esperei.
— Rui — disse ela, sem precisar de tempo para pensar. — Rui, eu lembro-me de aqui ter estado contigo, mas não me lembro do fato de banho que tinha, não me lembro do que falámos. Acho que o cheiro do cabelo é o mesmo, mas todos estes anos, não foram passados a pensar em ti.
Fiquei à espera que ela continuasse.
— Imagino que tenha sido um sonho bonito Rui.
— Muitos sonhos bonitos — disse eu.
— Mas foram sonhos teus, foram só sonhos teus.
Ficámos em silêncio, um silêncio que não trouxe desconforto, só o barulho da água. Depois, no momento certo ela falou, como se esperasse pelo refrão de uma música, que só ela conseguia ouvir.
— Agora vais-te embora, não é? — perguntou. — Eu sei que ainda não sabes, que não planeaste nada, mas pensa, é isso que vai acontecer, certo? Apesar de todos estes anos, de pensares em mim a toda a hora, de eu ser a razão de teres voltado, no fim vais acabar por ir embora, mesmo que eu te tivesse dito, que todas as vezes que aqui vim, que também sonhava contigo.
Ela tinha entrado em mim, como nunca ninguém tinha feito ela tinha entrado em mim, ao ponto de saber, de me conseguir ler. Mais uma vez desisti de falar, de explicar, para conseguir ouvir, para conseguir sentir. Mariana chegou-se a mim, tirou-me a camisola devagar e despiu também a dela. Tocou com uma das mãos nas minhas costas, durante um segundo apenas, o suficiente para eu me lembrar. O resto da roupa espalhou-se pelo chão e deslizámos para dentro de água, esperámos um minuto por um beijo, pelo entrelaçar dos corpos. No brilho das estrelas vi a expressão dela, o seu sorriso, que me fez lembrar o da senhora Maria, o mais tranquilo que conhecia, que tantas vezes desejei, que fosse o da minha mãe.
— Rui — disse ela, como se estivesse a cantar —, hoje dormes em minha casa, amanhã... para amanhã só quero que me prometas uma coisa.
— O quê? — perguntei.
— Que começas o dia, que vais começar o dia, como se fosse a primeira vez.
— Está bem Mariana, está bem...
Nadámos para o meio do lago, de olhos no céu.

terça-feira, setembro 23, 2008

Another World

Um dia. Existe um momento em que chegamos à dor, em que descobrimos, que estamos inevitavelmente sozinhos, fechados em nós. Um dia. Descobrimos que só nós vemos, que contar não chega, e perdemos a esperança, sem deixar de gritar.

No metro viajo de pé, caminho devagar, olho cada pessoa em silêncio, demoro, arrisco, antes de continuar. À minha frente está um homem musculado, com uma camisola apertada. Tem o cabelo molhado, madeixas separadas pelo suor, que revelam um segredo. Um pássaro tatuado, uma serpente, sangue, uma escolha minha. Olho para baixo e reparo nuns sapatos de mulher muitos velhos, estranho as meias castanhas no calor. Uma delas está rasgada, até perceber. Levanto os olhos e vejo que a mulher não é branca, que as meias não existem, apenas uma cicatriz de tom rosado. Sorrio com a confusão e observo-a. Um fato cinzento que parece encolher, no meio de muito vermelho, menos o fato e a pele. Ao longe outra mulher apanha o cabelo, na esperança de não ser reconhecida. Sei quem é, fala sempre confiante. Prefiro o metro, espreitar sem que perceba, quando fecha os olhos por um segundo. Antes de sair vejo uma rapariga, que usa um gancho verde no cabelo. Está de sandálias, mas tem os dedos muito tortos. Tem a cara gasta. Lembro-me de alguém, que também vi no metro.

Uma tarde fugia para casa, entrei na carruagem e tentei escolher alguém. À minha frente estava uma rapariga. Aproximei-me com cuidado. Parei quando vi as lágrimas. Ela chorava sem parar. Um choro que não se ouvia, um choro sem o soluçar, só lágrimas atrás de lágrimas, sem vergonha, sem se importar. Fiquei a olhar para ela, que não me via, por também estar sozinha. Mas senti a sua dor. Então reparei, nos dedos cortados, amputados ao acaso. O verniz disfarçava alguns, outros era impossível. Fiquei paralisado, na repulsa, ao mesmo tempo zangado, mas com vontade de fugir, ao chocar com os meus medos. Resisti, fiquei, olhei, obriguei-me a olhar, para as mãos imperfeitas, até esquecer. Voltei ao choro, a uma tristeza sem fim. Senti vontade de a abraçar, de dizer que estava tudo bem, que podia descansar, que podia deitar a cabeça no meu colo. Não senti pena, não venci o medo, de lhe tocar nos dedos, de fechar as minhas mãos nas dela. Mas devia tê-la abraçado, tê-la escondido em mim, sentir o seu corpo.

Estou sozinho, mas continuo a gritar, até perder o medo, de me lembrar.

quarta-feira, agosto 06, 2008

O Corcunda

Há demasiadas histórias de corcundas. Monstros, anjos escondidos de dentes podres, de sorrisos inocentes. Há demasiadas histórias sobre pessoas, porque todos o foram, um homem, uma mulher. Demasiadas histórias, sobre um destino alterado, por causa de um alto nas costas, de um curvar dorido. Nunca quis contar a minha, eu também disfarçado, preso nas sombras de uma casa velha. Mas hoje, nos meus últimos dias, já não consigo olhar o céu, só as palavras que escrevo, que desenho devagar. Desejo, sonho em morrer aqui, sobre a minha vida, feita de criar outras, de inventar destinos, em milhares de folhas pautadas. Sei que é difícil acreditar, mas eu não nasci corcunda. Difícil, para muitos impossível, descendo as escadas do casarão, contemplando as figuras, quadros pintados, dos que vieram antes de mim. Uma aberração atrás da outra, poupados ao circo, aos risos e espanto, mas para sempre marcados. Há anos que não desço as escadas, talvez por medo, de enfrentar o espaço vazio, guardado para um último quadro. Mas lembro-me da primeira vez que o fiz, que olhei de frente para a minha herança, e do orgulho nos olhos do meu pai, depois de correr até ele, de saltar para o seu colo e de lhe contar, que descobrira um segredo, que os homens nos quadros, estavam todos a sorrir. Quando fiz dez anos, no dia em que fiz dez anos, o meu mundo mudou. O meu pai, o meu avô, levaram-me até uma porta, que estava sempre fechada. A minha mãe escondeu as lágrimas, abraçada às minhas duas avós, não por medo, por tristeza, mas por saber, que ali, naquele momento, tudo começava, mais uma vez. Entrei à frente, depois o meu pai, o meu avô mais devagar, sempre no escuro, até a porta se fechar, sem ninguém lhe tocar. Só então a luz, mil velas acesas, sem perceber porquê. Nesse segundo vi, escadas sem fim, portas, mesas de trabalho. Só depois reparei, que as paredes, todas as paredes, não estavam pintadas, nem forradas a papel, mas sim tapadas, de forma perfeita, por milhares, milhões, por livros que não era possível contar. O meu pai esperou, aguardou uns minutos antes de falar, depois do meu avô anuir. Contou-me a história, que também era a minha, de todos os que ali tinham entrado, do tesouro que guardavam, escondido, mas que deveria crescer, porque sempre haveria espaço, um lugar vazio numa estante, à espera de outro livro, de mais histórias. Seria essa a minha tarefa, como tinha sido de tantos antes de mim, a partir daquele dia. Lembro-me de olhar para os dois homens ao meu lado, principalmente para o meu avô, duas vezes pai, mais curvado, apoiado numa bengala escura, que o afastava do chão. Lembro-me de ele me começar a explicar, sem pedir desculpa, que eu seria como eles, uma maldição que não era verdadeira, só aos olhos dos outros. Um dever, que não podia ser leve, e só por isso pesado. Ouvi-o em silêncio, em respeito e amor, ouvi o que já sabia, desde que a porta se fechara, quando senti a pressão nas costas, pela primeira vez.

quarta-feira, julho 30, 2008

O Vento

Quando Ana chegou reconheceu o cheiro do chão. Era uma mistura de ervas secas com pequenas flores. Em miúda vendia-as em segredo, nas brincadeiras com o irmão, no terraço da casa dos avós. Alugou uma casa perto do mar, com janelas azuis e fechos ferrugentos. Deitada na cama conseguia ouvir as ondas e todos os dias jurava que sentia o seu gosto. Os dias eram todos iguais. Um livro lido em cima da colcha branca, morangos e amoras comidos com cuidado, um dormir sem horas, sem contar. Ao fim da tarde espreguiçava-se na rede, dava balanço na parede caiada, pintava os pés de branco. Antes de anoitecer saía para respirar, somava cada dia ao anterior, prometia não ter pressa. No primeiro dia reparou num velho sentado no miradouro, fingiu que não o viu, mas sentiu-o antes do resto. Inventou uma brincadeira, um desafio, conseguir não pensar nele durante um dia, depois dois, até onde fosse capaz. Desistiu, ele estava lá, mesmo que ela não olhasse. Sentava-se num banco feito nas rochas, a um passo do vazio. O velho era cego, a senhora que a recebera tinha-lhe contado que ele era cego, disse-o várias vezes, como se tivesse medo que ela se fosse esquecer, depois benzeu-se e saiu. Ana ficou a pensar, sem coragem de perguntar.

— Dizem que o senhor é cego.
Ele inclinou-se para a frente, de cajado a baloiçar entre as mãos.
— Dizem o que eu lhes disse, mais não sabem.
O banco onde o velho estava sentado era feito de rocha cinzenta, esculpido na forma de muitos anos. Ana sentou-se, sentiu a pedra, um aconchego ligeiro, afastado em silêncio.
— E o que é que eles não sabem? — perguntou ela sem tremer a voz.
O velho enfrentou-a no escuro, como se conseguisse ver.
— Perguntas sem saber criança — disse ele.
Ela sufocou as palavras. Queria saber, precisava de saber. O velho contou a sua história.

Sempre amara a mulher, que tinha morrido há dois anos, um desejo que não esquecia. Ela morrera a sorrir, de mãos dadas nas dele, mãos que só podia sentir. Depois veio o fim, o resto de uma vida, uma espera contada, minuto a minuto, em cada bater do coração, no sangue que corria lento. Tinham começado a namorar em miúdos, antes de serem diferentes, antes de respirarem mais depressa. Casaram em Maio, num dia quente, sem nuvens no céu. Adormeceram de olhos no céu, sem desejos para pedir, agarrados com força, pois o vento tenta a sua sorte, leva-nos se não temos cuidado. Um ano, as noites na praia só duraram um ano. Um dia ela não acordou, ardia em febre, pintava os lençóis de vermelho, sem conseguir falar. O velho, nesse tempo um miúdo, subiu ao penhasco mais alto, gritou, suplicou um favor, ofereceu tudo o que tinha, mesmo o que não devia. Nunca descobriu quem respondeu, se o céu ou o inferno, nem branco nem vermelho. A alma foi recusada, não pode ser vendida, não pode ser trocada. Escolheria um dos sentidos, uma parte do mundo, que deveria perder. A resposta foi rápida. Sentiu o cheiro do mar, o barulho das ondas, o sabor a sal, o calor da pele dela nas mãos. Fechou os olhos, no último raio de sol, e respondeu sem querer. Encontraram-no assustado, demoraram a perceber, na pressa de contar. Ela tinha acordado, com a face rosada, mas de sorriso ainda cansado. Pediu para a levarem à janela, para ver o pôr-do-sol.

Ana ficou a olhar para o velho, tentando adivinhar o momento certo.
— Não foi... não foi por causa... ela melhorou sozinha, não foi?
— Sim, não fui eu.
— Mas então... porque é que ficou cego? — perguntou ela em desespero, como se tudo estivesse a acontecer outra vez. — Não faz sentido... não faz sentido.
O velho encostou o cajado à pedra, brincou com as mãos, fez desenhos no ar. Depois continuou.
— O meu pedido, o meu desejo... — disse ele devagar.
— Sim — disse ela ansiosa.
— Eu só pedi, implorei, que me fosse concedido um desejo.
Os olhos de Ana brilharam.
— Ela ficou melhor antes — disse ela, sem precisar de uma resposta.
— Sim, ficou.

Ana correu para casa. Fugiu do passado, de uma história que não era a sua. Durante uma semana não saiu de casa, tentou esquecer, arranjou mil desculpas, mil explicações. Teve vontade de desistir, de ir embora daquele lugar. Mas sabia que o velho estava lá fora, de olhos no mar, sem o poder ver. Sabia que ele esperava por ela, que confiava nela. Ainda não tinha acabado, sabia que ainda não tinha acabado.

— O que é que pediu? — perguntou ela, enquanto se sentava ao lado do velho.
— Desde miúdo, o sonho foi sempre o mesmo — disse ele a sorrir.
— Os sonhos são iguais para todos? — perguntou ela enrugando a testa.
Ele esperou um pouco, agarrou-lhe a mão direita, depois de a procurar.
— Qual é o teu nome?
— Ana, chamo-me Ana.
— Voar Ana, desde pequeno que queria voar — disse ele quase em sussurro.
Ela percebeu, e sentiu um aperto no peito.
— Para voar não é preciso ver, basta que alguém nos ajude, que alguém veja por nós — disse ela ao mesmo tempo que pensava. — Mas nunca o fez, pois não?
Ele sorriu.
— Eu nunca lhe contei, não podia contar, ela nunca me teria perdoado.
— Porquê?
— Porque não era a maneira dela. Um sacrifício. Um pacto com o mal ou com o bem. A certeza de sermos iguais, de não sermos melhores, de sermos um só. Ela nunca me teria perdoado, e eu não podia voar com mais ninguém. Às vezes, nas noites sem lua, quando o vento sopra forte, às vezes, aproximo-me do precipício, e finjo que é o vento que me segura. Mais não posso.
— E o anjo, o demónio, nunca mais o chamou, nunca mais gritou por ele? — perguntou ela, de coração apertado.
— Não, nunca mais. Mas ele aparece à noite, desde a primeira noite, todas as noites, invade os meus sonhos, seduz-me, diz-me que basta um sacrifício.
— Um sacrifico? — perguntou, tentando entender.
— Sim, de alguém que eu ame, de alguém que me ame. — Parou de falar e limpou as lágrimas com um lenço velho amarrotado. — Nem por um minuto Ana, nem por um único segundo, nunca hesitei. Sei que nunca mais vou ver, mas foi sempre uma tentação inútil, pois eu convenci-me, desde o primeiro dia, que morreria na escuridão.
Ana levantou-se e deu um passo até à beira da rocha, sentiu o vazio, o abismo por baixo dela. Então sorriu, escondeu as lágrimas e sorriu. Esticou um braço em direcção ao velho e inspirou fundo antes de o chamar.
— Eu acredito, eu acredito em si. — As lágrimas começaram a cair, a descer pela cara, em direcção ao peito. — Dê-me a sua mão! Eu mostro-lhe o caminho.
Ele esperou uns segundos, antes de esticar a mão direita, de tocar ao de leve na mão dela. Ana atirou-se devagar para trás, fechou os olhos e esperou, até ao último momento esperou, por uma mão que se fechou.

A queda foi rápida, a dor desapareceu depressa, o corpo já não era o seu. Sentia apenas o gosto do sangue quente na boca, um ligeiro tremor, um frio que lhe roubava a visão, que mudava o mundo à sua volta, um mundo que ficava cada vez mais turvo. Conseguiu olhar para cima, ver uma silhueta de braços abertos, inclinada de uma forma impossível. Sorriu, uma última vez.

O velho ficou a olhar para a mão fechada, até o último raio de sol tocar em cada dedo que se abria, até acreditar, que conseguia ver. Abriu os braços e atirou-se contra o vento, uma última vez.

domingo, junho 08, 2008

Esquecer

Contei quatro degraus, quatro degraus cinzentos, gastos, rachados. Senti o vento nas costas e olhei à procura do carro. Tinha a certeza que o tinha deixado perto, de ter jogado com a sorte. Se arranjasse lugar à porta do trabalho o dia correria bem. Uma velha brincadeira, que nunca funcionava. Procurei mais de vinte minutos, fiz a rua para cima e para baixo várias vezes. Cansado, sentei-me num banco castanho. Lembrei-me de uma história antiga, um livro de ficção científica que tinha lido há muitos anos. Era um livro de contos, o primeiro era sobre um homem que um dia saía do emprego e se esquecia onde morava, como se chamava, quem era. No fim, perdido, sozinho, descobria que não era deste mundo, que as memórias esquecidas não eram dele, apenas decoradas. Ri-me, apesar do frio no estômago ri-me, sabia o meu nome, sabia onde morava, só não sabia do carro, mas tinha recordado a história do livro. Tirei o telefone do bolso do casaco para telefonar, por um breve segundo soube, mas esqueci-me para quem ia ligar. Não me lembrava se tinha alguma pessoa, se era casado, se estava alguém à minha espera. Senti-me sozinho. Lembrei-me de uns enormes olhos verdes, disse o nome dela num sussurro, senti o sabor dos lábios, o cheiro da pele. Podia contar todos os beijos que tínhamos trocado, um a um, podia desenhar as cores das camisolas que ela usava, mas não sabia quem me abraçava, quem me embalava antes de dormir. Tive medo de ir para casa, de encontrar alguém que não conhecia, de estar a enlouquecer. Tinha uma aliança na mão esquerda, tirei-a do dedo, segurei-a durante um segundo, depois procurei um nome. Uma data, a aliança só tinha gravada uma data, que não me dizia nada, que me deixava assustado. Esqueci-me de quantos anos tinha, procurei algum sinal nas mãos, marcas de tempo, feridas, a cor dos pêlos. Lembrei-me de um tronco velho, do musgo na madeira, lembrei-me dos insectos na lama, de os guardar dentro de um frasquinho, da minha mãe a ralhar. Lembrei-me da minha mãe, do nome, da cara, da voz, de soprar cinco velas num bolo. Depois esqueci-me, como se num momento corresse no riacho, e no seguinte estivesse perdido. Levantei-me, vi o meu reflexo no vidro de um carro, não era novo, não era velho, continuava a saber quem era, sabia o meu nome, sabia onde trabalhava, o nome de todos no escritório, tive vontade de voltar atrás, de perguntar, de pedir ajuda. Não tive coragem. Esqueci-me do meu pai, pensei outra vez na minha mãe e descobri que não tinha pai, não tinha mãos fortes a segurarem-me, de correr atrás dele, de jogar à bola. Não me lembrava da barba por fazer, do fumo dos cigarros. Lembrei-me da montanha, sorri, tive vontade de chorar, lembrei-me de estar por cima das nuvens, do verde, do barulho da água, do vazio, do medo das alturas, de uma mão que apertava a minha. Abrimos os braços, lembrei-me de abrirmos os braços, de gritar contra o vento, de rir, de sentir que podia voar, de amar. Lembrei-me de mil músicas, da chuva, de todos os dias de chuva, da praia à noite, dos barulhos da floresta, da lua, senti todos os cortes, todas as feridas, a dor em todos os momentos, lembrei-me de todas as vezes que ri, do cheiro da comida ao lume, dos meus avós, da casa fechada, do medo dos fantasmas, de correr, dos pés descalços na areia, dos castelos, senti o sol na cara, as sombras no chão, o céu cor-de-laranja, as histórias, os sítios secretos, o desejo de viajar, de fugir, o medo da tempestade, os arrepios, o coração a bater mais depressa, o Inverno que por fim chegava. Esqueci-me, esqueci-me de tudo, de mim, dos outros, senti o corpo a cair, a visão a ficar turva, que ia perder os sentidos. Sorri, antes de adormecer, desejei estar a morrer, sem saber, mas por tudo sentir, sorri, antes de os olhos fechar, voltei à montanha, ao riacho, aos olhos verdes, aos livros, ao silêncio...

quinta-feira, maio 29, 2008

Time Flies

Fiquei sozinha, acabei por ficar sozinha, mesmo antes de o saber. Deixei crescer o cabelo, o cabelo cinzento que sempre admirei na minha avó, o cabelo que as mulheres sós não pintam, que deixam solto e seco, para voar contra a cara, para magoar a pele fina. Não quis gatos, os gatos são para mulheres divorciadas. Eu nunca cheguei a casar, porque não soube, porque não vi, porque era tarde, porque não olhei para trás, aguentei a dor na barriga. Chamo-me Teresa, nome de mãe, da mãe que não fui, antes de secar, de já não poder. Uso sapatos rasos, digo mal dos outros, de inveja de não os ter, de não saber ensinar as pernas, uso sapatos às cores, só para irritar quem olha, para explicar quem sou, a quem não quer saber. Tenho um lenço com muitas cores, juro que já as tentei contar, mas o vento mistura-as, provoca-me, faz-me rir, por vezes sorrir.

Desci para a praia descalça, senti o verão a chegar, escondido no frio da manhã. Trazia na cabeça o meu chapéu de palha, daqueles que parecem ir desfazer-se a qualquer momento, que fazem sombras engraçadas, que gosto de contar, de tocar com os dedos, de me lembrar do piano. Perdi-me antes de o ver, um segundo antes de o ver, para voltar a mim. Arrisquei algumas palavras.
— Olá, eu sou a Teresa.
O homem virou-se devagar, sem pressa do conhecer. Parecia saborear.
— Olá Teresa, eu sou o Luís.
O silêncio voltou. O Luís olhava o horizonte, dividia o céu com um pincel na mão. Dei um passo à frente, não consegui dar mais, mas consegui ver o quadro que ele pintava. Ele explicou, antes de eu perguntar.
— Estou a pintar a noite.
— O que explica o preto — disse eu sem rir.
Ele murmurou qualquer coisa, antes de se virar.
— Na verdade não é preto, eu sei que parece, mas tem uma gota de tinta branca.
Olhou para o quadro durante uns segundos, acho que a decidir. Depois continuou.
— Consegues ver?
Eu só via preto. Esforçava-me para ver o que ele me queria mostrar, mas só via preto, não percebia a diferença. Falei irritada.
— Deves ter posto mesmo muito pouco branco.
Ele riu-se, encheu-me com o seu riso, esticou a mão para a minha. Leu-me outra vez, pensou antes de mim.
— À noite não consigo, está demasiado escuro, venho cá só para decorar, para mais tarde me lembrar, depois volto de manhã, tento acertar com o branco.
Ri-me antes dele acabar.

Sinto o tempo a voar, dor nos braços, dificuldade em respirar, a ansiedade a crescer. Com o tempo aprendi a lutar, crises do nada, medo de morrer, de não aguentar o segundo a seguir, em longos minutos. Aprendi a estremecer, um arrepio de frio, para me fazer esquecer, para não cair. Mas vivo assustada, feliz e amarga, mas assustada. Gostava de embalar, de cantar baixinho, afastar o diabo, as bruxas más, para a noite ir embora, para correr depressa.

Sentámo-nos na areia. Ele tinha mãos perfeitas, brancas, pequenas, velhas, contavam histórias. Agarrou as minhas, olhou-me nos olhos.
— És uma boa mãe.
Não contive as lágrimas, sem ficar zangada.
— Mas eu nunca... eu não tenho filhos.
— Eu sei. Vejo a forma em ti, mas tenho a certeza, és uma boa mãe.
Não lutei com ele, fechei os olhos e ouvi. Ele respirou fundo antes de falar.
— A minha mãe morreu o ano passado. Uma vida desgraçada, feita de dor, de muita dor, de sangue nos lábios, mordidos durante anos, demasiados anos. Acabou louca, esteve vinte anos internada, sem dizer uma única palavra, a olhar sempre para o mesmo sítio na parede. Nunca percebi para onde ela olhava, procurei, cheguei a levar uma lupa, mas não descobri nada, só o branco da parede, lisa, sem uma imperfeição. Desisti, com o tempo desisti.
— Achas que sofreu? — perguntei sem angústia.
— Morreu numa manhã, fechou os olhos, apenas fechou os olhos, não se despediu, não gritou, não chorou. Num segundo respirou, no outro já não.
— E tu? — perguntei.
Vi na cara dele, o sorriso mais bonito, o mais bonito que alguém alguma vez sorriu.
— Eu acordo todas as manhãs, abro os olhos e lembro-me dela. Todos os dias Teresa. É a primeira coisa em que penso. Lembro-me de uma tarde, quando tinha uns cinco ou seis anos, de estar com a cabeça no colo dela, de ela me estar a secar o cabelo, sinto o cheiro a queimado do secador, sinto o cheiro dela, das mãos, de sabão, do suor, da pele arrepiada. E choro, choro todos os dias, por este sonho repetido, que me aconchega, para sempre dentro de mim.
Olhei para cima para o quadro, procurei no meio do preto. Falei devagar, quase a cantar.
— Acho que está ali uma parte mais clara.
Ele riu-se. Depois pensou, esperou, escolheu as palavras.
— És uma menina assustada. É por isso que consegues ver.
Fechei os olhos, apertei-os muito, antes de os voltar a abrir.

Fiquei sozinha, acabei por ficar sozinha, aprendi a ficar sozinha. Tenho uma mão ao meu lado, que às vezes agarro, aperto até doer. Mas no meu mundo só estou eu, feliz, magoada, irritada, triste, risonha, inspirada, serena. O medo vem, chega sem cuidado, rebenta em mim, parte-me por dentro, rasga-me o corpo. Olho outra vez para a mão, para a mão esticada ao meu lado, hesito, espero, antes de a aceitar, porque sei que não preciso. No céu aparecem mil estrelas, que riscam a noite. E peço um desejo, só desta vez, ser a única a vê-las.

quarta-feira, março 19, 2008

Pai

Viro a cabeça ao ouvir o som de metal no chão. Um homem pragueja e pega no recipiente onde larga as moedas que apanha curvado. Outra pessoa passa a correr e as moedas voam de novo para longe. O homem amaldiçoa a sorte, o mundo, a chuva, sem perceber que está no caminho dos outros. Uma rapariga ajuda-o a procurar as moedas e ele não agradece. Afasto a imagem do meu pai e desço as escadas rolantes.

À espera do metro está um rapaz com um acordeão. É um quadro antigo, igual em tantas recordações, pele escura, dedos sujos, um pequeno cão que nunca cresce, nenhum dos dois cresce, uma garrafa de plástico cortada ao meio, um pedaço de cordel na boca do animal. O rapaz não vê ninguém, distraído com um jogo electrónico nas mãos. O brinquedo deve ter custado mais do que um dia de esmolas, mas ele não se importa. Tenho a certeza que o vai esconder, quando começar a pedir. Lembro-me outra vez do meu pai, não consigo esquecer.

Depois do apitar das portas ouço um cego. Conheço os cegos do metro todos de cor, separo-os em grupos, divido-os por cheiros, pela pena que sinto. Existe um que me irrita, por um dia ter falado mal a uma senhora, mesmo tendo razão. Reconheço-o depressa, jogo com o destino, digo que o dia me vai correr mal se ele me tocar. Ele não me vê, mas dá-me um encontrão quando passa por mim. Segue o seu caminho, mais escuro do que o meu.

A vida do meu pai sempre foi improvável, o Homem-Impossível, como eu lhe chamava, um super-herói imaginado. Um dia comprou um carro, ele comprava um carro novo todos os anos. Fui buscá-lo com ele, brinquei com os dedos na pintura creme, antes de reparar na matrícula. As duas primeiras letras eram as iniciais dele, os números o dia do aniversário. Vi os olhos do vendedor, vi demasiadas vezes aquele olhar. Todos os meses ia ao Bingo, sentava-se numas cadeiras vermelhas, que tinham sido vermelhas. Fazia sempre uma linha, sempre no segundo cartão da noite. Fingia que não acertava em mais nenhum número, de braços sobre a mesa, escondendo o jogo. Os empregados sabiam, calavam-se por simpatia, por pequenas gratificações, por medo. Um dia perguntei-lhe porque o fazia. Riu-se e disse que um dia iria perceber. Nunca percebi, o tempo passou e eu nunca percebi.

As histórias de guerra eram segredo, guardava-as no ar triste, na cara sempre contraída. Só não podia esconder as cicatrizes, seis riscos no rosto, três do lado esquerdo, mais três do lado direito. Contou-me, depois de choros e ameaças. Tinham disparado perto, seis balas que apenas o queimaram, que desenharam uma expressão. Tornou-se uma lenda, caminhava sempre à frente dos outros, que pisavam o mesmo caminho com cuidado. Nunca ia aos encontros de antigos combatentes, não mantinha contacto com aquela outra vida. Mas todos os anos, sempre no mesmo dia de Março, recebia um embrulho cheio de coisas esquisitas. Amuletos, pedaços de tecido camuflado, crucifixos, fotografias de homens feridos. Não perguntei, nunca tive coragem de perguntar.

Volto ao homem que corria atrás das moedas. Imagino-o o dia todo a repetir as mesmas palavras, raiva, dor, ajuda, fome, angústia. Vejo a cidade cinzenta, toda em tons de cinzento. Pergunto como é que as pessoas mudam, porque me parecem todas iguais. À minha frente um ecrã mostra a hora e o dia. Sorrio pelo impossível, porque sempre herdamos algo, mesmo o que fica escondido.

Escolho a chuva e peço três desejos, que o calor que sinto seja o mesmo, que o meu choro seja igual, que um dia se juntem num só.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Olhos Tristes

amo-te
porque não sei o que sinto
sem saber se te quero
porque sei que te tenho
sem te poder tocar
em todos os dias de chuva
no frio que me abraça
de todas as noites sem fim


— Quando é que escreveste isto? — perguntou ela, disfarçando os olhos tristes.
— Não sei... Ontem... Há uns anos... Parece-me que o escrevo desde sempre.
Maria sentou-se no sofá e puxou João para ela.
— Este amor... Ela existiu?
— Não te sei responder Maria, não tenho a certeza, já não tenho a certeza de nada.
Maria suspirou, sentido o calor de um ombro, embalado no seu.
— Alguma vez te escreveram uma carta de amor? — perguntou ele, com um ar envergonhado.
— Hum... Acho que não. Não, não me lembro de nenhuma. Triste, não é? Tu recebeste?
— Quando era miúdo — respondeu orgulhoso.
— Conta-me!
João deitou a cabeça no colo de Maria, esperou antes de começar a falar, como se primeiro tivesse de sentir.
— Eu tinha nove anos, acho que ela era um ano mais nova. Andávamos os dois na ginástica, ela costumava rir-se para mim. Como sempre não tive coragem de lhe falar, pedi ao irmão dela que o fizesse, que lhe contasse que gostava dela.
— Um emissário — brincou Maria.
— Sim. Uns dias mais tarde fiquei doente, uma semana em casa com anginas. Já não me lembro como é que ela soube, nós nem éramos da mesma turma. Mas um dia o meu irmão trouxe-me uma carta.
— E o que dizia? — perguntou Maria impaciente.
— Que sabia que eu gostava dela, que também gostava de mim, que queria ser minha namorada, coisas de miúdos.
— Que lindo! — disse ela num tom brincalhão.
— Não gozes — disse ele zangado, sem o estar.
— Foi a tua primeira namorada?
— Sim, foi.
— E?
— O que queres saber?
— Vá lá, não sejas assim. Conta-me! O que aconteceu depois?
João esperou outra vez, antes de recomeçar.
— Nada, eu passava por ela e apenas sorria, nem sequer parava. Um dia descobri que ela já tinha outro namorado, devo ter sido o último a saber. Mas também eu nem me aproximava, não tinha coragem. Há coisas que sempre foram assim, que hão-de ser sempre iguais.
Maria passou a mão pelo cabelo curto de João, aconchegou-o nos seus braços.
— Ela não te merecia — disse a rir, um riso que o contagiou.
— Sabes — disse, de olhos no tecto —, durante algum tempo fiquei triste, mas acho que foi o amor mais perfeito que já tive, tão puro que não precisava de quase nada. Não havia o tocar, o cheiro, a roupa entre os dedos, para mim bastavam as palavras que ela escreveu, de saber que gostava de mim. O resto era demasiado real, e eu ainda não sabia como lidar com isso, percebes?
— Sim — respondeu Maria. — E a carta, sabes onde está?
— Não, não sei, apesar de a ter guardado durante muito tempo.
— Estás a brincar — disse ela de olhos muito abertos.
— Não. Durante anos guardei-a a numa gaveta de uma escrivaninha que havia no meu quarto. Lia-a imensas vezes, tantas que o papel começou a rasgar-se nos sítios onde estava dobrado. Gosto de pensar que se desfez em pó, que um dia lhe toquei e as palavras desapareceram à frente dos meus olhos.
— Só tu, só mesmo tu — disse ela a sorrir. — E a rapariga? Continuaste a fugir dela?
— Sim, continuei — disse ele, enquanto tapava a cara com as mãos. — Mas a história não acaba aqui.
— Não? — perguntou ela intrigada.
— Não. Se o mundo, se a vida fizesse sentido, nunca mais a tinha visto, ou se calhar tínhamos vivido um romance trágico, um amor como os dos livros.
Maria conteve a curiosidade, deixou-o continuar.
— Um dia encontrei-a numa festa, acho que devia ter uns dezasseis anos. Nunca mais tínhamos falado, se é que alguma vez o fizemos. Eu pouco sabia dela.
— E o que aconteceu?
— Ela veio chamar-me para dançar, mais do que uma vez. Quando dei por mim estava mais perto do que alguma vez tinha estado. Senti o calor dela na minha cara, senti-a a respirar, senti o corpo junto ao meu. E por um momento, tudo à nossa volta desapareceu, só havia a música, e nós dois a rodar. Então aproximei os meus lábios dos dela devagar, tão perto que ela me beijou. Um beijo que soube a medo.
— A medo? — perguntou Maria.
— Sim, a medo. Não sei explicar melhor. Foi um momento mágico, mas havia algo, alguma coisa que eu não cheguei a perceber. Se calhar foi só de já não termos nove anos, ou então outra coisa qualquer. Não sei, não sei o que foi.
— Viste-a mais alguma vez?
— Sim, nesse mesmo dia, à noite. Não tive coragem de lhe dizer nada, nem sei se queria. Depois disso nunca mais a vi.
Maria ficou pensativa.
— Esse beijo, esse encontro quando já eras mais velho, não faz sentido. Isso que contaste não faz sentido.
— Eu sei Maria. Não penso muitas vezes nisto, não sei porquê esqueço-me desta história, mas sim, foi estranho.
Maria levantou-se, obrigando João a sair do seu colo.
— Bolas, tenho que ir comer um chocolate, queres? — perguntou ela, tentando segurar o riso.
João sentiu um arrepio, um sabor na boca, que desaparecia devagar. Depois riu-se também, e esqueceu-se outra vez.
— Sim, também quero chocolate.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Mudança

Desde que tinham entrado no carro Margarida estava calada, sempre com a cabeça encostada ao vidro. Rui repetia em voz baixa o convite que não tinha planeado, tentava perceber o que queria, entender o desejo, a falta de calor.
— Para onde estás a olhar? — perguntou quase irritado.
— Estou a contar as luzes ao longe — respondeu ela sem virar a cara. — Não me digas que nunca o fizeste.
— Quando era criança — disse pensativo —, agora esqueço-me, esqueço-me de o fazer.
Margarida endireitou-se no banco.
— Porque é que me pediste para vir contigo? Nós acabámos de nos conhecer.
— Porque é que aceitaste? — perguntou ele.
— Disseste que me mostravas um sítio secreto, como podia resistir?
Rui acendeu um cigarro, inspirou-o lentamente e ofereceu-o de dedos esticados. Ela recusou. Ele respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Soube no momento em que te vi — disse, enquanto mudava a música. — Quis perguntar-te logo, ainda não tinha ouvido sequer a tua voz.
Margarida não respondeu e virou-se outra vez para a noite.

A areia era grossa, daquela que não se solta da pele. Os dois olhavam o céu deitados de barriga para cima. Margarida tentava lembrar-se do nome das estrelas, mas tinha sido há demasiado tempo. Deitou-se de lado antes de começar a falar.
— Quando é que é suposto começar a cena romântica? — perguntou num tom divertido.
Rui desatou a rir.
— Não é suposto Margarida, acredita que não é suposto — respondeu.
— Qual é a tua história? — perguntou ela com um ar muito sério.
Rui voltou atrás, a um livro de banda desenhada que lera quando tinha treze ou catorze anos. No alto de um prédio um homem rezava, pedia perdão pelo que ia fazer, olhava os carros lá em baixo e ganhava coragem. No último momento arrependia-se, desejava viver, abraçar a mulher, proteger os filhos ainda pequenos. Mas o vento não o ouvia, empurrava-o para o vazio, quase sem tempo para gritar. O livro acabava em tons de vermelho, sobre a neve que cobria a cidade.
— Eu trabalhei no metro — disse ele de repente.
— E? Não estás à espera que eu diga nada, pois não? Para mim é um trabalho como outro qualquer.
Era a brusquidão dela que o atraía.
— Posso continuar? — perguntou, fingindo estar zangado.
— Sim, desculpa — disse ela envergonhada.
— Um dia atirou-se um homem para a linha, mesmo à frente do metro. — Fez uma pausa antes de continuar. — Eu não consegui parar o metro, não dava para parar.
Margarida agarrou as mãos dele, estavam suadas e frias.
— Rui, tens a certeza que queres falar nisto?
Ele baixou a cabeça e continuou.
— Tiveram de me tirar de dentro da carruagem em braços. Fiquei paralisado, na expressão do homem que saltou, nos olhos dele nos meus. — Fez outra pausa, para recuperar o fôlego. — Foi a última coisa que ele viu, o meu olhar assustado.
Uma onda rebentou e encheu a noite de pequenos salpicos, de sal que se conseguia sentir lambendo as gotas nos lábios. Margarida juntou-se a ele, abraçou-o com força e esperou que ele continuasse.
— Dois anos! Dois anos Margarida! Foi o tempo que aguentei, todos os dias, estação a estação, sempre a olhar as pessoas, sempre a tentar adivinhar, sempre com um frio no estômago.
Outra onda rebentou com força, como se o mar sentisse o medo. Margarida desistiu de todas as palavras em que pensou, do consolo que não sabia como dar, encostou-se apenas a ele e ouviu o seu coração acelerado.
— E depois? — perguntou ela.
— Um dia conheci um senhor, um homem na paragem do autocarro. Ele meteu conversa, já nem me lembro sobre o quê, só sei que acabei a contar-lhe da minha prisão, dos meus dias sem fim. Acho que ele me fez lembrar o meu avô, ele conseguia sempre fazer conversa com as pessoas na rua.
— Conheço o género — disse ela a sorrir. — Mas e depois? Disse-te alguma coisa que te ajudou?
— Contou-me uma história, sobre uma briga que tinha tido com um amigo de infância. Uma coisa estranha, conheciam-se desde sempre, mas um dia começaram a discutir por causa de algo sem importância e acabaram à pancada. Quando os separaram praguejaram, disseram o que não sentiam, amaldiçoaram-se mutuamente.
— Homens! — disse ela com um ar de reprovação.
— Pois, homens — disse ele sem convicção. — Mas o outro, o que tinha sido amigo do senhor que me contou a história, parece que lhe lançou uma praga muito estranha.
— Como assim? — perguntou ela intrigada.
— Disse-lhe que no dia em que iria morrer, que nesse dia ouviria uma determinada música antes de morrer.
— Uma música? — perguntou ela, cada vez mais curiosa.
— Sim, uma música. Ele até me disse qual era, mas sinceramente não decorei.
Margarida ficou em silêncio. Pensou como reagiria a algo assim, como seria viver cada dia à espera de uma música, que anunciaria a sua morte.
— Sabes o que é que fez o senhor a quem foi lançada a praga? — perguntou ele.
— Não consigo imaginar — respondeu ela. — Passou a viver apavorado?
— Não! — disse ele com um ar triunfante. — Sabes o que é que ele fez? Eu não acreditei quando ele me contou.
— Conta-me Rui! — gritou ela impaciente.
— A partir desse dia, logo na manhã seguinte, a primeira coisa que ele passou a fazer foi ouvir a música, a que o devia matar.
— Bolas! — exclamou ela. — Ele enfrentou o medo, imagino até que o tenha feito desaparecer. Já o estou a ver, a colocar a agulha sobre o disco, um ritual que às tantas deixou de fazer sentido, que continuou só por hábito.
Rui olhou-a, escondendo o resto da história durante um minuto.
— Não Margarida, ele contou-me, que não havia um só dia, um único dia, em que não sentisse medo, quando a música começava a tocar.
Margarida sentiu a respiração de Rui, a vontade, o pavor de continuar sozinho. Sorriu antes de falar.
— Deixaste o emprego no metro no dia seguinte, não deixaste?
Rui esperou um segundo, para sentir que era verdade.
— Sim, desisti.

Margarida olhava as luzes outra vez. Inspirava o fumo que enchia o carro, que lhe lembrava as viagens com os pais, ela e a irmã à espera do cheiro de um fósforo riscado, da madeira a arder, do ardor na garganta. Encostou a cabeça no ombro de Rui e fechou os olhos. Deixou-se embalar pelo caminho.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Violeta

A mulher vestida de cinzento lembra-me a minha tia Inês, traz-me o seu sorriso de volta, as suas histórias contadas, repetidas vezes sem conta, até já não ter coragem de pedir. O autocarro embala-me a manhã, mergulhando-me em sonhos, afastando o acordar. Lembro-me da minha história preferida.


Era uma vez uma menina, uma princesa que vivia num lugar distante, um mundo feito de erva verde, de montes redondos que escondiam o Sol. A menina chamava-se Violeta, um nome escolhido pelo vento, trazido em murmúrios, no barulho das folhas, da água a correr. Violeta não era filha de um Rei, não conhecera sequer o colo de uma mãe, uma Rainha de coroa dourada, vestida com roupas de seda. Era apenas uma princesa, uma menina, mas senhora de um mundo, de campos que não tinham fim. Nesse mundo não havia noite, só a manhã e o entardecer, só o momento antes da primeira estrela, que chamava a luz outra vez, girassóis gigantes que dançavam sem parar, quase sem descanso, num reflexo eterno. Um dia Violeta conheceu um rapaz, ainda não era um homem quando o descobriu, com uma pequena barba de pêlos louros, trepando às árvores, saltando nas pedras do rio. O rapaz era delicado, educado, ensinado a encantar, virtudes que não faziam sentido no mundo de Violeta, que se apaixonara sem as perceber, mesmo antes de descobrir o que escondiam. Ela ficou presa nas palavras, nas aventuras, em reinos longínquos, em histórias de amor, mas também num raro saber, de conseguir ver melhor, de contar mais cores nos insectos, no apontar de uma flor, de um pôr-do-sol, que nunca chegava a acontecer.


O autocarro trava bruscamente. Sinto uma dor no estômago, um murro invisível, igual ao que sentia, no momento em que o mundo perfeito da menina ruía, nas palavras da tia Inês, quando eu só suportava ouvir o resto, de mãos muito apertadas nas dela.


Uma cor apareceu pela primeira vez, desconhecida, perigosa. Violeta espreitou escondida, não por medo, que não conhecia, não por desconfiança, que não existia, só pelo estranhar, dos braços enormes, cheios de pêlos, só pelo tom da noite, que nunca caía. Aproximou-se devagar, do monstro que era o rapaz, sentiu o cheiro intenso, um odor vermelho, um desejo, que não a conseguiu afastar. O monstro feriu-a, rasgou-lhe a carne, magoou-a para sempre, para ela não esquecer, um último aviso, antes de se transformar, da pele branca voltar a brilhar. O rapaz tocou a ferida, fechou-a com um sopro, mas a cicatriz nunca mais desapareceu. Violeta enamorou-se outra vez, sem o ter deixado de estar, sem esquecer, por nada haver a lembrar. Acreditou, fechou os olhos e ouviu, viu o seu mundo perfeito a brilhar, sentiu algo novo, a primeira vez, o descobrir, o começar. Deu uma das mãos ao rapaz, a outra pousou-a no chão, onde uma trepadeira nascia, procurando um tronco de árvore. A planta enrolou-se no seu braço, apertando-o com cuidado, subindo devagar, sem tocar na cicatriz, até o tapar quase todo, prendendo-a, com medo de a perder. O dia nasceu, sem nunca ter adormecido.


Um bêbado grita, berra, chama pela mãe, ajoelha-se no chão e reza, antes de começar a chorar. O autocarro arranca, deixa para trás o homem, deitado no chão, de olhos no céu. Eu ganho coragem para continuar, inspiro o fumo dos outros, entorpeço os sentidos, tento fugir de mim, para conseguir.


Um bramido fez Violeta correr, pedir, que pudesse estar a sonhar. O monstro tinha as garras espetadas num alce, um amigo antigo, sem tempo de ver, de olhar o mundo à sua volta, com os olhos fechados à força, com um último respirar, do seu próprio morrer. O monstro devorou a carne voraz, cresceu o peito para cima, queimou a terra à sua volta, um desafio em fúria, feito de medo, de ira, de tudo o que não podia existir ali, abrindo uma ferida, que nunca iria sarar. Violeta ficou parada à frente dele, chamou o rapaz uma última vez, por uma resposta que não podia esperar. Tocou-lhe no pêlo com o braço ferido, hesitando só por um fragmento de tempo, antes de se despedir sem mágoa. O monstro era duas vezes maior, mas ficou junto ao chão, aceitando o castigo, pelo qual sempre esperou. Violeta viu os olhos do rapaz, antes de gritar em silêncio. A besta elevou-se no ar, escondendo a dor, quando ouviu as palavras antigas, que o transformaram em pó. A princesa ajoelhou-se, ordenou ao vento que soprasse forte, que afastasse a cor escura do seu mundo. O vento obedeceu, levou com ele o que antes tinha sido o monstro, o rapaz, as histórias, a dor, a cor, a água fria, o belo, o disforme. Cobriu o céu com o pó negro, e fez a primeira noite. A menina, a princesa, deixou por fim as lágrimas caírem, mil lágrimas brilhantes, que se partiram cada uma em outras mil, e essas em outras, até ao fim do tempo. Entregou-as também ao vento, que as espalhou na noite escura, criando as estrelas.


Desço para a rua, e espero o anoitecer. Dói-me esta história, sempre me doeu esta história, mas imagino a menina a olhar o céu, a sorrir, a fazer desenhos com os dedos no ar, unindo as estrelas na forma de um monstro, na forma de um rapaz.

terça-feira, dezembro 04, 2007

O Quarto Lilás

Os olhos de Maria procuravam no escuro, sabia de cor as paredes, a arca dos brinquedos, o cavalinho de madeira escura. Conseguia ouvir os pais na sala ao fim do corredor, o passar das folhas do jornal, a colher na chávena de chá, o bule pousado devagar. Tinham-se habituado aos silêncios da filha, pequenos passos na alcatifa, num correr abafado, e a segredos escondidos, por trás de um sorriso irrequieto. Maria tinha apenas quatro anos, mas explorava a casa como se fosse uma caçadora experiente, esperando, observando, descobrindo os cheiros, caminhando devagar, por entre as ervas secas da savana. No quarto, um barulho trouxe o medo, a barriga fria, duas mãos esticadas, num abraço esperado. Dois olhos brilharam, por cima de dentes aguçados, de dedos deformados, em garras afiadas, de um tocar gentil. Maria não conteve um grito, um desejo que se transformou, que chamou os passos pesados na madeira. O pai acendeu a luz, antes de uma prece rápida, por não conseguir perceber. A mãe caiu em desmaio, ao ver as mãos da filha, vermelhas de sangue vivo, que escorria até aos seus pés. Maria chorou baixinho, quando ouviu um esconder apressado, seguido de uma porta fechada.

— Queres esperar? — perguntou João.
Maria não respondeu, ficou parada no princípio das escadas. A casa por fora estava na mesma, a madeira pintada de branco, o telhado feito de telhas negras. Pelas janelas conseguia ver os cortinados de rendas perfeitas, pequenos desenhos que lhe traziam imagens à cabeça. Lembrava-se da mãe a bordar, de se deitar no seu colo, fugindo da sombra no chão, fechando os olhos para o Sol.
— Não acredito que ele não a tenha vendido — disse quase a chorar. — Não acredito que ele não tenha dito nada, mesmo nestes últimos anos. Achas que era por isso que ele sorria, mesmo antes de fechar os olhos?
— Não sei mana, não sei — disse João, ao mesmo tempo que olhava intrigado para a casa. — Acho que ninguém podia adivinhar, depois de tudo o que se passou.
Maria olhou para ele, à espera da pergunta.
— Maria...
— Nunca perguntaste João, tu nunca perguntaste — disse ela olhando-o nos olhos.
— Sim, eu sei... bolas! Tu tinhas quatro anos, eu nem sei o que te perguntar. — Subiu dois degraus sem reparar. — Eu já nasci com o segredo guardado, para mim não era sequer uma hipótese perguntar.
— Eu lembro-me de tudo — disse ela, ao mesmo tempo que subia também os degraus. — Lembro-me de tudo o que se passou naquela noite.
— A sério? — perguntou ele.
— Todos os dias da minha vida, todos os dias da minha vida.
— O que era? — perguntou, relembrando os medos de criança, de histórias assustadoras, que não lhe souberam explicar. — Quem estava contigo no quarto?
— Um amigo João — disse ela, enquanto subia mais um degrau, aproximando-se da porta da entrada. — Era apenas um amigo.
— Mas era real? — perguntou ele, pedindo desculpa com o olhar.
Maria sorriu.
— Para mim era João, para mim era.
Subiram até um pequeno alpendre, empurraram a porta pintada de verde, de tinta ressequida que lhes sujou as mãos. Sentiram o cheiro do pó, de anos de vazio, de silêncio forçado. João entrou à frente, protegendo a irmã, escondendo o medo.
— Onde é o quarto?
— No fim do corredor — respondeu ela, enquanto passava à frente dele, correndo até a uma porta fechada.
— Maria, queres entrar sozinha? — perguntou ele, tentando adivinhar qual era o desejo da irmã.
Ela sorriu outra vez.
— Não João, podes entrar comigo. Só preciso de me lembrar, de ter a certeza, de que nunca me vou esquecer.
— Mana...
— O que foi? — perguntou ela, disfarçando a impaciência, com a mão no puxador da porta.
— Obrigado por partilhares isto comigo, por me levares nas tuas aventuras.
— Tonto — disse ela a rir, com os olhos cheios de lágrimas. — Anda, não vais acreditar na cor das paredes.

terça-feira, novembro 27, 2007

Fado

Três mulheres esperavam encostadas à parede. Sentadas num banco de madeira esfregavam os pés, escondiam as meias cheias de buracos. Estavam todas vestidas de negro, como se o sentir da música a isso obrigasse. Rui não gostava de fado, só sentia falta do cheiro das velas, do vinho vermelho no copo, do sabor a cortiça enrolado na língua. Desde que chegara pouco comera, meia morcela assada, duas fatias de pão mal cozido, e azeitonas, muitas azeitonas. Prometeu a si próprio que só tinha de esperar mais uns minutos, a Lurdes ia cantar, e ela chorava sempre no fim.
O frio da rua recebeu-o, roubou-o ao calor da lareira, das braseiras escondidas debaixo das mesas. Desceu a Rua do Alecrim, contando as moedas perdidas nos bolsos, sonhando com o fim da noite, com Licor Beirão na tasca do Silva, antes do demorado adormecer.
Um homem. Estava um homem à beira da estrada, com metade dos sapatos fora do passeio. Um carro parou perto dele, julgando que queria atravessar. O homem sorriu, de forma gentil indicou a passagem, o caminho que nunca estivera tapado. O carro arrancou, apenas para logo travar bruscamente, por causa de um rapaz louro que passou a correr, que nunca chegou a perceber, que ali, num segundo, cabia toda a sua vida.
Rui olhou para o homem, estava vestido com um sobretudo preto, cabelo curto, mãos nuas, sapatos engraxados. Dirigiu-se a ele.
— O rapaz podia ter morrido — disse, sem coragem de atravessar a rua.
O homem olhou espantado.
— Vês-me criança? — perguntou em voz alta.
Rui não respondeu, ficou paralisado com o grito.
— Responde-me! Tu consegues ver-me? — gritou outra vez.
Rui aproximou-se. O medo desapareceu, no momento em que percebeu.
— Tu és o destino — disse com uma voz calma.
O homem sorriu, cresceu numa gargalhada, num riso aos soluços.
— Anda, vem comigo — disse, começando a andar.
Caminharam em silêncio durante mais de uma hora, numa noite sem lua, sem barulho de animais. Os homens do lixo sacudiam os contentores para os camiões, as ruas eram lavadas com mangueiras compridas, água suja que escorria para as sarjetas. Rui guardou as perguntas, esperou em nervos, numa ânsia disfarçada.
Perto do rio o homem parou e tirou-lhe o cigarro da boca.
— Isso vai acabar por te matar.
Rui olhou para o chão. Pisou a beata, esmagou-a de raiva.
— Calma, era só uma expressão — disse o homem a rir.
— Mas não está já escrito? — perguntou com medo.
O homem ficou calado. Rui não aguentou.
— Não percebo. Se tu... se está escrito, porque é que tens de intervir? O rapaz louro... ele devia ter... não era isso que estava... não era isso que devia ter acontecido?
O homem continuou calado.
— E eu? São os cigarros, o vinho? Não tenhas pena de mim, por favor, tudo menos pena. O destino é isso, não é? Tudo está escrito, páginas e páginas, com tudo o que aconteceu, com tudo o que vai acontecer.
O homem puxou-o com força. Agarrou-lhe a cara com as duas mãos.
— Rui, tu tens um dom, vês o que os outros não conseguem. Não estragues tudo, são demasiadas respostas.
Afastou-se, depois de um beijo, um toque de lábios, sem calor nem frio. Rui ficou a vê-lo a ir, resistindo ao chamar, agradecendo baixinho. O vento trouxe palavras, que mal conseguiu ouvir.
— São acertos criança, são só pequenos acertos.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Tudo o que somos

Sentei-me à espera do metro. Passei as mãos pelo cabelo, apenas para respirar fundo, para lembrar a mim mesmo que estava triste. Ao meu lado estava uma senhora, uma mulher de cabelos brancos com as mãos aquecidas debaixo de um xaile. Passou um homem vestido com um casaco creme e atirou uma moeda para a frente dela. Olhei para o chão e vi um pano cinzento cheio de moedas, demasiadas moedas. Dei por mim a falar, antes de ganhar coragem para o fazer.
- Desculpe, isso não é seu, pois não?
Ela esboçou um sorriso muito leve. Respondeu de olhos nos meus.
- Já cá estava quando cheguei, mas não tinha moedas, deve ser do cabelo comprido.
Não percebi o que ela dizia.
- Como assim?
Ela repetiu com paciência.
- Disse que deve ser do cabelo comprido, as mulheres mais velhas não o usam comprido, muito menos sem o pintarem.
Achei que o silêncio falava por mim, dizia que eu percebia. Passaram duas raparigas por nós e cada uma delas deixou uma moeda. A senhora agradeceu, desejando sorte e saúde. Eu voltei às perguntas.
- Estão aí muitas moedas. Há quanto tempo está aqui?
Ela olhou para um relógio pequeno que tirou de um bolso.
- Há umas duas horas. É de facto muito dinheiro.
Tentei contar, ela interrompeu-me.
- E tirei de lá as notas, o metro a passar fazia-as voar.
Rebentei de ansiedade e falei em voz alta.
- Eu sou invisível, sabia?
Ela não se assustou e falou devagar.
- São como os bares dos filmes, não são?
Não percebi a pergunta, ela explicou antes de eu perguntar.
- Os transportes públicos, acho que são como os bares dos filmes, aqueles onde há sempre um conselho atrás do balcão.
Sorri para ela antes de continuar.
- Sinto-me invisível, sinto-me vazio, sem nada a que me agarrar. Às vezes acho que não existo para os outros, que acabo sempre sozinho.
Ela olhou para mim sem expressão. Tive medo.
- Não me vai dizer que devia dar graças por tudo o que tenho, pois não?
Ela não respondeu. Eu continuei.
- Não me vai dizer que as pessoas é que criam os problemas, vai?
Senti uma mão quente na minha.
- Não, não vou. Queres ouvir uma história?
Disse que sim. Ela inspirou antes de começar, eu percebi que não a podia interromper.

Contou-me que tinha nascido numa aldeia muito longe, a terra dos dias compridos, como lhe costumava chamar. Todos trabalhavam a terra, endureciam as mãos na enxada, vergavam as costas até não se conseguirem endireitar. Era gente pobre, gente de pouca conversa, que as palavras secavam a boca, mesmo a quem tinha pouco que dizer. Ela tinha nascido de destino já feito, entre casas de pedra escura, de barulhos de cascos no chão, de água sempre fria, de jantares em silêncio, de velas contadas para a noite, do adormecer no escuro, de orações repetidas, sem ter nada que pedir, enquanto o terço escorregava entre os seus dedos de miúda. Um dia, devia ter uns doze anos, chegou à aldeia um rapaz. Diziam que era filho de um padre, que o mandara para ali antes de se matar, por não aguentar a vergonha. O rapaz ficou a viver em casa de um prima do padre, que se passou a vestir sempre de negro, mas que não conseguia esconder o ouro, os fios brilhantes entrelaçados ao pescoço, uma riqueza que viria a amaldiçoar. Uma noite, pouco tempo depois do rapaz ter vindo para a aldeia, o pai dela entrou em casa a falar muito alto, tão alto que ela parou de rezar. Encostou-se à porta do quarto e ouviu-o a contar à mãe o que andavam a dizer sobre o rapaz, que ele não era normal, que tinha um pacto com o diabo, que os animais gemiam de medo quando passava, que as árvores perto do riacho estavam a secar, desde que ele começara a passar os dias deitado perto da água. Mas o pai tinha mais para contar, lembrava-se que tinha baixado a voz para ela não o ouvir, mas que não tinha obedecido ao medo e ouviu, o pai falou muito baixo, mas ela ouviu. Todos comentavam que o rapaz não tinha sombra, que não deixava pegadas atrás dele, mesmo quando caminhava na lama, que a sua voz não voltava com o eco, o seu sopro não fazia tremer a chama das velas, que o caminho dele não ficava marcado no mundo, como os espíritos que o terço afastava. Nunca tinha ouvido o pai tão preocupado, o que só compreendera mais tarde, pois aquele mundo fechado, aquele mundo que era igual desde sempre, tinha sido abalado, tinha sido perturbado no seu equilíbrio. No dia seguinte saiu de casa sem avisar, desafiando o que sabia ser a vontade do pai, correu em direcção ao riacho sem saber porque o fazia, sem conseguir deixar de o fazer. Ao chegar viu que as árvores estavam despidas de folhas, mas que pequenos rebentos verdes nasciam nos ramos. O rapaz estava sentado numa pedra. Ela chegou perto dele e tocou-lhe, para saber se era verdade, para saber se ele existia. Ele esperou que ela sentisse o calor, antes de lhe agarrar o braço com força, antes de a magoar sem maldade, de a ferir com cuidado. No dia seguinte ela fugiu, com a ajuda do choro escondido da mãe. Só voltou à aldeia dez anos depois, a tempo de ver o pai sorrir pela primeira vez na vida, antes do seu último suspiro. O rapaz tinha desaparecido pouco tempo depois dela ter fugido, ninguém sabia o que lhe tinha acontecido.

O metro apitou antes de fechar as portas e eu voltei a mim. A senhora agarrava o pulso direito com a mão esquerda. Eu precisei de ter a certeza, para acreditar.
- Posso ver?
Ela não respondeu. Puxou a manga da camisa para trás e mostrou-me o braço. Não tinha nenhuma marca, só o passar dos anos, escritos na pele branca e enrugada. Fiquei preso numa vertigem, tentando perceber o sentido.
- Mas o seu braço não está marcado.
Ela sorriu.
- Pois não, mas não há um dia que passe que não o sinta.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Julieta

Julieta era uma rapariga muito magra, de braços finos e dedos compridos. Tinha olhos negros, muito negros, que quase desapareciam na cara. Todos achavam que sofria de alguma doença, de um mal que a iria consumir, dia após dia, ano após ano, até morrer num suspiro, num sopro que não se conseguiria ouvir. Ninguém sabia a verdade, Julieta, como outras raparigas de olhar triste, era uma fada. No Inverno costumava passear sozinha, pouco depois do sol nascer, corria por entre os arbustos de braços abertos, sem tocar as gotas presas nas folhas. No verão respirava o ar quente da tarde, tossia a terra seca, o pó que se levantava com o bater dos pés. De dia andava descalça, de pedra em pedra, sorrindo para o seu reflexo no rio. À noite calçava sapatos brilhantes, por cima de pequenas meias, com delicadas rendas nos tornozelos. Julieta esperava um homem, mesmo sendo ainda uma criança, porque as fadas nunca são mulheres. Um sonho que trouxera o castigo, de viver longe do bosque, sem nunca mais poder voltar. As fadas não crescem, mesmo as amaldiçoadas, as que sangram no corte de uma folha. São crianças para sempre, presas em corpos delicados, que mostram os primeiros sinais de amor, que querem explodir de sentir, proibidas de o ser. Julieta sabia que um dia iria morrer, fecharia os olhos distante, mas acreditava, sem se arrepender, no sonho de um homem, com as mãos nas dela. Por isso cantava, repetia em voz baixa, no medo de não conseguir.

vem meu amor
sente a minha mão
ajoelha-te num pedido
em palavras sem fim

vem meu amor
que a morte corre veloz
para me roubar a vida
que eu prometi guardar

vem meu amor
encosta o teu peito ao meu
sente o calor do sol
antes do frio da noite

sábado, novembro 03, 2007

A Rapariga Sem Nome

— Sua puta! — gritou o homem do casaco preto, ao mesmo tempo que acertava na cara da rapariga do cachecol verde e lilás. — Não pediste àqueles dois armados em hippies. Filhos da puta de meninos da mamã.
A rapariga dirigiu-se ao casal vestido com roupas largas e coloridas. Eles deram-lhe mais sorrisos do que dinheiro. Acho que tiveram pena. O homem continuou a praguejar.
— Merda, assim não consigo. — Largou a guitarra e levantou-se enquanto gritava. — Vou ver se como qualquer coisa. Vê lá se tomas conta das coisas. Puta distraída, andas sempre com os cornos noutro mundo.
Não resisti e aproximei-me.
— Porque é que deixas ele tratar-te assim? — perguntei eu, depois de lhe ter dado duas moedas, de lhe ter tocado nas mãos.
— Ele não é sempre assim, falta-lhe... ele ainda... ele ainda não comeu.
A resposta era envergonhada, mas ela nem por um segundo baixou a cabeça. Não estava a mentir, sabia o que eu sabia, o que todos sabiam.
— Não vejo o que vês — disse eu.
— Não tenhas pena de mim — disse ela de forma calma. — Foi ele o primeiro, o único que me ouviu, que escreveu para mim, as canções... as músicas que eu esperava desde sempre.
Lembro-me dos olhos cinzentos, daqueles que se misturam com todas as outras cores. A cara dela mostrava o pouco que tinha, magra, seca, queimada do sol. Mas não apagava a beleza, era impossível esconder, o que ela parecia determinada em esquecer. Os dedos da mão esquerda estavam quase castanhos, marcados por demasiados cigarros.
— Não os consegues fumar, pois não? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Ela riu-se.
— Foda-se! Não consigo mesmo, alguns só lhes dou uma passa para os acender, essa merda faz mal aos pulmões.
— Tu também não... — Arrependi-me. — Desculpa, não tenho nada a ver com isso.
— Deixa, não há problema. Sim, não fumo, não bebo e não me drogo. — Inspirou o ar da noite antes de continuar, a noite que eu não tinha visto chegar. — Por outro lado vivo na rua, com um músico drogado, bêbado e que ainda por cima me bate, por isso não me dês já os parabéns.
Rebentámos numa gargalhada a dois, depois de um segundo de riso contido.
— Como é que ele se chama? — perguntei, estranhando a minha curiosidade.
— Fernando — respondeu ela pensativa, como quem tem algo mais a dizer. — Fernando, Fernando, senhor Fernando, que me tem presa num feitiço.
— E como é que ele te enfeitiçou?
Ela sorriu, e eu senti o coração apertado, por saber que nunca mais a ia ver.
— É engraçado — disse ela meio a rir.
— Então? — perguntei.
— Devia ter sido ao contrário. Ele ouviu-me um dia a cantar, sentada ali em cima no miradouro. Sabes onde é?
Eu acenei que sim, mentindo só para ela não parar a história.
— Esteve uma hora a ouvir-me escondido, pelo menos foi o que ele disse. Uns dias depois encontrou-me no mesmo sítio. Trazia com ele um monte de folhas todas amarrotadas, escritas a lápis com uma letra muito bonita. Contou-me que não dormia há dois dias, que só pensava em mim, que tinha escrito e composto sem parar, que eu o inspirava. Pediu-me que fosse dele, muito antes de me beijar.
Fiquei a olhar para ela, contendo as lágrimas, invejando a sorte deles.
— Deve ter sido especial — disse, sentindo o vento que passava por ela.
A rapariga sorriu de olhos cintilantes, antes de responder.
— Ainda é... pelo menos quando me consigo lembrar. — As lágrimas correram pelo rosto dela abaixo, riscando o pó e a rua, colados à sua pele. — Obrigada! Obrigada por teres perguntado.
Senti vontade de a levar dali, de a proteger, de lhe perguntar se tinha esperança. Não me atrevi. Ela percebeu.
— Queres ouvir-me cantar?
— E ele? — perguntei com medo que ela desistisse.
— Não te preocupes, ele vai demorar. — Pegou na guitarra e puxou-me pela mão. — Vou mostrar-te o miradouro, aquele que tu fingiste que conhecias.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Tokyo Moon

Num segundo andei para trás no tempo. O medo de sair à rua. A noite só se tornou perigosa por causa de tanto a repetir, mas o tempo disfarçou a verdade, de que nunca iria esquecer. Uma lâmina dançou à minha frente, incomodando-me menos que o cheiro de dentes podres, de riso inventado. Abri a camisa, arranquei botões que caíram ao chão, um de cada vez. Enchi o peito, mostrei o coração em provocação, beijei o ar entre nós. Enlouqueci, por um breve momento enlouqueci. No dia seguinte estava dentro de um avião. Levei mais de um dia a chegar, sem a bênção do sono, contando estrelas através da janela. Desembarquei quase do outro lado do mundo, onde o sol devia nascer, mas só me lembro da chuva. Demorei uma hora para sair do aeroporto, ébrio de sensações novas, de aromas irreconhecíveis, da falta das palavras, substituídas por brilhos sempre presentes. Por várias vezes ajoelhei-me em tonturas, vertigens que me obrigaram a tocar o chão, a sentir o calor das pedras alisadas. A porta giratória apareceu à minha frente, oferecendo uma oportunidade de fuga. Primeiro hesitei, temendo ficar preso, depois saí para a rua, respirei fundo e encontrei a noite. Nada me podia ter preparado. O barulho era ensurdecedor, as luzes lutavam para me cegar, milhões de luzes, de todas as cores. Olhei para o céu, um pequeno pedaço de céu que conseguia ver entre os arranha-céus. Então vi-a, despida das nuvens, escondida atrás de um guindaste. Uma lua perfeita, que me tinha seguido. Corri, atirei-me para a frente de carros que se desviavam sem um protesto, larguei as malas e comecei a rir como um miúdo pequeno. Gritei e imitei barulhos de animais. Era invisível para os estranhos à minha volta. Levantei os braços para a chuva, não havia sentido, só repetia o que vira num filme. O medo estava lá, nunca tinha deixado de estar. Mas a lua era a mesma, o que me trazia conforto. Demoraram dois dias a encontrar-me, no meio do lixo, de comida que não experimentei. A água era demasiado quente, o cheiro a incenso fez-me vomitar. Não compreendi os rituais, como se houvesse algo que não podia levar de volta, como se me obrigassem a ver, a ordem que não podia ser desfeita. Eu não lhes podia contar, que nos libertamos sem saber como. Viajei em silêncio, sem estar sozinho.

quarta-feira, outubro 17, 2007

A Casa Abandonada

Estás sentada num sofá feito de um verde esquecido, tapado por uma manta de cores esbatidas, que os meus olhos ainda vêem garridas. Deixo o tempo passar antes de falar.
— Tenho tão pouco para te dar.
Olhas para mim a chorar. As palavras chegam antes de um beijo.
— E ainda assim é tanto.

No Jardim

— Anda Rui! Despacha-te! Deve estar quase alguém a passar.
Eu olhava para o muro e hesitava, estava coberto de trepadeiras, armadilhas que me podiam fazer escorregar. Foste sempre tu que indicaste o caminho, que desafiaste o medo. Pisei o muro apenas durante meio segundo, num equilíbrio que não podia manter, sem perceber a escolha, antes de decidir saltar. Tu recebeste-me a sorrir.
— Achei que ias desistir — disseste, escondendo o riso. — Pensei que caías para o outro lado.
— Achas que ninguém vai aparecer? — perguntei.
— Não sejas tonto, a casa está abandonada há anos. Só tinha medo que nos vissem a entrar.
— Desculpa — disse envergonhado. — Precisei de ganhar coragem.
Já não te ouvi a dizer que não fazia mal, enquanto corrias por entre as árvores.
— Espera por mim! — gritei.
Estava muito calor e a roupa colava-se ao corpo, num prazer de sentir, de cheirar o mundo à nossa volta. Caminhei atrás de ti de olhos fechados, com as mãos à minha frente, para afastar os ramos da cara. O Sol passava entre as folhas e as sombras tremiam por cima de mim. Imaginei que estava num comboio, que viajava de cabelo ao vento, que esticava os braços num voo fingido. Quase que conseguia sentir o cheiro a queimado, era um comboio antigo, que se alimentava de fogo, e respirava um fumo espesso. Mais uma vez chamaste-me, trouxeste-me até ao teu mundo, que se confundia com o meu.
— Anda ver, descobri um sítio incrível.
Ainda tentei perguntar, o que os teus gritos responderam, enquanto rebolavas por um monte abaixo. Deitei-me e rebolei também sobre a erva alta, perdendo a conta às voltas, rindo sem pensar em mais nada, até a barriga doer, até ficar enjoado, tonto de tanto repetir. Sentámo-nos sem forças, o Sol brilhava atrás de um telhado, brincava às escondidas comigo, mostrando-se sempre só um pouco, mesmo antes de desaparecer. Senti o teu cheiro, que não sabia existir, senti a tua mão na minha, e os teus olhos nos meus, a minha boca na tua, os lábios juntos, as cócegas no pescoço, a roupa amarrotada, um sino de uma igreja ao longe, um último raio de Sol, no meio dos teus cabelos.
— Diz-me! — disse, sem me afastar. — Como é que vai ser quando formos crescidos?
Os teus olhos brilharam.
— Rui, nós nunca vamos crescer.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Mãe

Toda a vida vi a minha mãe a chorar quando lia. Não conseguia tirar este pensamento da cabeça, a livraria estava quase a fechar e eu só pensava nela agarrada a romances antigos, daqueles que pareciam ter tido sempre as folhas amarelas, quase castanhas. Não sei onde é que ela os ia buscar, alguns tinham as capas rasgadas, outros não tinham sequer as primeiras páginas, o que não a parecia incomodar, quase podendo jurar que a maior parte das vezes começava a meio, em histórias já conhecidas. À minha frente vi um desenho que me atraiu a atenção, passei os dedos sobre um relevo que não existia, como se pudesse sentir, para poder escolher. Pequei no livro e dirigi-me ao balcão. Estavam duas pessoas à minha frente, um rapaz que insistia numa queixa qualquer, uma rapariga longe, de olhos muito abertos, que piscavam um de cada vez. Voltei às tardes de criança. Esqueci-me do tempo.
— Boa tarde — disse a rapariga atrás do balcão. — É só o livro?
— Sim — respondi, despertado do sonho.
O barulho da máquina registadora fez-me levantar os olhos, que me levaram a outros em lágrimas. A rapariga tentava secar as gotas que manchavam o vermelho da capa.
— Desculpe, acho que é melhor levar outro — disse ela. — Não faço ideia se vai ficar marcado.
Não resisti à pergunta.
— Posso perguntar porquê?
Ela sorriu antes de responder.
— Não são lágrimas tristes, este livro traz-me boas recordações, sempre que o leio farto-me de chorar.
Lembrei-me da minha mãe, naquele preciso momento lembrei-me de anos de dor.
— Sabe, esse livro é para a minha mãe — disse, de olhos presos aos da rapariga. — Ela chorava sempre que lia.
— Disse que ela chorava, já não o faz? — perguntou ela.
— Acabo sempre a falar no passado — disse eu depois de pensar um segundo. — Acho que o faço de forma automática, aconteceram muitas coisas no passado.
— Eram os melhores momentos, não eram? — perguntou ela num tom impaciente, de quem conseguia adivinhar.
Fui apanhado de surpresa. Nas palavras dela percebi. Levei um minuto a responder. Ela esperou, sem precisar de repetir a pergunta.
— Bolas! Nunca tinha pensado nisso — disse eu com o peito a rebentar. — Sim, eram os melhores momentos, quando a apanhava a chorar, no medo de perguntar, para apenas descobrir, que as lágrimas eram pequenos sorrisos, no sentir de histórias de paixão.
Esperei outra vez, antes de continuar.
— Sim, foram os únicos momentos, em que tenho a certeza que ela estava feliz.
No dia seguinte ofereci outro livro à minha mãe, com uma dedicatória que a fez chorar. O livro de capa vermelha ficou para mim, as manchas das lágrimas nunca saíram, e ainda me fazem sorrir.

quinta-feira, agosto 30, 2007

O Livro Perdido

Desde sempre que existem, não os vemos porque não sabemos como, mas eles caminham na nossa sombra, escolhendo o chão que não pisamos, ocupando o espaço vazio entre nós. Os mais pequenos têm a altura de um arbusto de Fevereiro, nem um cabelo a mais, uma obrigação que não questionam, que os faz curvar, e os afasta do céu. Os maiores tocam as árvores, as folhas mais baixas de um pinheiro com seis anos, esticando-se em dor, longe da terra e do cheiro da erva. A uns chamaram-lhes elfos, duendes, gnomos, seres antigos que conheciam feitiços secretos. Mas eles só guardam o que esquecemos, todas as ideias que temos, mas que não sabemos recordar. Os outros foram trolls, ogres, monstros terríveis, em histórias de assustar. Mas eles só guardam o que perdemos, todas as coisas que pensamos serem nossas, mas que desistimos de procurar. Existem duas salas, a primeira está cheia de livros, folhas antigas escritas à mão, letras desenhadas muito devagar, palavras que se juntam uma última vez, depois da certeza, de que nunca mais serão lembradas. A segunda sala está cheia de caixas, arrumadas por gigantes que não sabem ler nem escrever, que as separam por sons, barulhos que só eles conseguem ouvir. Esta é a história de um livro perdido.


As oficinas

A espera era a melhor parte, antes de tudo começar a ser esquecido, de ser escondido para sempre. O pequeno ser aguardava as palavras, preparava-se para decorar o que não seria repetido, estalava os dedos antes de começar a escrever. Atrás dele outros não fingiam entusiasmo, as ideias eram quase sempre pobres, pequenos recados sem importância, que escreviam sem prazer, mas de forma cuidada. O pequeno ser era o único que sonhava, que acreditava que nem tudo estava escrito no mundo dos homens, que ainda era possível, um último pensamento inspirado, por alguma razão esquecido, que ele tivesse a missão de guardar.

O gigante olhava o monte à sua frente, um trabalho que sabia não ter fim. Agarrou num objecto brilhante e abanou-o junto ao ouvido, fingindo que decidia, antes de o atirar para dentro de uma caixa. Os outros desprezavam-no, invejando a sua sorte, de olhos feitos de esperança, de que um dia iria achar um tesouro, mesmo que há mais de dois séculos isso não acontecesse. Mas o gigante não procurava o que todos pensavam, num desejo que escondia, dia após dia, esperando que ninguém descobrisse.

De repente as palavras pararam, os objectos deixaram de cair, o silêncio instalou-se de uma forma desconhecida. Era um livro, só podia ser um livro. Os dois sabiam, os dois conheciam a lenda, de uma disputa que durara cem anos, para saber quem guardaria um livro, uma história perfeita encadernada a ouro, uma oferta a um Rei louco, que a levara consigo na morte. Os dois esperaram pela decisão, jurando que outros cem anos passavam. Mas desta vez a capa era de cabedal velho. O gigante controlou a dor.


Um encontro raro

O pequeno ser abriu o livro devagar, quase esquecera o toque, habituado às palavras que não eram escritas. Os livros eram quase sempre para os gigantes, sem nada que os distinguisse, contando histórias banais, tantas vezes repetidas, que nunca eram esquecidas. Mas sentia que aquele era especial, pois tinha parado as oficinas, numa dúvida pouco comum, em quem sabia escolher. A primeira surpresa não o desanimou, pois a capa era velha, mas as folhas ainda eram brancas, uma mescla improvável, que tentou não perceber. O segundo olhar trouxe o desconforto, ao mesmo tempo que a porta abanou, no mesmo momento que o livro se fechou. O bater era demasiado forte, obrigando-o a olhar para cima, antes mesmo de abrir. A voz era doce.
— O livro está perdido — disse o gigante sem olhar para ele.
Não havia palavras a mais, os dois só argumentariam por cortesia.
— A escolha foi feita — respondeu calmamente.
O gigante olhou para baixo.
— Não é antigo, pois não?
O pequeno ser respondeu em pose orgulhosa, que não sabia imitar.
— Vocês não deviam vir até aqui.
O gigante sorriu.
— Não é proibido, é errado, mas não é proibido. — Fez uma pausa antes de continuar. — Não é antigo, pois não?
Nenhum dos dois sabia mentir.
— Não, para nós não é antigo — respondeu o ser que tinha a altura de um arbusto. — Como podes saber?
— Porque estive à espera — disse aquele que trazia agulhas de pinheiro presas no cabelo.
— Eu também — disse o pequeno ser.


Uma confiança rara

O convite foi feito, cumprindo as regras que nunca tinham percebido, por não ser possível. O gigante sentou-se no chão, desafiando os seus. O livro foi aberto entre os dois, as páginas viradas à vez, passando pelo que sabiam não ser importante, sentindo a ansiedade do descobrir. Mais de vinte páginas antes do fim, uma, duas, três páginas atrás, seis linhas escritas à mão, no meio do que não tinha sentido, seis linhas que não podiam ter adivinhado, que trouxeram lágrimas contidas, num choro que não sabiam. O desafio chegou sem estranheza.
— Também tens de o copiar? — perguntou aquele que estava sentado.
— Sim, os livros também são copiados — respondeu aquele que teimava em respeitar a altura, o tamanho do segundo mês dos homens. — As cópias são guardadas na primeira sala, os originais são queimados no terceiro forno.
— Este não será.
O pequeno ser não disse nada.


Uma viagem rara

A estrada era quase um mito, poucas vezes falada, feita de perigos escondidos, mas bem desenhada. Pequenas ervas marcavam o caminho, de cada um dos lados da terra batida, sem se atreverem, conservando as curvas do trilho mágico, da única passagem para o outro mundo. Não existiam árvores perto da estrada, como se os bosques tivessem medo, como se tudo pudesse desaparecer. O pequeno ser tentava não ouvir o vento, que trazia promessas difíceis, de clareiras ao Sol. Falou para conseguir.
— Pensas nele?
— Penso no que escreveu — disse o gigante. — Com tão poucas palavras...
— Vocês não sabem ler — disse o mais pequeno dos dois.
— Vocês também estão proibidos de sonhar — disse aquele que tinha de esperar no andar, respeitando as diferenças.
O pequeno ser levantou um pouco a cabeça, quebrando pela primeira vez o juramento. Antes de responder sentiu que podia sorrir, sabia que o outro fingiria não ver.
— Sempre acreditei no sonho, de que algo podia surgir do escuro — disse, voltando aos poucos ao seu andar, feliz pela breve sensação de ser livre. — Só não percebo como se pode esquecer.
— O livro está perdido — disse o gigante quase em sussurro.
O pequeno ser não disse nada. Não tinha a certeza.

A noite caiu, sem estrelas, sem barulhos de animais. Estavam perto da encruzilhada, onde havia uma pedra que tinha sido partida em dez partes iguais, onde um coração tinha sido enterrado. As pedras marcavam diferentes caminhos, que não eram difíceis de escolher, para quem esperara durante tanto tempo. Seguiram pelo terceiro, contando a partir da segunda árvore, no sentido do vento. Faltava pouco, os dois sabiam que faltava pouco.


O menino assustado

O homem estava sentado numa cadeira que baloiçava. Parecia um miúdo, mesmo depois de muitos anos. A pele tinha rugas largas, o cabelo era cinzento, sobre um castanho que desaparecia todos os dias, mas as mãos eram pequenas, como se tivessem desejado não crescer. O pequeno ser reconheceu uma pequena corcunda, vencida mas não esquecida, de quem suportara o peso do mundo, antes de aprender a sentir. Os dois avançaram em silêncio, sabendo que ele não os podia ver, mas esperando pacientemente por um fechar de olhos, um ligeiro dormitar, que recebesse o livro que seguravam. Uma voz afastou os pássaros das árvores, uma mão fechou-se sobre a capa de cabedal. Já não era possível voltar.
— Rui! Rui! Estás aí? Acho que vai chover, senti o vento forte nas janelas.
O homem não respondeu. Uma mulher aproximou-se, pisando a madeira descalça, como fazia quando era ainda uma rapariga.
— Rui, o que se passa? Porque não respondes?
Sentou-se no chão à frente dele, depois de perceber as lágrimas.
Ele abriu o livro, começando a contar as páginas pelo fim. Depois leu devagar, antes de começar a falar.
— Fui eu que escrevi estas linhas — disse, lutando contra o soluçar.
Ela sorriu antes de responder.
— Eu sei Rui.
— Como? — perguntou ele.
— Porque as repetes muitas vezes, quando adormeço no teu colo.
O homem transformou-se num rapaz, num menino pequeno que não se importava de chorar. A mulher era também uma menina, que lhe segurava a mão com força.
— Porque não guardaste o livro? — perguntou ela, ao mesmo tempo que percebeu.
Ele levantou-se e puxou-a para cima.
— Anda, vamos para dentro.
— E o livro?
— Tenho de o perder outra vez — disse a sorrir.


O princípio

O pequeno ser ficou a vê-los entrar dentro da casa de madeira. Falou em poucas palavras, não por cortesia, apenas porque não precisava.
— Não estava esquecido.
Sentiu o respirar por cima dele.
— Não, não estava esquecido.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Lua

A rapariga tinha um lenço feito de vermelho e branco. Atado atrás da cabeça, cobrindo-lhe quase todo o cabelo, escondia desenhos de luas nas dobras do tecido. A pele era escura, os olhos à noite eram pretos, de manhã acordavam azuis, um segredo revelado no meio do riso, um desafio que reflectia a luz de uma fogueira. Uma pedra brilhava no colo, uma jóia de lados iguais, que era impossível contar. Uma pergunta fez-me tremer, quando a mão já não era minha.
- Queres saber o que diz?
A voz traiu-me, no que não sabia.
- Quem é que te disse que eu quero saber o futuro?
Não suportei o olhar, que chegou antes das palavras.
- Eu não falei no futuro, eu não sei nada do futuro. Mas posso dizer quem és... achas que tens coragem?
A pedra rodou e mostrou o quarto crescente. Esqueci-me de mim. Gritei.
- Não te mexas! Por favor não te mexas, tens a lua presa dentro da tua pedra. Não é um reflexo, ela está mesmo lá dentro. Eu... eu não acredito...
Ela ficou quieta. Estava assustada, por saber, por não estar preparada. Mas não precisou de olhar para ver, o que ouvira em histórias antigas, o que era proibido ler. Fechou a minha mão antes de falar.
- Desculpa mas não posso, não tenho nada para te dizer.
Afastou-se meio passo, mas a lua continuava a brilhar. Eu queria ouvir.
- E fico sem saber quem sou?
Ela sorriu, ela apenas sorriu, segurando as lágrimas, apertando os lábios. Eu fechei os olhos no perceber. Aproximei-me. Descobri o seu cheiro.
- Porquê o medo?
- Não é medo, eu não tenho medo, mas...
Uma madeixa de cabelo soltou-se sobre a cara dela. Era áspero. Eu adivinhava os seus pensamentos.
- Mas não nos ensinam a acreditar.
- Não... não ensinam.
A lua escondeu-se entre nós.

sexta-feira, junho 29, 2007

For The Dark Finds Ways of Being

Rui esperava nas escadas, preso entre o dia e a noite, olhando a lua que aparecia por cima das árvores. Pela primeira vez em anos sentia-se bem, sabia respirar o ar fresco que chegava devagar. Não era capaz de dizer há quanto tempo ali estava, sorria ao pensar que podia ser desde sempre, que era capaz de acreditar. Viu um brilho num arbusto e disse as palavras, de quem pede em vez de mandar. A luz escondeu-se, na impaciência de se mostrar.
Margarida aproximou-se em silêncio, com um beijo demasiado perto, e um tocar delicado de dedos compridos. Falou no tempo certo, de quem aprendera a esperar.
- Estás aqui há muito tempo?
Ele sorriu antes de responder.
- Sim, estou. Queres ver uma coisa?
O coração dela bateu mais depressa.
- Sim, mostra-me.
Rui esticou uma das mãos em direcção aos arbustos, a outra ofereceu-a a Margarida, que a apertou com muita força. Ao princípio nada aconteceu, apenas o vento nas folhas, e a noite que continuava a chegar. De repente uma luz, que se acendia e apagava, depois outra, com o mesmo brilho incerto, até que apareceram mais, pequenos pontos cintilantes que se juntaram num só. Rui fechou a mão que estava esticada, e trouxe-a até ao seu peito. Margarida não conseguiu conter um riso, quando a luz se dividiu em mil, numa explosão em direcção a eles, no momento em que a tarde se despediu. Falou sem largar a mão dele.
- Rui, são pirilampos.
Ele aproximou-se dela, sentindo o mundo à sua volta, antes dos lábios se tocarem. Por fim a noite chegou.

segunda-feira, junho 25, 2007

O Aviso

Tenho uma história para contar, uma história que ainda não acabou. Mas primeiro tenho de falar nos livros, nos livros em geral, em todos os que já li, todos os que nunca acabei, ou mesmo os que ainda não abri.

Nunca marquei os livros, desde muito pequeno, quando lia aventuras passadas em ilhas de piratas, de lanches de pão com vegetais frescos, que me pareciam esquisitos, e ao mesmo tempo perfeitos. Nessa altura acabava os livros no dia em que os começava. Acho que foi por isso que ganhei o hábito de não marcar as folhas, porque a maior parte das vezes não chegava a parar. Depois comecei a ler livros maiores, que me passaram a acompanhar durante alguns dias, uns durante semanas. Continuei a não marcar o sítio onde parava, o que me obrigava a procurar, ou então a decorar o número da página, o que hoje não sei se seria capaz, por o sentir tão difícil, um número que não quer dizer nada, no meio de tantas outras hipóteses. Somos estranhos, com a nossa capacidade de perceber diferenças, que temo só existam em nós, como distinguir o lado esquerdo do direito, o azul do vermelho, ou reconhecer um riso no meio da multidão.

Uma noite comecei a escrever, depois de mil tentativas falhadas. Escrevi em dor, no meio de sangue e frio, de perda e redenção, até um final de tarde, em tons de amarelo-torrado. No momento em que acabei percebi, contive as lágrimas no saber, que tinha conseguido dizer o que sentia, mais, que tinha conseguido gritar o que estava tão fundo dentro de mim. Depois desse dia escrevi de forma compulsiva, dizendo o que era impossível de outra forma, sofrendo e sorrindo com as histórias que criava. Mais sofrendo do que sorrindo. E parei de ler. Os livros passaram a ser como portas, aberturas para outras realidades. Bastavam algumas páginas lidas, e começava a criar as minhas histórias, fechando os livros dos outros, que eram apenas pontos de partida.


A história

Três anos depois, um pouco mais talvez, juntei dois ou três livros para as férias, um hábito antigo, mesmo sabendo que não os ia ler. Já com a escolha feita olhei para a estante e hesitei, setecentas páginas pareceram-me demais, mas não consegui resistir. Comecei por esse livro, que falava de magia, de feitiços antigos, de magos e de bruxas. Fiquei preso, sempre foram as minhas histórias preferidas, mas que nunca escrevi, preferindo as pessoas, as experiências que não vivi, mas que consigo contar, por tanto as imaginar. Sorri, por voltar ao meu mundo, por sentir que tinha recuperado uma parte de mim, voando depressa através das páginas, assistindo a bailes no meio de sonhos, num mundo de fantasia, com elfos, fadas, corvos, feiticeiros, espelhos, um mundo onde o bem e o mal não se distinguem, onde é mais difícil escolher o caminho.

Não reparei no primeiro sinal, um pequeno sinal, mas que devia ter observado com mais atenção. Um dedo, como prova de um acordo, um pagamento que seria exigido, num contrato feito só de palavras, e num confiar arriscado. Era esse o segredo de uma das minhas histórias, que chegou na forma de um sonho, o mais completo que já tive, que me fez levantar e escrever, para não esquecer, para conseguir contar mais tarde. Um dedo, que faltava na mão de uma mulher, um pequeno detalhe escondido, que nunca contei a ninguém, um prazer só meu, no criar além das palavras, não dizendo tudo o que sei.

Um dia acordei de outro sonho, no tremer de um beijo, sem conseguir perceber, se o beijo pertencia ao sonho, ou ao meu desejo já acordado, uma diferença enorme, entre o que está no outro mundo, ao que acontece depois, mesmo que no mesmo segundo. Como sempre que acontece, fiquei melancólico, lutando por não ter de decidir, por não ter de saber. Acabei com o livro nas mãos, ignorando o aviso, de que o sentimento de falta é mau companheiro, nas dúvidas que chegam com a manhã.

Foi na página cento e sessenta e quatro. Foi nessa página que tudo mudou, que julguei enlouquecer, por ter a certeza de já ter lido aquelas palavras, de já as ter partilhado, de já as ter repetido vezes sem fim. No medo fechei o livro, senti o coração a bater mais depressa, senti uma vertigem que me fez segurar, um frio no estômago do qual não me consegui libertar. Não percebi o que estava a acontecer, pois apesar de o esperar, ninguém está preparado para ver o reflexo num espelho, sem saber de que lado se está. E ali fiquei, tendo sempre desejado o impossível, sempre chamado o outro mundo até mim, sem saber o que iria sentir, quando o visse à distância de um querer. Quando voltei a abrir o livro, demorei a encontrar, porque não tinha marcado, porque quase posso jurar, que as palavras já não eram as mesmas.

Hoje espero, porque sei, porque é a única verdade que conheço, que algumas vezes, em certos momentos, tudo faz sentido, até que no momento seguinte, a realidade apaga a certeza, talvez por não ser verdade, ou porque ainda não sabemos compreender, enquanto um livro aguarda, com um marcador no meio das folhas, numa página que não decorei.

segunda-feira, junho 11, 2007

À Chuva

João olhava para o mar de lágrimas nos olhos. Desde que chegara à praia que chorava sem parar, perdido no meio de pensamentos que repetia vezes demais, de músicas que já deviam fazer parte do passado. Esperava por Maria sem ter a certeza de que ela ia aparecer, sem saber se ia poder desabafar com a única pessoa que o percebia.
Ouviu atrás dele um barulho de carro a parar, seguido de uma porta que se abriu e fechou. A madeira estalou com o peso de alguém a andar em cima dela. João continuou a olhar o mar, apesar de tudo a ansiedade não era tão grande como antes, podia esperar para saber.
Uma voz chegou, sentida como um abraço, apesar do tom brusco.
— Bolas João! Não podes continuar a fazer isto! Sabes em quantos sítios já procurei por ti?
Maria conhecia-o demasiado bem, o que nem sempre ajudava, em desencontros que a irritavam.
— Desculpa ter desligado o telefone — disse, antecipando a crítica —, não era para que tu não me encontrasses.
Ela sentou-se ao lado dele no banco de madeira.
— Pois, espero que não, depois de cinco mensagens a dizer que precisavas de falar comigo. Não podias ter dito onde estavas?
— Eu não sabia Maria, quando dei por mim estava aqui, nem me lembro bem de ter guiado até cá.
Dos olhos verdes continuavam a cair lágrimas, pequenas gotas que se misturavam com a areia. Ela esperava sem perguntar, os dois eram como dois pratos de uma balança, sempre em posições opostas, sempre em equilíbrio, mas nunca à mesma altura. No último ano era sempre o prato dele que estava em baixo, suportando um peso que Maria não carregava.
— Sabes o meu antigo chefe? — disse ele, tentando controlar o soluçar na voz. — Ontem vi-o no metro.
— Aquele em que bateste?
A recordação ainda trazia de volta o sentimento de raiva, mas que, estranhamente, começava a diminuir.
— Eu não lhe bati — disse sem convicção. — Aquilo foi mais um empurrão, ele é que caiu mal.
Maria largou uma gargalhada.
— Caiu mal? Caiu mal de cabeça, queres tu dizer.
— Tens muita piada.
Ela controlou o riso, recordando os momentos difíceis que o amigo passara.
— Desculpa — disse ela, ao mesmo tempo que lhe roubava uma lágrima da face. — Eu sei que tu sofreste muito por causa dele. Mas porque é que te lembraste disso agora?
João falou devagar, como quem pensa em cada palavra antes de a dizer.
— Vi-o ontem no metro, acompanhado de uma mulher, uma rapariga.
Maria esperou.
— Ela devia ter uns trinta anos, um pouco gordinha, mas não era feia, não era... — Tossiu antes de continuar. — Eu nunca achei que houvesse uma mulher neste mundo que o quisesse, era uma garantia minha, de que a vida podia ser justa.
— Castigando-o? — perguntou ela.
— Sim, castigando-o. Eu sei que não é correcto, que não faz sentido passar o resto da vida à espera de o ver infeliz, mas ali naquele momento não fui capaz de conter a frustração, pela bondade no olhar da rapariga, por uma beleza simples, uma beleza que eu achei que ele não merecia.
— Mas não foi só isso, pois não? — disse ela, ao mesmo tempo que o empurrava com o ombro, tentando acalmá-lo.
João tossiu outra vez antes de continuar.
— Não, não foi. O que aconteceu depois deixou-me desarmado.
— Como assim? — perguntou ela de olhos semi-cerrados, por causa da luz e da curiosidade.
— Maria, eles iam um pouco à minha frente, conversando enquanto caminhavam. Eu não os conseguia ouvir, mas consegui perceber que algo se passava, sentia-se um problema qualquer entre eles, como se um dos dois fosse começar a chorar a qualquer momento.
— E depois? — Maria estava ansiosa, dominando as perguntas com medo que ele se calasse.
— Depois? Depois dei por mim a imaginar o que conversavam, a inventar palavras saídas da boca deles, a ter a certeza que estavam a acabar um namoro, que nem sequer sei se existe.
— E?
— E aí começou o meu problema — disse ele em voz baixa. — Dei por mim a desejar que ela não o deixasse, que resolvessem aquilo, que fossem felizes. Merda! Dei por mim parado nas escadas do metro, a desejar que fossem felizes. Percebes isto Maria? Consegues explicar-me isto? Eu sei que não sou assim tão boa pessoa.
Ela olhou para ele e sorriu. João estava com a barba por fazer, uma barba que começava a ser branca e lhe dava um ar engraçado, pois continuava com um ar de miúdo. Maria tinha a certeza que ele seria sempre assim, mesmo quando fosse muito velho.
— Achas que foi pena? — perguntou ela enquanto lhe dava a mão.
— Não, o pior é isso, tenho a certeza que não foi por pena que senti o que te disse. Sabes, eu odeio aquele homem, eu ainda sinto o coração a bater mais depressa quando me lembro de tudo o que ele fez, de tudo o que me aconteceu depois daquele acidente estúpido. Eu não o desculpo, nem acho que ele seja boa pessoa, mas... mas Maria, ontem, enquanto olhava para ele a conversar com a rapariga, nesse preciso momento, senti... — A voz tremia-lhe e mordeu o lábio de baixo. — Bolas! Queres saber a verdade? Senti-me próximo dele, senti uma vontade enorme de que eles ficassem bem, senti que isso era muito importante para mim.
Maria sorriu outra vez, desejando que ele entendesse.
— Olha, já ouviste falar em pessoas que viajam até sítios sobre os quais leram? — A pergunta pareceu estranha, mas deixou João curioso.
— Como assim? Lês algo que se passou num lugar e depois vais visitá-lo?
— Mais ou menos, começou por ser isso. Algumas agências de viagens começaram a aproveitar o sucesso de alguns livros e depois a organizar viagens que seguiam os sítios onde a história se passava.
— Acho que li alguma coisa sobre isso — disse ele sem perceber porque é que ela se tinha lembrado de falar naquilo. — Sinceramente sempre achei que era o tipo de coisas para turistas americanos, daqueles que andam sempre com camisas coloridas.
— Sim, eu sei — disse ela a rir. — Mas houve quem tivesse agarrado nessa ideia e tivesse se lembrado de uma coisa mais simples.
— Algo mais simples? — disse ele intrigado.
— Sim, a ideia é a de ler os livros num sítio que tenha a ver com o título ou com a história dos mesmos.
João passou as mãos no cabelo, tentado perceber o sentido do que Maria lhe estava a dizer.
— Mas não é o mesmo das viagens?
— Não, nada tão elaborado — disse ela entusiasmada. — O livro fala numa praia, tu só o podes ler numa praia, o título é O Comboio Fantasma, tu...
— Leio-o no comboio — completou ele.
— Mas que não tem de ser assombrado — disse ela. — Percebes? A ideia é ser uma coisa simples.
— Maria, acho a ideia muito boa, mas... — A frase ficou a meio de propósito.
— Queres saber porque falo nisto?
Ele fechou os olhos, por não precisar de responder.
— Lembrei-me de uma pessoa — disse ela, aproveitando para recordar. — Uma pessoa que lhe aconteceu uma coisa, não importa o quê, mas algo que lhe mudou a vida.
— E o que é que isso tem a ver com os livros? — perguntou ele.
— Ele... essa pessoa, ele adorava ler dessa maneira, raramente lia um livro sem seguir o ritual de procurar, embora eu ache que às vezes fazia ao contrário, escolhia primeiro o sítio e depois o livro — disse ela no meio de um sorriso.
João sentiu que percebia, antes de ter a certeza.
— E depois? — perguntou ele.
— Aquilo que eu disse que lhe aconteceu, foi uma coisa muito traumática, muito forte, num lugar onde ele esteve anos sem conseguir ir, até que... João, ele um dia apareceu-me em casa, numa noite de temporal, e trazia debaixo da roupa um monte de folhas escritas à mão.
— O que eram? — perguntou ele impaciente, desejando que ela contasse a história mais depressa.
— João, ele escreveu sobre o que tinha acontecido anos atrás, sobre o que carregava com ele todos os dias. — Fez uma pausa antes de continuar. — Ele foi lá, foi lá onde tudo aconteceu e leu o que escreveu, libertou-se, percebes? Se tu o tivesses visto, chorou a noite toda, parecia uma criança.
João ouvia Maria sem dizer uma palavra.
— De manhã queimou os papéis, disse que não precisava mais deles. — Não conseguiu impedir uma lágrima de cair, João fingiu que não reparou.
— Era alguém muito importante para ti? — perguntou com medo da resposta.
— Sim, mas não dessa maneira que estás pensar — respondeu ela. — Foi o meu pai.
João voltou a olhar o mar, lembrou-se dos últimos dias e do que o tinha levado ali. Lembrou-se de tudo o que não entendia, de tudo o que lhe enchia a cabeça. Pensou na história que acabara de ouvir, mais uma vez sentindo, antes de saber.
— Maria, desculpa mas... é que é disto que eu tenho tentado fugir, de tudo o que parece fazer sentido, dos números que escondem segredos, das palavras que parecem ter sido escritas para nós, das músicas que nos fazem doer o estômago. É de todas as obsessões que tento me ver livre, de achar que num segundo posso mudar tudo, dizendo a mim próprio, vezes sem conta, que não existe uma fórmula secreta para resolver todos os problemas.
— Sim, eu sei — disse ela de forma calma.
— Sabes? Então porque é que me contaste isto tudo? O que é que é suposto eu fazer, agarrar em tudo que escrevi nos últimos anos e ir de sítio em sítio ler sobre cada problema da minha vida?
— Não João, tu já resolveste os teus problemas, só não deste ainda conta disso.
O dia ficou mais cinzento, por causa de uma nuvem que tapou o Sol, uma ameaça de chuva que os fez sorrir aos dois, no recordar de tardes de Inverno, em corridas de perder o fôlego.
— Maria, às vezes tenho vontade de te beijar.
Ela sorriu envergonhada, mas sem desviar os olhos dos dele.
— Não sei porque demoras tanto.
A chuva começou a cair.