quarta-feira, setembro 06, 2006

A história de amor

- Avó, contas-me outra vez a história?
- Qual minha filha?
- A história de amor.
- Claro querida... claro que conto.

Não conseguia ver, tacteou à sua volta e sentiu o cheiro de cerveja derramada no chão cheio de palha. Havia também pão e carne seca, mas não era capaz de comer. Ao seu lado um monte de pêlos e sangue provocou-lhe mais um vómito violento. Contorcia-se, enrolava-se sobre si mesmo e sentia as lascas da madeira do chão a cravarem-se na carne. A dor trazia-o de volta à vida. Uma porta abriu-se e sentiu outro cheiro, fugiu para um canto escondendo a sua nudez, escondendo a pele suja, negra, áspera, as unhas partidas, as mãos demasiado fortes. Mas ela não se importava, nunca se tinha importado, lambera sempre as suas feridas com paciência, com amor, um amor que não fazia sentido, que não era natural, mas que o fazia adormecer. Repetiu a pergunta, suplicou, pediu a Deus que não tivesse acontecido outra vez, que o deixasse descansar. Era tudo o que desejava, tudo o que sonhava, tudo o que não podia ter. A visão voltava aos poucos, os olhos habituavam-se à luz e podia ver o vestido branco que o abraçava, podia ver o contorno de uma madeixa de cabelo, uma mão sobre a sua. Mas a respiração alterou-se, o coração bateu mais depressa e amaldiçoou os sentidos, o sangue que cheirava não era o seu, nem estava seco entre os seus dedos, era sangue vivo, que corria devagar, mas sem parar. O som de uma gota trouxe um grito que só podia ser seu e sentiu medo. Implorou para que os olhos dela não se fechassem, mas não teve resposta, apenas um último lamento, palavras ditas num sorriso que se fechou.

- Avó...
- Sim?
- Ficas um pouco comigo?
- Dorme, eu fico aqui.

sexta-feira, setembro 01, 2006

O rapaz que escrevia ao contrário

Apaixonada, Susana descia uma das muitas escadas de Lisboa e assobiava acompanhando uma voz feminina, a única que conseguia ouvir nos últimos dias. As paredes estavam cheias de palavras pintadas a vermelho e eram como a letra da música que ouvia.
A doze degraus de distância um rapaz escrevia numa das paredes. Tinha a seu lado uma lata de onde escorria um fio de tinta e ela sorriu com mais uma aposta estúpida que não podia ganhar, mesmo assim cruzou os dedos numa jura que cumpriria, apesar de não acreditar no castigo.
- O que escreves?
- Letras erradas.
- Como?
- Tu ouviste, letras erradas.
Um pingo de tinta tocou outro degrau e decidiu o rumo da conversa.
- Mas não existem letras erradas, só palavras, só as palavras...
Ele afastou-se da parede e fez-lhe sinal para ela se aproximar.
- Diz-me o que vês.
Susana demorou a responder, as palavras não pareciam fazer sentido. Leu-as várias vezes e continuou sem perceber. Olhou para o rapaz que aguardava com um ar ansioso com as mãos juntas, uma prece involuntária, um desejo de partilhar um segredo.
- A solução é simples, não é?
- Sim.
- Estão ao contrário... que estúpida, estão ao contrário. Mas e as letras?
Ele ficou calado. Ela gritou entusiasmada.
- O acento! É o acento que falta no “a”? Mas não é uma letra errada, o acento só lhe vai dar sentido.
- Isso depende de ti...
Percebeu o que ele queria dizer e aceitou o pincel cheio de tinta da mão dele. Esperou um pouco antes de falar.
- Sabe bem.
- Eu sei. Olha, queres vir dar um passeio?
- Quero, quero muito. E a lata, fica aqui?
- Não sejas batoteira, a tinta ainda está a escorrer.

sábado, agosto 26, 2006

As irmãs P.

O anão

Hoje vi um anão no metro. E não percebo porque teimo em não acreditar que tudo faz sentido... porque há uns dias pensei que já não via um anão há muito tempo. Mas não era um anão qualquer, era um homem pequeno que se sentava tocando apenas com a ponta dos pés no chão. Pés pequenos, pés calçados com umas sapatilhas de criança, sapatilhas que não combinavam com o resto da roupa, pretas, modernas, diferentes da camisa amarrotada e das calças com bainha.

A bruxa

Amanhã vou ver um bruxa, uma rapariga chamada Dória P. E sei que me vou apaixonar pela irmã dela, sei que me vou deixar enfeitiçar pelos cabelos despenteados que cheiram a fumo, que cheiram ao fumo de uma lareira. Vou encostar a cara no seu colo e chorar.

Angelina P.

Porque vejo através dela, porque a amo sem ela saber... porque finjo que não sei. Angelina P. é a rapariga que desejamos secretamente, a rapariga aprisionada nos nossos sonhos. É o momento antes de adormecermos...

terça-feira, agosto 22, 2006

Ansiedade

Rui esperava dentro do carro. Não fumava há mais de dois anos e o fumo ardia-lhe nos pulmões como se fosse a primeira vez. Sabia que não devia estar ali, sabia que podia estar a alguns minutos de fazer a maior asneira da sua vida, mas esperava, esperava enquanto o cigarro ia ficando mais pequeno.
Num prédio em frente uma porta de vidro abriu-se, mais uma vez a ponta do cigarro brilhou e os seus olhos fecharam-se com o reflexo do Sol. Quando voltou a conseguir ver já uma figura caminhava em direcção a ele, não era quem esperava.
Olhou para o relógio que nunca usava e contou as horas, o calor era insuportável e perguntou-se mais uma vez porque é que tinha cedido à tentação de esperar ali por ela, porque é que se deixara guiar por uma obsessão. Sentia que ia estragar tudo de vez.
A porta abriu-se mais uma vez e não precisou de ver quem saía para ter a certeza. Tinha sido sempre assim, sentia... antes de ver.
Ela começou a andar devagar na sua direcção até que de repente parou, com ela era igual, sentiam-se, isso ela não podia negar. Rui sabia que eram feitos um para o outro, só não sabia porque é que tudo tinha falhado. Olhou para baixo à espera que ela chegasse.
Sentiu um vulto ao seu lado.
- O que é que estás aqui fazer?
Deixou-se estar sentado no carro, estático, sem reacção. Não tinha nenhum plano, só tivera coragem para guiar até àquele sítio. Não sabia o que dizer.
Joana tinha os olhos cheios de lágrimas que não deixava cair e perguntou mais uma vez.
- Ouviste o que eu perguntei? O que é que estás aqui a fazer? Como é que me encontraste?
Ele não conseguiu responder e ela começou a afastar-se do carro. Abriu a porta.
- Espera...
- Não temos nada a dizer. Só não sei como descobriste onde trabalho.
- Quando se deseja muito uma coisa não é assim tão difícil.
- Chegaste a pensar se eu desejava voltar a ver-te?
A voz dela não tinha o tom melodioso de antigamente, estava sempre presente uma agressividade, um apontar de culpa. Era impossível esquecer o que tinha acontecido. Olhava para ela e num segundo recordou tudo. Mas já não conseguia pensar nas coisas boas, só nas discussões, só nos gritos pela noite dentro. Só conseguia pensar no dia em que tudo mudara, quando lhe agarrara com força num braço, quando sentiu que tinha feito algo que não podia ser desfeito. Lembrava-se da cara dela e de a ver agarrada ao braço enquanto decidia. Continuava a não saber porque é que as coisas não tinham dado certo, mas sabia exactamente o momento em que se dera a ruptura, quando ela decidiu que o seu gesto não tinha desculpa... e se afastara sem dizer uma palavra.
Respondeu de forma atrapalhada.
- Eu... eu... tu sabes o que eu sinto por ti.
Joana pensou antes de responder.
- Sim... eu sei. Mas isso não chega, pois não?
- E ficamos assim? Depois de tudo, ficamos assim?
Ela não olhava sequer para a sua cara, como se não tivesse coragem de ver os seus olhos, como se não quisesse arriscar voltar atrás.
- Rui... não percebes que acabou? Não percebes que as coisas já não fazem sentido? Olha para ti, olha para o que estás a fazer, como é que é possível imaginares que podemos recomeçar tudo?
- Mas e o que sentimos?
Um ar de desespero antecipou a resposta.
- Rui, olha onde chegaste, tu estás a seguir-me... tu não te apercebes, pois não?
Ele não respondeu, na verdade já não estava a ouvir. Fixava um grupo de pessoas do outro lado da estrada e tentava adivinhar sobre o que falavam, tentava adivinhar as suas vidas. Sabia que Joana tinha razão e isso doía, doía saber que era última vez que olhava para ela.
- Tens razão.
Joana fez um ar espantado.
- O quê?
- Tens razão, não podemos voltar atrás. E não fiques com esse ar desconfiado, estou a falar a sério.
- Tens que admitir que é estranho, uma mudança tão súbita de comportamento.
- Eu acho que sempre soube, só não queria ver... e de repente fiquei cansado das minhas obsessões, de todos os disparates que fiz neste último ano... fiquei cansado de mim.
- Assim, de repente?
- Sim, assim de repente.
Joana olhou para ele sem medo, olhou para ele e viu uma pessoa que julgava já não existir. Mas era tarde.
- E... e ficas bem?
Rui sorriu.
- Não... claro que não fico bem.
Abriu a porta do carro e entrou sem se despedir dela, sentiu o calor na cara e os olhos a arder. Arrancou sem olhar para trás e ligou o rádio, uma música começou a tocar, uma música com palavras simples, "this is the first day of my life". Não conseguiu deixar de sorrir.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Onze

- No que é que estás a pensar?
Conhecia Maria há tanto tempo que não me passava pela cabeça conseguir esconder-lhe algo, mas naquele dia pensei duas vezes antes de responder.
- Lembrei-me de uma coisa de repente.
- De uma coisa?
- Sim, uma coisa que aconteceu há uns meses atrás.
Diverti-me com o seu olhar curioso.
- Sabes a final da Taça UEFA do ano passado?
- Da Taça UEFA? Estás a falar de futebol, certo? Achei que fosse alguma coisa interessante.
- Vá lá, não sejas assim, a final à qual foi o Sporting, no seu estádio, contra uma equipa russa?
- Sim, tenho uma ideia, perderam, não foi?
Suspirei com a recordação.
- Mas porque raio foste pensar nisso agora?
- Eu na verdade penso muitas vezes nisso.
Ela riu com aquele riso de criança marota que nunca tinha perdido.
- Vocês homens são demais.
- Mas queres ouvir ou não? Afinal tu é que perguntaste no que é que eu estava a pensar.
- Tens razão, desculpa, podes continuar.
- Bem, não sei se te lembras mas eu fui ver o jogo ao estádio com um bilhete que ganhei num concurso.
- Já me lembro, tinhas de telefonar e eles davam um bilhete de mil em mil telefonemas.
- Vês...
- Deves ter achado que os astros estavam alinhados e que era o dia perfeito para uma grande vitória.
- Tu brincas, mas por acaso achei, mas isso não é importante, o que interessa é que fui sozinho ao jogo e lembrei-me agora de uma pessoa que ficou ao meu lado.
- Uma pessoa?
- Sim, um homem.
Maria abriu mais os olhos, normalmente as nossas conversas não eram sobre homens.
- E o que é que esse homem tinha de especial?
- Era um sujeito com um ar bastante desagradável, com um ar acabado, de quem tinha tido uma vida cheia de problemas. Lembro-me que cheirava a tabaco de uma maneira muito intensa, como se tivesse fumado sem parar durante anos, durante o jogo nunca o vi sem ter um cigarro na mão.
- Gosto destas tuas descrições, mas não estás a compor uma personagem muito agradável.
Bebi o resto da Coca-Cola que tinha no copo e continuei.
- Pois, mas ele era mesmo assim, o género de pessoa que não apetece estar ao pé, acho que foi aí que os astros começaram a ficar desalinhados.
- E o que é que esse homem tinha de tão especial, além de cheirar a cigarros? Suponho que não foi só por isso que te lembraste dele.
- Não, não foi.
O ar dela era cada vez mais impaciente.
- Rui, estou a dez segundos de me desinteressar por esta história, não podes ir mais depressa?
Eu ri com o ar zangado dela, esta era uma critica antiga, mas eu sabia que ela me ouviria até ao fim.
- Quando o jogo estava a começar, sabes quando as duas equipas estão alinhadas?
- Sim, sim, segue por favor.
- Bem, nessa altura ele puxou de uma máquina fotográfica, uma daquelas digitais mais baratas que nem visor têm.
- Sim, e?
- E começou a tirar fotografias com a máquina ao contrário.
- De pernas para o ar?
- Não, ao contrário mesmo, a espreitar pela objectiva.
- Estás a brincar...
- A sério, fartou-se de tirar fotografias e nem uma com a máquina virada para o relvado.
Maria ficou pensativa e esperou um pouco antes de falar.
- Sinceramente não sei o que é mais estranho, se o homem a tirar as fotografias ao contrário, ou tu lembrares-te de repente disso, nunca me tinhas contado isto.
- Nunca contei a ninguém, acho que fiquei tão triste com o jogo que apaguei alguns pormenores da minha cabeça.
- E agora veio-te assim tudo de repente. Tu és estranho, sabes isso, não sabes?
Sorri para ela.
- Mas a historia não acaba aqui.
- Espero bem que não.
- Eu chamei-o à atenção.
- Tu?
O ar de espanto era dos maiores que eu já tinha visto na cara dela.
- Mas tu tens sempre vergonha de falar com as pessoas. Não acredito que foste dizer ao tipo o que ele estava a fazer, foi como chamares-lhe doido.
- Sim, eu sei.
- E o que é que ele disse?
- Falou de discos.
- De discos? Mas que discos?
- Discos, música.
O empregado da esplanada onde estávamos sentados aproximou-se e retirou da mesa as garrafas vazias. Perguntou se queríamos mais alguma coisa e eu agradeci com uma aceno, ela não respondeu.
- Mas o que é que ele disse exactamente?
- Que os melhores discos tinham sempre onze músicas.
Maria acendeu um cigarro e fumou-o pensativamente.
- Tu estás a gozar comigo, certo?
- Não, ele disse o que eu acabei de dizer.
- Deixa-me recapitular, tu estás aqui a passar a tarde com a tua melhor amiga na melhor esplanada de Lisboa, uma vista sobe o Tejo que nos faz sonhar e de repente...de repente lembraste de num jogo de futebol teres visto um homem com mau aspecto tirar fotografias com uma máquina ao contrário, homem esse que te deu conselhos estranhos sobre música. Está a faltar alguma coisa?
A vista da esplanada era a razão porque insistia com Maria para irmos ali tantas vezes, era capaz de ficar horas a olhar para os cacilheiros a cruzarem o rio. Respondi-lhe sem olhar para ela.
- Não, resumiste bem o que se passou.
- E o que é que tu lhe disseste?
- Nada.
- Nada?
- Sim, o jogo começou e eu não disse mais nada.
Ela ficou calada durante vários minutos a olhar para o rio. Nós costumávamos nos gabar dos nossos silêncios nunca serem constrangedores, mas naquele dia, pela primeira vez, senti o desconforto das palavras não ditas. Então ela fixou-me nos olhos e falou com um ar calmo.
- E acabou assim?
- Sim, o jogo acabou, nós perdemos, eu vim-me embora e não voltei a pensar no assunto, só que...
- Só que?
- A verdade é que nunca liguei as duas coisas, mas de há algum tempo para cá que quando compro um disco a primeira coisa que faço é contar as músicas.
Ela sorriu antes de falar.
- Rui, isto nunca aconteceu, pois não?
- Se tu quiseres aconteceu.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A chuva não parava de cair

A chuva não parava de cair, uma chuva fina daquelas que pode cair durante horas a fio, sem um segundo de intervalo, sem um momento de descanso. Rui lembrou-se outra vez do momento em que tinha decidido vir a Londres.
Era tarde e tinha de escolher um sítio para comer. Reparou numa montra iluminada do outro lado da rua, uma pizzaria com um ar acolhedor que o convenceu sem ter de pensar. Entrou e sentou-se numa mesa perto da janela, agora já não se importava que chovesse e enquanto esperava ser atendido divertia-se a observar o reflexo das luzes dos carros no vidro salpicado por pequenas gotas de água.
O restaurante não era muito grande e não estavam muitas pessoas na sala. Todas as mesas estavam cobertas por uma toalha de quadrados vermelhos e brancos e tinham sobre elas pratos, talheres e copos que brilhavam ao luz de velas. Pela primeira vez desde que chegara sentiu-se bem e quase desejou poder ficar ali apenas a observar, a olhar os outros.
Uma voz chamou-o à realidade.
- É português? Acertei, não acertei?
Ficou de tal forma espantado que não respondeu logo ao homem parado à sua frente e que começava a perder o sorriso enquanto tentava emendar o que tinha dito.
- I’m sorry, please...
Interrompeu-o.
- Não, não peça desculpa. Sim, sou português, mas como é que descobriu?
- Ah! Eu sabia, em vinte anos nunca me enganei uma única vez, acho que deve ser um dom que eu tenho.
- Um dom?
- Sim, um dom.
E rebentou num riso que o deixou muito vermelho, seguido de uma tosse que parecia ir durar para sempre. Demorou a recompor-se e continuou.
- Ai, desculpe, mas é este maldito tempo, as saudades que eu tenho de Portugal, do nosso sol.
- Pois, imagino.
- E vive onde, lá na nossa terra?
- Vivo no Porto, mas nasci e cresci em Lisboa.
- Muito bem, muito bem, que saudades...nem imagina...mas não o chateio mais, aqui tem a lista, fique à vontade.
- Obrigado.
Ficou a ver o homem a dirigir-se a outra mesa onde um casal se tinha acabado de sentar e reparou que não parecia a mesma pessoa, como se a alegria se tivesse apagado no momento em que começara a falar outra língua. Baixou os olhos para a lista e começou a ler quando ouviu uma voz atrás de si.
- Eu devo ser a única pessoa em que o dom dele não funciona.
Virou-se para ver quem estava a falar e encontrou uns enormes olhos azuis que o olhavam a sorrir.
- Desculpe?
- Estava a dizer que o dom dele não funciona comigo, já uma vez me perguntou se eu era francesa, mas quando eu lhe disse que não fez um ar estranho e não perguntou mais nada.
- Se calhar não funciona com raparigas louras de olhos azuis.
Ela riu e passou as mãos pelo cabelo.
- Se calhar não...eu sou a Susana e estou em Londres há dois anos, tu deves estar de férias, certo?
Rui olhou para a mochila que o denunciava.
- Sim, estou...eu sou o Rui, queres...eu não sei se...o que eu queria dizer era...
- Se me quero sentar contigo?
- Sim, desculpa...é que não estava à espera de encontrar...de encontrar alguém com quem conversar, ainda por cima alguém português, tenho passado muito tempo sozinho nos últimos dias.
Ela levantou-se e sentou-se ao lado dele.
- Mas quando ele vier aí outra vez não lhe digas nada, está bem? Não quero que ele se sinta infeliz, sempre são vinte anos sem falhar uma única vez.
- Eu não digo, está descansada.
Durante o jantar Susana contou que viera para Londres estudar um ano e que tinha acabado por ficar a trabalhar na Universidade. Não tinha sido nada muito planeado e desejava voltar a Portugal, só não sabia muito bem quando. Rui não contou porque é que viajava sozinho e desejou que ela não perguntasse, estava a ser uma noite muito agradável e não lhe apetecia recordar os últimos meses da sua vida.
Era quase meia-noite quando deixaram o restaurante e como não chovia decidiram caminhar um pouco.
- Acho que da próxima vez que lá fores devias dizer alguma coisa.
- Estás tonto? Ele nunca me ia perdoar e eu gosto muito de vir aqui. De qualquer forma se ele não descobriu até agora, já não vai descobrir.
- Sim, acho que tens razão.
- Mas mudando de conversa, só temos falado quase de mim.
Rui ficou pouco à vontade e as palavras saíram com dificuldade.
- O que é que queres saber mais sobre mim?
- Estou a ver pelo tom que não é um assunto que te agrade.
Ela falava de um forma directa, mas delicada e isso desarmava-o.
- Desculpa, eu realmente tenho tentado não pensar muito em algumas coisas nos últimos tempos.
- Mas não tens de falar se não quiseres.
Parou no meio da rua e olhou para ela demoradamente.
- Mas eu quero, ou melhor, eu não quero...mas preciso. E tenho a sensação que te posso contar tudo, porque achas que isso acontece? Será que é mais fácil partilhar as coisas que nos magoam com alguém que quase não conhecemos?
- Há quem prefira chamar a isso empatia, mas se calhar podes ter razão.
- Eu não queria dizer que não tenho empatia contigo...eu...tu percebes...
Ela sorriu.
- Claro que percebo. E estou a ouvir.
Olhou outra vez para os olhos dela e sentiu um frio no estômago.
- Sabes? E se de repente não fosse assim tão importante?
- Como?
- Se não fosse tão importante tudo o que aconteceu até hoje. E se eu te dissesse que estou farto de ser tão complicado, de fazer a vida tão complicada? Porque é que não pode ser tudo diferente? Porque é que eu tenho este feitio? Porque é que eu penso um milhão de vezes nas mesmas coisas? Porque é que eu sou tão ansioso? Porque é que eu não posso dizer apenas que sou eu? Que existo e que estou aqui, que há duas horas atrás não te conhecia e que agora estou à tua frente e me sinto completamente apaixonado por ti...me sinto apaixonado por ti e sei que isso não faz sentido nenhum e que estou só outra vez a ser o mesmo impulsivo de sempre, estou a ser...
Parou para respirar e continuou.
- Susana, eu quero ser diferente, eu quero mudar, mas não quero deixar de ser o que sempre fui, não quero perder as coisas boas que tenho, não quero...já não sei, isto faz algum sentido para ti?
Mais uma vez os olhos dela sorriram para ele.
- Afinal sempre tinhas alguma coisa importante para dizer.
- É...acho que sim, desculpa...uma pessoa passa anos a esconder as coisas dela própria e depois explode.
- E isso é mau?
- Não sei se é mau...é novo para mim.
Ela aproximou-se dele e agarrou-lhe com força uma das mãos.
- Anda! Acho que temos de conversar, acho que tens muito para falar, muito que está aí dentro guardado.
Ele não respondeu e apenas seguiu a seu lado. As ruas estavam quase desertas e enquanto observava a cidade pensava no que tinha acabado de dizer.
Ela reparou no ar sério dele e brincou.
- Então estás apaixonado por mim?

domingo, fevereiro 19, 2006

Sombras

João crescera longe da grande cidade e habituara-se a olhar as coisas de outra maneira, a prestar atenção aos pormenores que os outros deixavam escapar.
Naquele dia chuvoso de Novembro caminhava pelas ruas desertas e olhava os edifícios antigos, sorria com os pequenos detalhes esquecidos e admirava a coragem de quem os tinha imaginado. Observava os monstros desenhados na pedra, sentinelas antigas que protegiam a cidade há centenas de anos e pensava porque é que os homens tinham deixado de os fazer. Gostava de passear debaixo das estátuas e imaginar que um dia uma delas podia soltar-se e cair com violência sobre ele. Era a sua forma de desafiar o destino, de lembrar a si próprio como era frágil e como tudo podia mudar num segundo.
Desceu uma rua ao acaso e percebeu que nunca ali tinha estado, todas as casas eram antigas e pareciam desabitadas. Reparou que todas as janelas estavam fechadas e pensou há quanto tempo estariam abandonadas. A rua não tinha saída e acabava num muro que escondia um jardim com árvores gigantes que deviam ser mais velhas que a cidade.
Parou junto a um portão enferrujado e espreitou por entre as grades, podia ver o que parecia ser um palácio escondido pela vegetação que crescia livremente e tapava as pedras que um dia tinham sido brancas. Junto ao portão uma estranha torre de cor escura guardava a entrada, parecia-se com os jazigos dos cemitérios e teve vontade de saber quem repousaria ali.
De repente ouviu um barulho metálico e o portão abriu-se um pouco, empurrado pelo seu próprio peso. Largou as grades e recuou dois passos, tinha vontade de entrar e descobrir o que se escondia por entre as árvores, mas hesitou um pouco. Apesar de toda a curiosidade estava com um pouco de medo e demorou alguns segundos antes de decidir entrar empurrando a estrutura metálica que estranhamente deslizou sem dificuldade.
Mal entrou ficou parado junto à torre que observara do lado de fora e pareceu-lhe menos assustadora, já não lhe parecia tanto um jazigo e depois de passar uma das mãos pela pedra gasta continuou por um caminho desenhado no chão que desaparecia pelo meio dos arbustos altos.
Depois de caminhar alguns metros pelo caminho apertado, encontrou uma clareira onde a luz rompia por entre as sombras das árvores. No meio daquele espaço aberto estava uma fonte que não deitava água e um banco onde alguém estava sentado. Era uma senhora de cabelo branco vestida com um vestido cinzento que levantou a cabeça quando o ouviu aproximar-se e falou com ele.
- Olá.
João pensou se não deveria ter entrado no jardim.
- Boa tarde. Desculpe a invasão, mas o portão estava aberto e eu não resisti a entrar.
- Não faz mal, tudo aqui está abandonado, por isso acho que já não pertence a ninguém.
- A senhora sabe de quem é este jardim? Ele pertence à casa que vemos da rua?
- Sim, o jardim pertence à casa, mas não sei dizer a quem pertence a casa, já passou tanto tempo.
- Tanto tempo? Desde o quê?
Ela fez um ar muito sério e endireitou-se no banco antes de continuar.
- Eu já vivi naquela casa, desde que nasci até aos meus dezoito anos. Já era uma casa antiga naquela altura e acho que ninguém sabe quem a construiu.
- A sério? Viveu mesmo aqui?
- Sim, brinquei neste mesmo jardim quando era criança.
- Sempre admirei estas casas antigas e fico a imaginar que histórias terão para contar.
A senhora fez um ar triste.
- A história deste sítio não é uma história alegre.
- Não é?
- Não, é uma história de amor, mas de um amor impossível, um amor que trouxe muito sofrimento a todos os que aqui viviam.
- Mas o que é que aconteceu?
- O mesmo que aconteceu tantas outras vezes em tantos outros sítios, um olhar mais demorado, um toque ligeiro de mãos, um beijo roubado debaixo destas árvores. Foi um amor que só devia ter acontecido anos mais tarde, mas que não conseguiu esperar.
João queria perguntar o óbvio, mas os olhos da velha senhora tinham-se enchido de lágrimas e não teve coragem de falar, ficou apenas sentado a seu lado a ouvi-la contar como há muito tempo haviam muitas flores por todo o jardim que depois eram levadas para a casa e enchiam de perfume os corredores compridos. Ela contou também sobre as festas que ali tinham acontecido e de como toda a rua era iluminada por velas que levavam até à entrada da casa. Nesses dias todos ficavam à janela a ver as pessoas a chegarem nos seus vestidos elegantes.
Quando finalmente decidiu que se devia ir embora, sentiu um enorme carinho pela senhora e sabia que nunca ia esquecer as histórias que ela lhe tinha contado.
- Bem, acho que vou andando. Obrigado por esta tarde e pelas histórias que me contou.
- Não tem que agradecer meu jovem, eu é que agradeço a paciência com esta velhota.
Ele sorriu envergonhado.
- E fica bem aqui? Daqui a pouco fica tarde e vai começar a escurecer.
- Obrigada pela preocupação, mas eu estou à espera da minha neta, ela vem sempre ter comigo ao fim da tarde.
Meteu-se outra vez por entre os arbustos e caminhou de regresso à rua. Na sua cabeça tinha ainda vivo tudo o que tinha ouvido e por momentos imaginou-se a viver muitos anos atrás.
Quando fechou ao portão e se preparou para regressar a casa sentiu que não estava só, olhou para trás e deu de caras com uma rapariga que o olhava com um ar zangado.
- Quem é você? O que estava a fazer aí dentro?
- Desculpe, eu reparei que o portão estava aberto e…foi mais forte que eu.
- Não o devia ter feito, não é um sítio público.
Rapidamente percebeu as semelhanças.
- Você deve ser a neta da senhora que encontrei lá dentro, eu…eu não lhe perguntei o nome, eu sou o João…passámos uma tarde muito agradável e ela está à sua espera, mais uma vez peço desculpa pela invasão.
Ela ficou calada e acenou apenas com a cabeça e começou a abrir o portão. Ele começou a subir a rua mas antes que ela entrasse parou e falou.
- Acha que posso voltar?
- Como?
- Se posso voltar aqui…não sei bem explicar, mas senti-me em casa e a sua avó é das pessoas mais encantadoras que já conheci.
Ela ficou um momento sem responder, mas depois sorriu e respondeu.
- Sim, pode, claro que pode, eu…eu peço desculpa por ter sido tão agressiva, mas tive um dia complicado e…e não estava à espera de encontrar alguém aqui.
- Não faz mal, eu percebo, bem…vou andando, pode ser que nos voltemos a encontrar aqui, adeus.
- Sim, pode ser que sim, adeus.
Luísa fechou o portão, afastou-se um pouco e quando olhou para o jazigo não conseguiu aguentar mais as lágrimas, começou a correr enquanto chorava e só parou quando chegou à clareira. Como sempre o banco estava vazio à sua espera, mas a recordação da sua avó ali sentada era mais forte e imaginava-a sempre a ler um livro, imaginava-a a contar-lhe histórias de príncipes e princesas enquanto ela a ouvia sentada no chão.
Tinha tido uma vida triste a avó Luísa, de quem tinha recebido o nome e também o feitio, segundo dizia a sua mãe. Gostava de lembrar-se dela ali sentada e raro era o dia que não visitava aquele sítio. Era a sua forma de não se despedir dela e de sentir que ela ainda estava presente.
Sentou-se no banco e recordou uma das últimas vezes que ali tinha estado com a avó, ela tinha lhe pedido para não esquecer aquele lugar, pois apesar de toda o sofrimento, era um sítio mágico. Luísa ria sempre com estas conversas da avó, mas daquela vez ela parecia estar a falar a sério. Repetiu em voz baixa as palavras que trocaram naquele dia.
- Não deixes nunca de vir aqui, promete-me isso.
- Eu prometo avó.
- E vive um grande amor, vive o que eu não consegui.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Cartas

Bissau, 17 de Fevereiro de 1969

Finalmente tenho algum tempo para escrever. São tantas as coisas que tenho para te contar que nem sei por onde começar, acho que por repetir infinitas vezes que te amo e que esta separação a que nos obrigam vai parecer pequena daqui a uns anos.
Apesar de estar contrariado num país que não conheço, a milhares de quilómetros dos que amo, não posso deixar de sentir que esta terra tem algo que cativa e não nos deixa indiferentes. Não consigo esquecer o momento em que saí do avião e senti o ar quente na cara, tive de reprimir a sensação de que aqui também estou em casa, de que aqui também posso ser feliz, pois sei que vim para uma guerra, para uma luta que não desejo e o meu único pensamento deve ser o de voltar para ti...


João parou de ler a carta que tinha nas mãos e olhou para a sua avó. Estava sentada muito direita ao lado do caixão castanho com um ar tranquilo, demasiado tranquilo para quem acabara de perder o companheiro de tantos anos. Caminhou até ela e beijou-a na testa.
- Estive a ler um pouco de uma das cartas que me deu, o avô falava de quando chegou à Guiné.
Ela esticou as mãos para as dele e falou devagar.
- Foi em Fevereiro, não foi?
- Sim, há quase sessenta anos.
- Ele queria muito que tu ficasses com estas cartas.
- Eu sei avó, mas elas...elas deviam ficar com a avó.
- Meu querido...eu não vou durar para sempre e o avô queria que aquele tempo não fosse esquecido.
- Mas porque é que não as deixou ao pai? Malditos teimosos...porque é que não se entenderam?
Ela passou a mão pelo cabelo negro dele e sorriu.
- Sabes que para nós sempre foste um filho, não sabes?
- Eu sei, mas ele é que é o vosso filho.
- E um filho que muito amo, mas a vida nem sempre é como queremos, o teu avô queria tanto ter sido um pai diferente, mas acho que só o conseguiu contigo.
- Eu tive dois pais maravilhosos...e duas mães também, mas porque é que as coisas não foram diferentes?
Não esperou pela resposta e afastou-se de volta ao sítio onde tinha começado a ler as cartas. Abriu a caixa de madeira que a avó lhe entregara no dia anterior e tirou uma carta ao acaso.


Bissau, 18 de Agosto de 1969

Só passaram seis meses desde que cheguei e tenho a sensação que sempre aqui vivi. Todos os dias sonho com o dia em que vou voltar a ver-te, mas não posso mentir, cada vez amo mais esta terra e sofro por tudo que aqui acontece. Às vezes à noite sonho com o fim da guerra e com nós dois a vivermos neste paraíso esquecido, sonho com os nossos filhos a correrem por entre as árvores e nós a bebermos chá frio ao fim da tarde. O pôr-do-sol aqui é tão bonito que nem o vou tentar descrever...


Guardou a carta na caixa e saiu da capela, era estranho estar a ler os relatos do avô. Ele nunca falava do tempo que passara em África e lembrava-se de uma vez lhe ter perguntado como é que tinha sido a guerra e de ter visto as lágrimas aparecerem nos seus olhos. Nunca mais lhe perguntara nada sobre a Guiné e agora sentia que de alguma maneira estava a magoá-lo. Mas tinha sido ele a querer que ficasse com as cartas e não ia pôr em causa a sua vontade.
O avô Fernando tinha sido mais do que um simples avô, tinha sido o seu companheiro de aventuras e recordava agora as tardes infinitas passadas a dois. Lembrou-se dos papagaios de papel de jornal, das fisgas feitas de borracha de pneus velhos, dos barcos esculpidos na madeira dos pinheiros, lembrou-se de tudo o que aprendera com ele e sentiu saudades.
Só tinha pena de não ter podido partilhar esses momentos com a única pessoa no mundo que amava tanto quanto o avô, o seu pai. Nunca percebera bem o que se tinha passado entre eles e com os anos deixara de tentar entender o que não parecia ser possível mudar. Sabia que tinham sido bastante próximos quando o seu pai era ainda criança, mas algo os afastara e o tempo escondera as razões.
Apagou o cigarro no chão de terra e dirigiu-se para o interior da capela, abriu outra vez a caixa e retirou outra carta.


Bissau, 23 de Setembro de 1970

Desculpa não ter escrito nas últimas semanas, mas as coisas aqui não têm sido fáceis. Os tempos de prazer acabaram e esta terra, que apesar de tudo teimo em amar, tornou-se um inferno para a maior parte de nós. Os combates são cada vez mais brutais, cada vez mais violentos, cada vez mais sem sentido e não sei quanto tempo mais aguentarei. Desculpa-me por ter de te contar estas coisas, mas não sei mais a quem recorrer, os meus companheiros passam o tempo a decorar as rezas que depois repetem enquanto se escondem de cara enfiada na lama e eu não tenho ninguém com quem falar. Eu não me escondo, não me escondo pois já perdi o medo e luto de peito aberto por algo em que não acredito...e acontecem coisas que eu não sei se alguma vez vou esquecer. Promete-me, promete-me que um dia me deixas deitar no teu colo e tentar não pensar mais nisto, promete-me que os nossos filhos não vão saber, promete-me que vou ser um bom pai...


A carta tinha mais linhas escritas mas João não foi capaz de continuar. Levantou-se e dirigiu-se à sua avó que continuava sentada no mesmo sítio, abraçou-a com força e chorou.
- Avó, tu não merecias ter tido de ler aquelas cartas...aqui longe sem poder fazer nada. Eu não fazia ideia...
- Não chores neto, elas fazem parte do passado, mas eu não podia não as ter lido. Foi saber que eu as lia que lhe deu forças para sobreviver. Sem isso ele não tinha conseguido, porque nós sempre partilhámos tudo e eu tinha de estar com ele, percebes?
- Acho que sim...mas é tão injusto, a vida é tão injusta...e o pai, o que aconteceu com o meu pai? Isto tudo...isto afectou muito o avô, não afectou?
- O teu avô teve uma boa vida...e teve anos maravilhosos com o teu pai, onde é que achas que ele aprendeu a brincar com crianças? Meu querido, ele adorava-te, tal como adorava o teu pai.
- Mas então porquê?
- Porque há marcas que ficam na alma de um homem, feridas que voltam a abrir quando menos esperamos, foi só isso. Mas não te quero ver assim, não foi para isto que ele te deixou as cartas, foi porque te adora e porque acha que apesar de tudo elas têm muitas coisas boas que merecem ser lembradas. É uma parte importante da vida dele...da nossa vida que está ali e deve ficar com alguém que possa compreender, que possa guardar tudo com amor.
- Amo-te avó, amo-vos muito aos dois.
Abraçou-a mais uma vez com força e pelo canto do olho reconheceu uma figura à porta da capela. Pela primeira vez reparou que estavam a ficar parecidos, que o tempo os aproximara de uma maneira que não podiam recusar. O seu pai tinha agora o mesmo cabelo grisalho que o seu avô sempre tivera e as mesmas rugas que se habituara a observar. Foi ter com ele e reparou nos seus olhos cheios de lágrimas que teimavam em não cair.
- Sabes pai, ele amava-te muito...
- Eu sei filho...eu sei, eu também o amo muito.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Durante a Noite

Abro o frigorífico e olho lá para dentro. Tiro um pacote de leite e desejo que não tenha passado o prazo de validade. Tem a data do dia anterior e decido arriscar tentando ignorar o sabor esquisito que me convenço ser apenas da minha cabeça. Dirijo-me à sala às escuras e tento fazer pouco barulho, não quero acordar Teresa, principalmente depois da discussão que tivemos e que provocou a sua ida para a cama mais cedo.
Sento-me à mesa onde horas antes estivemos a comer e ligo o portátil, é algo que faço quase de forma automática, sem nenhum plano. Sei que devia ir deitar-me e abraçar Teresa, mas tenho a cabeça demasiado cheia, tenho de desabafar e só o vou conseguir se escrever algumas palavras. Juro a mim próprio que é só uma hora, mas sei que estou a mentir, nunca é só uma hora.
São duas da manhã e relembro a conversa do princípio da noite, relembro as palavras amargas que Teresa me disse e penso se ela terá razão, se eu mudei assim tanto nestes últimos anos. Sei que as coisas não são como antigamente, mas só nos últimos meses dei conta do quanto nos afastámos um do outro.
Sinto-me saturado e tenho vontade de sair de casa, de guiar sem destino durante horas, só eu e o barulho do carro. Olho para as chaves no móvel da entrada e domino o impulso de me levantar, se Teresa acordar sem eu estar em casa vai ficar preocupada e vai ser mais difícil pôr as coisas bem.
Tenho saudades do tempo em que nos conhecemos, do dia onde tudo começou, do cinema onde éramos as duas únicas pessoas na sala, da queda que dei na escuridão que castigava quem chegava atrasado. Nunca me vou esquecer do seu riso e do meu esforço para conter as lágrimas de dor. Lembro-me de me sentar a seu lado e de não conversámos durante todo o filme, mas de ter a certeza que estávamos juntos e que iríamos estar para sempre.
Os meus pensamentos são interrompidos por um choro, levanto-me e dirijo-me depressa ao quarto que fica ao lado do meu. Consigo lá chegar antes que Teresa acorde e com cuidado afasto os sonhos maus para longe. Sento-me na cama e deixo a mão por cima dos cobertores enquanto o embalo traz o sono até mim.
Acordo com uma mão na minha e pergunto se ele chorou outra vez, Teresa diz-me que não, que julgava que eu tinha adormecido na sala e que me tinha ido chamar. Observo-a enquanto puxa os cobertores para cima e lembro-me outra vez de nós. Ficamos um pouco a ouvir o seu respirar calmo e saímos do quarto de mãos dadas.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O Conto

Eram três da manhã e Ricardo continuava acordado, a seu lado Carla dormia profundamente sem saber que ele a observava. Passou os dedos pelos seus cabelos e dominou a vontade de chorar, o medo de a perder era quase insuportável. Ela acordou.
- Não estás a dormir...que horas são? Não reparei quando te vieste deitar.
- São três.
- O que se passa?
- Nada de especial, só não consigo dormir, volta para os teus sonhos.
- Agora já acordei...bem que podes me contar o que vai nessa cabeça.
Ela conhecia-o bem demais e não ia desistir, sabia que não ia conseguir desviar o assunto.
- Há uma hora atrás acabei de escrever o melhor conto de toda a minha vida.
- O melhor?
- Sim, o melhor.
Carla percebeu que ele falava a sério e esfregou os olhos para espantar o sono.
- E?
- E acho que não vou poder escrever mais nada depois disto.
- Não sejas doido.
- Estou a falar a sério.
- Mas porque é que dizes isso?
- Porque no momento em que acabei senti-me vazio.
Levantou-se e dirigiu-se à janela, não conseguia encará-la.
- Ricardo...olha, eu não quero parecer insensível, mas não achas que és capaz de estar a exagerar? Tu ficas sempre assim quando acabas de escrever algo. Eu percebo a tua angústia, mas vais ver que daqui a uns dias já estás frente ao computador sem me ligares nenhuma.
Ele virou-se de repente e deixou-a ver as lágrimas que lhe corriam pela cara.
- Eu não tenho mais nada para te oferecer.
- Ricardo...eu..eu sei que te pedi para falares, mas não vou ter uma discussão sobre as tuas inseguranças a esta hora, acho que devias tentar dormir.
Deixou-se cair na cama e tocou-lhe outra vez no cabelo, pensou se seria a última vez que o fazia.
- Desculpa, eu não queria chatear-te.
- Acho que devíamos falar amanhã, vais ver que já não pensas assim, não achas?
- Sim, não te preocupes, tu já sabes como é que eu sou, amanhã falamos.
- Eu amo-te, sabes isso, não sabes?
- Sim, eu sei, vai dormir, eu vou só à sala um minuto, tenho de gravar o que escrevi.
Ela olhou para ele com um ar espantado.
- Desculpa?
- O que foi?
- O que foi? Tu achas que escreves o melhor conto da tua vida e...e não o gravas?
Respondeu sem olhar para ela enquanto saía pela porta do quarto.
- Seduziu-me a possibilidade de o poder perder, uma estupidez, eu sei. Já volto.
Sentou-se frente ao monitor preto e tocou numa tecla qualquer, o texto apareceu de novo e leu mais uma vez o que tinha escrito nessa noite. Quando acabou escolheu um título banal e gravou o ficheiro. Foi-se deitar sem pensar no dia seguinte.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Telma

Telma: vontade, desejo...

Luís entrou no hipermercado e estranhou o ambiente. Embora estivesse mais perto da sua casa preferia ir a outro, preferia pagar um pouco mais para se sentir mais à vontade, para sentir que pertencia a um mundo mais perfeito, mais bonito. Mas naquela tarde tinha pressa e não tinha tempo para passear pelos corredores, era mesmo só entrar, comprar o que queria e sair rapidamente, por isso era preferível um sítio com menos gente.
Apesar de tudo demorou mais tempo do que tinha pensado, não conhecia bem o sítio onde estavam as coisas e não conseguiu encontrar logo o que procurava. Só depois de fazer duas vezes o corredor principal descobriu o que queria, uma nova marca de comida pré-cozinhada que vira anunciada na televisão e que tinha decidido ir ser o seu jantar.
Enquanto caminhava em direcção à zona das caixas olhou para as poucas pessoas que circulavam à sua volta. Eram diferentes das que estava habituado a observar nos sítios que costumava frequentar e recordou-se de quando era um miúdo e vivia fora da cidade. Tudo tinha mudado desde essa altura e recordava agora esses tempos.
Ao chegar perto das caixas reparou que estavam praticamente vazias, podia escolher a que lhe apetecesse e avançou para a que estava mais perto de si onde uma rapariga vestida com um casaco azul e vermelho aguardava pelo próximo cliente. Pôs a embalagem que trazia na mão no tapete rolante e cumprimentou-a.
- Boa tarde.
Ela respondeu.
- Boa tarde, tem cartão de desconto?
- Não, não tenho. Eu não costumo vir aqui.
- Então tem que começar a vir mais vezes, se for ao balcão principal pode pedir lá um cartão.
- Obrigado pela sugestão, mas hoje estou com pressa, talvez noutro dia.
Enquanto falavam Luís observou-a a passar devagar a embalagem pelo leitor de código de barras e a pô-la num saco de plástico. Normalmente irritava-se quando demoravam tanto tempo, mas naquele dia não pensou nisso, deixou-se ficar apenas a vê-la a mover as mãos com delicadeza. Ela devia ser mais nova do que ele, talvez tivesse menos uns sete ou oito anos e era muito bonita, mas era diferente das raparigas para as quais costumava olhar, era mais simples e estava menos arranjada. Pensou que talvez só estivesse a achar isso por causa da profissão dela e desejou não o estar a fazer, mas a verdade é que deu por si a reparar que as outras raparigas das caixas não estavam vestidas da mesma maneira e a pensar se ela não seria uma espécie de chefe ou supervisora. Definitivamente estava a ser preconceituoso e abandonou os pensamentos que tinha na cabeça. Ela falou.
- Quer mais um saco?
- Não, obrigado. Deixe-me só ver se encontro o multibanco...ah, está aqui! Sabia que o tinha guardado num destes bolsos quando fui pôr gasolina.
Ela passou o cartão na máquina com os mesmos movimentos lentos e cuidadosos e Luís deu por si a marcar os números do seu código pessoal também devagar. Depois de alguns segundos ouviu o barulho característico de impressão e esperou que ela lhe entregasse o recibo e o papel do multibanco. Quando ela esticou o braço para lhos entregar não resistiu e tocou com os seus dedos nos dela. Ficou com medo que ela tivesse reparado, mas ao mesmo desejou que tivesse percebido. Despediu-se de forma nervosa.
- Então boa tarde.
- Boa tarde e esperamos poder vê-lo por cá mais vezes.
O tratamento formal pareceu-lhe desadequado, mas sabia que só o era na sua cabeça. Caminhou para a garagem e leu o recibo que ela lhe tinha dado, procurou um nome impresso no papel e achou um que devia ser o dela, Telma Santos.

Luís passou a ser um cliente assíduo do hipermercado. Todos os dias ao fim da tarde passava por lá para comprar o jantar e tentava pagar na caixa onde ela estava. Ao fim de alguns dias exibiu com orgulho o seu cartão de desconto e a partir daí passaram a trocar algumas palavras. Eram conversas rápidas, mas todos os dias falavam sempre mais um pouco do que no anterior, àquela hora havia pouca gente e podiam sempre perder algum tempo a falar.
Três semanas depois de a ter conhecido convidou-a a para jantar. Foi uma situação muito estranha e a meio pensou se não estaria a avançar cedo demais, mas ela aceitou sem ter de pensar muito. Impôs apenas uma condição, o jantar seria em casa dela no fim-de-semana seguinte. Ele aceitou.
Foi com algum nervosismo que Luís saiu do carro e tocou à campainha do prédio com o número vinte e três. Não era costume fazer convites daqueles a pessoas que mal conhecia e estava um pouco ansioso com o desenrolar da noite. No intercomunicador ouviu uma voz conhecida.
- Sim?
- Telma? Sou eu, o Luís.
- Sobe.
Entrou no prédio e sentiu o cheiro de comida. Subiu as escadas até ao segundo andar e quando se preparava para bater à porta ouviu o barulho de uma chave a rodar na fechadura. Telma abriu a porta sorridente.
- Olá, entra. Tiveste dificuldade em dar com a rua?
- Não, não conhecia a zona, mas as tuas indicações estavam perfeitas.
- Pois, suponho que não seja uma zona muito frequentada pelos ricos.
Quando ia argumentar percebeu pela cara dela que estava a brincar. De qualquer forma sentiu-se desconfortável com o comentário, sabia que haviam diferenças entre eles e não tinha conseguido resolver bem esse problema na sua cabeça. Um problema que o incomodava mais por achar que não era boa pessoa por pensar naquelas coisas, do que por sentir que isso tinha realmente alguma importância.
Ela interrompeu os seus pensamentos.
- Então, vais ficar aí à entrada?
- Desculpa, eu às vezes tenho destas coisas, não ligues. Toma, isto é para ti, não sei se gostas.
Telma agarrou no ramo de flores e cheirou-as demoradamente.
- Há muito tempo que não me ofereciam flores.
- Não é nada de especial, também trouxe vinho.
- Mas tu és maluco? É só um jantar simples, não era para trazeres nada, obrigada.
Entraram e observou a casa, era muito pequena mas muito acolhedora e sentiu-se muito bem lá dentro. As paredes estavam cheios de desenhos e todos os cantos estavam preenchidos por algum objecto, como se cada centímetro de espaço tivesse sido cuidadosamente planeado. Ela percebeu.
- Está um pouco cheia eu sei, mas tenho alguns problemas em me livrar das coisa de que gosto.
- Dá para perceber. E os desenhos?
- São meus.
- A sério?
- Sim, mas são só brincadeiras, não são verdadeiras obras de arte. É como te disse, não me consigo livrar das coisas.
Sentaram-se no sofá da pequena sala.
- Queres beber alguma coisa?
- Bebo um copo de água, não quero começar já com o vinho.
Ela sorriu com a piada dele e saiu da sala enquanto Luís continuava a observar aquele novo mundo onde tinha entrado. Por cima de uma televisão cinzenta estavam várias prateleiras cheias de CD’s e não resistiu a levantar-se e dar uma olhada. Quando Telma entrou com a água não conseguiu esconder o seu espanto.
- Desculpa, estava aqui a olhar para a tua colecção de CD’s, confesso que estou admirado.
- Porquê?
- Eu julgava que era um apreciador de música, mas quando olho para tudo o que tens aqui, sinto que não sei assim tanto sobre o assunto.
- É uma das minhas paixões, juntamente com o cinema e com os desenhos, mas não tenho dinheiro para tudo. Só que não respondeste à minha pergunta.
- Que pergunta?
- Porque é que ficaste admirado com a minha colecção de CD’s?
Falou sem pensar.
- Não achei que uma pessoa como tu...
Percebeu tarde demais o que estava a dizer.
- Desculpa, não era isto que eu queria...eu não queria dizer o que disse.
- Não? Eu acho que tu disseste exactamente o que querias. É difícil esqueceres, não é?
- Esquecer o quê?
Sabia bem no que é que ela estava a falar e não insistiu na pergunta quando percebeu que ela não ia responder. De repente sentiu-se muito desconfortável e apeteceu-lhe sair daquela sala pequena. Apeteceu-lhe fugir e esquecer tudo, esquecer o que dissera, esquecer quem era, apenas meter-se no seu carro e fingir que nada tinha acontecido. Mas no meio de todos este pensamentos confusos olhou para ela e reparou que não estava com um ar zangado. Acalmou-se.
- Desculpa, não era esta a noite que eu tinha planeado quando te convidei para jantar.
- Eu sei.
- Olha, eu não sou má pessoa e não acho que sou superior a ninguém, só que...eu não sei bem explicar, há coisas que são automáticas...eu...
Não foi capaz de continuar e sentou-se outra vez no sofá. Ela sentou-se a seu lado e falou calmamente.
- O teu mundo é muito diferente deste, não é?
- É...mas...
- Diz.
- É, mas não quero que seja, percebes?
Ela sorriu de uma maneira que o fez tremer.
- Eu sei.
- Sabes? Mas...então não estás zangada?
- Nunca disse que estava.
- Mas tu confrontaste-me. E com algo que eu próprio não consigo admitir para mim mesmo a maior parte das vezes.
Ela pousou as suas mãos nas dele e ficou um segundo a olhar para ele.
- Achei só que devíamos resolver este problema o mais cedo possível.
- Mas então tu...tu já sabias?
- Desde o momento em que me tocaste na mão, na primeira vez em que nos vimos.
Repetiu dentro da sua cabeça o que ela tinha acabado de dizer. Parecia que estava a acordar de um sonho, como se nas últimas semanas tivesse estado nalguma espécie de transe do qual começava a sair. Percebeu que não tinha pensado muito no que tinha andado a fazer, mas que de repente tudo fazia sentido.
Perguntou-lhe timidamente.
- E achas que já resolvemos o problema?
Ela não respondeu e beijou-o nos lábios.
- Luís, acho que gosto de ti.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Diferenças

Tarde

Quanto mais olhava para a parede mais tinha a certeza do impossível, aquela não era a sua sombra. Passou as mãos pelos contornos que deviam ser seus e reparou nas pequenas diferenças, o cabelo ligeiramente mais comprido, os ombros mais largos, a camisola de gola alta. Deitou-se sobre a cama por fazer e recordou o dia anterior.


A estação

Ao entrar no átrio principal do edifício olhou para os monitores com as horas dos comboios e percebeu que dificilmente conseguiria apanhar o das oito. Tinha escolhido o pior dia do ano para chegar atrasado, o dia do aniversário de Teresa, que lhe suplicara para não a desiludir mais uma vez. Agora corria por entre as pessoas derrubando tudo à sua frente e rezava para que o comboio se atrasasse pelo menos alguns minutos, era tudo o que precisava.

Saltou por cima de uma mochila esquecida no chão e viu-o pela primeira vez, reparou nele e o tempo pareceu correr mais devagar, como se numa fracção de segundo tivesse conseguido observar aquela pessoa durante horas, como se estivesse a olhar para um quadro numa parede de um museu e se esquecesse de tudo. Não pôde evitar a colisão e percebeu logo que tinha perdido o comboio.

Voltou a si com o barulho da sirene da ambulância. A seu lado um jovem bombeiro sorria para ele e explicava-lhe que tinha estado desmaiado durante algum tempo, mas que estivesse descansado pois não devia ser nada de especial, a ida ao hospital era só por precaução. Lembrou-se de Teresa e fechou os olhos, tinha falhado mais uma vez.


Em casa

Entrou em casa e desejou estar sozinho, queria poder pedir desculpas sem os olhares de toda a família. Ficou no corredor a ouvir as conversas e os risos das crianças que corriam umas atrás das outras e de repente deu por si a pensar que não gostava do quadro que estava pendurado por cima do móvel onde costumava pôr as chaves. Alguém o chamou de volta à realidade.

Em menos de dez segundos estava rodeado de perguntas e olhares. O penso na testa era o principal motivo de curiosidade e respondia devagar a todas a perguntas. Conseguia ver a cara triste de Teresa ao fundo da sala, sabia o que ela estava a pensar e sabia que não se ia deixar impressionar por nódoas negras e roupas rasgadas, as feridas entre eles eram bem maiores.


No quarto

Antes da festa acabar sentiu-se muito cansado e subiu para o seu quarto, tomou um banho e sentou-se na cama. Não ligou a televisão e ficou a ouvir Teresa no andar de baixo a arrumar a casa. Queria ir ajudá-la mas sabia que não ia ser bem recebido e ficou à espera de uma conversa que não queria ter.

Quando ela entrou no quarto estava quase a adormecer. Sentou-se mais direito e tentou escolher as palavras para falar, mas estava cansado e não sabia mais o que dizer ao fim de tantos anos, ficou calado. Ela fez um ar estranho, como se esperasse uma reacção diferente dele e perguntou-lhe se tinha dores. Respondeu que sim e ela disse que talvez fosse melhor deixarem a conversa para o dia seguinte.

Apagaram a luz e ficou a pensar no dia que tinha tido, pensou nos minutos que perdera no trabalho, no metro que não tinha apanhado por um segundo, no homem com quem tinha chocado na estação. A seu lado Teresa dormia, aproximou-se dela e sentiu o cheiro do hidratante que costumava pôr antes de se deitar, sempre gostara daquele perfume e tinha a sensação que não o sentia há muito tempo. Sem pensar aproximou-se mais e abraçou-a, sentiu o seu corpo e adormeceu.


Manhã

Acordou com o sol na cara e por um momento não se recordou do dia anterior, deixou-se ficar na cama de forma preguiçosa até que uma voz o chamou e lembrou-se de tudo o que tinha acontecido. Teresa entrou no quarto com um enorme sorriso na cara e disse-lhe que o pequeno-almoço estava pronto. Perguntou timidamente se não deviam conversar, mas ela sorriu outra vez e saiu do quarto sem responder.

Enquanto tomava banho sentiu-se estranho, como se o mundo à sua volta estivesse diferente. Não conseguia deixar de sentir uma sensação de que tudo era novo, como se estivesse num hotel numa das suas viagens de trabalho. Olhava para os lados e conseguia reconhecer os seus objectos, mas ao mesmo tempo parecia que estavam todos fora do seu sitio. Era algo que não conseguia compreender e deixou-se estar debaixo da água quente que corria do chuveiro.

Voltou para o quarto e abriu uma porta do armário para escolher algo para vestir. Olhou para as camisas penduradas e não teve vontade de vestir nenhuma, eram quase todas iguais e apetecia-lhe vestir algo diferente. Abriu algumas gavetas e foi passando por entre os dedos as camisolas dobradas no seu interior. Não sabia porquê, mas pareciam-lhe todas estranhas, como se não fossem dele, como se tivesse acordado numa casa que não era a sua e vasculhasse nas roupas de outra pessoa.

No fundo de uma gaveta encontrou uma camisola da qual não se lembrava. Nunca tinha gostado daquele tipo de golas que lhe apertavam o pescoço e perguntou a si mesmo como é que ela tinha ido ali parar. Era verde e à frente tinha uma figura estampada em tons de amarelo de um gosto muito duvidoso que o fez sorrir. Não resistiu e vestiu-a.

Desceu as escadas e sentou-se ao lado de Teresa que lhe perguntou que camisola era aquela. Tentou desviar o assunto, mas ela mal conseguia conter o riso, um riso que o fez lembrar-se do dia em que a conheceu. Não aguentou e riu-se com ela.

domingo, janeiro 08, 2006

O Táxi

Na cidade

Eram onze da noite e João conduzia o táxi devagar pelas ruas de Lisboa. Estava calor e trazia a janela aberta para sentir o vento na cara, àquela hora não se sentia o ar poluído da cidade e às vezes o cheiro era quase agradável. Gostava destas noites com pouco trabalho em que podia conduzir sem destino pelas ruas vazias e não se preocupava com o dinheiro que não estava a ganhar. Era uma pessoa simples e não precisava de muito para ser feliz, apenas alguns pequenos prazeres eram suficientes para que tivesse uma vida com poucas preocupações.
No dia anterior tinham-lhe ligado de manhã para ir buscar um carro à oficina com o qual deveria andar durante a semana e recordava agora o momento em que o tinha ido buscar. Era normal trocar de carro e normalmente não dava muita importância a estas mudanças, mas tinha ficado espantado com o que o esperava desta vez, um Mercedes com mais de vinte anos ainda pintado com as antigas cores dos táxis da cidade.
O carro estava em excelentes condições e quase que era difícil acreditar que tinha tanto tempo de serviço. O rapaz que lho entregara tinha lhe contado que pertencera a um taxista que se tinha reformado uns meses antes e que tinha sido o único a conduzi-lo durante duas décadas. O amor do senhor pelo carro era conhecido entre os seus amigos e ao que parecia tinha feito algumas exigências antes de o entregar. João só não sabia por que é que o tinham escolhido a ele para conduzir aquela antiguidade, não era conhecido por ser especialmente cuidadoso com os carros e sentia-se algo nervoso com a responsabilidade.


Na avenida

Quando descia a Avenida da Liberdade reparou numa pessoa parada no passeio, não era um sitio comum para se mandar parar um táxi, ainda mais àquela hora, mas abrandou a velocidade. Viu uma mão no ar e pensou que não devia parar ali, mas como o semáforo à sua frente ficou vermelho decidiu parar, uma mulher entrou pela porta traseira e sentou-se sem dizer nada. Ele falou.
- Boa noite, para onde deseja ir?
A mulher ficou calada sem olhar para ele.
- Peço desculpa, mas este é um sitio mau para estar parado, pode-me dizer para onde deseja ir?
Ela olhou para ele e falou.
- Desculpe, queria ir para Belém.
Arrancaram e João pensou se devia ou não dizer alguma coisa, nem sempre fazia conversa com os passageiros e tinha a sensação que a mulher não devia ser muito comunicativa.
- Sabe, quando quiser apanhar um táxi aqui devia ir para as ruas laterais, ali atrás é muito difícil alguém parar.
Ela voltou a demorar a responder.
- Eu não estava à espera de um táxi, na verdade não sei bem porque é que o mandei parar, acho que estava cansada e quando o vi achei que talvez fosse boa ideia dar uma volta de carro.
- Dar uma volta de carro? Mas não disse que queria ir para Belém?
- Tinha que dizer algum sitio não era? Mas na verdade não me importo muito para onde vá.
Ficou um minuto sem dizer nada. Não era a primeira vez que lhe aparecia uma pessoa estranha, mas não sabia bem o que dizer.
- Mas está tudo bem consigo? Eu...desculpe, não queria estar a ser intrometido.
- Não faz mal, compreendo que esta deva ser uma situação estranha para si, mas não se assuste, eu tenho dinheiro para pagar.
Não tinha pensado em dinheiro, raramente pensava. Ficou calado enquanto continuava a conduzir pela baixa da cidade, as ruas estavam iluminadas pelas luzes de Natal que ainda não tinham sido retiradas, uma das razões porque se tinha dirigido para aquela zona da cidade.
Esticou o braço e desligou o taxímetro.
- O que está a fazer?
A voz da mulher tinha se alterado e parecia algo assustada.
- A senhora não quer ir para lado nenhum e eu também andava um pouco à deriva, por isso não acho muito justo cobrar-lhe dinheiro.
- Como? Não está a falar a sério pois não?
- Estou, assim pelo menos tenho companhia.
Ela não respondeu e ele continuou a guiar sem destino.
Passou algum tempo sem que algum dos dois falasse. Ele olhou pelo retrovisor quando passaram por um candeeiro e viu dois enormes olhos que o observavam, perguntou a si mesmo no que estaria a pensar, mas não teve coragem de perguntar. Em vez disso fez-lhe uma proposta.
- Importa-se que vá até Belém? Afinal era o nosso primeiro destino.
- Não, mas porquê?
- Lembrei-me que podíamos ir comer uns Pastéis de Belém.
Ficou um pouco atrapalhado com o convite que tinha acabado de fazer e tentou corrigir.
- Não leve a mal, mas é algo que costumo fazer quando acabo o serviço, vou comprar Pastéis de Belém e vou até ao pé do rio.
Sentia-se cada vez pior, mas continuou.
- Mas pode ficar no carro se quiser, ou podemos não ir...é como desejar.
Pelo espelho percebeu que ela estava a sorrir.
- Não, não mude os seus planos, podemos ir até Belém. Mas a estas horas não vai estar tudo fechado?
- Eu conheço umas pessoas lá, acho que ainda consigo arranjar alguma coisa.
Ela acenou com a cabeça e recostou-se no banco.


No rio

Voltou para o carro a correr, orgulhoso de ter conseguido os bolos. Entrou no táxi e exibiu-os com ar de rapaz pequeno.
- Estou espantada, isto é que é ter conhecimentos.
A voz dela era diferente, menos triste, menos pesada e ele sentiu-se mais à vontade.
- Então podemos ir? Há um sitio aqui perto onde costumo ir e onde nos podemos sentar a comer enquanto olhamos as luzes da ponte.
- Estou a ver que faz isto muitas vezes.
- Faço, mas sempre sozinho.
Quando parou o carro saiu para lhe abrir a porta, mas ela antecipou-se. Olhou pela primeira vez bem para a sua cara e reparou que era mais nova do que julgava, era também muito bonita.
- É ali que eu me costumo sentar, mas se quiser podemos ir para outro lado.
- Não, por mim está bem.
Sentaram-se e durante uns minuto instalou-se um silêncio incomodativo. João queria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Ela falou.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro.
- Que carro é este que você guia?
- Porquê?
- Porque é o tipo de carro que esperava ver conduzido por alguém mais velho. Além disso está tão bem cuidado, parece ter sido pouco usado, mas desconfio que deve ter muitos quilómetros.
- Sim, tem muitos.
- E tem as cores antigas, tenho muita pena que as tenham mudado, acho que a cidade perdeu um pouco dela nessa altura.
- Eu também gostava mais das outras cores, acho que todos gostavam. Eu nunca tinha guiado nenhum destes.
- Mas não respondeu à minha pergunta, como é que ele veio parar às suas mãos?
João lembrou-se outra vez da história que lhe tinham contado.
- Não tenho assim uma justificação especial para isso, eu só faço o que me mandam, mas confesso que também estranhei quando o fui buscar.
Ficou pensativo.
- E sabe que mais? Agora que fala no assunto, acho que sem me dar conta tenho andado o dia todo a pensar nisto.
- Como assim?
- Isto vai parecer estranho, mas este carro...como é que hei-de explicar? É um carro que se sente, percebe? Não sei se estou a fazer algum sentido.
- Está, não sei bem como, mas acho que sei exactamente o que está a tentar dizer-me. Sabe de quem ele era? Devia ser de alguém que gostava muito dele.
- Sim, disseram-me que sim.
Ficaram uns minutos mais sem falar, ouvia-se o barulho da água perto deles e a noite começava a ficar mais fria.
- Sabe? Hoje foi um dia estranho, tenho andado quase sempre sozinho e começo a pensar se não terá sido por distracção minha que tive menos clientes.
- Pelo menos reparou em mim.
- Sim, em si reparei.
- Ainda bem que o fez.
Ela fez uma pausa.
- O meu dia também não foi muito normal, como já deve ter notado.
- Imagino que não...apetece-lhe falar sobre isso?
- Não, não me apetece. Para falar verdade já não me parece tão importante como há umas horas atrás.
Ela sorriu antes de continuar.
- Sabe? Gosto deste sitio, obrigado por me ter convidado para vir aqui.
- Não tem de agradecer, não é propriamente um lugar secreto.
- Eu sei, mas obrigado na mesma.
Os carros passavam ao longe na ponte e João pensava nas pessoas que seguiam dentro deles, pensava em todas aquelas vidas diferentes, vidas cheias de problemas, cheias de alegrias, pensava que se cruzava todos os dias com milhares de pessoas e que não sabia nada sobre elas. Então virou-se para ela e falou.
- Queria dizer-lhe uma coisa.
- Estou a ouvir.
- Eu também acho que foi bom ter parado, foi muito bom mesmo.
Ela olhou para ele de forma doce, aproximou-se e deu-lhe um beijo na face.
- E se fossemos dar uma volta pela cidade? Não tens mais sítios que me gostasses de mostrar?
Ele gostou que ela o tratasse por tu e respondeu.
- Tenho mais um ou dois de que gosto muito.
- E não me queres levar até lá?
- Sim, quero.
Dirigiram-se para o carro e João apressou-se para lhe abrir a porta da frente, desta vez conseguiu. Antes de entrar inspirou fundo para sentir o ar da noite e olhou para o rio e para o sitio onde tinham estado, tudo estava diferente.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Alberto, o Homem-Estátua

Alberto estava há duas horas parado e doíam-lhe os pés. Sabia que não devia ter comprado sapatos novos, mas não resistira. Andava a namorar a mesma montra há três semanas e achara que também tinha direito a comprar algo para ele. Agora amaldiçoava a hora em que tinha tomado a decisão de gastar tanto dinheiro nuns sapatos que o magoavam, especialmente quando tinha de estar tantas horas de pé. Era um homem-estátua, uma figura branca que fixava o infinito durante horas sem mexer um músculo, sem deixar perceber que debaixo da tinta que lhe cobria a cara e a roupa existia uma pessoa normal.

Naquela manhã de Janeiro tinha saído atrasado de casa e tinha pintado a cara no metro. À sua volta todos olhavam a transformação e riam enquanto as suas expressões iam ficando escondidas. Um senhor de fato cinzento tinha mesmo chegado a oferecer-lhe uma moeda que recusara. Só depois de estar todo vestido e imóvel podia aceitar alguma coisa, até lá era só alguém a caminho do trabalho, um trabalho invulgar.

O tempo passava devagar e pensava em algo que acontecera duas semanas antes. Como em todos os anos deixara de lado o fato pintado de branco por um dia e tinha se transformado noutra personagem, um músico que tocava músicas de Natal. As pessoas tinham sido generosas nas suas ofertas e mais uma vez tinha sido o dia do ano em que mais dinheiro tinha ganho, o que o levava sempre a pensar se não devia desistir do homem-estátua. Era um pensamento recorrente que abandonava sempre com o argumento de que esta personagem só funcionava durante um dia e que não teria o mesmo sucesso se aparecesse mais vezes.

Mas desta vez tinha acontecido algo diferente, algo que o tinha deixado pensativo e que desde então não lhe saía da cabeça. Tudo se passou ao fim do dia quando já pensava em ir para casa e reparou num rapaz que o observava durante mais tempo do que o normal. Alguém que parecia querer adivinhar o que lhe ia dentro da cabeça, que parecia querer saber quem era. Tentara não olhar muito para ele, mas não pôde deixar de se sentir observado e não conseguiu desligar-se da sensação de estarem a tentar entrar dentro da sua vida. Era tudo muito estranho pois todos os dias era observado por muitas pessoas e não percebia o que é que este rapaz tinha de diferente.

Passado algum tempo reparou que alguém falava com o rapaz, era uma rapariga de feições alegres que tinha a impressão de conhecer. Olhou melhor e confirmou que era a mesma rapariga que costumava passar por ele todos os dias ao fim da tarde. Conhecia bem a sua cara pois ela fazia questão de se pôr bem à frente dos seus olhos, para que ele não tivesse outra hipótese senão olhar também para os seus. Ela costumava sorrir, não sabia se para ver se ele se mexia ou se apenas por simpatia, ele retribuía o sorriso sem mexer os lábios.

Não se tinha passado mais nada, a rapariga e o rapaz tinham conversado um pouco enquanto olhavam para ele e tinham ido embora juntos. Mas não conseguia deixar de pensar que tinham estado a falar sobre ele, a certa altura tinha mesmo chegado a pensar ter ouvido o seu nome, mas não podia ser, pois não havia forma de o saberem. E desde esse dia que passava uma parte do dia a pensar no que tinha acontecido, a pensar se de alguma maneira não fazia parte da vida das pessoas que todos os dias paravam e o observavam. Pensava nas histórias que teriam sido imaginadas sobre ele e sobre a sua vida, em quantos teriam imaginado como é que ele era debaixo da máscara branca, tentando descobrir de quem se esconderia, de quem fugiria.

Alberto não podia deixar de sorrir por dentro enquanto pensava. Era uma pessoa perfeitamente normal que raramente sonhava e era engraçado pensar que os outros podiam sonhar com ele, ele que não era interessante, ele que era a mais banal das pessoas e que passava os dias parado a olhar sempre para o mesmo ponto.

De repente o seu coração começou a bater mais depressa e sentiu-se inundado por tantos sentimentos diferentes que lhe era difícil estar quieto. Era como se tivesse começado a viver depois de anos adormecido. Não percebia o que é que estava a acontecer e lutava para não se mexer, lutava para não ceder ao impulso de saltar de cima do banco onde estava e dançar ao som de uma música que só ele conseguia ouvir. Não resistiu.

Foi uma sensação estranha, como se estivesse a quebrar uma regra imposta por alguém que controlava a sua vida sem o saber. Uma maldição lançada por inveja ou ciúme que o tinha aprisionado durante anos, que não o tinha deixado viver da melhor forma, que não o tinha deixado ser feliz. E mexeu-se, mexeu-se devagar, despertando aos poucos de um sono longo. As pessoas pararam na rua e olharam para os seus movimentos cada vez mais rápidos, parecendo conseguir adivinhar que algo importante se estava a passar, como se soubessem que o homem-estátua não voltaria àquele local, como se tivessem a certeza que estavam a assistir à sua última actuação.

A caminho de casa esfregava as mãos na cara e tentava limpar a tinta branca que usara durante tanto tempo, demasiado tempo. Não sabia como é que pensamentos tão simples tinham provocado tudo o que estava a sentir e pensava que estava a começar algo que não sabia onde o ia levar, mas não ia resistir. Parou a observar a cidade e na sua cabeça tinha apenas uma imagem, a de um rapaz e de uma rapariga a passearem de mãos dadas...

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Albert

Estava frio e Rui descia apressadamente a rua, queria chegar a casa rapidamente e sentar-se frente à televisão a jantar. Tinha tido um dia aborrecido e caminhava de olhos no chão ignorando tudo à sua volta. De repente ao virar uma esquina ouviu uma música, alguém desafiava o frio em troca de algumas moedas. Aproximou-se e descobriu um homem alto de barbas ruivas que tocava uma flauta de madeira ao mesmo tempo que agitava umas campainhas prateadas presas a uma das pernas. Tocava uma conhecida música de Natal, daquelas que fazem voltar aos tempos de criança e às noites sem dormir à espera das prendas debaixo da chaminé. Ficou um pouco a ouvir e aos poucos uma história começou a formar-se na sua cabeça, tinha a certeza que ia conseguir escrever alguma coisa inspirada no que estava a observar.
Então alguém a seu lado falou.
- Estás a pensar se lhe dás alguma coisa?
Olhou para ver quem estava a falar. Era uma rapariga que parecia ter mais ou menos a sua idade.
- Sim, estava a pensar se havia de deixar uma moeda, normalmente nunca dou nada.
- Eu percebo, ele chama-se Albert e fugiu há muitos anos do seu país por causa de um amor impossível.
- Como é que sabes isso?
- Costumo passar aqui todos os dias e ele foi-me contando.
- Foi-te contando?
- Sim, se quiseres ouvir ele conta-te a sua história.
Ficou calado durante um pouco.
- Acho que estás enganada, eu tenho a certeza que ele nasceu aqui e nunca saiu da cidade.
Antes de continuar tirou uma moeda do bolso e pô-la em cima do que parecia ser um gorro de lã amarrotado no chão.
- E tenho a certeza que não se chama Albert.
Ela sorriu e respondeu-lhe.
- Estou a estragar a tua história, não estou?
Olhou melhor para ela e reparou que tinha a pele muito branca e o cabelo de uma cor estranha. Não sabia bem porquê mas sentia-se confortável perto dela.
- Desculpa, é que ultimamente não tenho conseguido escrever e isto pareceu-me prometedor, mas como é que sabias que eu estava a imaginar uma história?
- Foi só um palpite.
Não podia deixar de pensar em quem era esta estranha que lhe lia os pensamentos.
- Não costumo ser assim tão transparente.
- Ou se calhar não costumam olhar para ti com atenção.
- Se calhar não.
Ela ficou calada durante algum tempo, como se estivesse a decidir se devia ou não dizer-lhe algo. Por fim falou.
- Tenho uma proposta a fazer-te.
- Diz.
- Se quiseres eu conto-te a história do Albert e tu podes usá-la.
Ficou surpreendido com a proposta dela e não respondeu. Ela pareceu ficar inquieta como o seu silêncio e falou muito depressa.
- Desculpa, não queria ofender-te. Eu não queria desvalorizar o que pensaste, eu...olha, esquece. De certeza que tens algo mais interessante para contar...e eu estou para aqui a meter-me onde não sou chamada.
Interrompeu-a.
- Eu não fiquei ofendido.
- A sério?
- Sim, a sério.
- Mas fizeste um ar...
Não pôde deixar de esboçar um sorriso perante o ar preocupado dela e respondeu calmamente.
- É que nunca me tinham oferecido uma história antes.
Ela pareceu ficar envergonhada e não olhou directamente para ele.
- Não tinha pensado nisto desta forma, mas também não é assim nada de especial.
- Claro que é. Estás a dar os teus sonhos, a compartilhá-los com uma pessoa que mal conheces, claro que é especial.
- Mas eu de certa maneira conheço-te.
Rui percebeu o que ela queria dizer.
- Porque o imaginaste?
Ela apenas acenou com a cabeça.
- Mas nunca me tinhas visto, pois não?
- Eu sou rápida.
Ele sorriu.
- Estou a ver que sim. Olha e se saíssemos do mundo dos sonhos e fossemos tomar alguma coisa? Conheço um café aqui perto que serve um chocolate quente muito bom.
Os olhos dela brilharam de forma inocente.
- Parece-me boa ideia.
- Então vamos.
E desceram a rua lado a lado. Rui já tinha esquecido os planos de ir para casa, o frio já não o incomodava tanto e pela primeira vez em meses não tinha medo do futuro. Não tinha medo das páginas brancas à sua frente e sabia que mais tarde ou mais cedo alguma coisa iria surgir, principalmente porque já não parecia tão importante.
Tinha só uma dúvida e falou.
- Importas-te que te faça uma pergunta?
- Claro que não.
- É uma coisa pequena, mas fiquei curioso.
- Não te justifiques tanto, podes perguntar.
- Onde é que foste buscar o nome Albert?
Ela riu e ele percebeu que ia ficar sem saber...

domingo, dezembro 11, 2005

Um Convite

Estávamos perto do Natal e as ruas estavam cheias de pessoas a fazerem compras. Eu não tinha ninguém, por isso não tinha prendas para comprar.
Sentei-me frente ao computador. Ainda tinha algumas horas de trabalho pela frente e mais valia começar em vez de estar a olhar para as vidas dos outros.
Estava sozinho na sala onde trabalhava, uma sala antiga de paredes brancas e quase sem decoração. Conseguia ouvir algumas pessoas nas salas do lado, mas tinha a certeza que faltava pouco tempo para o barulho do meu teclado ser o único no meio do silêncio da noite.
Como todos ficava triste nesta altura do ano, pensava no que se tinha transformado a minha vida, recordava o passado e fazia planos para o futuro.
De repente alguém entrou na porta por trás de mim e ouvi uma voz conhecida.
- Por acaso não tens um lápis que me emprestes?
Era a Maria, trabalhava na sala a seguir à minha e também costumava ficar até tarde. Não nos conhecíamos muito bem, mas às vezes encontrávamo-nos no café e ela sorria para mim.
- Um lápis?
- Sim, um lápis, acho que já deves ter visto um alguma vez.
Ela estava com um ar divertido e continuou.
- Mas tem de ser um lápis verdadeiro, dos antigos.
- Porquê?
- Porque gosto mais desses. Deixei o meu estojo em casa e agora não sei se consigo continuar a trabalhar.
Sorri por causa do que ela disse e abri uma gaveta de onde tirei um lápis preto e amarelo.
- Toma, espero que gostes deste, é o único que tenho.
Ela olhou para mim com um ar de dúvida e disse.
- Mas ainda não foi usado.
- Não, mas não te preocupes, não o estava a guardar para nenhuma ocasião especial.
- Obrigada, ainda o devolvo hoje, vais ficar até tarde?
- Sim, tenho muito que fazer.
- OK, então até logo.
Fiquei a vê-la a afastar-se e voltei-me para o ecrã à minha frente. Não tinha a menor das vontades de estar ali e recordei Natais passados e os serões em família. Tinham passado poucos anos, mas parecia tudo tão longe de mim. Afastei os pensamentos da minha cabeça e voltei ao trabalho.
Passaram pelo menos duas horas e ouvi outra vez alguém atrás de mim.
- Vim devolver o lápis, mas receio que não tenha sobrado muito dele.
Na mão trazia um lápis com menos de metade do tamanho do que aquele que lhe entregara.
- Estiveste entretida.
- Desculpa, não pensei que fosse escrever tanto.
Ela estava com um ar de quem tinha cometido um grande pecado e eu não pude deixar de achar piada. Achava-a muito bonita e não tinha bem a certeza porque é nunca a tinha tentado conhecer melhor.
- Queres tomar café?
- Isso quer dizer que não estás zangado por causa do lápis?
- Não, não estou zangado.
- Está bem, então aceito.
Levantei-me e dirigi-me à porta. Deixei-a passar primeiro e ela agradeceu baixando ligeiramente os olhos. Enquanto andava pelo corredor percebi que éramos os únicos em todo o andar.
Depois de tirar dois café e de lhe entregar um deles sentei-me no chão, era um hábito meu, ficar até tarde e beber café sentado no chão. Ela não pareceu importar-se, sentou-se ao meu lado encostada ao balcão de madeira e começou a falar.
- Então porque é que estás ainda aqui a esta hora?
- Já te disse que tenho muito trabalho.
- Sim, eu sei, mas qual é a verdadeira razão?
Não pensei antes de responder.
- Na verdade não tenho muita vontade de ir para casa.
- Ainda te custa muito?
- O quê?
- Estar sozinho.
Não respondi.
- Desculpa, não devia ter perguntado.
- Não faz mal, estava só a pensar...se me custa estar sozinho? Não tenho uma resposta simples para essa pergunta. Eu gosto de mim e gosto de estar comigo, mas suponho que ainda não me habituei.
- Mas já passou algum tempo, não passou?
- Já, mas...sei lá, acho que há alturas piores do que outras.
Não falámos durante uns minutos até que ela se levantou e deitou os copos vazios fora. Voltou a sentar-se mas desta vez frente a mim.
- Olhas sempre assim para todas as pessoas?
- Desculpa?
Ela repetiu.
- Se olhas sempre assim para as pessoas?
Eu sabia bem do que é que ela estava a falar.
- Assim como?
- Vá lá...tu sabes, como se estivesses a olhar cá para dentro.
Já me tinham chamado muitas vezes a atenção por causa da maneira como fixava as pessoas, mas nunca daquela maneira.
- Como é que a conversa veio parar aqui?
Ela sorriu.
- Isso não importa, não estás a responder à minha pergunta.
- Não sei o que queres que te diga. Acho que sim, ou se calhar só para algumas, incomoda-te?
- Pelo contrário, sinto-me especial.
- Por isso é que me costumas sorrir quando nos encontramos aqui?
Ela ficou a olhar para mim antes de responder.
- Julgava que não reparavas.
- Eu reparo em tudo, só que nem sempre tenho coragem...
Não consegui continuar.
- Mas tens coragem para olhar.
- Tens razão, mas eu não penso muito nisso.
Ela ficou outra vez a olhar para mim, como se estivesse a ganhar coragem para dizer alguma coisa. Por fim falou.
- Olha, tenho um convite para te fazer.
- Um convite?
Fiquei nervoso.
- Sim, um convite. Eu no final da semana vou para fora passar o Natal com a minha família, mas antes queria te convidar para um jantar em minha casa.
- Um jantar de Natal?
Ela riu.
- Sim, pode ser um jantar de Natal.
- Mas com prendas e tudo?
De repente corei muito, não era aquilo que queria dizer. Mas ela não se desmanchou e respondeu.
- Com prendas e tudo, mas não precisa de ser nada de especial.
Pensei logo num conjunto de lápis e comecei a fazer planos para os ir comprar logo no dia seguinte. Ela interrompeu os meus pensamentos.
- Mas aceitas?
- Desculpa, não disse que sim?
- Não.
- Mas pensei.
- Eu percebi pela tua cara, mas queria ouvir.
Corei outra vez.
- Sim, aceito.
Ela levantou-se e eu segui-a. Parámos à porta da sala dela e eu fiquei a olhar o chão, mas falei.
- Então quando é que é o jantar?
- Que tal depois de amanhã, podes?
- Posso.
- Então está combinado.
Ela olhou para a mesa dela e disse.
- Olha, vou-me embora, tu ficas?
- Acho que não, já não me lembro o que é que estava a fazer, mas não me parece que fosse alguma coisa importante. Vais para o metro?
- Vou.
- Eu faço-te companhia, deixa-me só desligar o computador e arrumar as coisas.
- Porque é que não deixas tudo como está?
- Não gosto de deixar tudo desarrumado.
- Se calhar está na altura de começares.
- Se calhar está...deixa-me só ir buscar o casaco.
- Eu espero.
Antes de desligar a luz olhei pela janela para as ruas vazias, não pareciam as mesmas ruas que observara umas horas antes...

sábado, dezembro 03, 2005

Vocês

A música toca vezes sem fim enquanto escrevo. É a música perfeita pois acaba onde começa e eu sonho em ouvi-la para sempre. Tento chamar a tristeza que me inspira mas não consigo sentir nada, apenas o vazio que ficou, que me acompanha sem me aconchegar. Caio no sofá e tento dormir um pouco, mais uma vez decido fugir da vida e volto ao princípio.


Vocês...

Não gosto deste sitio, não gosto do fumo do meu cigarro e dos desenhos que se formam por cima da minha cabeça. O café espera por mim e fica frio, sei que já não o vou beber e olho para a espuma creme que tapa o castanho escuro que suja a chávena. Aqui nunca há cinzeiros e hesito antes de deixar cair a cinza, tento não mexer o braço e aposto comigo próprio quanto tempo mais a mesa vai ficar limpa.
Na porta alguém olha para mim. Meio homem, meio mulher, uma figura vestida com roupas sem cor parece tentar decidir se deve ou não entrar. Eu baixo os olhos para a mesa preta e rezo para que não venha ter comigo, mas não rezo o suficiente.
Decido que é uma mulher e vejo-a caminhar em direcção a mim, tem a cara coberta de pequenas feridas recentes, como se tivesse apagado todos os cigarros que fuma no rosto já velho. Senta-se à minha frente e o cheiro é insuportável, tapo o nariz com uma das mãos e ordeno às pernas que me levem embora, mas elas não obedecem e eu fico a ouvir um discurso sem sentido. Não sei se a mulher está a falar para mim, não sei se alguém existe para além do seu mundo e pergunto-me porque é que não consigo ir embora. Ela olha-me nos olhos.
- Importa-se que beba este café? Já não vai bebê-lo pois não?
- Não, não vou, pode beber à vontade, mas já deve estar frio.
- Não importa, só quero recordar o sabor, eu bebia café há muitos anos atrás, mas suponho que você deva saber isso.
Não sei do que é que ela está a falar e continuo a não conseguir sair daqui.
- Sim, suponho que sim, não deve ter vivido sempre assim.
Ela sorri e continua a falar.
- Você já escreveu sobre nós. Já esteve perdido, não esteve?
- Já escrevi sobre vocês? Não percebo o que está a dizer, eu escrevo sobre muitas coisas.
Ela sabe que estou a mentir.
- Não tenha vergonha, nós não ficámos chateados e percebemos o que queria dizer. Era sobre esperança, não era?
Sinto as pernas tremer. Como é que ela sabe?
Acaba de beber o café e continua.
- Sabe? Eu já fui bonita, muito bonita e você esqueceu-se disso.
- Mas eu nunca a vi, como é que podia saber?
- Meu rapaz, você foi um de nós, devia saber que todos tivemos vidas.
- Mas eu só escrevi, eu só queria desabafar, só queria que alguém me ouvisse. Nunca quis ofender ninguém. Eu não a conheço, eu não conheço nenhum de vocês.
- Tenha calma, não ofendeu ninguém. Só se esqueceu que eu era muito bonita, só isso. E eu estou aqui para lhe lembrar isso.
Fico calado durante um pouco e tento pôr as ideias em ordem. Ela tem razão eu esqueci-me que ela tinha sido a rapariga mais bonita da cidade, não foi de propósito, mas esqueci-me.
De repente tudo parece diferente, já não sinto o cheiro dela, já não sinto repugnância em olhar para as suas feridas e agarro-lhe numa das mãos. Apesar de suja a pele é suave e eu aperto-a com força.
- Tem razão, eu esqueci-me. Estava tão concentrado em escrever sobre mim que me esqueci de vocês.
- Não faz mal, eu só achei que lhe devia lembrar. Assim pode ser que passe a olhar à sua volta de uma maneira diferente.
- Acha que consigo?
- Eu estou suja, mas não vejo tudo sujo à minha volta.
- Suponho que não...
- Não deixe de escrever e não se esqueça de nós.
Os olhos dela brilham e as lágrimas quase que caiem.
- Eu era mesmo muito bonita, não era?
- Sim, era a mais bonita de todas.
- Obrigado. E obrigado pelo café, tenho de ir embora, ainda tenho de ir tratar de umas coisas.
Fico a olhar para ela e desejo que tenha sorte.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Queres dançar?

- Queres dançar?
Maria ficou muda de espanto, primeiro porque Manuel nunca se tinha dirigido a ela sem ser por você, depois porque era sua psicóloga e de repente sentia que a barreira que tinha de criar entre ela e todos os que acompanhava estava a ser quebrada.
- Dançar? Não nos devíamos antes concentrar no que estávamos a falar?
- Eu sei que este pedido não é muito normal, mas confesso que neste momento sinto que nenhuma conversa me pode ajudar mais do que dançar contigo.
Ele continuava a tratá-la por tu e isso desagradava-lhe ao mesmo tempo que secretamente sentia um certo alivio por não ter de manter o formalismo que sabia ser essencial nas consultas. Eram quase da mesma idade e ao principio, como em tantos outros casos, tinha tido de passar algum tempo a pôr Manuel no seu devido lugar. E depois de ele ter percebido como é que as coisas funcionavam nunca mais tinha tido nenhum tipo de problemas. Mas agora tinha e não sabia bem o que fazer, por um lado pensava numa das frases que já tinha preparadas para situações menos próprias, por outro tinha vontade de fazer tudo ao contrário, levantar-se e dançar. Sabia que não o podia fazer mas não deixava de pensar que o esforço de se manter afastada de todas as vidas que encontrava chegava a ser sufocante. Respondeu sem pensar.
- Mas não temos música.
- Eu consigo imaginar a música na cabeça.
- E tem alguma sugestão?
- Conheces uma música do Rufus Wainwright chamada 14th Street?
- Sim conheço, mas não achas...quero dizer, não acha que está a passar para além do razoável?
- Para falar a sério não estou a pensar em nada...queres dançar ou não? Vá lá, eu prometo que depois nunca mais falamos nisto. Acredita que eu não estou a desrespeitar tudo o que foi conseguido aqui, só quero um intervalo, um momento em que possamos deixar este registo sempre tão triste. Anda lá, quanto mais demoras mais estragas tudo...
Maria nem podia acreditar que se estava a levantar, que ia alinhar naquela loucura, que ia fazer algo contra tudo o que sabia ser certo. Era tarde demais, antes de ter tempo para voltar atrás Manuel pegou-lhe suavemente na mão, puxou-a contra si e começaram a dançar enquanto a música tocava nas suas cabeças.

Don't ever change, don't ever worry
Because I'm coming back home tomorrow
To 14th Street where I won't hurry
And where I'll learn how to save, not just borrow
And they'll be rainbows and we will finally know

Enquanto deslizavam pela sala pensava em muitas coisas, sabia que ele tinha prometido algo que não podia cumprir, sabia que aquela era a última vez que estava com Manuel e que se calhar esta era a maneira dele lhe dizer que estava pronto. Então encostou a cabeça no seu ombro e continuou a dançar.

quarta-feira, novembro 09, 2005

O Olhar

Dei por mim a recordar o passado. A lembrar-me da cara de todas as pessoas por quem passei, pequenos pedaços de memória que tento juntar num só pensamento...


Quando tento pensar em Praga sinto que não consigo dizer há quanto tempo é que tudo aconteceu, como se a memória daqueles dias fosse algo que tivesse escondido de mim próprio durante muito tempo. Agora olho para a carroça que passa devagar à minha frente e sou levado para longe. Vejo as figuras de pele escura e cabelo louro e lembro-me de alguém que um dia entrou na minha vida.


Praga

Era uma noite muito quente e eu descia lentamente uma rua da qual não sabia o nome numa cidade que parecia se esconder de mim. Tinha chegado há uma semana e resolvera tentar umas férias diferentes. Não levava indicações nenhumas sobre o que era normal visitar-se em Praga e esperava que a cidade se revelasse por si só, que me fosse mostrando o que lhe apetecesse, ficando completamente à mercê do seu humor.

Até àquele dia tudo tinha corrido bem, possivelmente estaria a falhar alguma coisa que não poderia deixar de ver, mas isso era compensado pelos pequenos segredos que me eram revelados todos os dias. Pequenas ruas com roupas de todas as cores penduradas, fontes escondidas com água fresca que eu não sabia se podia beber, mercados cheios de gente que sorria, eram apenas algumas das coisas que eu não teria visto se tivesse seguido o percurso normal apresentado a qualquer turista. E eu não queria ser um turista normal, queria ser um verdadeiro habitante daquela cidade, nem que fosse apenas por alguns dias.

Cheguei ao fim da rua e entrei numa praça que parecia ser muito antiga. Os edifícios rodeavam uma fonte cheia de personagens míticas que pareciam travar uma batalha épica, como se o destino do mundo estivesse ali retratado na pedra gasta pela água. Em todas as varandas existiam alguns vasos de flores que faziam com que aquele local sorrisse para quem nele entrasse e se deixasse acolher. Decidi descansar.


Ela

Sentei-me no chão e encostei-me à fonte, fechei um pouco os olhos e fiquei a ouvir o barulho da água e a pensar se a praça viria assinalada em todos os livros e guias que tentara não ler antes de começar a minha viagem, secretamente desejava que não.

Comecei a olhar para as pessoas que se encontravam à minha volta e reparei num grupo à minha direita. Eram ciganos, um povo sem pátria, mas sempre presente, um povo que tinha os mesmo traços rudes e belos em todo o lado, em todos os países onde viviam de forma despreocupada, como se fossem o último povo livre.

No meio de todos estes pensamentos reparei numa rapariga cigana que estava sentada no meio de outras mais novas. Tinha os olhos vendados e pareciam estar a jogar a algum jogo que eu não compreendia. As outras raparigas falavam e ela respondia a rir, um riso que fazia eco nos edifícios e que abafava o som da água que caía atrás de mim.

Levantei-me e cuidadosamente aproximei-me tentando perceber o que estavam a fazer. Estava agora a poucos metros delas e conseguia perceber que as raparigas mais novas faziam algum tipo de perguntas ou desafios que provocavam o riso da rapariga de olhos tapados. Desejava poder perceber as palavras exactas que diziam, mas ao mesmo tempo agradecia por isso não acontecer.

De repente ouviu-se uma voz e o grupo desfez-se. As raparigas correram em direcção a uma cigana mais velha que as chamava e deixaram a de olhos vendados sozinha no meio da praça. Para meu espanto, ela não retirou logo a venda dos olhos e deixou-se ficar sentada no chão, como se quisesse sentir os sons e os cheiros que a rodeavam. Estava cada vez mais seduzido pelo que via e voltei a sentar-me no chão ficando a olhar para a rapariga.


Nós

Não sei quanto tempo fiquei ali a observá-la. Os minutos passaram mais devagar e eu sonhei, sonhei que a conhecia e que vivíamos um amor impossível, sonhei com um olhar doce e com os olhos mais bonitos que alguma vez vi na vida. Fechei eu os meus olhos e vi duas vidas ligadas para sempre, algo que eu sentia ser possível embora não conseguisse explicar porquê. Sabia que se existisse alguém no mundo que me estivesse destinado tinha de ser ela, tinha de ser ela a única pessoa que me podia compreender, que me podia sentir, que me podia amar.

Corri. Fugi dali para fora antes de conseguir ver os olhos dela, como se isso acontecesse eu não me pudesse libertar mais, como se esse fosse um ponto de onde não haveria retorno. Corri o mais depressa que consegui por entre os prédios que não reconhecia, num mundo que não era o meu.

Por fim caí exausto e perguntei-me porque é que fugia, porque é que me afastava do que eu sentia ser tão importante. Não tinha resposta para nenhuma das questões que me assombravam, não sabia o que se estava a passar, não sabia porque é que algo tão simples me podia afectar daquela maneira. Senti que ia enlouquecer.

Voltei para trás. Demorei algum tempo a descobrir outra vez a praça no meio do que para mim era agora o mais complexo de todos os labirintos. Quando cheguei outra vez ao sitio de onde fugira olhei desesperadamente para todos os lados e percebi que o grupo de ciganos já não estava ali. O meu coração pareceu rebentar.

Dirigi-me para o sitio onde a rapariga estivera sentada e no chão uma venda esquecida marcava o local. Agarrei nela e ainda consegui sentir um ligeiro perfume, um cheiro que nunca mais esqueci, mesmo depois de ter desaparecido do pano que guardei, uma única lembrança do meu destino, um pequeno vislumbre do que deveria ter sido.


Eu

A carroça dos ciganos afasta-se de mim e eu sei que mantive tudo demasiado tempo afastado do meu pensamento, como se durante estes anos todos me tivesse convencido que de facto tinha sonhado e que nada tinha acontecido. Mas isso não é verdade, sei que foi a noite mais real de toda a minha vida e que o que senti foi verdadeiro.

Não entendo porque fugi, não sei porque é que tudo aconteceu assim e porque é que quase me esqueci. Só sei que no meio das recordações que trouxe de tantos sítios diferentes está algo que tenho vontade de voltar a tocar.

terça-feira, outubro 25, 2005

Sons

A noite cai e eu estou sentado numa esplanada a olhar as pessoas. O verão está a chegar ao fim e tento aproveitar os últimos dias de bom tempo. Tenho saudades do frio, mas hoje quero despedir-me das noites ao ar livre.

A maior parte das pessoas à minha volta estão a começar a jantar e o barulho de fundo das suas conversas aconchega-me enquanto a minha cabeça voa para longe do sitio onde estou. Recordo muitas noites, muitas companhias e sorrio ao lembrar-me de tudo o que me aconteceu nos últimos meses. Devia estar triste, devia estar melancólico, mas não consigo e estremeço ligeiramente ao recordar emoções que passaram mas que ainda me acompanham.

No meio do meu sonho sou despertado pelo som de uma guitarra a poucos metros de mim, alguém começa a cantar uma música e eu abro os olhos para observar o espectáculo que me é oferecido. À minha frente um rapaz com pouco mais de vinte anos toca energicamente abafando a sua própria voz rouca que canta músicas antigas. Apesar da pouca idade o rapaz tem uma expressão de quem já passou muito na vida, há qualquer coisa nele que nos faz acreditar que os poucos anos de vida que tem estão cheios de histórias que podemos adivinhar enquanto olhamos para a sua cara triste.

Estou tão concentrado a observar o rapaz que não reparo logo que a seu lado uma rapariga dança com umas fitas nas mãos com as quais desenha figuras imaginárias no ar. Tem um ar mais velho do que ele e uma cara pouco simpática, parece apenas interessada nos passos de dança que vai executando pelo meio das pessoas, passando com as fitas a poucos centímetros das cabeças de quem, como eu, observa aquele espectáculo de princípio de noite.

Deixo os meus pensamentos de lado e olho para os dois enquanto a música continua e eles trocam sinais mudos. Ela parece estar zangada com ele, como se ele não tocasse a música da maneira que ela quer, como se não houvesse uma sintonia perfeita entre os dois e isso tirasse brilho à sua dança. Vejo na cara dele um esforço para a acompanhar e um sorriso ligeiro na boca dela dá-me a perceber que ele é bem sucedido. E ficam assim a olhar um para o outro enquanto as fitas continuam a voar reflectidas nos olhos de todos os que olham para eles.

Por momentos tenho inveja, apesar de ver duas figuras frágeis e sujas tenho inveja da força que vejo entre os dois, da vontade de melhorar, da fuga do que é normal, do que é cansativo, da vontade de ser feliz, apenas esse desejo sem que mais alguma coisa importe.

Não percebo os meus sentimentos e a forma como eles invadem o meu mundo e tento encontrar algum defeito no que me atrai, no que me faz não conseguir deixar de olhar. Vejo outra vez duas pessoas de aspecto estranho, duas pessoas que a maior parte do tempo não têm um ar feliz, mas que olham entre si como se pudessem viver apenas da presença do outro.

A música acaba, ouvem-se algumas palmas e penso se outros como eu ficaram cativados por aquele par e pelas emoções que parecem sair do meio dos dois. Como se o verdadeiro espectáculo que apresentassem fossem os sorrisos quase imperceptíveis que trocam como que dizendo que estão unidos, que são um só.

A rapariga dirige-se à esplanada onde estou sentado e estende uma pequena caixa preta à espera de algumas moedas que paguem o seu esforço. Não posso deixar de reparar no seu ar pesado e pouco feliz e em como isso não faz sentido. Como é que a mesma pessoa consegue transmitir sensações tão diferentes? Como é que eu ao olhar para ela sinto ao mesmo tempo, inveja, repulsa, amor e tantos outros sentimentos contrários?

Então ela chega ao pé de mim e estica uma das mãos de forma envergonhada, não consigo ficar indiferente a tudo o que eles me fazem sentir e dou por mim a deixar algumas notas dentro da caixa cheia de moedas brilhantes. A rapariga olha para a caixa e começo por ver na cara dela uma expressão de espanto, logo seguida de um sorriso que aparece primeiro de forma tímida até se transformar e iluminar a noite toda e me fazer tremer.

Enquanto vejo os dois em direcção a outra esplanada relembro vezes sem fim aquele sorriso e o que ele me fez sentir. Penso mais uma vez na minha vida e quase que posso jurar que consigo ouvir música na minha cabeça, como se de repente todos os meus medos, todas as minhas ansiedade tivessem sido soprados para longe de mim. Sinto os olhos cheios de lágrimas e não quero que este momento acabe, quero poder estar em paz comigo mesmo para sempre, quero esquecer tudo o que passei neste verão que agora acaba, quero sorrir...