Telma: vontade, desejo...
Luís entrou no hipermercado e estranhou o ambiente. Embora estivesse mais perto da sua casa preferia ir a outro, preferia pagar um pouco mais para se sentir mais à vontade, para sentir que pertencia a um mundo mais perfeito, mais bonito. Mas naquela tarde tinha pressa e não tinha tempo para passear pelos corredores, era mesmo só entrar, comprar o que queria e sair rapidamente, por isso era preferível um sítio com menos gente.
Apesar de tudo demorou mais tempo do que tinha pensado, não conhecia bem o sítio onde estavam as coisas e não conseguiu encontrar logo o que procurava. Só depois de fazer duas vezes o corredor principal descobriu o que queria, uma nova marca de comida pré-cozinhada que vira anunciada na televisão e que tinha decidido ir ser o seu jantar.
Enquanto caminhava em direcção à zona das caixas olhou para as poucas pessoas que circulavam à sua volta. Eram diferentes das que estava habituado a observar nos sítios que costumava frequentar e recordou-se de quando era um miúdo e vivia fora da cidade. Tudo tinha mudado desde essa altura e recordava agora esses tempos.
Ao chegar perto das caixas reparou que estavam praticamente vazias, podia escolher a que lhe apetecesse e avançou para a que estava mais perto de si onde uma rapariga vestida com um casaco azul e vermelho aguardava pelo próximo cliente. Pôs a embalagem que trazia na mão no tapete rolante e cumprimentou-a.
- Boa tarde.
Ela respondeu.
- Boa tarde, tem cartão de desconto?
- Não, não tenho. Eu não costumo vir aqui.
- Então tem que começar a vir mais vezes, se for ao balcão principal pode pedir lá um cartão.
- Obrigado pela sugestão, mas hoje estou com pressa, talvez noutro dia.
Enquanto falavam Luís observou-a a passar devagar a embalagem pelo leitor de código de barras e a pô-la num saco de plástico. Normalmente irritava-se quando demoravam tanto tempo, mas naquele dia não pensou nisso, deixou-se ficar apenas a vê-la a mover as mãos com delicadeza. Ela devia ser mais nova do que ele, talvez tivesse menos uns sete ou oito anos e era muito bonita, mas era diferente das raparigas para as quais costumava olhar, era mais simples e estava menos arranjada. Pensou que talvez só estivesse a achar isso por causa da profissão dela e desejou não o estar a fazer, mas a verdade é que deu por si a reparar que as outras raparigas das caixas não estavam vestidas da mesma maneira e a pensar se ela não seria uma espécie de chefe ou supervisora. Definitivamente estava a ser preconceituoso e abandonou os pensamentos que tinha na cabeça. Ela falou.
- Quer mais um saco?
- Não, obrigado. Deixe-me só ver se encontro o multibanco...ah, está aqui! Sabia que o tinha guardado num destes bolsos quando fui pôr gasolina.
Ela passou o cartão na máquina com os mesmos movimentos lentos e cuidadosos e Luís deu por si a marcar os números do seu código pessoal também devagar. Depois de alguns segundos ouviu o barulho característico de impressão e esperou que ela lhe entregasse o recibo e o papel do multibanco. Quando ela esticou o braço para lhos entregar não resistiu e tocou com os seus dedos nos dela. Ficou com medo que ela tivesse reparado, mas ao mesmo desejou que tivesse percebido. Despediu-se de forma nervosa.
- Então boa tarde.
- Boa tarde e esperamos poder vê-lo por cá mais vezes.
O tratamento formal pareceu-lhe desadequado, mas sabia que só o era na sua cabeça. Caminhou para a garagem e leu o recibo que ela lhe tinha dado, procurou um nome impresso no papel e achou um que devia ser o dela, Telma Santos.
Luís passou a ser um cliente assíduo do hipermercado. Todos os dias ao fim da tarde passava por lá para comprar o jantar e tentava pagar na caixa onde ela estava. Ao fim de alguns dias exibiu com orgulho o seu cartão de desconto e a partir daí passaram a trocar algumas palavras. Eram conversas rápidas, mas todos os dias falavam sempre mais um pouco do que no anterior, àquela hora havia pouca gente e podiam sempre perder algum tempo a falar.
Três semanas depois de a ter conhecido convidou-a a para jantar. Foi uma situação muito estranha e a meio pensou se não estaria a avançar cedo demais, mas ela aceitou sem ter de pensar muito. Impôs apenas uma condição, o jantar seria em casa dela no fim-de-semana seguinte. Ele aceitou.
Foi com algum nervosismo que Luís saiu do carro e tocou à campainha do prédio com o número vinte e três. Não era costume fazer convites daqueles a pessoas que mal conhecia e estava um pouco ansioso com o desenrolar da noite. No intercomunicador ouviu uma voz conhecida.
- Sim?
- Telma? Sou eu, o Luís.
- Sobe.
Entrou no prédio e sentiu o cheiro de comida. Subiu as escadas até ao segundo andar e quando se preparava para bater à porta ouviu o barulho de uma chave a rodar na fechadura. Telma abriu a porta sorridente.
- Olá, entra. Tiveste dificuldade em dar com a rua?
- Não, não conhecia a zona, mas as tuas indicações estavam perfeitas.
- Pois, suponho que não seja uma zona muito frequentada pelos ricos.
Quando ia argumentar percebeu pela cara dela que estava a brincar. De qualquer forma sentiu-se desconfortável com o comentário, sabia que haviam diferenças entre eles e não tinha conseguido resolver bem esse problema na sua cabeça. Um problema que o incomodava mais por achar que não era boa pessoa por pensar naquelas coisas, do que por sentir que isso tinha realmente alguma importância.
Ela interrompeu os seus pensamentos.
- Então, vais ficar aí à entrada?
- Desculpa, eu às vezes tenho destas coisas, não ligues. Toma, isto é para ti, não sei se gostas.
Telma agarrou no ramo de flores e cheirou-as demoradamente.
- Há muito tempo que não me ofereciam flores.
- Não é nada de especial, também trouxe vinho.
- Mas tu és maluco? É só um jantar simples, não era para trazeres nada, obrigada.
Entraram e observou a casa, era muito pequena mas muito acolhedora e sentiu-se muito bem lá dentro. As paredes estavam cheios de desenhos e todos os cantos estavam preenchidos por algum objecto, como se cada centímetro de espaço tivesse sido cuidadosamente planeado. Ela percebeu.
- Está um pouco cheia eu sei, mas tenho alguns problemas em me livrar das coisa de que gosto.
- Dá para perceber. E os desenhos?
- São meus.
- A sério?
- Sim, mas são só brincadeiras, não são verdadeiras obras de arte. É como te disse, não me consigo livrar das coisas.
Sentaram-se no sofá da pequena sala.
- Queres beber alguma coisa?
- Bebo um copo de água, não quero começar já com o vinho.
Ela sorriu com a piada dele e saiu da sala enquanto Luís continuava a observar aquele novo mundo onde tinha entrado. Por cima de uma televisão cinzenta estavam várias prateleiras cheias de CD’s e não resistiu a levantar-se e dar uma olhada. Quando Telma entrou com a água não conseguiu esconder o seu espanto.
- Desculpa, estava aqui a olhar para a tua colecção de CD’s, confesso que estou admirado.
- Porquê?
- Eu julgava que era um apreciador de música, mas quando olho para tudo o que tens aqui, sinto que não sei assim tanto sobre o assunto.
- É uma das minhas paixões, juntamente com o cinema e com os desenhos, mas não tenho dinheiro para tudo. Só que não respondeste à minha pergunta.
- Que pergunta?
- Porque é que ficaste admirado com a minha colecção de CD’s?
Falou sem pensar.
- Não achei que uma pessoa como tu...
Percebeu tarde demais o que estava a dizer.
- Desculpa, não era isto que eu queria...eu não queria dizer o que disse.
- Não? Eu acho que tu disseste exactamente o que querias. É difícil esqueceres, não é?
- Esquecer o quê?
Sabia bem no que é que ela estava a falar e não insistiu na pergunta quando percebeu que ela não ia responder. De repente sentiu-se muito desconfortável e apeteceu-lhe sair daquela sala pequena. Apeteceu-lhe fugir e esquecer tudo, esquecer o que dissera, esquecer quem era, apenas meter-se no seu carro e fingir que nada tinha acontecido. Mas no meio de todos este pensamentos confusos olhou para ela e reparou que não estava com um ar zangado. Acalmou-se.
- Desculpa, não era esta a noite que eu tinha planeado quando te convidei para jantar.
- Eu sei.
- Olha, eu não sou má pessoa e não acho que sou superior a ninguém, só que...eu não sei bem explicar, há coisas que são automáticas...eu...
Não foi capaz de continuar e sentou-se outra vez no sofá. Ela sentou-se a seu lado e falou calmamente.
- O teu mundo é muito diferente deste, não é?
- É...mas...
- Diz.
- É, mas não quero que seja, percebes?
Ela sorriu de uma maneira que o fez tremer.
- Eu sei.
- Sabes? Mas...então não estás zangada?
- Nunca disse que estava.
- Mas tu confrontaste-me. E com algo que eu próprio não consigo admitir para mim mesmo a maior parte das vezes.
Ela pousou as suas mãos nas dele e ficou um segundo a olhar para ele.
- Achei só que devíamos resolver este problema o mais cedo possível.
- Mas então tu...tu já sabias?
- Desde o momento em que me tocaste na mão, na primeira vez em que nos vimos.
Repetiu dentro da sua cabeça o que ela tinha acabado de dizer. Parecia que estava a acordar de um sonho, como se nas últimas semanas tivesse estado nalguma espécie de transe do qual começava a sair. Percebeu que não tinha pensado muito no que tinha andado a fazer, mas que de repente tudo fazia sentido.
Perguntou-lhe timidamente.
- E achas que já resolvemos o problema?
Ela não respondeu e beijou-o nos lábios.
- Luís, acho que gosto de ti.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Diferenças
Tarde
Quanto mais olhava para a parede mais tinha a certeza do impossível, aquela não era a sua sombra. Passou as mãos pelos contornos que deviam ser seus e reparou nas pequenas diferenças, o cabelo ligeiramente mais comprido, os ombros mais largos, a camisola de gola alta. Deitou-se sobre a cama por fazer e recordou o dia anterior.
A estação
Ao entrar no átrio principal do edifício olhou para os monitores com as horas dos comboios e percebeu que dificilmente conseguiria apanhar o das oito. Tinha escolhido o pior dia do ano para chegar atrasado, o dia do aniversário de Teresa, que lhe suplicara para não a desiludir mais uma vez. Agora corria por entre as pessoas derrubando tudo à sua frente e rezava para que o comboio se atrasasse pelo menos alguns minutos, era tudo o que precisava.
Saltou por cima de uma mochila esquecida no chão e viu-o pela primeira vez, reparou nele e o tempo pareceu correr mais devagar, como se numa fracção de segundo tivesse conseguido observar aquela pessoa durante horas, como se estivesse a olhar para um quadro numa parede de um museu e se esquecesse de tudo. Não pôde evitar a colisão e percebeu logo que tinha perdido o comboio.
Voltou a si com o barulho da sirene da ambulância. A seu lado um jovem bombeiro sorria para ele e explicava-lhe que tinha estado desmaiado durante algum tempo, mas que estivesse descansado pois não devia ser nada de especial, a ida ao hospital era só por precaução. Lembrou-se de Teresa e fechou os olhos, tinha falhado mais uma vez.
Em casa
Entrou em casa e desejou estar sozinho, queria poder pedir desculpas sem os olhares de toda a família. Ficou no corredor a ouvir as conversas e os risos das crianças que corriam umas atrás das outras e de repente deu por si a pensar que não gostava do quadro que estava pendurado por cima do móvel onde costumava pôr as chaves. Alguém o chamou de volta à realidade.
Em menos de dez segundos estava rodeado de perguntas e olhares. O penso na testa era o principal motivo de curiosidade e respondia devagar a todas a perguntas. Conseguia ver a cara triste de Teresa ao fundo da sala, sabia o que ela estava a pensar e sabia que não se ia deixar impressionar por nódoas negras e roupas rasgadas, as feridas entre eles eram bem maiores.
No quarto
Antes da festa acabar sentiu-se muito cansado e subiu para o seu quarto, tomou um banho e sentou-se na cama. Não ligou a televisão e ficou a ouvir Teresa no andar de baixo a arrumar a casa. Queria ir ajudá-la mas sabia que não ia ser bem recebido e ficou à espera de uma conversa que não queria ter.
Quando ela entrou no quarto estava quase a adormecer. Sentou-se mais direito e tentou escolher as palavras para falar, mas estava cansado e não sabia mais o que dizer ao fim de tantos anos, ficou calado. Ela fez um ar estranho, como se esperasse uma reacção diferente dele e perguntou-lhe se tinha dores. Respondeu que sim e ela disse que talvez fosse melhor deixarem a conversa para o dia seguinte.
Apagaram a luz e ficou a pensar no dia que tinha tido, pensou nos minutos que perdera no trabalho, no metro que não tinha apanhado por um segundo, no homem com quem tinha chocado na estação. A seu lado Teresa dormia, aproximou-se dela e sentiu o cheiro do hidratante que costumava pôr antes de se deitar, sempre gostara daquele perfume e tinha a sensação que não o sentia há muito tempo. Sem pensar aproximou-se mais e abraçou-a, sentiu o seu corpo e adormeceu.
Manhã
Acordou com o sol na cara e por um momento não se recordou do dia anterior, deixou-se ficar na cama de forma preguiçosa até que uma voz o chamou e lembrou-se de tudo o que tinha acontecido. Teresa entrou no quarto com um enorme sorriso na cara e disse-lhe que o pequeno-almoço estava pronto. Perguntou timidamente se não deviam conversar, mas ela sorriu outra vez e saiu do quarto sem responder.
Enquanto tomava banho sentiu-se estranho, como se o mundo à sua volta estivesse diferente. Não conseguia deixar de sentir uma sensação de que tudo era novo, como se estivesse num hotel numa das suas viagens de trabalho. Olhava para os lados e conseguia reconhecer os seus objectos, mas ao mesmo tempo parecia que estavam todos fora do seu sitio. Era algo que não conseguia compreender e deixou-se estar debaixo da água quente que corria do chuveiro.
Voltou para o quarto e abriu uma porta do armário para escolher algo para vestir. Olhou para as camisas penduradas e não teve vontade de vestir nenhuma, eram quase todas iguais e apetecia-lhe vestir algo diferente. Abriu algumas gavetas e foi passando por entre os dedos as camisolas dobradas no seu interior. Não sabia porquê, mas pareciam-lhe todas estranhas, como se não fossem dele, como se tivesse acordado numa casa que não era a sua e vasculhasse nas roupas de outra pessoa.
No fundo de uma gaveta encontrou uma camisola da qual não se lembrava. Nunca tinha gostado daquele tipo de golas que lhe apertavam o pescoço e perguntou a si mesmo como é que ela tinha ido ali parar. Era verde e à frente tinha uma figura estampada em tons de amarelo de um gosto muito duvidoso que o fez sorrir. Não resistiu e vestiu-a.
Desceu as escadas e sentou-se ao lado de Teresa que lhe perguntou que camisola era aquela. Tentou desviar o assunto, mas ela mal conseguia conter o riso, um riso que o fez lembrar-se do dia em que a conheceu. Não aguentou e riu-se com ela.
Quanto mais olhava para a parede mais tinha a certeza do impossível, aquela não era a sua sombra. Passou as mãos pelos contornos que deviam ser seus e reparou nas pequenas diferenças, o cabelo ligeiramente mais comprido, os ombros mais largos, a camisola de gola alta. Deitou-se sobre a cama por fazer e recordou o dia anterior.
A estação
Ao entrar no átrio principal do edifício olhou para os monitores com as horas dos comboios e percebeu que dificilmente conseguiria apanhar o das oito. Tinha escolhido o pior dia do ano para chegar atrasado, o dia do aniversário de Teresa, que lhe suplicara para não a desiludir mais uma vez. Agora corria por entre as pessoas derrubando tudo à sua frente e rezava para que o comboio se atrasasse pelo menos alguns minutos, era tudo o que precisava.
Saltou por cima de uma mochila esquecida no chão e viu-o pela primeira vez, reparou nele e o tempo pareceu correr mais devagar, como se numa fracção de segundo tivesse conseguido observar aquela pessoa durante horas, como se estivesse a olhar para um quadro numa parede de um museu e se esquecesse de tudo. Não pôde evitar a colisão e percebeu logo que tinha perdido o comboio.
Voltou a si com o barulho da sirene da ambulância. A seu lado um jovem bombeiro sorria para ele e explicava-lhe que tinha estado desmaiado durante algum tempo, mas que estivesse descansado pois não devia ser nada de especial, a ida ao hospital era só por precaução. Lembrou-se de Teresa e fechou os olhos, tinha falhado mais uma vez.
Em casa
Entrou em casa e desejou estar sozinho, queria poder pedir desculpas sem os olhares de toda a família. Ficou no corredor a ouvir as conversas e os risos das crianças que corriam umas atrás das outras e de repente deu por si a pensar que não gostava do quadro que estava pendurado por cima do móvel onde costumava pôr as chaves. Alguém o chamou de volta à realidade.
Em menos de dez segundos estava rodeado de perguntas e olhares. O penso na testa era o principal motivo de curiosidade e respondia devagar a todas a perguntas. Conseguia ver a cara triste de Teresa ao fundo da sala, sabia o que ela estava a pensar e sabia que não se ia deixar impressionar por nódoas negras e roupas rasgadas, as feridas entre eles eram bem maiores.
No quarto
Antes da festa acabar sentiu-se muito cansado e subiu para o seu quarto, tomou um banho e sentou-se na cama. Não ligou a televisão e ficou a ouvir Teresa no andar de baixo a arrumar a casa. Queria ir ajudá-la mas sabia que não ia ser bem recebido e ficou à espera de uma conversa que não queria ter.
Quando ela entrou no quarto estava quase a adormecer. Sentou-se mais direito e tentou escolher as palavras para falar, mas estava cansado e não sabia mais o que dizer ao fim de tantos anos, ficou calado. Ela fez um ar estranho, como se esperasse uma reacção diferente dele e perguntou-lhe se tinha dores. Respondeu que sim e ela disse que talvez fosse melhor deixarem a conversa para o dia seguinte.
Apagaram a luz e ficou a pensar no dia que tinha tido, pensou nos minutos que perdera no trabalho, no metro que não tinha apanhado por um segundo, no homem com quem tinha chocado na estação. A seu lado Teresa dormia, aproximou-se dela e sentiu o cheiro do hidratante que costumava pôr antes de se deitar, sempre gostara daquele perfume e tinha a sensação que não o sentia há muito tempo. Sem pensar aproximou-se mais e abraçou-a, sentiu o seu corpo e adormeceu.
Manhã
Acordou com o sol na cara e por um momento não se recordou do dia anterior, deixou-se ficar na cama de forma preguiçosa até que uma voz o chamou e lembrou-se de tudo o que tinha acontecido. Teresa entrou no quarto com um enorme sorriso na cara e disse-lhe que o pequeno-almoço estava pronto. Perguntou timidamente se não deviam conversar, mas ela sorriu outra vez e saiu do quarto sem responder.
Enquanto tomava banho sentiu-se estranho, como se o mundo à sua volta estivesse diferente. Não conseguia deixar de sentir uma sensação de que tudo era novo, como se estivesse num hotel numa das suas viagens de trabalho. Olhava para os lados e conseguia reconhecer os seus objectos, mas ao mesmo tempo parecia que estavam todos fora do seu sitio. Era algo que não conseguia compreender e deixou-se estar debaixo da água quente que corria do chuveiro.
Voltou para o quarto e abriu uma porta do armário para escolher algo para vestir. Olhou para as camisas penduradas e não teve vontade de vestir nenhuma, eram quase todas iguais e apetecia-lhe vestir algo diferente. Abriu algumas gavetas e foi passando por entre os dedos as camisolas dobradas no seu interior. Não sabia porquê, mas pareciam-lhe todas estranhas, como se não fossem dele, como se tivesse acordado numa casa que não era a sua e vasculhasse nas roupas de outra pessoa.
No fundo de uma gaveta encontrou uma camisola da qual não se lembrava. Nunca tinha gostado daquele tipo de golas que lhe apertavam o pescoço e perguntou a si mesmo como é que ela tinha ido ali parar. Era verde e à frente tinha uma figura estampada em tons de amarelo de um gosto muito duvidoso que o fez sorrir. Não resistiu e vestiu-a.
Desceu as escadas e sentou-se ao lado de Teresa que lhe perguntou que camisola era aquela. Tentou desviar o assunto, mas ela mal conseguia conter o riso, um riso que o fez lembrar-se do dia em que a conheceu. Não aguentou e riu-se com ela.
domingo, janeiro 08, 2006
O Táxi
Na cidade
Eram onze da noite e João conduzia o táxi devagar pelas ruas de Lisboa. Estava calor e trazia a janela aberta para sentir o vento na cara, àquela hora não se sentia o ar poluído da cidade e às vezes o cheiro era quase agradável. Gostava destas noites com pouco trabalho em que podia conduzir sem destino pelas ruas vazias e não se preocupava com o dinheiro que não estava a ganhar. Era uma pessoa simples e não precisava de muito para ser feliz, apenas alguns pequenos prazeres eram suficientes para que tivesse uma vida com poucas preocupações.
No dia anterior tinham-lhe ligado de manhã para ir buscar um carro à oficina com o qual deveria andar durante a semana e recordava agora o momento em que o tinha ido buscar. Era normal trocar de carro e normalmente não dava muita importância a estas mudanças, mas tinha ficado espantado com o que o esperava desta vez, um Mercedes com mais de vinte anos ainda pintado com as antigas cores dos táxis da cidade.
O carro estava em excelentes condições e quase que era difícil acreditar que tinha tanto tempo de serviço. O rapaz que lho entregara tinha lhe contado que pertencera a um taxista que se tinha reformado uns meses antes e que tinha sido o único a conduzi-lo durante duas décadas. O amor do senhor pelo carro era conhecido entre os seus amigos e ao que parecia tinha feito algumas exigências antes de o entregar. João só não sabia por que é que o tinham escolhido a ele para conduzir aquela antiguidade, não era conhecido por ser especialmente cuidadoso com os carros e sentia-se algo nervoso com a responsabilidade.
Na avenida
Quando descia a Avenida da Liberdade reparou numa pessoa parada no passeio, não era um sitio comum para se mandar parar um táxi, ainda mais àquela hora, mas abrandou a velocidade. Viu uma mão no ar e pensou que não devia parar ali, mas como o semáforo à sua frente ficou vermelho decidiu parar, uma mulher entrou pela porta traseira e sentou-se sem dizer nada. Ele falou.
- Boa noite, para onde deseja ir?
A mulher ficou calada sem olhar para ele.
- Peço desculpa, mas este é um sitio mau para estar parado, pode-me dizer para onde deseja ir?
Ela olhou para ele e falou.
- Desculpe, queria ir para Belém.
Arrancaram e João pensou se devia ou não dizer alguma coisa, nem sempre fazia conversa com os passageiros e tinha a sensação que a mulher não devia ser muito comunicativa.
- Sabe, quando quiser apanhar um táxi aqui devia ir para as ruas laterais, ali atrás é muito difícil alguém parar.
Ela voltou a demorar a responder.
- Eu não estava à espera de um táxi, na verdade não sei bem porque é que o mandei parar, acho que estava cansada e quando o vi achei que talvez fosse boa ideia dar uma volta de carro.
- Dar uma volta de carro? Mas não disse que queria ir para Belém?
- Tinha que dizer algum sitio não era? Mas na verdade não me importo muito para onde vá.
Ficou um minuto sem dizer nada. Não era a primeira vez que lhe aparecia uma pessoa estranha, mas não sabia bem o que dizer.
- Mas está tudo bem consigo? Eu...desculpe, não queria estar a ser intrometido.
- Não faz mal, compreendo que esta deva ser uma situação estranha para si, mas não se assuste, eu tenho dinheiro para pagar.
Não tinha pensado em dinheiro, raramente pensava. Ficou calado enquanto continuava a conduzir pela baixa da cidade, as ruas estavam iluminadas pelas luzes de Natal que ainda não tinham sido retiradas, uma das razões porque se tinha dirigido para aquela zona da cidade.
Esticou o braço e desligou o taxímetro.
- O que está a fazer?
A voz da mulher tinha se alterado e parecia algo assustada.
- A senhora não quer ir para lado nenhum e eu também andava um pouco à deriva, por isso não acho muito justo cobrar-lhe dinheiro.
- Como? Não está a falar a sério pois não?
- Estou, assim pelo menos tenho companhia.
Ela não respondeu e ele continuou a guiar sem destino.
Passou algum tempo sem que algum dos dois falasse. Ele olhou pelo retrovisor quando passaram por um candeeiro e viu dois enormes olhos que o observavam, perguntou a si mesmo no que estaria a pensar, mas não teve coragem de perguntar. Em vez disso fez-lhe uma proposta.
- Importa-se que vá até Belém? Afinal era o nosso primeiro destino.
- Não, mas porquê?
- Lembrei-me que podíamos ir comer uns Pastéis de Belém.
Ficou um pouco atrapalhado com o convite que tinha acabado de fazer e tentou corrigir.
- Não leve a mal, mas é algo que costumo fazer quando acabo o serviço, vou comprar Pastéis de Belém e vou até ao pé do rio.
Sentia-se cada vez pior, mas continuou.
- Mas pode ficar no carro se quiser, ou podemos não ir...é como desejar.
Pelo espelho percebeu que ela estava a sorrir.
- Não, não mude os seus planos, podemos ir até Belém. Mas a estas horas não vai estar tudo fechado?
- Eu conheço umas pessoas lá, acho que ainda consigo arranjar alguma coisa.
Ela acenou com a cabeça e recostou-se no banco.
No rio
Voltou para o carro a correr, orgulhoso de ter conseguido os bolos. Entrou no táxi e exibiu-os com ar de rapaz pequeno.
- Estou espantada, isto é que é ter conhecimentos.
A voz dela era diferente, menos triste, menos pesada e ele sentiu-se mais à vontade.
- Então podemos ir? Há um sitio aqui perto onde costumo ir e onde nos podemos sentar a comer enquanto olhamos as luzes da ponte.
- Estou a ver que faz isto muitas vezes.
- Faço, mas sempre sozinho.
Quando parou o carro saiu para lhe abrir a porta, mas ela antecipou-se. Olhou pela primeira vez bem para a sua cara e reparou que era mais nova do que julgava, era também muito bonita.
- É ali que eu me costumo sentar, mas se quiser podemos ir para outro lado.
- Não, por mim está bem.
Sentaram-se e durante uns minuto instalou-se um silêncio incomodativo. João queria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Ela falou.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro.
- Que carro é este que você guia?
- Porquê?
- Porque é o tipo de carro que esperava ver conduzido por alguém mais velho. Além disso está tão bem cuidado, parece ter sido pouco usado, mas desconfio que deve ter muitos quilómetros.
- Sim, tem muitos.
- E tem as cores antigas, tenho muita pena que as tenham mudado, acho que a cidade perdeu um pouco dela nessa altura.
- Eu também gostava mais das outras cores, acho que todos gostavam. Eu nunca tinha guiado nenhum destes.
- Mas não respondeu à minha pergunta, como é que ele veio parar às suas mãos?
João lembrou-se outra vez da história que lhe tinham contado.
- Não tenho assim uma justificação especial para isso, eu só faço o que me mandam, mas confesso que também estranhei quando o fui buscar.
Ficou pensativo.
- E sabe que mais? Agora que fala no assunto, acho que sem me dar conta tenho andado o dia todo a pensar nisto.
- Como assim?
- Isto vai parecer estranho, mas este carro...como é que hei-de explicar? É um carro que se sente, percebe? Não sei se estou a fazer algum sentido.
- Está, não sei bem como, mas acho que sei exactamente o que está a tentar dizer-me. Sabe de quem ele era? Devia ser de alguém que gostava muito dele.
- Sim, disseram-me que sim.
Ficaram uns minutos mais sem falar, ouvia-se o barulho da água perto deles e a noite começava a ficar mais fria.
- Sabe? Hoje foi um dia estranho, tenho andado quase sempre sozinho e começo a pensar se não terá sido por distracção minha que tive menos clientes.
- Pelo menos reparou em mim.
- Sim, em si reparei.
- Ainda bem que o fez.
Ela fez uma pausa.
- O meu dia também não foi muito normal, como já deve ter notado.
- Imagino que não...apetece-lhe falar sobre isso?
- Não, não me apetece. Para falar verdade já não me parece tão importante como há umas horas atrás.
Ela sorriu antes de continuar.
- Sabe? Gosto deste sitio, obrigado por me ter convidado para vir aqui.
- Não tem de agradecer, não é propriamente um lugar secreto.
- Eu sei, mas obrigado na mesma.
Os carros passavam ao longe na ponte e João pensava nas pessoas que seguiam dentro deles, pensava em todas aquelas vidas diferentes, vidas cheias de problemas, cheias de alegrias, pensava que se cruzava todos os dias com milhares de pessoas e que não sabia nada sobre elas. Então virou-se para ela e falou.
- Queria dizer-lhe uma coisa.
- Estou a ouvir.
- Eu também acho que foi bom ter parado, foi muito bom mesmo.
Ela olhou para ele de forma doce, aproximou-se e deu-lhe um beijo na face.
- E se fossemos dar uma volta pela cidade? Não tens mais sítios que me gostasses de mostrar?
Ele gostou que ela o tratasse por tu e respondeu.
- Tenho mais um ou dois de que gosto muito.
- E não me queres levar até lá?
- Sim, quero.
Dirigiram-se para o carro e João apressou-se para lhe abrir a porta da frente, desta vez conseguiu. Antes de entrar inspirou fundo para sentir o ar da noite e olhou para o rio e para o sitio onde tinham estado, tudo estava diferente.
Eram onze da noite e João conduzia o táxi devagar pelas ruas de Lisboa. Estava calor e trazia a janela aberta para sentir o vento na cara, àquela hora não se sentia o ar poluído da cidade e às vezes o cheiro era quase agradável. Gostava destas noites com pouco trabalho em que podia conduzir sem destino pelas ruas vazias e não se preocupava com o dinheiro que não estava a ganhar. Era uma pessoa simples e não precisava de muito para ser feliz, apenas alguns pequenos prazeres eram suficientes para que tivesse uma vida com poucas preocupações.
No dia anterior tinham-lhe ligado de manhã para ir buscar um carro à oficina com o qual deveria andar durante a semana e recordava agora o momento em que o tinha ido buscar. Era normal trocar de carro e normalmente não dava muita importância a estas mudanças, mas tinha ficado espantado com o que o esperava desta vez, um Mercedes com mais de vinte anos ainda pintado com as antigas cores dos táxis da cidade.
O carro estava em excelentes condições e quase que era difícil acreditar que tinha tanto tempo de serviço. O rapaz que lho entregara tinha lhe contado que pertencera a um taxista que se tinha reformado uns meses antes e que tinha sido o único a conduzi-lo durante duas décadas. O amor do senhor pelo carro era conhecido entre os seus amigos e ao que parecia tinha feito algumas exigências antes de o entregar. João só não sabia por que é que o tinham escolhido a ele para conduzir aquela antiguidade, não era conhecido por ser especialmente cuidadoso com os carros e sentia-se algo nervoso com a responsabilidade.
Na avenida
Quando descia a Avenida da Liberdade reparou numa pessoa parada no passeio, não era um sitio comum para se mandar parar um táxi, ainda mais àquela hora, mas abrandou a velocidade. Viu uma mão no ar e pensou que não devia parar ali, mas como o semáforo à sua frente ficou vermelho decidiu parar, uma mulher entrou pela porta traseira e sentou-se sem dizer nada. Ele falou.
- Boa noite, para onde deseja ir?
A mulher ficou calada sem olhar para ele.
- Peço desculpa, mas este é um sitio mau para estar parado, pode-me dizer para onde deseja ir?
Ela olhou para ele e falou.
- Desculpe, queria ir para Belém.
Arrancaram e João pensou se devia ou não dizer alguma coisa, nem sempre fazia conversa com os passageiros e tinha a sensação que a mulher não devia ser muito comunicativa.
- Sabe, quando quiser apanhar um táxi aqui devia ir para as ruas laterais, ali atrás é muito difícil alguém parar.
Ela voltou a demorar a responder.
- Eu não estava à espera de um táxi, na verdade não sei bem porque é que o mandei parar, acho que estava cansada e quando o vi achei que talvez fosse boa ideia dar uma volta de carro.
- Dar uma volta de carro? Mas não disse que queria ir para Belém?
- Tinha que dizer algum sitio não era? Mas na verdade não me importo muito para onde vá.
Ficou um minuto sem dizer nada. Não era a primeira vez que lhe aparecia uma pessoa estranha, mas não sabia bem o que dizer.
- Mas está tudo bem consigo? Eu...desculpe, não queria estar a ser intrometido.
- Não faz mal, compreendo que esta deva ser uma situação estranha para si, mas não se assuste, eu tenho dinheiro para pagar.
Não tinha pensado em dinheiro, raramente pensava. Ficou calado enquanto continuava a conduzir pela baixa da cidade, as ruas estavam iluminadas pelas luzes de Natal que ainda não tinham sido retiradas, uma das razões porque se tinha dirigido para aquela zona da cidade.
Esticou o braço e desligou o taxímetro.
- O que está a fazer?
A voz da mulher tinha se alterado e parecia algo assustada.
- A senhora não quer ir para lado nenhum e eu também andava um pouco à deriva, por isso não acho muito justo cobrar-lhe dinheiro.
- Como? Não está a falar a sério pois não?
- Estou, assim pelo menos tenho companhia.
Ela não respondeu e ele continuou a guiar sem destino.
Passou algum tempo sem que algum dos dois falasse. Ele olhou pelo retrovisor quando passaram por um candeeiro e viu dois enormes olhos que o observavam, perguntou a si mesmo no que estaria a pensar, mas não teve coragem de perguntar. Em vez disso fez-lhe uma proposta.
- Importa-se que vá até Belém? Afinal era o nosso primeiro destino.
- Não, mas porquê?
- Lembrei-me que podíamos ir comer uns Pastéis de Belém.
Ficou um pouco atrapalhado com o convite que tinha acabado de fazer e tentou corrigir.
- Não leve a mal, mas é algo que costumo fazer quando acabo o serviço, vou comprar Pastéis de Belém e vou até ao pé do rio.
Sentia-se cada vez pior, mas continuou.
- Mas pode ficar no carro se quiser, ou podemos não ir...é como desejar.
Pelo espelho percebeu que ela estava a sorrir.
- Não, não mude os seus planos, podemos ir até Belém. Mas a estas horas não vai estar tudo fechado?
- Eu conheço umas pessoas lá, acho que ainda consigo arranjar alguma coisa.
Ela acenou com a cabeça e recostou-se no banco.
No rio
Voltou para o carro a correr, orgulhoso de ter conseguido os bolos. Entrou no táxi e exibiu-os com ar de rapaz pequeno.
- Estou espantada, isto é que é ter conhecimentos.
A voz dela era diferente, menos triste, menos pesada e ele sentiu-se mais à vontade.
- Então podemos ir? Há um sitio aqui perto onde costumo ir e onde nos podemos sentar a comer enquanto olhamos as luzes da ponte.
- Estou a ver que faz isto muitas vezes.
- Faço, mas sempre sozinho.
Quando parou o carro saiu para lhe abrir a porta, mas ela antecipou-se. Olhou pela primeira vez bem para a sua cara e reparou que era mais nova do que julgava, era também muito bonita.
- É ali que eu me costumo sentar, mas se quiser podemos ir para outro lado.
- Não, por mim está bem.
Sentaram-se e durante uns minuto instalou-se um silêncio incomodativo. João queria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Ela falou.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro.
- Que carro é este que você guia?
- Porquê?
- Porque é o tipo de carro que esperava ver conduzido por alguém mais velho. Além disso está tão bem cuidado, parece ter sido pouco usado, mas desconfio que deve ter muitos quilómetros.
- Sim, tem muitos.
- E tem as cores antigas, tenho muita pena que as tenham mudado, acho que a cidade perdeu um pouco dela nessa altura.
- Eu também gostava mais das outras cores, acho que todos gostavam. Eu nunca tinha guiado nenhum destes.
- Mas não respondeu à minha pergunta, como é que ele veio parar às suas mãos?
João lembrou-se outra vez da história que lhe tinham contado.
- Não tenho assim uma justificação especial para isso, eu só faço o que me mandam, mas confesso que também estranhei quando o fui buscar.
Ficou pensativo.
- E sabe que mais? Agora que fala no assunto, acho que sem me dar conta tenho andado o dia todo a pensar nisto.
- Como assim?
- Isto vai parecer estranho, mas este carro...como é que hei-de explicar? É um carro que se sente, percebe? Não sei se estou a fazer algum sentido.
- Está, não sei bem como, mas acho que sei exactamente o que está a tentar dizer-me. Sabe de quem ele era? Devia ser de alguém que gostava muito dele.
- Sim, disseram-me que sim.
Ficaram uns minutos mais sem falar, ouvia-se o barulho da água perto deles e a noite começava a ficar mais fria.
- Sabe? Hoje foi um dia estranho, tenho andado quase sempre sozinho e começo a pensar se não terá sido por distracção minha que tive menos clientes.
- Pelo menos reparou em mim.
- Sim, em si reparei.
- Ainda bem que o fez.
Ela fez uma pausa.
- O meu dia também não foi muito normal, como já deve ter notado.
- Imagino que não...apetece-lhe falar sobre isso?
- Não, não me apetece. Para falar verdade já não me parece tão importante como há umas horas atrás.
Ela sorriu antes de continuar.
- Sabe? Gosto deste sitio, obrigado por me ter convidado para vir aqui.
- Não tem de agradecer, não é propriamente um lugar secreto.
- Eu sei, mas obrigado na mesma.
Os carros passavam ao longe na ponte e João pensava nas pessoas que seguiam dentro deles, pensava em todas aquelas vidas diferentes, vidas cheias de problemas, cheias de alegrias, pensava que se cruzava todos os dias com milhares de pessoas e que não sabia nada sobre elas. Então virou-se para ela e falou.
- Queria dizer-lhe uma coisa.
- Estou a ouvir.
- Eu também acho que foi bom ter parado, foi muito bom mesmo.
Ela olhou para ele de forma doce, aproximou-se e deu-lhe um beijo na face.
- E se fossemos dar uma volta pela cidade? Não tens mais sítios que me gostasses de mostrar?
Ele gostou que ela o tratasse por tu e respondeu.
- Tenho mais um ou dois de que gosto muito.
- E não me queres levar até lá?
- Sim, quero.
Dirigiram-se para o carro e João apressou-se para lhe abrir a porta da frente, desta vez conseguiu. Antes de entrar inspirou fundo para sentir o ar da noite e olhou para o rio e para o sitio onde tinham estado, tudo estava diferente.
segunda-feira, janeiro 02, 2006
Alberto, o Homem-Estátua
Alberto estava há duas horas parado e doíam-lhe os pés. Sabia que não devia ter comprado sapatos novos, mas não resistira. Andava a namorar a mesma montra há três semanas e achara que também tinha direito a comprar algo para ele. Agora amaldiçoava a hora em que tinha tomado a decisão de gastar tanto dinheiro nuns sapatos que o magoavam, especialmente quando tinha de estar tantas horas de pé. Era um homem-estátua, uma figura branca que fixava o infinito durante horas sem mexer um músculo, sem deixar perceber que debaixo da tinta que lhe cobria a cara e a roupa existia uma pessoa normal.
Naquela manhã de Janeiro tinha saído atrasado de casa e tinha pintado a cara no metro. À sua volta todos olhavam a transformação e riam enquanto as suas expressões iam ficando escondidas. Um senhor de fato cinzento tinha mesmo chegado a oferecer-lhe uma moeda que recusara. Só depois de estar todo vestido e imóvel podia aceitar alguma coisa, até lá era só alguém a caminho do trabalho, um trabalho invulgar.
O tempo passava devagar e pensava em algo que acontecera duas semanas antes. Como em todos os anos deixara de lado o fato pintado de branco por um dia e tinha se transformado noutra personagem, um músico que tocava músicas de Natal. As pessoas tinham sido generosas nas suas ofertas e mais uma vez tinha sido o dia do ano em que mais dinheiro tinha ganho, o que o levava sempre a pensar se não devia desistir do homem-estátua. Era um pensamento recorrente que abandonava sempre com o argumento de que esta personagem só funcionava durante um dia e que não teria o mesmo sucesso se aparecesse mais vezes.
Mas desta vez tinha acontecido algo diferente, algo que o tinha deixado pensativo e que desde então não lhe saía da cabeça. Tudo se passou ao fim do dia quando já pensava em ir para casa e reparou num rapaz que o observava durante mais tempo do que o normal. Alguém que parecia querer adivinhar o que lhe ia dentro da cabeça, que parecia querer saber quem era. Tentara não olhar muito para ele, mas não pôde deixar de se sentir observado e não conseguiu desligar-se da sensação de estarem a tentar entrar dentro da sua vida. Era tudo muito estranho pois todos os dias era observado por muitas pessoas e não percebia o que é que este rapaz tinha de diferente.
Passado algum tempo reparou que alguém falava com o rapaz, era uma rapariga de feições alegres que tinha a impressão de conhecer. Olhou melhor e confirmou que era a mesma rapariga que costumava passar por ele todos os dias ao fim da tarde. Conhecia bem a sua cara pois ela fazia questão de se pôr bem à frente dos seus olhos, para que ele não tivesse outra hipótese senão olhar também para os seus. Ela costumava sorrir, não sabia se para ver se ele se mexia ou se apenas por simpatia, ele retribuía o sorriso sem mexer os lábios.
Não se tinha passado mais nada, a rapariga e o rapaz tinham conversado um pouco enquanto olhavam para ele e tinham ido embora juntos. Mas não conseguia deixar de pensar que tinham estado a falar sobre ele, a certa altura tinha mesmo chegado a pensar ter ouvido o seu nome, mas não podia ser, pois não havia forma de o saberem. E desde esse dia que passava uma parte do dia a pensar no que tinha acontecido, a pensar se de alguma maneira não fazia parte da vida das pessoas que todos os dias paravam e o observavam. Pensava nas histórias que teriam sido imaginadas sobre ele e sobre a sua vida, em quantos teriam imaginado como é que ele era debaixo da máscara branca, tentando descobrir de quem se esconderia, de quem fugiria.
Alberto não podia deixar de sorrir por dentro enquanto pensava. Era uma pessoa perfeitamente normal que raramente sonhava e era engraçado pensar que os outros podiam sonhar com ele, ele que não era interessante, ele que era a mais banal das pessoas e que passava os dias parado a olhar sempre para o mesmo ponto.
De repente o seu coração começou a bater mais depressa e sentiu-se inundado por tantos sentimentos diferentes que lhe era difícil estar quieto. Era como se tivesse começado a viver depois de anos adormecido. Não percebia o que é que estava a acontecer e lutava para não se mexer, lutava para não ceder ao impulso de saltar de cima do banco onde estava e dançar ao som de uma música que só ele conseguia ouvir. Não resistiu.
Foi uma sensação estranha, como se estivesse a quebrar uma regra imposta por alguém que controlava a sua vida sem o saber. Uma maldição lançada por inveja ou ciúme que o tinha aprisionado durante anos, que não o tinha deixado viver da melhor forma, que não o tinha deixado ser feliz. E mexeu-se, mexeu-se devagar, despertando aos poucos de um sono longo. As pessoas pararam na rua e olharam para os seus movimentos cada vez mais rápidos, parecendo conseguir adivinhar que algo importante se estava a passar, como se soubessem que o homem-estátua não voltaria àquele local, como se tivessem a certeza que estavam a assistir à sua última actuação.
A caminho de casa esfregava as mãos na cara e tentava limpar a tinta branca que usara durante tanto tempo, demasiado tempo. Não sabia como é que pensamentos tão simples tinham provocado tudo o que estava a sentir e pensava que estava a começar algo que não sabia onde o ia levar, mas não ia resistir. Parou a observar a cidade e na sua cabeça tinha apenas uma imagem, a de um rapaz e de uma rapariga a passearem de mãos dadas...
Naquela manhã de Janeiro tinha saído atrasado de casa e tinha pintado a cara no metro. À sua volta todos olhavam a transformação e riam enquanto as suas expressões iam ficando escondidas. Um senhor de fato cinzento tinha mesmo chegado a oferecer-lhe uma moeda que recusara. Só depois de estar todo vestido e imóvel podia aceitar alguma coisa, até lá era só alguém a caminho do trabalho, um trabalho invulgar.
O tempo passava devagar e pensava em algo que acontecera duas semanas antes. Como em todos os anos deixara de lado o fato pintado de branco por um dia e tinha se transformado noutra personagem, um músico que tocava músicas de Natal. As pessoas tinham sido generosas nas suas ofertas e mais uma vez tinha sido o dia do ano em que mais dinheiro tinha ganho, o que o levava sempre a pensar se não devia desistir do homem-estátua. Era um pensamento recorrente que abandonava sempre com o argumento de que esta personagem só funcionava durante um dia e que não teria o mesmo sucesso se aparecesse mais vezes.
Mas desta vez tinha acontecido algo diferente, algo que o tinha deixado pensativo e que desde então não lhe saía da cabeça. Tudo se passou ao fim do dia quando já pensava em ir para casa e reparou num rapaz que o observava durante mais tempo do que o normal. Alguém que parecia querer adivinhar o que lhe ia dentro da cabeça, que parecia querer saber quem era. Tentara não olhar muito para ele, mas não pôde deixar de se sentir observado e não conseguiu desligar-se da sensação de estarem a tentar entrar dentro da sua vida. Era tudo muito estranho pois todos os dias era observado por muitas pessoas e não percebia o que é que este rapaz tinha de diferente.
Passado algum tempo reparou que alguém falava com o rapaz, era uma rapariga de feições alegres que tinha a impressão de conhecer. Olhou melhor e confirmou que era a mesma rapariga que costumava passar por ele todos os dias ao fim da tarde. Conhecia bem a sua cara pois ela fazia questão de se pôr bem à frente dos seus olhos, para que ele não tivesse outra hipótese senão olhar também para os seus. Ela costumava sorrir, não sabia se para ver se ele se mexia ou se apenas por simpatia, ele retribuía o sorriso sem mexer os lábios.
Não se tinha passado mais nada, a rapariga e o rapaz tinham conversado um pouco enquanto olhavam para ele e tinham ido embora juntos. Mas não conseguia deixar de pensar que tinham estado a falar sobre ele, a certa altura tinha mesmo chegado a pensar ter ouvido o seu nome, mas não podia ser, pois não havia forma de o saberem. E desde esse dia que passava uma parte do dia a pensar no que tinha acontecido, a pensar se de alguma maneira não fazia parte da vida das pessoas que todos os dias paravam e o observavam. Pensava nas histórias que teriam sido imaginadas sobre ele e sobre a sua vida, em quantos teriam imaginado como é que ele era debaixo da máscara branca, tentando descobrir de quem se esconderia, de quem fugiria.
Alberto não podia deixar de sorrir por dentro enquanto pensava. Era uma pessoa perfeitamente normal que raramente sonhava e era engraçado pensar que os outros podiam sonhar com ele, ele que não era interessante, ele que era a mais banal das pessoas e que passava os dias parado a olhar sempre para o mesmo ponto.
De repente o seu coração começou a bater mais depressa e sentiu-se inundado por tantos sentimentos diferentes que lhe era difícil estar quieto. Era como se tivesse começado a viver depois de anos adormecido. Não percebia o que é que estava a acontecer e lutava para não se mexer, lutava para não ceder ao impulso de saltar de cima do banco onde estava e dançar ao som de uma música que só ele conseguia ouvir. Não resistiu.
Foi uma sensação estranha, como se estivesse a quebrar uma regra imposta por alguém que controlava a sua vida sem o saber. Uma maldição lançada por inveja ou ciúme que o tinha aprisionado durante anos, que não o tinha deixado viver da melhor forma, que não o tinha deixado ser feliz. E mexeu-se, mexeu-se devagar, despertando aos poucos de um sono longo. As pessoas pararam na rua e olharam para os seus movimentos cada vez mais rápidos, parecendo conseguir adivinhar que algo importante se estava a passar, como se soubessem que o homem-estátua não voltaria àquele local, como se tivessem a certeza que estavam a assistir à sua última actuação.
A caminho de casa esfregava as mãos na cara e tentava limpar a tinta branca que usara durante tanto tempo, demasiado tempo. Não sabia como é que pensamentos tão simples tinham provocado tudo o que estava a sentir e pensava que estava a começar algo que não sabia onde o ia levar, mas não ia resistir. Parou a observar a cidade e na sua cabeça tinha apenas uma imagem, a de um rapaz e de uma rapariga a passearem de mãos dadas...
quinta-feira, dezembro 22, 2005
Albert
Estava frio e Rui descia apressadamente a rua, queria chegar a casa rapidamente e sentar-se frente à televisão a jantar. Tinha tido um dia aborrecido e caminhava de olhos no chão ignorando tudo à sua volta. De repente ao virar uma esquina ouviu uma música, alguém desafiava o frio em troca de algumas moedas. Aproximou-se e descobriu um homem alto de barbas ruivas que tocava uma flauta de madeira ao mesmo tempo que agitava umas campainhas prateadas presas a uma das pernas. Tocava uma conhecida música de Natal, daquelas que fazem voltar aos tempos de criança e às noites sem dormir à espera das prendas debaixo da chaminé. Ficou um pouco a ouvir e aos poucos uma história começou a formar-se na sua cabeça, tinha a certeza que ia conseguir escrever alguma coisa inspirada no que estava a observar.
Então alguém a seu lado falou.
- Estás a pensar se lhe dás alguma coisa?
Olhou para ver quem estava a falar. Era uma rapariga que parecia ter mais ou menos a sua idade.
- Sim, estava a pensar se havia de deixar uma moeda, normalmente nunca dou nada.
- Eu percebo, ele chama-se Albert e fugiu há muitos anos do seu país por causa de um amor impossível.
- Como é que sabes isso?
- Costumo passar aqui todos os dias e ele foi-me contando.
- Foi-te contando?
- Sim, se quiseres ouvir ele conta-te a sua história.
Ficou calado durante um pouco.
- Acho que estás enganada, eu tenho a certeza que ele nasceu aqui e nunca saiu da cidade.
Antes de continuar tirou uma moeda do bolso e pô-la em cima do que parecia ser um gorro de lã amarrotado no chão.
- E tenho a certeza que não se chama Albert.
Ela sorriu e respondeu-lhe.
- Estou a estragar a tua história, não estou?
Olhou melhor para ela e reparou que tinha a pele muito branca e o cabelo de uma cor estranha. Não sabia bem porquê mas sentia-se confortável perto dela.
- Desculpa, é que ultimamente não tenho conseguido escrever e isto pareceu-me prometedor, mas como é que sabias que eu estava a imaginar uma história?
- Foi só um palpite.
Não podia deixar de pensar em quem era esta estranha que lhe lia os pensamentos.
- Não costumo ser assim tão transparente.
- Ou se calhar não costumam olhar para ti com atenção.
- Se calhar não.
Ela ficou calada durante algum tempo, como se estivesse a decidir se devia ou não dizer-lhe algo. Por fim falou.
- Tenho uma proposta a fazer-te.
- Diz.
- Se quiseres eu conto-te a história do Albert e tu podes usá-la.
Ficou surpreendido com a proposta dela e não respondeu. Ela pareceu ficar inquieta como o seu silêncio e falou muito depressa.
- Desculpa, não queria ofender-te. Eu não queria desvalorizar o que pensaste, eu...olha, esquece. De certeza que tens algo mais interessante para contar...e eu estou para aqui a meter-me onde não sou chamada.
Interrompeu-a.
- Eu não fiquei ofendido.
- A sério?
- Sim, a sério.
- Mas fizeste um ar...
Não pôde deixar de esboçar um sorriso perante o ar preocupado dela e respondeu calmamente.
- É que nunca me tinham oferecido uma história antes.
Ela pareceu ficar envergonhada e não olhou directamente para ele.
- Não tinha pensado nisto desta forma, mas também não é assim nada de especial.
- Claro que é. Estás a dar os teus sonhos, a compartilhá-los com uma pessoa que mal conheces, claro que é especial.
- Mas eu de certa maneira conheço-te.
Rui percebeu o que ela queria dizer.
- Porque o imaginaste?
Ela apenas acenou com a cabeça.
- Mas nunca me tinhas visto, pois não?
- Eu sou rápida.
Ele sorriu.
- Estou a ver que sim. Olha e se saíssemos do mundo dos sonhos e fossemos tomar alguma coisa? Conheço um café aqui perto que serve um chocolate quente muito bom.
Os olhos dela brilharam de forma inocente.
- Parece-me boa ideia.
- Então vamos.
E desceram a rua lado a lado. Rui já tinha esquecido os planos de ir para casa, o frio já não o incomodava tanto e pela primeira vez em meses não tinha medo do futuro. Não tinha medo das páginas brancas à sua frente e sabia que mais tarde ou mais cedo alguma coisa iria surgir, principalmente porque já não parecia tão importante.
Tinha só uma dúvida e falou.
- Importas-te que te faça uma pergunta?
- Claro que não.
- É uma coisa pequena, mas fiquei curioso.
- Não te justifiques tanto, podes perguntar.
- Onde é que foste buscar o nome Albert?
Ela riu e ele percebeu que ia ficar sem saber...
Então alguém a seu lado falou.
- Estás a pensar se lhe dás alguma coisa?
Olhou para ver quem estava a falar. Era uma rapariga que parecia ter mais ou menos a sua idade.
- Sim, estava a pensar se havia de deixar uma moeda, normalmente nunca dou nada.
- Eu percebo, ele chama-se Albert e fugiu há muitos anos do seu país por causa de um amor impossível.
- Como é que sabes isso?
- Costumo passar aqui todos os dias e ele foi-me contando.
- Foi-te contando?
- Sim, se quiseres ouvir ele conta-te a sua história.
Ficou calado durante um pouco.
- Acho que estás enganada, eu tenho a certeza que ele nasceu aqui e nunca saiu da cidade.
Antes de continuar tirou uma moeda do bolso e pô-la em cima do que parecia ser um gorro de lã amarrotado no chão.
- E tenho a certeza que não se chama Albert.
Ela sorriu e respondeu-lhe.
- Estou a estragar a tua história, não estou?
Olhou melhor para ela e reparou que tinha a pele muito branca e o cabelo de uma cor estranha. Não sabia bem porquê mas sentia-se confortável perto dela.
- Desculpa, é que ultimamente não tenho conseguido escrever e isto pareceu-me prometedor, mas como é que sabias que eu estava a imaginar uma história?
- Foi só um palpite.
Não podia deixar de pensar em quem era esta estranha que lhe lia os pensamentos.
- Não costumo ser assim tão transparente.
- Ou se calhar não costumam olhar para ti com atenção.
- Se calhar não.
Ela ficou calada durante algum tempo, como se estivesse a decidir se devia ou não dizer-lhe algo. Por fim falou.
- Tenho uma proposta a fazer-te.
- Diz.
- Se quiseres eu conto-te a história do Albert e tu podes usá-la.
Ficou surpreendido com a proposta dela e não respondeu. Ela pareceu ficar inquieta como o seu silêncio e falou muito depressa.
- Desculpa, não queria ofender-te. Eu não queria desvalorizar o que pensaste, eu...olha, esquece. De certeza que tens algo mais interessante para contar...e eu estou para aqui a meter-me onde não sou chamada.
Interrompeu-a.
- Eu não fiquei ofendido.
- A sério?
- Sim, a sério.
- Mas fizeste um ar...
Não pôde deixar de esboçar um sorriso perante o ar preocupado dela e respondeu calmamente.
- É que nunca me tinham oferecido uma história antes.
Ela pareceu ficar envergonhada e não olhou directamente para ele.
- Não tinha pensado nisto desta forma, mas também não é assim nada de especial.
- Claro que é. Estás a dar os teus sonhos, a compartilhá-los com uma pessoa que mal conheces, claro que é especial.
- Mas eu de certa maneira conheço-te.
Rui percebeu o que ela queria dizer.
- Porque o imaginaste?
Ela apenas acenou com a cabeça.
- Mas nunca me tinhas visto, pois não?
- Eu sou rápida.
Ele sorriu.
- Estou a ver que sim. Olha e se saíssemos do mundo dos sonhos e fossemos tomar alguma coisa? Conheço um café aqui perto que serve um chocolate quente muito bom.
Os olhos dela brilharam de forma inocente.
- Parece-me boa ideia.
- Então vamos.
E desceram a rua lado a lado. Rui já tinha esquecido os planos de ir para casa, o frio já não o incomodava tanto e pela primeira vez em meses não tinha medo do futuro. Não tinha medo das páginas brancas à sua frente e sabia que mais tarde ou mais cedo alguma coisa iria surgir, principalmente porque já não parecia tão importante.
Tinha só uma dúvida e falou.
- Importas-te que te faça uma pergunta?
- Claro que não.
- É uma coisa pequena, mas fiquei curioso.
- Não te justifiques tanto, podes perguntar.
- Onde é que foste buscar o nome Albert?
Ela riu e ele percebeu que ia ficar sem saber...
domingo, dezembro 11, 2005
Um Convite
Estávamos perto do Natal e as ruas estavam cheias de pessoas a fazerem compras. Eu não tinha ninguém, por isso não tinha prendas para comprar.
Sentei-me frente ao computador. Ainda tinha algumas horas de trabalho pela frente e mais valia começar em vez de estar a olhar para as vidas dos outros.
Estava sozinho na sala onde trabalhava, uma sala antiga de paredes brancas e quase sem decoração. Conseguia ouvir algumas pessoas nas salas do lado, mas tinha a certeza que faltava pouco tempo para o barulho do meu teclado ser o único no meio do silêncio da noite.
Como todos ficava triste nesta altura do ano, pensava no que se tinha transformado a minha vida, recordava o passado e fazia planos para o futuro.
De repente alguém entrou na porta por trás de mim e ouvi uma voz conhecida.
- Por acaso não tens um lápis que me emprestes?
Era a Maria, trabalhava na sala a seguir à minha e também costumava ficar até tarde. Não nos conhecíamos muito bem, mas às vezes encontrávamo-nos no café e ela sorria para mim.
- Um lápis?
- Sim, um lápis, acho que já deves ter visto um alguma vez.
Ela estava com um ar divertido e continuou.
- Mas tem de ser um lápis verdadeiro, dos antigos.
- Porquê?
- Porque gosto mais desses. Deixei o meu estojo em casa e agora não sei se consigo continuar a trabalhar.
Sorri por causa do que ela disse e abri uma gaveta de onde tirei um lápis preto e amarelo.
- Toma, espero que gostes deste, é o único que tenho.
Ela olhou para mim com um ar de dúvida e disse.
- Mas ainda não foi usado.
- Não, mas não te preocupes, não o estava a guardar para nenhuma ocasião especial.
- Obrigada, ainda o devolvo hoje, vais ficar até tarde?
- Sim, tenho muito que fazer.
- OK, então até logo.
Fiquei a vê-la a afastar-se e voltei-me para o ecrã à minha frente. Não tinha a menor das vontades de estar ali e recordei Natais passados e os serões em família. Tinham passado poucos anos, mas parecia tudo tão longe de mim. Afastei os pensamentos da minha cabeça e voltei ao trabalho.
Passaram pelo menos duas horas e ouvi outra vez alguém atrás de mim.
- Vim devolver o lápis, mas receio que não tenha sobrado muito dele.
Na mão trazia um lápis com menos de metade do tamanho do que aquele que lhe entregara.
- Estiveste entretida.
- Desculpa, não pensei que fosse escrever tanto.
Ela estava com um ar de quem tinha cometido um grande pecado e eu não pude deixar de achar piada. Achava-a muito bonita e não tinha bem a certeza porque é nunca a tinha tentado conhecer melhor.
- Queres tomar café?
- Isso quer dizer que não estás zangado por causa do lápis?
- Não, não estou zangado.
- Está bem, então aceito.
Levantei-me e dirigi-me à porta. Deixei-a passar primeiro e ela agradeceu baixando ligeiramente os olhos. Enquanto andava pelo corredor percebi que éramos os únicos em todo o andar.
Depois de tirar dois café e de lhe entregar um deles sentei-me no chão, era um hábito meu, ficar até tarde e beber café sentado no chão. Ela não pareceu importar-se, sentou-se ao meu lado encostada ao balcão de madeira e começou a falar.
- Então porque é que estás ainda aqui a esta hora?
- Já te disse que tenho muito trabalho.
- Sim, eu sei, mas qual é a verdadeira razão?
Não pensei antes de responder.
- Na verdade não tenho muita vontade de ir para casa.
- Ainda te custa muito?
- O quê?
- Estar sozinho.
Não respondi.
- Desculpa, não devia ter perguntado.
- Não faz mal, estava só a pensar...se me custa estar sozinho? Não tenho uma resposta simples para essa pergunta. Eu gosto de mim e gosto de estar comigo, mas suponho que ainda não me habituei.
- Mas já passou algum tempo, não passou?
- Já, mas...sei lá, acho que há alturas piores do que outras.
Não falámos durante uns minutos até que ela se levantou e deitou os copos vazios fora. Voltou a sentar-se mas desta vez frente a mim.
- Olhas sempre assim para todas as pessoas?
- Desculpa?
Ela repetiu.
- Se olhas sempre assim para as pessoas?
Eu sabia bem do que é que ela estava a falar.
- Assim como?
- Vá lá...tu sabes, como se estivesses a olhar cá para dentro.
Já me tinham chamado muitas vezes a atenção por causa da maneira como fixava as pessoas, mas nunca daquela maneira.
- Como é que a conversa veio parar aqui?
Ela sorriu.
- Isso não importa, não estás a responder à minha pergunta.
- Não sei o que queres que te diga. Acho que sim, ou se calhar só para algumas, incomoda-te?
- Pelo contrário, sinto-me especial.
- Por isso é que me costumas sorrir quando nos encontramos aqui?
Ela ficou a olhar para mim antes de responder.
- Julgava que não reparavas.
- Eu reparo em tudo, só que nem sempre tenho coragem...
Não consegui continuar.
- Mas tens coragem para olhar.
- Tens razão, mas eu não penso muito nisso.
Ela ficou outra vez a olhar para mim, como se estivesse a ganhar coragem para dizer alguma coisa. Por fim falou.
- Olha, tenho um convite para te fazer.
- Um convite?
Fiquei nervoso.
- Sim, um convite. Eu no final da semana vou para fora passar o Natal com a minha família, mas antes queria te convidar para um jantar em minha casa.
- Um jantar de Natal?
Ela riu.
- Sim, pode ser um jantar de Natal.
- Mas com prendas e tudo?
De repente corei muito, não era aquilo que queria dizer. Mas ela não se desmanchou e respondeu.
- Com prendas e tudo, mas não precisa de ser nada de especial.
Pensei logo num conjunto de lápis e comecei a fazer planos para os ir comprar logo no dia seguinte. Ela interrompeu os meus pensamentos.
- Mas aceitas?
- Desculpa, não disse que sim?
- Não.
- Mas pensei.
- Eu percebi pela tua cara, mas queria ouvir.
Corei outra vez.
- Sim, aceito.
Ela levantou-se e eu segui-a. Parámos à porta da sala dela e eu fiquei a olhar o chão, mas falei.
- Então quando é que é o jantar?
- Que tal depois de amanhã, podes?
- Posso.
- Então está combinado.
Ela olhou para a mesa dela e disse.
- Olha, vou-me embora, tu ficas?
- Acho que não, já não me lembro o que é que estava a fazer, mas não me parece que fosse alguma coisa importante. Vais para o metro?
- Vou.
- Eu faço-te companhia, deixa-me só desligar o computador e arrumar as coisas.
- Porque é que não deixas tudo como está?
- Não gosto de deixar tudo desarrumado.
- Se calhar está na altura de começares.
- Se calhar está...deixa-me só ir buscar o casaco.
- Eu espero.
Antes de desligar a luz olhei pela janela para as ruas vazias, não pareciam as mesmas ruas que observara umas horas antes...
Sentei-me frente ao computador. Ainda tinha algumas horas de trabalho pela frente e mais valia começar em vez de estar a olhar para as vidas dos outros.
Estava sozinho na sala onde trabalhava, uma sala antiga de paredes brancas e quase sem decoração. Conseguia ouvir algumas pessoas nas salas do lado, mas tinha a certeza que faltava pouco tempo para o barulho do meu teclado ser o único no meio do silêncio da noite.
Como todos ficava triste nesta altura do ano, pensava no que se tinha transformado a minha vida, recordava o passado e fazia planos para o futuro.
De repente alguém entrou na porta por trás de mim e ouvi uma voz conhecida.
- Por acaso não tens um lápis que me emprestes?
Era a Maria, trabalhava na sala a seguir à minha e também costumava ficar até tarde. Não nos conhecíamos muito bem, mas às vezes encontrávamo-nos no café e ela sorria para mim.
- Um lápis?
- Sim, um lápis, acho que já deves ter visto um alguma vez.
Ela estava com um ar divertido e continuou.
- Mas tem de ser um lápis verdadeiro, dos antigos.
- Porquê?
- Porque gosto mais desses. Deixei o meu estojo em casa e agora não sei se consigo continuar a trabalhar.
Sorri por causa do que ela disse e abri uma gaveta de onde tirei um lápis preto e amarelo.
- Toma, espero que gostes deste, é o único que tenho.
Ela olhou para mim com um ar de dúvida e disse.
- Mas ainda não foi usado.
- Não, mas não te preocupes, não o estava a guardar para nenhuma ocasião especial.
- Obrigada, ainda o devolvo hoje, vais ficar até tarde?
- Sim, tenho muito que fazer.
- OK, então até logo.
Fiquei a vê-la a afastar-se e voltei-me para o ecrã à minha frente. Não tinha a menor das vontades de estar ali e recordei Natais passados e os serões em família. Tinham passado poucos anos, mas parecia tudo tão longe de mim. Afastei os pensamentos da minha cabeça e voltei ao trabalho.
Passaram pelo menos duas horas e ouvi outra vez alguém atrás de mim.
- Vim devolver o lápis, mas receio que não tenha sobrado muito dele.
Na mão trazia um lápis com menos de metade do tamanho do que aquele que lhe entregara.
- Estiveste entretida.
- Desculpa, não pensei que fosse escrever tanto.
Ela estava com um ar de quem tinha cometido um grande pecado e eu não pude deixar de achar piada. Achava-a muito bonita e não tinha bem a certeza porque é nunca a tinha tentado conhecer melhor.
- Queres tomar café?
- Isso quer dizer que não estás zangado por causa do lápis?
- Não, não estou zangado.
- Está bem, então aceito.
Levantei-me e dirigi-me à porta. Deixei-a passar primeiro e ela agradeceu baixando ligeiramente os olhos. Enquanto andava pelo corredor percebi que éramos os únicos em todo o andar.
Depois de tirar dois café e de lhe entregar um deles sentei-me no chão, era um hábito meu, ficar até tarde e beber café sentado no chão. Ela não pareceu importar-se, sentou-se ao meu lado encostada ao balcão de madeira e começou a falar.
- Então porque é que estás ainda aqui a esta hora?
- Já te disse que tenho muito trabalho.
- Sim, eu sei, mas qual é a verdadeira razão?
Não pensei antes de responder.
- Na verdade não tenho muita vontade de ir para casa.
- Ainda te custa muito?
- O quê?
- Estar sozinho.
Não respondi.
- Desculpa, não devia ter perguntado.
- Não faz mal, estava só a pensar...se me custa estar sozinho? Não tenho uma resposta simples para essa pergunta. Eu gosto de mim e gosto de estar comigo, mas suponho que ainda não me habituei.
- Mas já passou algum tempo, não passou?
- Já, mas...sei lá, acho que há alturas piores do que outras.
Não falámos durante uns minutos até que ela se levantou e deitou os copos vazios fora. Voltou a sentar-se mas desta vez frente a mim.
- Olhas sempre assim para todas as pessoas?
- Desculpa?
Ela repetiu.
- Se olhas sempre assim para as pessoas?
Eu sabia bem do que é que ela estava a falar.
- Assim como?
- Vá lá...tu sabes, como se estivesses a olhar cá para dentro.
Já me tinham chamado muitas vezes a atenção por causa da maneira como fixava as pessoas, mas nunca daquela maneira.
- Como é que a conversa veio parar aqui?
Ela sorriu.
- Isso não importa, não estás a responder à minha pergunta.
- Não sei o que queres que te diga. Acho que sim, ou se calhar só para algumas, incomoda-te?
- Pelo contrário, sinto-me especial.
- Por isso é que me costumas sorrir quando nos encontramos aqui?
Ela ficou a olhar para mim antes de responder.
- Julgava que não reparavas.
- Eu reparo em tudo, só que nem sempre tenho coragem...
Não consegui continuar.
- Mas tens coragem para olhar.
- Tens razão, mas eu não penso muito nisso.
Ela ficou outra vez a olhar para mim, como se estivesse a ganhar coragem para dizer alguma coisa. Por fim falou.
- Olha, tenho um convite para te fazer.
- Um convite?
Fiquei nervoso.
- Sim, um convite. Eu no final da semana vou para fora passar o Natal com a minha família, mas antes queria te convidar para um jantar em minha casa.
- Um jantar de Natal?
Ela riu.
- Sim, pode ser um jantar de Natal.
- Mas com prendas e tudo?
De repente corei muito, não era aquilo que queria dizer. Mas ela não se desmanchou e respondeu.
- Com prendas e tudo, mas não precisa de ser nada de especial.
Pensei logo num conjunto de lápis e comecei a fazer planos para os ir comprar logo no dia seguinte. Ela interrompeu os meus pensamentos.
- Mas aceitas?
- Desculpa, não disse que sim?
- Não.
- Mas pensei.
- Eu percebi pela tua cara, mas queria ouvir.
Corei outra vez.
- Sim, aceito.
Ela levantou-se e eu segui-a. Parámos à porta da sala dela e eu fiquei a olhar o chão, mas falei.
- Então quando é que é o jantar?
- Que tal depois de amanhã, podes?
- Posso.
- Então está combinado.
Ela olhou para a mesa dela e disse.
- Olha, vou-me embora, tu ficas?
- Acho que não, já não me lembro o que é que estava a fazer, mas não me parece que fosse alguma coisa importante. Vais para o metro?
- Vou.
- Eu faço-te companhia, deixa-me só desligar o computador e arrumar as coisas.
- Porque é que não deixas tudo como está?
- Não gosto de deixar tudo desarrumado.
- Se calhar está na altura de começares.
- Se calhar está...deixa-me só ir buscar o casaco.
- Eu espero.
Antes de desligar a luz olhei pela janela para as ruas vazias, não pareciam as mesmas ruas que observara umas horas antes...
sábado, dezembro 03, 2005
Vocês
A música toca vezes sem fim enquanto escrevo. É a música perfeita pois acaba onde começa e eu sonho em ouvi-la para sempre. Tento chamar a tristeza que me inspira mas não consigo sentir nada, apenas o vazio que ficou, que me acompanha sem me aconchegar. Caio no sofá e tento dormir um pouco, mais uma vez decido fugir da vida e volto ao princípio.
Vocês...
Não gosto deste sitio, não gosto do fumo do meu cigarro e dos desenhos que se formam por cima da minha cabeça. O café espera por mim e fica frio, sei que já não o vou beber e olho para a espuma creme que tapa o castanho escuro que suja a chávena. Aqui nunca há cinzeiros e hesito antes de deixar cair a cinza, tento não mexer o braço e aposto comigo próprio quanto tempo mais a mesa vai ficar limpa.
Na porta alguém olha para mim. Meio homem, meio mulher, uma figura vestida com roupas sem cor parece tentar decidir se deve ou não entrar. Eu baixo os olhos para a mesa preta e rezo para que não venha ter comigo, mas não rezo o suficiente.
Decido que é uma mulher e vejo-a caminhar em direcção a mim, tem a cara coberta de pequenas feridas recentes, como se tivesse apagado todos os cigarros que fuma no rosto já velho. Senta-se à minha frente e o cheiro é insuportável, tapo o nariz com uma das mãos e ordeno às pernas que me levem embora, mas elas não obedecem e eu fico a ouvir um discurso sem sentido. Não sei se a mulher está a falar para mim, não sei se alguém existe para além do seu mundo e pergunto-me porque é que não consigo ir embora. Ela olha-me nos olhos.
- Importa-se que beba este café? Já não vai bebê-lo pois não?
- Não, não vou, pode beber à vontade, mas já deve estar frio.
- Não importa, só quero recordar o sabor, eu bebia café há muitos anos atrás, mas suponho que você deva saber isso.
Não sei do que é que ela está a falar e continuo a não conseguir sair daqui.
- Sim, suponho que sim, não deve ter vivido sempre assim.
Ela sorri e continua a falar.
- Você já escreveu sobre nós. Já esteve perdido, não esteve?
- Já escrevi sobre vocês? Não percebo o que está a dizer, eu escrevo sobre muitas coisas.
Ela sabe que estou a mentir.
- Não tenha vergonha, nós não ficámos chateados e percebemos o que queria dizer. Era sobre esperança, não era?
Sinto as pernas tremer. Como é que ela sabe?
Acaba de beber o café e continua.
- Sabe? Eu já fui bonita, muito bonita e você esqueceu-se disso.
- Mas eu nunca a vi, como é que podia saber?
- Meu rapaz, você foi um de nós, devia saber que todos tivemos vidas.
- Mas eu só escrevi, eu só queria desabafar, só queria que alguém me ouvisse. Nunca quis ofender ninguém. Eu não a conheço, eu não conheço nenhum de vocês.
- Tenha calma, não ofendeu ninguém. Só se esqueceu que eu era muito bonita, só isso. E eu estou aqui para lhe lembrar isso.
Fico calado durante um pouco e tento pôr as ideias em ordem. Ela tem razão eu esqueci-me que ela tinha sido a rapariga mais bonita da cidade, não foi de propósito, mas esqueci-me.
De repente tudo parece diferente, já não sinto o cheiro dela, já não sinto repugnância em olhar para as suas feridas e agarro-lhe numa das mãos. Apesar de suja a pele é suave e eu aperto-a com força.
- Tem razão, eu esqueci-me. Estava tão concentrado em escrever sobre mim que me esqueci de vocês.
- Não faz mal, eu só achei que lhe devia lembrar. Assim pode ser que passe a olhar à sua volta de uma maneira diferente.
- Acha que consigo?
- Eu estou suja, mas não vejo tudo sujo à minha volta.
- Suponho que não...
- Não deixe de escrever e não se esqueça de nós.
Os olhos dela brilham e as lágrimas quase que caiem.
- Eu era mesmo muito bonita, não era?
- Sim, era a mais bonita de todas.
- Obrigado. E obrigado pelo café, tenho de ir embora, ainda tenho de ir tratar de umas coisas.
Fico a olhar para ela e desejo que tenha sorte.
Vocês...
Não gosto deste sitio, não gosto do fumo do meu cigarro e dos desenhos que se formam por cima da minha cabeça. O café espera por mim e fica frio, sei que já não o vou beber e olho para a espuma creme que tapa o castanho escuro que suja a chávena. Aqui nunca há cinzeiros e hesito antes de deixar cair a cinza, tento não mexer o braço e aposto comigo próprio quanto tempo mais a mesa vai ficar limpa.
Na porta alguém olha para mim. Meio homem, meio mulher, uma figura vestida com roupas sem cor parece tentar decidir se deve ou não entrar. Eu baixo os olhos para a mesa preta e rezo para que não venha ter comigo, mas não rezo o suficiente.
Decido que é uma mulher e vejo-a caminhar em direcção a mim, tem a cara coberta de pequenas feridas recentes, como se tivesse apagado todos os cigarros que fuma no rosto já velho. Senta-se à minha frente e o cheiro é insuportável, tapo o nariz com uma das mãos e ordeno às pernas que me levem embora, mas elas não obedecem e eu fico a ouvir um discurso sem sentido. Não sei se a mulher está a falar para mim, não sei se alguém existe para além do seu mundo e pergunto-me porque é que não consigo ir embora. Ela olha-me nos olhos.
- Importa-se que beba este café? Já não vai bebê-lo pois não?
- Não, não vou, pode beber à vontade, mas já deve estar frio.
- Não importa, só quero recordar o sabor, eu bebia café há muitos anos atrás, mas suponho que você deva saber isso.
Não sei do que é que ela está a falar e continuo a não conseguir sair daqui.
- Sim, suponho que sim, não deve ter vivido sempre assim.
Ela sorri e continua a falar.
- Você já escreveu sobre nós. Já esteve perdido, não esteve?
- Já escrevi sobre vocês? Não percebo o que está a dizer, eu escrevo sobre muitas coisas.
Ela sabe que estou a mentir.
- Não tenha vergonha, nós não ficámos chateados e percebemos o que queria dizer. Era sobre esperança, não era?
Sinto as pernas tremer. Como é que ela sabe?
Acaba de beber o café e continua.
- Sabe? Eu já fui bonita, muito bonita e você esqueceu-se disso.
- Mas eu nunca a vi, como é que podia saber?
- Meu rapaz, você foi um de nós, devia saber que todos tivemos vidas.
- Mas eu só escrevi, eu só queria desabafar, só queria que alguém me ouvisse. Nunca quis ofender ninguém. Eu não a conheço, eu não conheço nenhum de vocês.
- Tenha calma, não ofendeu ninguém. Só se esqueceu que eu era muito bonita, só isso. E eu estou aqui para lhe lembrar isso.
Fico calado durante um pouco e tento pôr as ideias em ordem. Ela tem razão eu esqueci-me que ela tinha sido a rapariga mais bonita da cidade, não foi de propósito, mas esqueci-me.
De repente tudo parece diferente, já não sinto o cheiro dela, já não sinto repugnância em olhar para as suas feridas e agarro-lhe numa das mãos. Apesar de suja a pele é suave e eu aperto-a com força.
- Tem razão, eu esqueci-me. Estava tão concentrado em escrever sobre mim que me esqueci de vocês.
- Não faz mal, eu só achei que lhe devia lembrar. Assim pode ser que passe a olhar à sua volta de uma maneira diferente.
- Acha que consigo?
- Eu estou suja, mas não vejo tudo sujo à minha volta.
- Suponho que não...
- Não deixe de escrever e não se esqueça de nós.
Os olhos dela brilham e as lágrimas quase que caiem.
- Eu era mesmo muito bonita, não era?
- Sim, era a mais bonita de todas.
- Obrigado. E obrigado pelo café, tenho de ir embora, ainda tenho de ir tratar de umas coisas.
Fico a olhar para ela e desejo que tenha sorte.
segunda-feira, novembro 21, 2005
Queres dançar?
- Queres dançar?
Maria ficou muda de espanto, primeiro porque Manuel nunca se tinha dirigido a ela sem ser por você, depois porque era sua psicóloga e de repente sentia que a barreira que tinha de criar entre ela e todos os que acompanhava estava a ser quebrada.
- Dançar? Não nos devíamos antes concentrar no que estávamos a falar?
- Eu sei que este pedido não é muito normal, mas confesso que neste momento sinto que nenhuma conversa me pode ajudar mais do que dançar contigo.
Ele continuava a tratá-la por tu e isso desagradava-lhe ao mesmo tempo que secretamente sentia um certo alivio por não ter de manter o formalismo que sabia ser essencial nas consultas. Eram quase da mesma idade e ao principio, como em tantos outros casos, tinha tido de passar algum tempo a pôr Manuel no seu devido lugar. E depois de ele ter percebido como é que as coisas funcionavam nunca mais tinha tido nenhum tipo de problemas. Mas agora tinha e não sabia bem o que fazer, por um lado pensava numa das frases que já tinha preparadas para situações menos próprias, por outro tinha vontade de fazer tudo ao contrário, levantar-se e dançar. Sabia que não o podia fazer mas não deixava de pensar que o esforço de se manter afastada de todas as vidas que encontrava chegava a ser sufocante. Respondeu sem pensar.
- Mas não temos música.
- Eu consigo imaginar a música na cabeça.
- E tem alguma sugestão?
- Conheces uma música do Rufus Wainwright chamada 14th Street?
- Sim conheço, mas não achas...quero dizer, não acha que está a passar para além do razoável?
- Para falar a sério não estou a pensar em nada...queres dançar ou não? Vá lá, eu prometo que depois nunca mais falamos nisto. Acredita que eu não estou a desrespeitar tudo o que foi conseguido aqui, só quero um intervalo, um momento em que possamos deixar este registo sempre tão triste. Anda lá, quanto mais demoras mais estragas tudo...
Maria nem podia acreditar que se estava a levantar, que ia alinhar naquela loucura, que ia fazer algo contra tudo o que sabia ser certo. Era tarde demais, antes de ter tempo para voltar atrás Manuel pegou-lhe suavemente na mão, puxou-a contra si e começaram a dançar enquanto a música tocava nas suas cabeças.
Don't ever change, don't ever worry
Because I'm coming back home tomorrow
To 14th Street where I won't hurry
And where I'll learn how to save, not just borrow
And they'll be rainbows and we will finally know
Enquanto deslizavam pela sala pensava em muitas coisas, sabia que ele tinha prometido algo que não podia cumprir, sabia que aquela era a última vez que estava com Manuel e que se calhar esta era a maneira dele lhe dizer que estava pronto. Então encostou a cabeça no seu ombro e continuou a dançar.
Maria ficou muda de espanto, primeiro porque Manuel nunca se tinha dirigido a ela sem ser por você, depois porque era sua psicóloga e de repente sentia que a barreira que tinha de criar entre ela e todos os que acompanhava estava a ser quebrada.
- Dançar? Não nos devíamos antes concentrar no que estávamos a falar?
- Eu sei que este pedido não é muito normal, mas confesso que neste momento sinto que nenhuma conversa me pode ajudar mais do que dançar contigo.
Ele continuava a tratá-la por tu e isso desagradava-lhe ao mesmo tempo que secretamente sentia um certo alivio por não ter de manter o formalismo que sabia ser essencial nas consultas. Eram quase da mesma idade e ao principio, como em tantos outros casos, tinha tido de passar algum tempo a pôr Manuel no seu devido lugar. E depois de ele ter percebido como é que as coisas funcionavam nunca mais tinha tido nenhum tipo de problemas. Mas agora tinha e não sabia bem o que fazer, por um lado pensava numa das frases que já tinha preparadas para situações menos próprias, por outro tinha vontade de fazer tudo ao contrário, levantar-se e dançar. Sabia que não o podia fazer mas não deixava de pensar que o esforço de se manter afastada de todas as vidas que encontrava chegava a ser sufocante. Respondeu sem pensar.
- Mas não temos música.
- Eu consigo imaginar a música na cabeça.
- E tem alguma sugestão?
- Conheces uma música do Rufus Wainwright chamada 14th Street?
- Sim conheço, mas não achas...quero dizer, não acha que está a passar para além do razoável?
- Para falar a sério não estou a pensar em nada...queres dançar ou não? Vá lá, eu prometo que depois nunca mais falamos nisto. Acredita que eu não estou a desrespeitar tudo o que foi conseguido aqui, só quero um intervalo, um momento em que possamos deixar este registo sempre tão triste. Anda lá, quanto mais demoras mais estragas tudo...
Maria nem podia acreditar que se estava a levantar, que ia alinhar naquela loucura, que ia fazer algo contra tudo o que sabia ser certo. Era tarde demais, antes de ter tempo para voltar atrás Manuel pegou-lhe suavemente na mão, puxou-a contra si e começaram a dançar enquanto a música tocava nas suas cabeças.
Don't ever change, don't ever worry
Because I'm coming back home tomorrow
To 14th Street where I won't hurry
And where I'll learn how to save, not just borrow
And they'll be rainbows and we will finally know
Enquanto deslizavam pela sala pensava em muitas coisas, sabia que ele tinha prometido algo que não podia cumprir, sabia que aquela era a última vez que estava com Manuel e que se calhar esta era a maneira dele lhe dizer que estava pronto. Então encostou a cabeça no seu ombro e continuou a dançar.
quarta-feira, novembro 09, 2005
O Olhar
Dei por mim a recordar o passado. A lembrar-me da cara de todas as pessoas por quem passei, pequenos pedaços de memória que tento juntar num só pensamento...
Quando tento pensar em Praga sinto que não consigo dizer há quanto tempo é que tudo aconteceu, como se a memória daqueles dias fosse algo que tivesse escondido de mim próprio durante muito tempo. Agora olho para a carroça que passa devagar à minha frente e sou levado para longe. Vejo as figuras de pele escura e cabelo louro e lembro-me de alguém que um dia entrou na minha vida.
Praga
Era uma noite muito quente e eu descia lentamente uma rua da qual não sabia o nome numa cidade que parecia se esconder de mim. Tinha chegado há uma semana e resolvera tentar umas férias diferentes. Não levava indicações nenhumas sobre o que era normal visitar-se em Praga e esperava que a cidade se revelasse por si só, que me fosse mostrando o que lhe apetecesse, ficando completamente à mercê do seu humor.
Até àquele dia tudo tinha corrido bem, possivelmente estaria a falhar alguma coisa que não poderia deixar de ver, mas isso era compensado pelos pequenos segredos que me eram revelados todos os dias. Pequenas ruas com roupas de todas as cores penduradas, fontes escondidas com água fresca que eu não sabia se podia beber, mercados cheios de gente que sorria, eram apenas algumas das coisas que eu não teria visto se tivesse seguido o percurso normal apresentado a qualquer turista. E eu não queria ser um turista normal, queria ser um verdadeiro habitante daquela cidade, nem que fosse apenas por alguns dias.
Cheguei ao fim da rua e entrei numa praça que parecia ser muito antiga. Os edifícios rodeavam uma fonte cheia de personagens míticas que pareciam travar uma batalha épica, como se o destino do mundo estivesse ali retratado na pedra gasta pela água. Em todas as varandas existiam alguns vasos de flores que faziam com que aquele local sorrisse para quem nele entrasse e se deixasse acolher. Decidi descansar.
Ela
Sentei-me no chão e encostei-me à fonte, fechei um pouco os olhos e fiquei a ouvir o barulho da água e a pensar se a praça viria assinalada em todos os livros e guias que tentara não ler antes de começar a minha viagem, secretamente desejava que não.
Comecei a olhar para as pessoas que se encontravam à minha volta e reparei num grupo à minha direita. Eram ciganos, um povo sem pátria, mas sempre presente, um povo que tinha os mesmo traços rudes e belos em todo o lado, em todos os países onde viviam de forma despreocupada, como se fossem o último povo livre.
No meio de todos estes pensamentos reparei numa rapariga cigana que estava sentada no meio de outras mais novas. Tinha os olhos vendados e pareciam estar a jogar a algum jogo que eu não compreendia. As outras raparigas falavam e ela respondia a rir, um riso que fazia eco nos edifícios e que abafava o som da água que caía atrás de mim.
Levantei-me e cuidadosamente aproximei-me tentando perceber o que estavam a fazer. Estava agora a poucos metros delas e conseguia perceber que as raparigas mais novas faziam algum tipo de perguntas ou desafios que provocavam o riso da rapariga de olhos tapados. Desejava poder perceber as palavras exactas que diziam, mas ao mesmo tempo agradecia por isso não acontecer.
De repente ouviu-se uma voz e o grupo desfez-se. As raparigas correram em direcção a uma cigana mais velha que as chamava e deixaram a de olhos vendados sozinha no meio da praça. Para meu espanto, ela não retirou logo a venda dos olhos e deixou-se ficar sentada no chão, como se quisesse sentir os sons e os cheiros que a rodeavam. Estava cada vez mais seduzido pelo que via e voltei a sentar-me no chão ficando a olhar para a rapariga.
Nós
Não sei quanto tempo fiquei ali a observá-la. Os minutos passaram mais devagar e eu sonhei, sonhei que a conhecia e que vivíamos um amor impossível, sonhei com um olhar doce e com os olhos mais bonitos que alguma vez vi na vida. Fechei eu os meus olhos e vi duas vidas ligadas para sempre, algo que eu sentia ser possível embora não conseguisse explicar porquê. Sabia que se existisse alguém no mundo que me estivesse destinado tinha de ser ela, tinha de ser ela a única pessoa que me podia compreender, que me podia sentir, que me podia amar.
Corri. Fugi dali para fora antes de conseguir ver os olhos dela, como se isso acontecesse eu não me pudesse libertar mais, como se esse fosse um ponto de onde não haveria retorno. Corri o mais depressa que consegui por entre os prédios que não reconhecia, num mundo que não era o meu.
Por fim caí exausto e perguntei-me porque é que fugia, porque é que me afastava do que eu sentia ser tão importante. Não tinha resposta para nenhuma das questões que me assombravam, não sabia o que se estava a passar, não sabia porque é que algo tão simples me podia afectar daquela maneira. Senti que ia enlouquecer.
Voltei para trás. Demorei algum tempo a descobrir outra vez a praça no meio do que para mim era agora o mais complexo de todos os labirintos. Quando cheguei outra vez ao sitio de onde fugira olhei desesperadamente para todos os lados e percebi que o grupo de ciganos já não estava ali. O meu coração pareceu rebentar.
Dirigi-me para o sitio onde a rapariga estivera sentada e no chão uma venda esquecida marcava o local. Agarrei nela e ainda consegui sentir um ligeiro perfume, um cheiro que nunca mais esqueci, mesmo depois de ter desaparecido do pano que guardei, uma única lembrança do meu destino, um pequeno vislumbre do que deveria ter sido.
Eu
A carroça dos ciganos afasta-se de mim e eu sei que mantive tudo demasiado tempo afastado do meu pensamento, como se durante estes anos todos me tivesse convencido que de facto tinha sonhado e que nada tinha acontecido. Mas isso não é verdade, sei que foi a noite mais real de toda a minha vida e que o que senti foi verdadeiro.
Não entendo porque fugi, não sei porque é que tudo aconteceu assim e porque é que quase me esqueci. Só sei que no meio das recordações que trouxe de tantos sítios diferentes está algo que tenho vontade de voltar a tocar.
Quando tento pensar em Praga sinto que não consigo dizer há quanto tempo é que tudo aconteceu, como se a memória daqueles dias fosse algo que tivesse escondido de mim próprio durante muito tempo. Agora olho para a carroça que passa devagar à minha frente e sou levado para longe. Vejo as figuras de pele escura e cabelo louro e lembro-me de alguém que um dia entrou na minha vida.
Praga
Era uma noite muito quente e eu descia lentamente uma rua da qual não sabia o nome numa cidade que parecia se esconder de mim. Tinha chegado há uma semana e resolvera tentar umas férias diferentes. Não levava indicações nenhumas sobre o que era normal visitar-se em Praga e esperava que a cidade se revelasse por si só, que me fosse mostrando o que lhe apetecesse, ficando completamente à mercê do seu humor.
Até àquele dia tudo tinha corrido bem, possivelmente estaria a falhar alguma coisa que não poderia deixar de ver, mas isso era compensado pelos pequenos segredos que me eram revelados todos os dias. Pequenas ruas com roupas de todas as cores penduradas, fontes escondidas com água fresca que eu não sabia se podia beber, mercados cheios de gente que sorria, eram apenas algumas das coisas que eu não teria visto se tivesse seguido o percurso normal apresentado a qualquer turista. E eu não queria ser um turista normal, queria ser um verdadeiro habitante daquela cidade, nem que fosse apenas por alguns dias.
Cheguei ao fim da rua e entrei numa praça que parecia ser muito antiga. Os edifícios rodeavam uma fonte cheia de personagens míticas que pareciam travar uma batalha épica, como se o destino do mundo estivesse ali retratado na pedra gasta pela água. Em todas as varandas existiam alguns vasos de flores que faziam com que aquele local sorrisse para quem nele entrasse e se deixasse acolher. Decidi descansar.
Ela
Sentei-me no chão e encostei-me à fonte, fechei um pouco os olhos e fiquei a ouvir o barulho da água e a pensar se a praça viria assinalada em todos os livros e guias que tentara não ler antes de começar a minha viagem, secretamente desejava que não.
Comecei a olhar para as pessoas que se encontravam à minha volta e reparei num grupo à minha direita. Eram ciganos, um povo sem pátria, mas sempre presente, um povo que tinha os mesmo traços rudes e belos em todo o lado, em todos os países onde viviam de forma despreocupada, como se fossem o último povo livre.
No meio de todos estes pensamentos reparei numa rapariga cigana que estava sentada no meio de outras mais novas. Tinha os olhos vendados e pareciam estar a jogar a algum jogo que eu não compreendia. As outras raparigas falavam e ela respondia a rir, um riso que fazia eco nos edifícios e que abafava o som da água que caía atrás de mim.
Levantei-me e cuidadosamente aproximei-me tentando perceber o que estavam a fazer. Estava agora a poucos metros delas e conseguia perceber que as raparigas mais novas faziam algum tipo de perguntas ou desafios que provocavam o riso da rapariga de olhos tapados. Desejava poder perceber as palavras exactas que diziam, mas ao mesmo tempo agradecia por isso não acontecer.
De repente ouviu-se uma voz e o grupo desfez-se. As raparigas correram em direcção a uma cigana mais velha que as chamava e deixaram a de olhos vendados sozinha no meio da praça. Para meu espanto, ela não retirou logo a venda dos olhos e deixou-se ficar sentada no chão, como se quisesse sentir os sons e os cheiros que a rodeavam. Estava cada vez mais seduzido pelo que via e voltei a sentar-me no chão ficando a olhar para a rapariga.
Nós
Não sei quanto tempo fiquei ali a observá-la. Os minutos passaram mais devagar e eu sonhei, sonhei que a conhecia e que vivíamos um amor impossível, sonhei com um olhar doce e com os olhos mais bonitos que alguma vez vi na vida. Fechei eu os meus olhos e vi duas vidas ligadas para sempre, algo que eu sentia ser possível embora não conseguisse explicar porquê. Sabia que se existisse alguém no mundo que me estivesse destinado tinha de ser ela, tinha de ser ela a única pessoa que me podia compreender, que me podia sentir, que me podia amar.
Corri. Fugi dali para fora antes de conseguir ver os olhos dela, como se isso acontecesse eu não me pudesse libertar mais, como se esse fosse um ponto de onde não haveria retorno. Corri o mais depressa que consegui por entre os prédios que não reconhecia, num mundo que não era o meu.
Por fim caí exausto e perguntei-me porque é que fugia, porque é que me afastava do que eu sentia ser tão importante. Não tinha resposta para nenhuma das questões que me assombravam, não sabia o que se estava a passar, não sabia porque é que algo tão simples me podia afectar daquela maneira. Senti que ia enlouquecer.
Voltei para trás. Demorei algum tempo a descobrir outra vez a praça no meio do que para mim era agora o mais complexo de todos os labirintos. Quando cheguei outra vez ao sitio de onde fugira olhei desesperadamente para todos os lados e percebi que o grupo de ciganos já não estava ali. O meu coração pareceu rebentar.
Dirigi-me para o sitio onde a rapariga estivera sentada e no chão uma venda esquecida marcava o local. Agarrei nela e ainda consegui sentir um ligeiro perfume, um cheiro que nunca mais esqueci, mesmo depois de ter desaparecido do pano que guardei, uma única lembrança do meu destino, um pequeno vislumbre do que deveria ter sido.
Eu
A carroça dos ciganos afasta-se de mim e eu sei que mantive tudo demasiado tempo afastado do meu pensamento, como se durante estes anos todos me tivesse convencido que de facto tinha sonhado e que nada tinha acontecido. Mas isso não é verdade, sei que foi a noite mais real de toda a minha vida e que o que senti foi verdadeiro.
Não entendo porque fugi, não sei porque é que tudo aconteceu assim e porque é que quase me esqueci. Só sei que no meio das recordações que trouxe de tantos sítios diferentes está algo que tenho vontade de voltar a tocar.
terça-feira, outubro 25, 2005
Sons
A noite cai e eu estou sentado numa esplanada a olhar as pessoas. O verão está a chegar ao fim e tento aproveitar os últimos dias de bom tempo. Tenho saudades do frio, mas hoje quero despedir-me das noites ao ar livre.
A maior parte das pessoas à minha volta estão a começar a jantar e o barulho de fundo das suas conversas aconchega-me enquanto a minha cabeça voa para longe do sitio onde estou. Recordo muitas noites, muitas companhias e sorrio ao lembrar-me de tudo o que me aconteceu nos últimos meses. Devia estar triste, devia estar melancólico, mas não consigo e estremeço ligeiramente ao recordar emoções que passaram mas que ainda me acompanham.
No meio do meu sonho sou despertado pelo som de uma guitarra a poucos metros de mim, alguém começa a cantar uma música e eu abro os olhos para observar o espectáculo que me é oferecido. À minha frente um rapaz com pouco mais de vinte anos toca energicamente abafando a sua própria voz rouca que canta músicas antigas. Apesar da pouca idade o rapaz tem uma expressão de quem já passou muito na vida, há qualquer coisa nele que nos faz acreditar que os poucos anos de vida que tem estão cheios de histórias que podemos adivinhar enquanto olhamos para a sua cara triste.
Estou tão concentrado a observar o rapaz que não reparo logo que a seu lado uma rapariga dança com umas fitas nas mãos com as quais desenha figuras imaginárias no ar. Tem um ar mais velho do que ele e uma cara pouco simpática, parece apenas interessada nos passos de dança que vai executando pelo meio das pessoas, passando com as fitas a poucos centímetros das cabeças de quem, como eu, observa aquele espectáculo de princípio de noite.
Deixo os meus pensamentos de lado e olho para os dois enquanto a música continua e eles trocam sinais mudos. Ela parece estar zangada com ele, como se ele não tocasse a música da maneira que ela quer, como se não houvesse uma sintonia perfeita entre os dois e isso tirasse brilho à sua dança. Vejo na cara dele um esforço para a acompanhar e um sorriso ligeiro na boca dela dá-me a perceber que ele é bem sucedido. E ficam assim a olhar um para o outro enquanto as fitas continuam a voar reflectidas nos olhos de todos os que olham para eles.
Por momentos tenho inveja, apesar de ver duas figuras frágeis e sujas tenho inveja da força que vejo entre os dois, da vontade de melhorar, da fuga do que é normal, do que é cansativo, da vontade de ser feliz, apenas esse desejo sem que mais alguma coisa importe.
Não percebo os meus sentimentos e a forma como eles invadem o meu mundo e tento encontrar algum defeito no que me atrai, no que me faz não conseguir deixar de olhar. Vejo outra vez duas pessoas de aspecto estranho, duas pessoas que a maior parte do tempo não têm um ar feliz, mas que olham entre si como se pudessem viver apenas da presença do outro.
A música acaba, ouvem-se algumas palmas e penso se outros como eu ficaram cativados por aquele par e pelas emoções que parecem sair do meio dos dois. Como se o verdadeiro espectáculo que apresentassem fossem os sorrisos quase imperceptíveis que trocam como que dizendo que estão unidos, que são um só.
A rapariga dirige-se à esplanada onde estou sentado e estende uma pequena caixa preta à espera de algumas moedas que paguem o seu esforço. Não posso deixar de reparar no seu ar pesado e pouco feliz e em como isso não faz sentido. Como é que a mesma pessoa consegue transmitir sensações tão diferentes? Como é que eu ao olhar para ela sinto ao mesmo tempo, inveja, repulsa, amor e tantos outros sentimentos contrários?
Então ela chega ao pé de mim e estica uma das mãos de forma envergonhada, não consigo ficar indiferente a tudo o que eles me fazem sentir e dou por mim a deixar algumas notas dentro da caixa cheia de moedas brilhantes. A rapariga olha para a caixa e começo por ver na cara dela uma expressão de espanto, logo seguida de um sorriso que aparece primeiro de forma tímida até se transformar e iluminar a noite toda e me fazer tremer.
Enquanto vejo os dois em direcção a outra esplanada relembro vezes sem fim aquele sorriso e o que ele me fez sentir. Penso mais uma vez na minha vida e quase que posso jurar que consigo ouvir música na minha cabeça, como se de repente todos os meus medos, todas as minhas ansiedade tivessem sido soprados para longe de mim. Sinto os olhos cheios de lágrimas e não quero que este momento acabe, quero poder estar em paz comigo mesmo para sempre, quero esquecer tudo o que passei neste verão que agora acaba, quero sorrir...
A maior parte das pessoas à minha volta estão a começar a jantar e o barulho de fundo das suas conversas aconchega-me enquanto a minha cabeça voa para longe do sitio onde estou. Recordo muitas noites, muitas companhias e sorrio ao lembrar-me de tudo o que me aconteceu nos últimos meses. Devia estar triste, devia estar melancólico, mas não consigo e estremeço ligeiramente ao recordar emoções que passaram mas que ainda me acompanham.
No meio do meu sonho sou despertado pelo som de uma guitarra a poucos metros de mim, alguém começa a cantar uma música e eu abro os olhos para observar o espectáculo que me é oferecido. À minha frente um rapaz com pouco mais de vinte anos toca energicamente abafando a sua própria voz rouca que canta músicas antigas. Apesar da pouca idade o rapaz tem uma expressão de quem já passou muito na vida, há qualquer coisa nele que nos faz acreditar que os poucos anos de vida que tem estão cheios de histórias que podemos adivinhar enquanto olhamos para a sua cara triste.
Estou tão concentrado a observar o rapaz que não reparo logo que a seu lado uma rapariga dança com umas fitas nas mãos com as quais desenha figuras imaginárias no ar. Tem um ar mais velho do que ele e uma cara pouco simpática, parece apenas interessada nos passos de dança que vai executando pelo meio das pessoas, passando com as fitas a poucos centímetros das cabeças de quem, como eu, observa aquele espectáculo de princípio de noite.
Deixo os meus pensamentos de lado e olho para os dois enquanto a música continua e eles trocam sinais mudos. Ela parece estar zangada com ele, como se ele não tocasse a música da maneira que ela quer, como se não houvesse uma sintonia perfeita entre os dois e isso tirasse brilho à sua dança. Vejo na cara dele um esforço para a acompanhar e um sorriso ligeiro na boca dela dá-me a perceber que ele é bem sucedido. E ficam assim a olhar um para o outro enquanto as fitas continuam a voar reflectidas nos olhos de todos os que olham para eles.
Por momentos tenho inveja, apesar de ver duas figuras frágeis e sujas tenho inveja da força que vejo entre os dois, da vontade de melhorar, da fuga do que é normal, do que é cansativo, da vontade de ser feliz, apenas esse desejo sem que mais alguma coisa importe.
Não percebo os meus sentimentos e a forma como eles invadem o meu mundo e tento encontrar algum defeito no que me atrai, no que me faz não conseguir deixar de olhar. Vejo outra vez duas pessoas de aspecto estranho, duas pessoas que a maior parte do tempo não têm um ar feliz, mas que olham entre si como se pudessem viver apenas da presença do outro.
A música acaba, ouvem-se algumas palmas e penso se outros como eu ficaram cativados por aquele par e pelas emoções que parecem sair do meio dos dois. Como se o verdadeiro espectáculo que apresentassem fossem os sorrisos quase imperceptíveis que trocam como que dizendo que estão unidos, que são um só.
A rapariga dirige-se à esplanada onde estou sentado e estende uma pequena caixa preta à espera de algumas moedas que paguem o seu esforço. Não posso deixar de reparar no seu ar pesado e pouco feliz e em como isso não faz sentido. Como é que a mesma pessoa consegue transmitir sensações tão diferentes? Como é que eu ao olhar para ela sinto ao mesmo tempo, inveja, repulsa, amor e tantos outros sentimentos contrários?
Então ela chega ao pé de mim e estica uma das mãos de forma envergonhada, não consigo ficar indiferente a tudo o que eles me fazem sentir e dou por mim a deixar algumas notas dentro da caixa cheia de moedas brilhantes. A rapariga olha para a caixa e começo por ver na cara dela uma expressão de espanto, logo seguida de um sorriso que aparece primeiro de forma tímida até se transformar e iluminar a noite toda e me fazer tremer.
Enquanto vejo os dois em direcção a outra esplanada relembro vezes sem fim aquele sorriso e o que ele me fez sentir. Penso mais uma vez na minha vida e quase que posso jurar que consigo ouvir música na minha cabeça, como se de repente todos os meus medos, todas as minhas ansiedade tivessem sido soprados para longe de mim. Sinto os olhos cheios de lágrimas e não quero que este momento acabe, quero poder estar em paz comigo mesmo para sempre, quero esquecer tudo o que passei neste verão que agora acaba, quero sorrir...
sexta-feira, outubro 21, 2005
Um dia
No carro do lado vejo um homem a cantar, não consigo ouvir a sua voz mas tenho a certeza que está a ouvir a mesma estação de rádio que eu. Os lábios dele acompanham o ritmo que ouço e fico a olhar para ele assistindo a um concerto invulgar.
Tenho vestido um casaco novo que decidi estrear esta manhã e sinto-me confiante, como um herói no seu fato de cores berrantes que percorre as ruas em defesa dos mais fracos sigo por entre o trânsito e a chuva. Mas o casaco é preto e o meu humor é instável, uma melancolia que me acompanha sempre ao mesmo tempo que observo o mundo e sinto os pequenos prazeres.
De repente ouço um estrondo e tudo fica escuro, parece que entro dentro de um sonho mas sei que estou acordado. Não compreendo o mundo à minha volta e o meu corpo parece que não tem peso, os meus sentidos transmitem-me sensações estranhas e diferentes e tento perceber o que aconteceu.
Imagens distorcidas começam a formar-se à minha frente e reparo que estou a flutuar, por baixo de mim o metal retorcido não me deixa muitas dúvidas, mas não tenho explicação para o meu estado e procuro por mim no meio da confusão e das luzes que me ferem os olhos. Dentro do sonho adormeço.
Estou deitado numa cama de lençóis brancos com máquinas estranhas à volta, tenho uma expressão serena na face, mas desconfio do que vejo. Tenho a certeza que a dor deve ser insuportável e subo em direcção ao tecto, tento afastar-me do meu corpo e recuso-me a aceitar que sou eu que estou ali deitado, que estou a observar a minha própria vida neste momento.
Sinto uma mão na minha e olho para dedos transparentes que deixam passar a luz que entra pela janela. Uma figura conhecida está sentada ao lado da cama e percebo que estou vivo, que ainda estou ligado à figura frágil deitada na cama, um corpo sem alma mas que vive.
Tenho medo, sei que devo voltar, mas tenho medo. Aqui estou em segurança, mas não sinto nada, não sinto alegria, não sinto tristeza, apenas observo e penso em quem sou. Não sei onde estou, mas sinto-me sozinho, sinto que nada faz sentido, mas não tenho coragem de enfrentar a realidade.
Por fim desisto e desço devagar, toco com a mão na minha e tenho apenas um segundo de hesitação antes de entrar dentro de mim. Nunca senti uma dor tão grande, mas sei que não podia ser de outra maneira, pela primeira vez na vida enfrento todos os meus medos e vivo, vivo de forma frágil, mas sinto, sinto dor e alegria, sinto a calma pela qual ansiei desde sempre.
Estou parado num semáforo e reparo que estou no cruzamento onde tudo aconteceu, não fico assustado mas não resisto a tentar recordar o que não vi. A meu lado uma rapariga canta de janela aberta e acompanha o fim de tarde, fecho os olhos por um segundo e sinto o cheiro da minha pele misturado com o dos carros que passam. Quase consigo sentir que o tempo não passou e quando a luz fica verde, arranco e sigo como se nunca tivesse estado ali, como se nada tivesse acontecido.
Tudo mudou, mas sou o mesmo...
Tenho vestido um casaco novo que decidi estrear esta manhã e sinto-me confiante, como um herói no seu fato de cores berrantes que percorre as ruas em defesa dos mais fracos sigo por entre o trânsito e a chuva. Mas o casaco é preto e o meu humor é instável, uma melancolia que me acompanha sempre ao mesmo tempo que observo o mundo e sinto os pequenos prazeres.
De repente ouço um estrondo e tudo fica escuro, parece que entro dentro de um sonho mas sei que estou acordado. Não compreendo o mundo à minha volta e o meu corpo parece que não tem peso, os meus sentidos transmitem-me sensações estranhas e diferentes e tento perceber o que aconteceu.
Imagens distorcidas começam a formar-se à minha frente e reparo que estou a flutuar, por baixo de mim o metal retorcido não me deixa muitas dúvidas, mas não tenho explicação para o meu estado e procuro por mim no meio da confusão e das luzes que me ferem os olhos. Dentro do sonho adormeço.
Estou deitado numa cama de lençóis brancos com máquinas estranhas à volta, tenho uma expressão serena na face, mas desconfio do que vejo. Tenho a certeza que a dor deve ser insuportável e subo em direcção ao tecto, tento afastar-me do meu corpo e recuso-me a aceitar que sou eu que estou ali deitado, que estou a observar a minha própria vida neste momento.
Sinto uma mão na minha e olho para dedos transparentes que deixam passar a luz que entra pela janela. Uma figura conhecida está sentada ao lado da cama e percebo que estou vivo, que ainda estou ligado à figura frágil deitada na cama, um corpo sem alma mas que vive.
Tenho medo, sei que devo voltar, mas tenho medo. Aqui estou em segurança, mas não sinto nada, não sinto alegria, não sinto tristeza, apenas observo e penso em quem sou. Não sei onde estou, mas sinto-me sozinho, sinto que nada faz sentido, mas não tenho coragem de enfrentar a realidade.
Por fim desisto e desço devagar, toco com a mão na minha e tenho apenas um segundo de hesitação antes de entrar dentro de mim. Nunca senti uma dor tão grande, mas sei que não podia ser de outra maneira, pela primeira vez na vida enfrento todos os meus medos e vivo, vivo de forma frágil, mas sinto, sinto dor e alegria, sinto a calma pela qual ansiei desde sempre.
Estou parado num semáforo e reparo que estou no cruzamento onde tudo aconteceu, não fico assustado mas não resisto a tentar recordar o que não vi. A meu lado uma rapariga canta de janela aberta e acompanha o fim de tarde, fecho os olhos por um segundo e sinto o cheiro da minha pele misturado com o dos carros que passam. Quase consigo sentir que o tempo não passou e quando a luz fica verde, arranco e sigo como se nunca tivesse estado ali, como se nada tivesse acontecido.
Tudo mudou, mas sou o mesmo...
quinta-feira, setembro 22, 2005
Tic-Tac
Tenho os olhos fechados e vejo um grupo de crianças que fazem uma roda à volta de uma árvore. Um relógio marca o ritmo e respiro com dificuldade, é um som que me vai acompanhar para sempre, que me vai perseguir até ser grande.
Penso no que me terá levado de volta ao passado, aos sonhos mais antigos e mais escondidos de uma criança que ainda habita em mim. Foi o meu primeiro medo, o meu primeiro prazer...sempre que ouço os segundos a passar.
Penso no que me terá levado de volta ao passado, aos sonhos mais antigos e mais escondidos de uma criança que ainda habita em mim. Foi o meu primeiro medo, o meu primeiro prazer...sempre que ouço os segundos a passar.
segunda-feira, setembro 19, 2005
O Principio e o Fim
De repente chego ao fim do mundo e encontro-me, sei que não vale a pena pensar no que fiz até hoje, sei que nada do que ficou para trás pode ser mudado. Então abro os braços e grito, chamo por mim na escuridão da noite e sonho, sonho em ser feliz...
sábado, setembro 17, 2005
Treze
Volto, volto porque na verdade nunca fui embora. E embalado pelo perfume que sinto mais próximo desço as escadas sem olhar para os degraus que piso, pedras alisadas pelo tempo e por todos que aqui passaram antes de mim.
Lembro-me do dia anterior e das lágrimas que correram pela minha cara enquanto guiava para longe de ti, enquanto me afastava do que me fez sofrer. Hoje o ar fresco ajuda-me a esquecer e continuo a olhar para a cidade que nunca se vai embora, para os prédios antigos que brilham ao fim do dia com os seus vasos de flores coloridas.
Dois
Carlos era um miúdo diferente e desde muito novo que tinha um olhar estranho, como se conseguisse ver mais do que os outros, como se aqueles enormes olhos verdes pudessem olhar para dentro de cada pessoa, vasculhar as nossas almas e saber quem somos.
Luísa tinha uma pele muito branca e umas mãos com dedos compridos que tocavam de forma gentil em tudo. Sentir aquelas mãos de criança desarmava qualquer um, como se nunca ninguém tivesse sentido nada igual, um conforto que invadia todo o corpo, um pequeno medo que se sentia e uma calma que perdurava durante horas.
Encontro
Carlos e Luísa encontraram-se por acaso, uma rua deserta de Lisboa, umas escadas velhas que subiam e desciam, dois olhares perdidos que se encontraram, um toque ligeiro de mãos enquanto passavam um pelo outro. Tinham apenas treze anos e aquele momento duraria para sempre.
Carlos
Carlos olhava para aquela rapariga parada à sua frente que parecia esperar por algo, não sabia bem porque parara, mas ali estava naquele final de tarde a olhar para alguém que não conhecia, mas que compreendia, a olhar para as mãos que tocara ao de leve e que ainda sentia na sua pele, como se tivesse ficado marcado e ficasse para sempre preso àquele lugar.
Luísa
Luísa não conseguia afastar o seu olhar daquele rapaz que olhava as suas mãos, sentia-se presa, sentia-se enfeitiçada, sentia-se aconchegada. E imaginava-se para sempre envolta naquele abraço invisível que não sabia explicar, mas que sabia bem e que fazia doer.
A Eternidade
Durante longos minutos ficaram como estátuas à frente um do outro sem que uma única palavra fosse dita, sem que um som pequeno que fosse saísse das suas bocas que no entanto sorriam levemente. Apenas gozavam o momento, o tempo não passava e a despreocupação própria da idade misturava-se com a brisa que lhes fazia voar os cabelos.
Sentaram-se num degrau e continuaram calados a ver o sol que se punha por trás de um prédio pintado de branco e amarelo. As sombras estendiam-se no chão e quase lhes tocavam os pés enquanto fugiam, subiam os degraus e sentavam-se mais acima, como se não quisessem perder aquele pôr-do-sol, como se cada degrau em que se sentavam os ajudasse a prolongar aquela tarde.
Por momentos imaginaram uma escadaria infinita de onde pudessem ver o fim do dia para sempre, um mundo onde pudessem fugir da noite e nunca aparecessem as estrelas, um mundo onde a hora fosse sempre a mesma e nada mudasse, apenas uma visão perfeita na companhia de alguém que nos conhecia desde sempre.
Reencontro
Continuo a descer as escadas atrás de algo que não sei se ainda existe. Lembro-me mais uma vez da discussão que me fez sair de casa sem rumo, da noite passada a guiar debaixo de uma chuva que teimou em não me dar descanso, da manhã perdido no meio de ruas desconhecidas. Até regressar a este local que sempre me acompanhou, até voltar a descer as escadas que mudaram a minha vida, até voltar a sonhar contigo.
Pergunto-me se vinte anos depois seremos assim tão diferentes, pergunto-me onde estarão os dois miúdos que sentados nestes degraus viram a vida de uma maneira diferente e que sonharam juntos. Não quero ter de enfrentar esta vida que me abafa, quero voltar àquela tarde em que tudo fazia sentido.
E de repente a minha mão toca noutra, como é que pude não reparar em ti? Como é que mais uma vez te escondes neste sitio onde tudo é estranho? Abro bem os olhos e tento ver a rapariga que encontrei aqui pela primeira vez, um encontro tantas vezes repetido na minha cabeça, nos meus sonhos. Não é difícil, tu continuas a mesma, as mesmas mãos brancas e compridas, o mesmo toque mágico que me faz tremer.
E pela segunda vez na vida assistimos ao pôr-do-sol nestas escadas velhas que nos conhecem, neste sitio que vai ser sempre nosso e onde podemos sorrir sem ter de falar, onde nunca teremos idade e onde vou sempre amar-te...
Lembro-me do dia anterior e das lágrimas que correram pela minha cara enquanto guiava para longe de ti, enquanto me afastava do que me fez sofrer. Hoje o ar fresco ajuda-me a esquecer e continuo a olhar para a cidade que nunca se vai embora, para os prédios antigos que brilham ao fim do dia com os seus vasos de flores coloridas.
Dois
Carlos era um miúdo diferente e desde muito novo que tinha um olhar estranho, como se conseguisse ver mais do que os outros, como se aqueles enormes olhos verdes pudessem olhar para dentro de cada pessoa, vasculhar as nossas almas e saber quem somos.
Luísa tinha uma pele muito branca e umas mãos com dedos compridos que tocavam de forma gentil em tudo. Sentir aquelas mãos de criança desarmava qualquer um, como se nunca ninguém tivesse sentido nada igual, um conforto que invadia todo o corpo, um pequeno medo que se sentia e uma calma que perdurava durante horas.
Encontro
Carlos e Luísa encontraram-se por acaso, uma rua deserta de Lisboa, umas escadas velhas que subiam e desciam, dois olhares perdidos que se encontraram, um toque ligeiro de mãos enquanto passavam um pelo outro. Tinham apenas treze anos e aquele momento duraria para sempre.
Carlos
Carlos olhava para aquela rapariga parada à sua frente que parecia esperar por algo, não sabia bem porque parara, mas ali estava naquele final de tarde a olhar para alguém que não conhecia, mas que compreendia, a olhar para as mãos que tocara ao de leve e que ainda sentia na sua pele, como se tivesse ficado marcado e ficasse para sempre preso àquele lugar.
Luísa
Luísa não conseguia afastar o seu olhar daquele rapaz que olhava as suas mãos, sentia-se presa, sentia-se enfeitiçada, sentia-se aconchegada. E imaginava-se para sempre envolta naquele abraço invisível que não sabia explicar, mas que sabia bem e que fazia doer.
A Eternidade
Durante longos minutos ficaram como estátuas à frente um do outro sem que uma única palavra fosse dita, sem que um som pequeno que fosse saísse das suas bocas que no entanto sorriam levemente. Apenas gozavam o momento, o tempo não passava e a despreocupação própria da idade misturava-se com a brisa que lhes fazia voar os cabelos.
Sentaram-se num degrau e continuaram calados a ver o sol que se punha por trás de um prédio pintado de branco e amarelo. As sombras estendiam-se no chão e quase lhes tocavam os pés enquanto fugiam, subiam os degraus e sentavam-se mais acima, como se não quisessem perder aquele pôr-do-sol, como se cada degrau em que se sentavam os ajudasse a prolongar aquela tarde.
Por momentos imaginaram uma escadaria infinita de onde pudessem ver o fim do dia para sempre, um mundo onde pudessem fugir da noite e nunca aparecessem as estrelas, um mundo onde a hora fosse sempre a mesma e nada mudasse, apenas uma visão perfeita na companhia de alguém que nos conhecia desde sempre.
Reencontro
Continuo a descer as escadas atrás de algo que não sei se ainda existe. Lembro-me mais uma vez da discussão que me fez sair de casa sem rumo, da noite passada a guiar debaixo de uma chuva que teimou em não me dar descanso, da manhã perdido no meio de ruas desconhecidas. Até regressar a este local que sempre me acompanhou, até voltar a descer as escadas que mudaram a minha vida, até voltar a sonhar contigo.
Pergunto-me se vinte anos depois seremos assim tão diferentes, pergunto-me onde estarão os dois miúdos que sentados nestes degraus viram a vida de uma maneira diferente e que sonharam juntos. Não quero ter de enfrentar esta vida que me abafa, quero voltar àquela tarde em que tudo fazia sentido.
E de repente a minha mão toca noutra, como é que pude não reparar em ti? Como é que mais uma vez te escondes neste sitio onde tudo é estranho? Abro bem os olhos e tento ver a rapariga que encontrei aqui pela primeira vez, um encontro tantas vezes repetido na minha cabeça, nos meus sonhos. Não é difícil, tu continuas a mesma, as mesmas mãos brancas e compridas, o mesmo toque mágico que me faz tremer.
E pela segunda vez na vida assistimos ao pôr-do-sol nestas escadas velhas que nos conhecem, neste sitio que vai ser sempre nosso e onde podemos sorrir sem ter de falar, onde nunca teremos idade e onde vou sempre amar-te...
quarta-feira, setembro 07, 2005
Folhas Estranhas
Ouço o barulho debaixo dos meus pés e sei que estou em casa, sei que voltei ao sitio que nunca esqueci e que trouxe sempre comigo. As minhas mãos sentem o desconforto de tocar no que me faz voltar atrás, no que me aconchega e me faz sonhar. Queria que o resto fosse tão simples, como uma recordação que escrevo enquanto a ouço numa canção.
domingo, setembro 04, 2005
Fuga
Corro pelo campo aberto sem olhar para trás com medo de descobrir se ainda estou a ser perseguido. Estou cansado mas continuo e imagens das últimas horas são recordadas na minha cabeça de forma aleatória, pequenos fragmentos que se misturam sem sentido, pois nada explica o que aconteceu.
Passo pelo meio das ervas secas e penso como seria bom poder passear neste local com tempo para apreciar cada pormenor, mas a minha vida está em perigo e corro o mais que posso, passo por árvores e pedras que parecem olhar para mim, que parecem poder sentir o meu medo.
De repente ouço o barulho de água a cair, mas não consigo perceber de onde vem. Tudo à minha volta é seco e velho e não esperava encontrar água nesta terra que um dia será um deserto. Mas o barulho continua a chegar aos meus ouvidos e penso se o cansaço terá alterado a minha percepção do mundo, penso se estarei a enlouquecer, se estarei perto do fim.
Distraído quase caio no abismo que se abre à minha frente, o que pensava ser o cimo de uma pequena elevação no terreno é na verdade o fim do caminho que percorro. Cheguei a um ponto em que não posso prosseguir nem voltar para trás, à minha frente abre-se um enorme vale que vejo desaparecer no horizonte, mas não encontro forma de descer para poder continuar a minha fuga.
Continuo a ouvir o barulho de água e penso de onde virá, sei que não tenho muito tempo e que devia procurar um caminho para descer, mas algo em mim diz-me que tenho de encontrar a origem do que me confunde, água nesta terra sem vida, nesta terra amaldiçoada onde tenho medo de morrer.
Continuo a correr mas já não tenho por onde escapar e procuro apenas algo que não devia existir. Durante algum tempo não vejo nada até que descubro o que não pensava ser possível, um enorme rio correu sempre a meu lado pelo meio da terra sem vida e cai numa enorme cascata sobre o vale.
Olho para baixo e sei que a altura é demasiado grande para alguém sobreviver, mas não posso voltar, seria apanhado rapidamente, seria julgado pelos crimes que não cometi, seria condenado apenas por ter estado onde ninguém podia estar, por ter olhado os segredos escondidos durante tantos séculos.
Mergulho, deixo cair-me ao lado da água que vejo embater com violência lá em baixo e não penso em nada. Fecho os olhos e sinto o ar na cara, sinto o corpo a rodopiar e por momentos é como se voasse, como se antes de bater na água fria que me espera pudesse subir em direcção ao céu e fugir do destino que aguarda pacientemente.
Sinto o choque em todos os pontos do meu corpo e o ar que enche os meus pulmões é expelido com violência. Quero nadar, mas não tenho forças, quero viver mas os meus braços e pernas dizem-me que não são capazes, não quero que este seja o fim mas sinto-me calmo, pelo menos não me apanharam, um triste consolo perto do fim. A escuridão começa a rodear-me e penso em coisas simples, penso na minha infância e nas tardes debaixo dos pinheiros, penso nas noites e no céu que me fazia sonhar.
Vida
Acordo. Não sei onde estou mas sei que estou vivo. Lembro-me vagamente de algo tocar a minha mão antes de perder os sentidos, antes de tudo ter ficado escuro. Foi um toque suave mas que me puxou para cima, que me trouxe de volta à vida.
Estou dentro do que parece ser uma pequena cabana de madeira e ouço o som de risos lá fora, embora saiba que não é possível tenho a certeza que são risos de crianças. O cheiro de comida entra pela porta aberta que deixa entrar o sol, que me deixa ver o verde das árvores. Estou noutro mundo, acho que voltei a nascer.
Deito a cabeça, respiro fundo e adormeço, sei que vou sonhar...
Passo pelo meio das ervas secas e penso como seria bom poder passear neste local com tempo para apreciar cada pormenor, mas a minha vida está em perigo e corro o mais que posso, passo por árvores e pedras que parecem olhar para mim, que parecem poder sentir o meu medo.
De repente ouço o barulho de água a cair, mas não consigo perceber de onde vem. Tudo à minha volta é seco e velho e não esperava encontrar água nesta terra que um dia será um deserto. Mas o barulho continua a chegar aos meus ouvidos e penso se o cansaço terá alterado a minha percepção do mundo, penso se estarei a enlouquecer, se estarei perto do fim.
Distraído quase caio no abismo que se abre à minha frente, o que pensava ser o cimo de uma pequena elevação no terreno é na verdade o fim do caminho que percorro. Cheguei a um ponto em que não posso prosseguir nem voltar para trás, à minha frente abre-se um enorme vale que vejo desaparecer no horizonte, mas não encontro forma de descer para poder continuar a minha fuga.
Continuo a ouvir o barulho de água e penso de onde virá, sei que não tenho muito tempo e que devia procurar um caminho para descer, mas algo em mim diz-me que tenho de encontrar a origem do que me confunde, água nesta terra sem vida, nesta terra amaldiçoada onde tenho medo de morrer.
Continuo a correr mas já não tenho por onde escapar e procuro apenas algo que não devia existir. Durante algum tempo não vejo nada até que descubro o que não pensava ser possível, um enorme rio correu sempre a meu lado pelo meio da terra sem vida e cai numa enorme cascata sobre o vale.
Olho para baixo e sei que a altura é demasiado grande para alguém sobreviver, mas não posso voltar, seria apanhado rapidamente, seria julgado pelos crimes que não cometi, seria condenado apenas por ter estado onde ninguém podia estar, por ter olhado os segredos escondidos durante tantos séculos.
Mergulho, deixo cair-me ao lado da água que vejo embater com violência lá em baixo e não penso em nada. Fecho os olhos e sinto o ar na cara, sinto o corpo a rodopiar e por momentos é como se voasse, como se antes de bater na água fria que me espera pudesse subir em direcção ao céu e fugir do destino que aguarda pacientemente.
Sinto o choque em todos os pontos do meu corpo e o ar que enche os meus pulmões é expelido com violência. Quero nadar, mas não tenho forças, quero viver mas os meus braços e pernas dizem-me que não são capazes, não quero que este seja o fim mas sinto-me calmo, pelo menos não me apanharam, um triste consolo perto do fim. A escuridão começa a rodear-me e penso em coisas simples, penso na minha infância e nas tardes debaixo dos pinheiros, penso nas noites e no céu que me fazia sonhar.
Vida
Acordo. Não sei onde estou mas sei que estou vivo. Lembro-me vagamente de algo tocar a minha mão antes de perder os sentidos, antes de tudo ter ficado escuro. Foi um toque suave mas que me puxou para cima, que me trouxe de volta à vida.
Estou dentro do que parece ser uma pequena cabana de madeira e ouço o som de risos lá fora, embora saiba que não é possível tenho a certeza que são risos de crianças. O cheiro de comida entra pela porta aberta que deixa entrar o sol, que me deixa ver o verde das árvores. Estou noutro mundo, acho que voltei a nascer.
Deito a cabeça, respiro fundo e adormeço, sei que vou sonhar...
quarta-feira, agosto 31, 2005
Outro mundo
De volta ao mundo dos vivos pergunto o que se terá passado na minha ausência, pergunto onde estarão todos, agora que acordo deste sono que me dizem ter durado dois anos. Mas não foram anos de vazio, foram anos cheios de sonhos que agora não consigo encaixar no mundo real.
Passo os dias a escrever e a tentar separar o que se passou enquanto sonhava e as recordações do meu passado. Não é fácil e é sempre com tristeza que ouço alguém dizer que algo também não aconteceu, que foi tudo invenção da minha mente, um sonho demasiado longo e demasiado real.
Choro, choro porque queria continuar a sonhar, choro porque com o passar dos dias vou descobrindo que sou uma pessoa seca e desinteressante, descubro que todas as coisas boas que me aconteceram até hoje foram durante o tempo em que estive a dormir. Dois anos que pareceram cem e que me deixaram longe de mim próprio.
Abro a janela e olho para o céu azul, ainda me custa suportar a luz com os olhos que estiveram tanto tempo fechados e que viram outro mundo que me dizem não existir. E apago assim uma vida inteira? Apago uma vida que para mim foi mais real que esta que agora me é devolvida?
Recuso esquecer-me de mim e deito-me na cama, fecho os olhos e tento dormir para sempre...
Passo os dias a escrever e a tentar separar o que se passou enquanto sonhava e as recordações do meu passado. Não é fácil e é sempre com tristeza que ouço alguém dizer que algo também não aconteceu, que foi tudo invenção da minha mente, um sonho demasiado longo e demasiado real.
Choro, choro porque queria continuar a sonhar, choro porque com o passar dos dias vou descobrindo que sou uma pessoa seca e desinteressante, descubro que todas as coisas boas que me aconteceram até hoje foram durante o tempo em que estive a dormir. Dois anos que pareceram cem e que me deixaram longe de mim próprio.
Abro a janela e olho para o céu azul, ainda me custa suportar a luz com os olhos que estiveram tanto tempo fechados e que viram outro mundo que me dizem não existir. E apago assim uma vida inteira? Apago uma vida que para mim foi mais real que esta que agora me é devolvida?
Recuso esquecer-me de mim e deito-me na cama, fecho os olhos e tento dormir para sempre...
sexta-feira, agosto 19, 2005
Tu
O sol desce devagar e eu penso em ti, penso se te lembras de mim nesta hora que sempre foi nossa, a hora em que olhávamos a cidade juntos e de mãos dadas caminhávamos para casa. Hoje estou sozinho e tenho saudades desse tempo em que éramos um só, quando nos misturávamos ao fim da tarde no mesmo corpo cansado mas feliz, quando sentíamos o amor que nos fazia sorrir, quando a noite teimava em não aparecer.
Agora consigo ver as estrelas que começam a brilhar e sei que em breve a escuridão vai descer sobre mim e terei de enfrentar mais uma vez a minha solidão. Tento agarrar os últimos raios de sol, tento que me aqueçam para poder conseguir passar a noite sem gritar por ti, sem sentir que nada mais importa.
E de repente estou debaixo do céu negro que brilha por cima dos meus olhos, que me chama e me diz para não ter medo, que me diz que no meio de todos aqueles pontos brilhantes também está o meu caminho, o meu futuro, o meu destino. Ouço uma música ao longe e respiro fundo, tento lembrar-me da tua cara, tento saber se exististe mesmo ou se foste apenas um sonho que me acompanhou toda a vida.
Chamo e ninguém responde mas sei que não estou sozinho, tenho o sol, tenho as estrelas, tenho-te a ti...
Agora consigo ver as estrelas que começam a brilhar e sei que em breve a escuridão vai descer sobre mim e terei de enfrentar mais uma vez a minha solidão. Tento agarrar os últimos raios de sol, tento que me aqueçam para poder conseguir passar a noite sem gritar por ti, sem sentir que nada mais importa.
E de repente estou debaixo do céu negro que brilha por cima dos meus olhos, que me chama e me diz para não ter medo, que me diz que no meio de todos aqueles pontos brilhantes também está o meu caminho, o meu futuro, o meu destino. Ouço uma música ao longe e respiro fundo, tento lembrar-me da tua cara, tento saber se exististe mesmo ou se foste apenas um sonho que me acompanhou toda a vida.
Chamo e ninguém responde mas sei que não estou sozinho, tenho o sol, tenho as estrelas, tenho-te a ti...
sexta-feira, agosto 12, 2005
Um rapaz normal
Era uma vez um rapaz que estava sempre a sorrir. Os seus pais não achavam esta situação normal e desde muito cedo que viviam preocupados com este comportamento que começara ainda o rapaz era bebé. Tinham a certeza que o sorriso que viam na cara do pequeno era ainda o primeiro que esboçara, um sorriso sem fim que o acompanhava durante todas as horas do dia e mesmo da noite, parecia que a sua pequena boca tinha sempre uma pequena expressão, algo que deixava perceber o sorriso sempre presente.
O rapaz foi crescendo e ninguém conseguia explicar a razão para tal fenómeno, desesperados os pais levaram o rapaz a todos os médicos, que ficavam espantados com o que viam, mas não encontravam nada de mal no rapaz. E ele continuava a sorrir. Era um sorriso aberto e bonito que por vezes se transformava num riso que enchia a casa e contagiava todos à sua volta com excepção dos pais, estes viviam cada vez mais em sofrimento e passavam os dias a olhar para aquela cara sorridente à espera que uma pequena queda ou outro percalço o fizesse perder a máscara alegre que já não suportavam. Mas mesmo nas alturas em que a dor estava presente o miúdo continuava a sorrir, parecia ser a única pessoa no mundo que conseguia chorar sem perder o sorriso.
Um dia ouviram falar num médico muito famoso, especialista no desenvolvimento de crianças e dirigiram-se à cidade onde este tinha o seu consultório para mais uma tentativa de cura para o seu filho. Sentiam sempre que podia ser este o médico que iria descobrir porque é que o rapaz não parava de sorrir, desejavam ver uma cara sem aquele maldito sorriso que não achavam normal.
Entraram numa sala decorada de forma alegre e observaram o médico à sua frente. Era um homem muito velho, com uma longa barba branca e umas mãos muito compridas, uma personagem algo bizarra que não inspirava muita confiança e que ainda por cima os recebeu com um enorme sorriso. Se não fosse pela educação teriam voltado para trás no momento em que olharam para o médico, tal tinha sido a má impressão que lhes tinha causado aquela figura sorridente.
Explicaram o problema ao médico que continuava a olhar para eles sem deixar de sorrir, parecia que achava piada a toda aquela situação, embora continuasse a acenar com a cabeça como que dizendo que estava a ouvir com atenção. Pediu para observar o rapaz e levou-o para uma sala ao lado onde não podiam ver o que estava a acontecer, ouviam apenas o médico a fazer algumas perguntas, que eram respondidas com a característica voz alegre do seu filho.
Voltaram para junto deles passado poucos minutos e o médico já não sorria, apresentando uma expressão grave e pensativa. Perguntaram com ansiedade o que é que ele achava, se havia uma cura para aquele problema. O médico olhou para eles e enquanto esboçava um enorme sorriso disse numa voz divertida.
- Não se preocupem, o vosso filho é um rapaz perfeitamente normal, está apenas feliz.
O rapaz foi crescendo e ninguém conseguia explicar a razão para tal fenómeno, desesperados os pais levaram o rapaz a todos os médicos, que ficavam espantados com o que viam, mas não encontravam nada de mal no rapaz. E ele continuava a sorrir. Era um sorriso aberto e bonito que por vezes se transformava num riso que enchia a casa e contagiava todos à sua volta com excepção dos pais, estes viviam cada vez mais em sofrimento e passavam os dias a olhar para aquela cara sorridente à espera que uma pequena queda ou outro percalço o fizesse perder a máscara alegre que já não suportavam. Mas mesmo nas alturas em que a dor estava presente o miúdo continuava a sorrir, parecia ser a única pessoa no mundo que conseguia chorar sem perder o sorriso.
Um dia ouviram falar num médico muito famoso, especialista no desenvolvimento de crianças e dirigiram-se à cidade onde este tinha o seu consultório para mais uma tentativa de cura para o seu filho. Sentiam sempre que podia ser este o médico que iria descobrir porque é que o rapaz não parava de sorrir, desejavam ver uma cara sem aquele maldito sorriso que não achavam normal.
Entraram numa sala decorada de forma alegre e observaram o médico à sua frente. Era um homem muito velho, com uma longa barba branca e umas mãos muito compridas, uma personagem algo bizarra que não inspirava muita confiança e que ainda por cima os recebeu com um enorme sorriso. Se não fosse pela educação teriam voltado para trás no momento em que olharam para o médico, tal tinha sido a má impressão que lhes tinha causado aquela figura sorridente.
Explicaram o problema ao médico que continuava a olhar para eles sem deixar de sorrir, parecia que achava piada a toda aquela situação, embora continuasse a acenar com a cabeça como que dizendo que estava a ouvir com atenção. Pediu para observar o rapaz e levou-o para uma sala ao lado onde não podiam ver o que estava a acontecer, ouviam apenas o médico a fazer algumas perguntas, que eram respondidas com a característica voz alegre do seu filho.
Voltaram para junto deles passado poucos minutos e o médico já não sorria, apresentando uma expressão grave e pensativa. Perguntaram com ansiedade o que é que ele achava, se havia uma cura para aquele problema. O médico olhou para eles e enquanto esboçava um enorme sorriso disse numa voz divertida.
- Não se preocupem, o vosso filho é um rapaz perfeitamente normal, está apenas feliz.
terça-feira, agosto 02, 2005
Tento viver
Sentado à tua frente olho para a tua cara e tento imaginar o que estás a pensar. Tu sorris descontraidamente enquanto olhas para a rua e para as pessoas que passam, observas e tentas descobrir o que pensam todos os que atravessam a praça em frente à nossa casa, um último andar no meio desta cidade antiga que nos esconde.
Penso no que deixámos para trás, na vida que tivemos de largar para estar juntos, penso nos amigos que não vamos ver mais, na família que já não é nossa, nas pequenas coisas que faziam parte do nosso dia-a-dia e que perdemos para sempre. Sofro por ti, por não saber se fiz bem em roubar-te ao teu mundo, em trazer-te para junto de mim, pois não sei o que é o amor e não consigo prometer que tudo vai estar bem para sempre.
Um pombo aterra na varanda onde estamos e olha para nós de forma estranha, como se pudesse sentir os sentimentos confusos no ar, como se pudesse sentir o amor, a saudade e a ansiedade que coexistem neste espaço. Quero ter a certeza que o nosso sonho vai ser suficiente para compensar o que deixámos, quero ter a certeza que estamos certos e que isto que sinto neste momento vai durar para sempre.
Olhas para mim e parece que consegues adivinhar o que te quero dizer, o que quero gritar para que todos ouçam. Estou apaixonado como nunca estive na vida, mas tenho as mesmas dúvidas de sempre, tenho medo do futuro, tenho medo de viver.
Chegas perto de mim e passas a tua mão no meu cabelo, conheces-me como ninguém e sabes que estou com a cabeça cheia de ideias que me fazem sofrer. Dizes que me amas e que tudo vai ficar bem, ofereces-me o teu colo e tentas sossegar-me como uma mãe faz com um filho assustado. Ouço as tuas palavras que me dizem que um dia vou ter de crescer, que um dia vou ter de enfrentar a vida de frente. Pergunto se não é isso que estou aqui a fazer contigo, se não foi o que fiz ao não ter olhado para trás. O teu olhar é terno e eu não preciso de respostas, sei tudo o que me podes dizer e levanto a cabeça para respirar o ar da manhã.
Olho também para a pequena praça e para todos os que caminham de forma apressada, toda a gente parece saber exactamente para onde quer ir, mas eu sei que não pode ser verdade, que os outros também têm de ter os mesmos medos, as mesmas angústias, que não posso ser o único.
Afasto-me de ti e dirijo-me para a porta da varanda, digo que vou dar uma volta e tu não dizes nada, ficas apenas a olhar para a rua com uma cara alegre. Desço as escadas de madeira enquanto penso em tudo e saio para a rua, saio para a praça que estava a observar e sei que tu lá de cima olhas para mim, sei que agora sou mais um que caminha como se soubesse para onde ir.
Sorrio por estar junto dos outros que minutos antes observava e percebo como estamos todos ligados, como somos todos iguais. Não tenho destino, mas ando de forma apressada e tenho de me conter para não olhar para trás e para o teu sorriso. Continuo a andar, continuo a tentar viver.
Penso no que deixámos para trás, na vida que tivemos de largar para estar juntos, penso nos amigos que não vamos ver mais, na família que já não é nossa, nas pequenas coisas que faziam parte do nosso dia-a-dia e que perdemos para sempre. Sofro por ti, por não saber se fiz bem em roubar-te ao teu mundo, em trazer-te para junto de mim, pois não sei o que é o amor e não consigo prometer que tudo vai estar bem para sempre.
Um pombo aterra na varanda onde estamos e olha para nós de forma estranha, como se pudesse sentir os sentimentos confusos no ar, como se pudesse sentir o amor, a saudade e a ansiedade que coexistem neste espaço. Quero ter a certeza que o nosso sonho vai ser suficiente para compensar o que deixámos, quero ter a certeza que estamos certos e que isto que sinto neste momento vai durar para sempre.
Olhas para mim e parece que consegues adivinhar o que te quero dizer, o que quero gritar para que todos ouçam. Estou apaixonado como nunca estive na vida, mas tenho as mesmas dúvidas de sempre, tenho medo do futuro, tenho medo de viver.
Chegas perto de mim e passas a tua mão no meu cabelo, conheces-me como ninguém e sabes que estou com a cabeça cheia de ideias que me fazem sofrer. Dizes que me amas e que tudo vai ficar bem, ofereces-me o teu colo e tentas sossegar-me como uma mãe faz com um filho assustado. Ouço as tuas palavras que me dizem que um dia vou ter de crescer, que um dia vou ter de enfrentar a vida de frente. Pergunto se não é isso que estou aqui a fazer contigo, se não foi o que fiz ao não ter olhado para trás. O teu olhar é terno e eu não preciso de respostas, sei tudo o que me podes dizer e levanto a cabeça para respirar o ar da manhã.
Olho também para a pequena praça e para todos os que caminham de forma apressada, toda a gente parece saber exactamente para onde quer ir, mas eu sei que não pode ser verdade, que os outros também têm de ter os mesmos medos, as mesmas angústias, que não posso ser o único.
Afasto-me de ti e dirijo-me para a porta da varanda, digo que vou dar uma volta e tu não dizes nada, ficas apenas a olhar para a rua com uma cara alegre. Desço as escadas de madeira enquanto penso em tudo e saio para a rua, saio para a praça que estava a observar e sei que tu lá de cima olhas para mim, sei que agora sou mais um que caminha como se soubesse para onde ir.
Sorrio por estar junto dos outros que minutos antes observava e percebo como estamos todos ligados, como somos todos iguais. Não tenho destino, mas ando de forma apressada e tenho de me conter para não olhar para trás e para o teu sorriso. Continuo a andar, continuo a tentar viver.
quinta-feira, julho 28, 2005
Serei sempre eu
De repente regresso ao passado e estou de volta ao bosque. Ando descontraidamente e olho para todos os lados com a curiosidade de quem é pequeno e para quem tudo é novo. Na mão levo um pau que é a minha espada e luto contra monstros gigantescos que saltam para a minha frente. Apesar da diferença de tamanho saio vencedor destas lutas impossíveis e avanço pelos terrenos mágicos que se estendem à minha frente.
Entro no reino perdido e caminho em direcção ao castelo, está sol e a tarde é infinita...
Entro no reino perdido e caminho em direcção ao castelo, está sol e a tarde é infinita...
Repetições
De volta ao mundo dos sonhos sinto o estômago a contrair-se e vivo o que pensava não ser mais possível. Tento concentrar-me no mundo real mas a tua presença é forte e sinto mais uma vez que estou a viajar numa terra que já conheci. Vejo-te quando fecho os olhos, de cabelo apanhado a olhar para mim, a pedir que eu te ame, a pedir que eu não deixe de existir neste mundo estranho que a qualquer altura pode desaparecer. Pergunto porque é que tinhas de aparecer e complicar o que já não era simples, pergunto porque é que sinto o que sinto, porque é que sei o que pode acontecer sem saber quem és, sem saber onde estamos, sem saber porque é que me sinto em casa.
Caminho e olho para as imagens distorcidas à minha frente, um mundo que não faz sentido quando pensamos nele, um mundo que só existe enquanto acreditamos, um mundo que me traz a ansiedade de volta, que me faz voar e ter medo de cair. Quem és tu que aparece com diferentes caras à minha frente? Quem és tu que eu reconheço à primeira palavra? Grito, mas não ouço a minha voz, choro mas as lágrimas não correm e peço ajuda para enfrentar o futuro. Tento ter forças para resistir a este destino tantas vezes repetido, para lutar contra o doce embalo que me ofereces, para não desistir e descansar a cabeça num colo que me traz o carinho perdido e o conforto desejado.
Estou mais uma vez no meio da encruzilhada que conheço, tenho dois caminhos à minha frente e não sei por onde seguir. Sento-me encostado à única árvore que existe e adormeço. Sonho dentro de um sonho, sonho com a calma que queria que existisse na minha vida, com os pequenos prazeres que não consigo ter, com o vento na minha cara, com o perfume da erva debaixo de mim, com as sombras desenhadas no chão, com as nuvens brancas no céu...desejos repetidos tantas vezes e que escrevo para não me esquecer do caminho para casa.
Caminho e olho para as imagens distorcidas à minha frente, um mundo que não faz sentido quando pensamos nele, um mundo que só existe enquanto acreditamos, um mundo que me traz a ansiedade de volta, que me faz voar e ter medo de cair. Quem és tu que aparece com diferentes caras à minha frente? Quem és tu que eu reconheço à primeira palavra? Grito, mas não ouço a minha voz, choro mas as lágrimas não correm e peço ajuda para enfrentar o futuro. Tento ter forças para resistir a este destino tantas vezes repetido, para lutar contra o doce embalo que me ofereces, para não desistir e descansar a cabeça num colo que me traz o carinho perdido e o conforto desejado.
Estou mais uma vez no meio da encruzilhada que conheço, tenho dois caminhos à minha frente e não sei por onde seguir. Sento-me encostado à única árvore que existe e adormeço. Sonho dentro de um sonho, sonho com a calma que queria que existisse na minha vida, com os pequenos prazeres que não consigo ter, com o vento na minha cara, com o perfume da erva debaixo de mim, com as sombras desenhadas no chão, com as nuvens brancas no céu...desejos repetidos tantas vezes e que escrevo para não me esquecer do caminho para casa.
segunda-feira, julho 25, 2005
Ao espelho
Olhas para o espelho e perguntas quem és, não te reconheces na imagem que vês e pensas quando é que a calma voltará. Os dias são mais compridos e só a noite traz algum conforto, a noite onde estavam todos os medos, agora única aliada na tua luta. E dormes. Dormes para não pensar no mundo que não compreendes e na vida que se divide em duas. Os sonhos levam-te a locais que não conheces mas onde te sentes bem.
Não te moves e fixas demoradamente o teu corpo reflectido no espelho, tens medo que um dia a imagem à tua frente ganhe vida e se separe de ti, tens medo de não existirem mais estes momentos infinitos em que os olhos olham os olhos e o tempo não passa. O teu corpo é também o meu corpo que espera por ti, que espera que desse lado não fujas, que espera poder ver-te todos os dias.
Toco com um dedo no vidro e olho para dois braços que se unem num único ponto. Não sei qual dos dois é real e pergunto se isso será realmente importante, pergunto se não podem existir duas vidas que são uma só e se observam com medo, com a ansiedade de não saberem quem são, com a alegria de nunca estarem sozinhas.
Olhas-me mais uma vez nos olhos e sorris, sorris para ver o meu sorriso e para poderes sentir que um dia tudo estará bem.
Não te moves e fixas demoradamente o teu corpo reflectido no espelho, tens medo que um dia a imagem à tua frente ganhe vida e se separe de ti, tens medo de não existirem mais estes momentos infinitos em que os olhos olham os olhos e o tempo não passa. O teu corpo é também o meu corpo que espera por ti, que espera que desse lado não fujas, que espera poder ver-te todos os dias.
Toco com um dedo no vidro e olho para dois braços que se unem num único ponto. Não sei qual dos dois é real e pergunto se isso será realmente importante, pergunto se não podem existir duas vidas que são uma só e se observam com medo, com a ansiedade de não saberem quem são, com a alegria de nunca estarem sozinhas.
Olhas-me mais uma vez nos olhos e sorris, sorris para ver o meu sorriso e para poderes sentir que um dia tudo estará bem.
quinta-feira, julho 21, 2005
Quero
Sinto o peito rebentar de ansiedade e tudo à minha volta confunde-me os sentidos. Respiro fundo. Estou ligado a todas as coisas que existem e sei que pela primeira vez na vida sinto o mundo. Sinto toda a realidade de maneiras diferentes, ouço, vejo, cheiro, toco, saboreio. De braços abertos tento ser a água que corre no riacho, o pássaro que voa no alto, a árvore que tapa o sol. Quero estar vivo para sempre e nunca perder o que estou a sentir, quero sonhar acordado, quero dormir com um sorriso nos lábios...quero ser feliz.
quarta-feira, julho 20, 2005
Um dia cinzento (um sonho estranho)
Doem-me os olhos e sinto que estive longe durante muito tempo, sinto que não sei onde estou e que estou perdido no tempo. Sei que existo porque sinto, mas não sei que tipo de existência é esta em que vejo tudo a preto e branco. Toda a minha vida vivi aprisionado no meio de outros que partilhavam a minha sorte, apenas números e nunca nomes, apenas dor e nunca alegria, sempre o choro em vez do riso. Hoje consigo olhar para o passado sem temer o futuro e posso finalmente confrontar os meus fantasmas. Sento-me e tento escrever sobre a minha vida, sobre os anos em que vivi sem a luz do sol, sobre os anos em que não sabia quem era e tento pôr em palavras o que os meus olhos só conseguem ver no meio de imagens desfocadas, no meio de sonhos que me fazem acordar assustado.
A libertação deveria ter trazido a bondade ao meu mundo, mas as coisas não aconteceram assim. E ainda consigo ver-nos todos reunidos depois de anos fechados dentro de quatro paredes, as caras sérias que deviam sorrir e não questionar, a loucura que se tornara demasiado presente e que não podíamos largar. Então o caos, a negação do que sonháramos toda a vida, o negro renascido do negro. Consigo ver o primeiro movimento como se estivesse a acontecer à minha frente, a primeira mão levantada e todas as outras ligadas a ela. O fim de um sonho que demorou pouco tempo a transformar-se no maior dos pesadelos.
No meio de todo o frenesim estou escondido à procura de uma cara que não tenha os olhos fechados, procuro desesperadamente por alguém que tenha conseguido escapar a este destino infeliz, o de ver o sol apenas por um segundo e tapá-lo com as mãos negras de desespero. Mas existem outros como eu, outros que choram perdidos no meio da multidão enfurecida, outros que se libertaram de verdade e não querem ceder à loucura. Refugiamo-nos na sombra e desejamos que tudo acabe depressa. Vemos tudo a acontecer à nossa frente, do nosso esconderijo sem luz podemos olhar para o mundo a acabar sem podermos fazer nada que não seja rezar sem saber como, rezar para que tudo passe, para que tudo acabe.
Os olhos continuam a doer-me e luto para não parar de escrever, luto para me lembrar de todo o tempo em que estivemos agarrados uns aos outros sem saber o que nos ia acontecer, luto para não me esquecer de uma figura fraca que tentou juntar-se a nós, que suplicou por uns centímetros da nossa sombra protectora. Ainda consigo ouvir a resposta que veio através de um som seco e metálico ao meu lado, ainda consigo ver a forma frágil a ser projectada para trás, para o meio da luz das chamas. Naquele momento soube que se escapasse ao que parecia ser o fim deste novo mundo teria de vingar o que tinha acontecido e hoje sei que consegui, a nossa sombra não foi invadida, mas o mundo que começou naquele dia ficou livre do mal que se tinha infiltrado entre nós.
A libertação deveria ter trazido a bondade ao meu mundo, mas as coisas não aconteceram assim. E ainda consigo ver-nos todos reunidos depois de anos fechados dentro de quatro paredes, as caras sérias que deviam sorrir e não questionar, a loucura que se tornara demasiado presente e que não podíamos largar. Então o caos, a negação do que sonháramos toda a vida, o negro renascido do negro. Consigo ver o primeiro movimento como se estivesse a acontecer à minha frente, a primeira mão levantada e todas as outras ligadas a ela. O fim de um sonho que demorou pouco tempo a transformar-se no maior dos pesadelos.
No meio de todo o frenesim estou escondido à procura de uma cara que não tenha os olhos fechados, procuro desesperadamente por alguém que tenha conseguido escapar a este destino infeliz, o de ver o sol apenas por um segundo e tapá-lo com as mãos negras de desespero. Mas existem outros como eu, outros que choram perdidos no meio da multidão enfurecida, outros que se libertaram de verdade e não querem ceder à loucura. Refugiamo-nos na sombra e desejamos que tudo acabe depressa. Vemos tudo a acontecer à nossa frente, do nosso esconderijo sem luz podemos olhar para o mundo a acabar sem podermos fazer nada que não seja rezar sem saber como, rezar para que tudo passe, para que tudo acabe.
Os olhos continuam a doer-me e luto para não parar de escrever, luto para me lembrar de todo o tempo em que estivemos agarrados uns aos outros sem saber o que nos ia acontecer, luto para não me esquecer de uma figura fraca que tentou juntar-se a nós, que suplicou por uns centímetros da nossa sombra protectora. Ainda consigo ouvir a resposta que veio através de um som seco e metálico ao meu lado, ainda consigo ver a forma frágil a ser projectada para trás, para o meio da luz das chamas. Naquele momento soube que se escapasse ao que parecia ser o fim deste novo mundo teria de vingar o que tinha acontecido e hoje sei que consegui, a nossa sombra não foi invadida, mas o mundo que começou naquele dia ficou livre do mal que se tinha infiltrado entre nós.
domingo, julho 10, 2005
Viagens
À beira da ruptura olho para os carros na rua e penso na vida, nunca me senti assim tão desorientado, sem saber para onde caminho. Sigo as luzes vermelhas que se afastam de mim, outras vidas que seguem para longe e apesar de não fumar puxo de um cigarro apenas para ver os efeitos do fumo que sobe em direcção às estrelas. Olho para cima mais uma vez como se daí pudesse vir algum auxilio, algo que explique o estado em que me encontro. Estou sozinho e nunca tive tanta gente à minha volta...
Sei que tenho tudo para ser feliz e que a angústia permanente não faz sentido. Procuro desesperadamente uma solução, um caminho que me faça viajar daqui para fora. Do alto da varanda, com o vento a bater-me na cara, continuo a olhar para as outras vidas que passam e saio de dentro de mim.
Viagem
Vítor estava cansado, guiava sem parar há duas horas e sentia-se a adormecer. A discussão com Clara tinha sido a pior de todas as que já tinham tido e não aguentara ficar em casa. Entrara no carro sem saber que destino levava, só sabia que tinha de sair, que precisava de pôr as ideias em ordem e pensar no seu futuro. Não conseguia continuar, tinha de parar.
Dentro do carro, numa rua desconhecida, continuava a ouvir a mesma música que o acompanhava há dias e desejou estar noutro sitio, desejou estar na praia com que sonhara há muitos anos e que ainda não tinha descoberto. Passado tanto tempo conseguia ainda lembrar-se de todos os pormenores desse sonho, o mais intenso que alguma vez tivera na vida e que lhe deixara uma vontade enorme de fugir, de abrir a porta de casa e sair, viajar pelo mundo, encontrar o sitio que sabia ser seu. Fechou os olhos e sonhou.
As ilhas
Rui sentiu o trem de aterragem tocar o chão com algum alivio, nunca apreciara especialmente viajar daquela forma, mas desta vez estava mais incomodado do que o costume. Talvez fosse pelo facto de nunca ter estado tanto tempo dentro de um avião, ou talvez fosse por ir ao encontro do seu destino, ao encontro dele próprio.
Mal saiu do avião sentiu que estava num sitio diferente, sentiu um ar quente e húmido que nunca tinha sentido antes. Todo o seu corpo parecia doer e por momentos fantasiou que estava noutro planeta onde as leis mais básicas da física não se aplicavam. Sabia que tinha finalmente chegado a casa...
Saiu do hotel e dirigiu-se à praia, caminhou descalço por entre as árvores estranhas até à areia branca e olhou para o mar azul. Não estava demasiado calor e uma brisa com um cheiro adocicado batia contra a sua cara, era capaz de ficar ali para sempre. Finalmente estava no sitio com que tinha sonhado toda a vida e que achava lhe ia trazer a solução para todas as perguntas sem resposta.
De repente ouviu um som, uma música, olhou para trás à procura de alguém mas a praia estava deserta. O único sitio de onde poderia vir era uma pequena igreja pintada de branco que tinha sido construída mesmo em cima da areia. Parecia bastante antiga e deslocada daquele sitio e quando fechou os olhos teve medo de não a voltar a ver, mas ela ainda estava à sua frente quando os voltou a abrir.
Entrou na velha igreja e sentiu que de alguma forma conhecia aquele sitio, a cor dos bancos, o chão irregular, as figuras que olhavam para ele, tinha certeza que já aqui tinha estado, por muito que isso fosse impossível. Era o seu sonho, sabia isso, mas tinha medo do que ia encontrar, tinha medo das respostas que procurava há tanto tempo.
Continuava a ouvir a música e agora tinha a certeza que era a mesma que ouvira anos atrás numa noite que nunca esquecera, era a mesma música que ouvia na sua cabeça sempre que precisava de ter a certeza de que existia, de que era uma pessoa real e não um sonho.
Apercebeu-se de repente que este era o último momento de dúvida, que era a última vez que poderia fazer certas perguntas, que a partir dali tudo seria diferente. Sentou-se num banco e tentou concentrar-se naquele momento único da sua vida, tentou memorizar todos os pormenores, tentou não esquecer-se de si próprio...
Noite
Continuo na varanda a olhar para o carro que parou à porta do meu prédio. Lembro-me de um sonho antigo e sei que todas as respostas estão dentro de mim, sei que só eu posso acabar com toda a ansiedade que sinto a cada momento. Olho para cima e choro uma última vez, choro porque sofro, choro porque ainda não consegui perceber que estranha música é esta que não me sai da cabeça.
E sonho, sonho que estou num local distante e que entendo...
Sei que tenho tudo para ser feliz e que a angústia permanente não faz sentido. Procuro desesperadamente uma solução, um caminho que me faça viajar daqui para fora. Do alto da varanda, com o vento a bater-me na cara, continuo a olhar para as outras vidas que passam e saio de dentro de mim.
Viagem
Vítor estava cansado, guiava sem parar há duas horas e sentia-se a adormecer. A discussão com Clara tinha sido a pior de todas as que já tinham tido e não aguentara ficar em casa. Entrara no carro sem saber que destino levava, só sabia que tinha de sair, que precisava de pôr as ideias em ordem e pensar no seu futuro. Não conseguia continuar, tinha de parar.
Dentro do carro, numa rua desconhecida, continuava a ouvir a mesma música que o acompanhava há dias e desejou estar noutro sitio, desejou estar na praia com que sonhara há muitos anos e que ainda não tinha descoberto. Passado tanto tempo conseguia ainda lembrar-se de todos os pormenores desse sonho, o mais intenso que alguma vez tivera na vida e que lhe deixara uma vontade enorme de fugir, de abrir a porta de casa e sair, viajar pelo mundo, encontrar o sitio que sabia ser seu. Fechou os olhos e sonhou.
As ilhas
Rui sentiu o trem de aterragem tocar o chão com algum alivio, nunca apreciara especialmente viajar daquela forma, mas desta vez estava mais incomodado do que o costume. Talvez fosse pelo facto de nunca ter estado tanto tempo dentro de um avião, ou talvez fosse por ir ao encontro do seu destino, ao encontro dele próprio.
Mal saiu do avião sentiu que estava num sitio diferente, sentiu um ar quente e húmido que nunca tinha sentido antes. Todo o seu corpo parecia doer e por momentos fantasiou que estava noutro planeta onde as leis mais básicas da física não se aplicavam. Sabia que tinha finalmente chegado a casa...
Saiu do hotel e dirigiu-se à praia, caminhou descalço por entre as árvores estranhas até à areia branca e olhou para o mar azul. Não estava demasiado calor e uma brisa com um cheiro adocicado batia contra a sua cara, era capaz de ficar ali para sempre. Finalmente estava no sitio com que tinha sonhado toda a vida e que achava lhe ia trazer a solução para todas as perguntas sem resposta.
De repente ouviu um som, uma música, olhou para trás à procura de alguém mas a praia estava deserta. O único sitio de onde poderia vir era uma pequena igreja pintada de branco que tinha sido construída mesmo em cima da areia. Parecia bastante antiga e deslocada daquele sitio e quando fechou os olhos teve medo de não a voltar a ver, mas ela ainda estava à sua frente quando os voltou a abrir.
Entrou na velha igreja e sentiu que de alguma forma conhecia aquele sitio, a cor dos bancos, o chão irregular, as figuras que olhavam para ele, tinha certeza que já aqui tinha estado, por muito que isso fosse impossível. Era o seu sonho, sabia isso, mas tinha medo do que ia encontrar, tinha medo das respostas que procurava há tanto tempo.
Continuava a ouvir a música e agora tinha a certeza que era a mesma que ouvira anos atrás numa noite que nunca esquecera, era a mesma música que ouvia na sua cabeça sempre que precisava de ter a certeza de que existia, de que era uma pessoa real e não um sonho.
Apercebeu-se de repente que este era o último momento de dúvida, que era a última vez que poderia fazer certas perguntas, que a partir dali tudo seria diferente. Sentou-se num banco e tentou concentrar-se naquele momento único da sua vida, tentou memorizar todos os pormenores, tentou não esquecer-se de si próprio...
Noite
Continuo na varanda a olhar para o carro que parou à porta do meu prédio. Lembro-me de um sonho antigo e sei que todas as respostas estão dentro de mim, sei que só eu posso acabar com toda a ansiedade que sinto a cada momento. Olho para cima e choro uma última vez, choro porque sofro, choro porque ainda não consegui perceber que estranha música é esta que não me sai da cabeça.
E sonho, sonho que estou num local distante e que entendo...
quarta-feira, julho 06, 2005
Escrever
A Feira
Rui entrou numa casa muito velha atrás dos seus amigos. Era a noite perfeita para experimentarem todo o tipo de aventuras e a antiga feira era o local indicado para quem queria emoções fortes. À sua frente Vasco avançava muito devagar com medo do que podia estar atrás de cada esquina, Rui olhava para ele e pensava como era possível que o seu melhor amigo fosse casar daí a uma semana. Lembrava-se ainda de quando eram novos e passavam o dia a brincar no bosque perto da casa dos seus avós e agora estavam ali, a última vez que podiam estar juntos antes de tudo mudar. Sentia um pouco de ciúmes do seu amigo, embora também o invejasse por ter algo que nunca conseguira ter, por ter algo que também desejava.
A casa estava completamente abandonada ou assim queriam que parecesse, sabia bem o tipo de partidas que ia ter de enfrentar e não se preocupou muito. Desde cedo que era poucas vezes surpreendido e não ia ser diferente desta vez. Mas o sentimento não era partilhado pelos outros que gritavam no meio da confusão que se tinha instalado. Uma dúzia de rapazes que tinha voltado aos tempos em que eram livres, uma brincadeira de crianças num mundo de adultos que não sentiam ter crescido.
Saíram da casa entre risos e empurrões e olharam para a rua a tentarem decidir onde iriam a seguir, que divertimento esquecido iria ser experimentado uma última vez? A feira parecia mais abandonada do que nunca e parecia que tinha escolhido aquela noite para se despedir também de alguma coisa, para se despedir de tantas histórias passadas no meio daqueles muros e de casas com cores engraçadas. Seguiram para a tenda do circo.
O circo
A tenda do velho circo era enorme e ocupava uma grande parte do recinto da feira. Rui lembrava-se de assistir aos espectáculos de sábado à tarde com o seu avô enquanto comia algodão doce. Ainda conseguia ver os fatos brilhantes dos trapezistas e ouvir os leões que desafiavam o chicote do domador vestido de vermelho. Eram tempos sem preocupações e tinha saudades, tinha saudades de descer a rua de mão dada com o avô e contar as riscas coloridas da tenda. Chegava a dar uma volta inteira à tenda para contar quantas riscas de cores diferentes conseguia contar, nunca chegava ao fim com a mesma contagem.
Hoje o circo já não existia e apesar de não vir a este local há muito tempo sabia que lá dentro ainda se podia assistir a algum tipo de espectáculo, algo desfasado do tempo tinha a certeza e que ajudava a dar uma estranha mística a todo aquele local que parecia lutar para não desaparecer. Esta noite ele e os amigos tentavam que isso não acontecesse, tentavam gozar o mais possível numa só noite. O amanhã não importava.
As seis gémeas
Quando entraram deram de caras com uma visão bizarra. Dentro da tenda não existia nada, estavam apenas debaixo da lona e das luzes que estavam presas na parte de cima. As antigas bancadas de madeira tinham desaparecido, o que fazia com que o espaço parecesse muito maior, como se tudo à sua volta desafiasse a lógica e não combinasse com o que tinham observado de fora.
Mas não estavam sozinhos. No meio da tenda seis cavalos troteavam em circulo, tendo cada um deles por companhia uma rapariga vestida de preto e cabelos compridos. No meio uma senhora mais velha segurava um microfone e pedia para se aproximarem enquanto apresentava as irmãs. Seis gémeas idênticas que iam rodando à frente do grupo de amigos que não podia deixar de ficar de boca aberta perante tal visão.
Rui ia ouvindo os nomes das irmãs enquanto iam desfilando em cima dos cavalos, Marlene, Marta, Margarida, Madalena, Magda e Maria, um estranho conjunto de nomes para um estranho grupo. Eram perfeitamente iguais e por mais que tentasse não conseguia descobrir diferenças entre elas, parecia que estava a ver sempre a mesma imagem, uma rapariga de cabelos compridos, vestida de negro cavalgando em cima de um cavalo também ele negro. Era como se estivesse a ver um filme projectado à sua frente em câmara lenta.
A escolha
Todos sabiam que toda aquela encenação devia ter algum sentido, mas não tentavam sequer adivinhar que tipo de divertimento lhes iria ser proposto no meio de tão estranha visão. Então a mulher mais velha falou e pediu-lhes que se aproximassem. Disse-lhes para se posicionarem à volta do circulo pois uma escolha iria ser feita, uma escolha que iria mudar a vida de um deles. Ouviram-se risos, mas a mulher manteve uma expressão muito segura, como se soubesse alguma coisa que eles desconhecessem. Não deixava de ser uma cena assustadora e Rui sentiu um pequeno tremor a percorrer-lhe o corpo enquanto obedecia e se aproximava do meio da tenda.
A mulher continuou a falar e explicou que uma das irmãs iria escolher um deles e que essa escolha traria um novo caminho para o escolhido. Era uma situação cada vez mais estranha, ali estavam todos à volta de seis irmãs que olhavam-nos nos olhos e pareciam procurar um deles para fazer uma escolha que supostamente iria mudar uma vida. Noutra altura Rui teria rido de tudo aquilo, mas naquela noite não foi capaz. Tinha um pressentimento em relação a tudo e manteve-se calado a olhar.
Os cavalos andavam mais devagar e Rui olhava para as irmãs que iam passando, nem sequer sabia qual delas iria fazer a escolha. Mas de repente e sem saber bem como pareceu reparar num olhar de uma delas, parecia que sem o mostrar muito uma das raparigas olhava para ele de forma diferente cada vez que passava por ele. Não acreditava que ia ser o escolhido, seria possível? Não lhe apetecia muito ser alvo do gozo dos amigos e tentou desviar o olhar, mas não conseguiu deixar de olhar para a rapariga que agora conseguia distinguir perfeitamente entre as outras. Tudo parecia ser demasiado entranho e fechou os olhos à espera.
O escolhido
Os cavalos pararam e a mulher de pé disse que a escolha estava feita. Foi com um enorme nervosismo que Rui viu a rapariga que olhara para ele descer do cavalo e dirigir-se para o centro da tenda ficando ao lado da mulher que pareceu ter alguma coisa para dizer antes de anunciar o escolhido. E falou numa voz mais baixa, avisou que aquela escolha não devia ser desprezada nem levada pouco a sério, disse que o escolhido podia seguir o caminho que quisesse na sua vida, mas que ali naquela noite iria ser-lhe apresentada uma alternativa, que ele podia ou não escolher.
Era um discurso demasiado vago e todos estavam impacientes sem saberem o que ia acontecer. Então a rapariga, que a mulher anunciou como sendo Marta, saiu do centro e começou a dirigir-se para um dos rapazes. Foi com enorme espanto que Rui viu que, quando tudo indicava que iria ser o escolhido, ela caminhava lentamente em direcção a Vasco. Não entendia nada, um acontecimento como aquele tinha de fazer algum sentido e ele devia ser o escolhido, não Vasco, sentia isso. Para além do mais Vasco ia casar, tudo o que não precisava era de mais uma mudança na sua vida.
Deu por si a rir, no final aquilo era tudo uma brincadeira e estava a reagir como se o futuro de alguém pudesse ser modificado por aquela escolha. Todos riam enquanto Marta pegava na mão de um Vasco desconfiado e pedia-lhe para passear um pouco com ela fora da tenda. Mas apesar de rir com os outros Rui não estava completamente convencido da brincadeira e olhou para os dois enquanto saíam de mãos dadas da tenda. Pensou uma última vez que ele é que devia estar ali.
Medo
Nunca ninguém soube o que aconteceu a Vasco fora da tenda, mas todos assistiram à forma descontrolada como o encontraram alguns minutos depois, parecia que estivera a beber e chorava desesperadamente. Ao principio alguns pensaram que se tratasse de uma brincadeira, mais uma numa noite cheia de tantas partidas, mas rapidamente chegaram à conclusão que o estado do seu amigo era genuíno. Rui aproximou-se dele e tentou que se controlasse, era o seu maior amigo e tentou afastá-lo um pouco dos outros para perceber o que se passava.
Vasco chorava de tal forma que Rui apenas conseguia perceber algumas palavras no meio dos soluços e só ao fim de uns segundos começou a perceber e a juntar algumas das palavras que o seu amigo ia dizendo. Vasco dizia que tinha sido amaldiçoado, que estava perdido, que estava apaixonado. Não era possível, que espécie de feitiço tinha sido lançado sobre o seu amigo que lhe fizera perder a razão? Olhava para o lado procurando a rapariga, procurando alguma resposta que pudesse dar algum sentido ao que se estava a passar mas apenas conseguia ver as cinco irmãs. Como era possível que agora a achasse tão diferentes das outras?
Saiu da tenda com Vasco e percebeu que aos poucos o amigo ia ficando mais calmo, mas sem deixar de ter algo diferente no olhar, como se tivesse sido marcado de uma maneira que nunca iria esquecer. Perguntava-lhe de forma repetida o que é que ela lhe tinha feito, mas não conseguia uma resposta, só um olhar para o vazio. Pensou outra vez que devia ter sido ele o escolhido.
A encruzilhada
Ao fim de meia hora Vasco falou, mas nem tudo fez sentido. Disse que a sua vida ia mudar. Que ia casar com a mulher que sempre amara e ter muitos filhos, mas que não se ia esquecer daquela noite nunca. Que até ao dia em que morresse iria se lembrar de que a vida não é sempre o que parece e que quando certas escolhas nos são apresentadas em certas alturas podemos seguir por caminhos completamente diferentes. Levantou-se e antes de ir ter com o amigos voltou-se para Rui e disse-lhe, com os olhos cheios de lágrimas, que deveria ter sido ele o escolhido.
Acordar
Rui acordou às seis da manhã e a sua cabeça estava cheia de pensamentos confusos. Tivera o sonho mais estranho da sua vida e não conseguia perceber sequer se tudo o que lhe vinha à mente tinha ou não acontecido. Feira, tenda, cores, gémeas...tudo palavras e imagens que o assombravam e deixavam desorientado. O que é que este sonho significava? E quem era esta rapariga que amava mais do que a própria vida?
Levantou-se e um medo enorme apoderou-se dele, medo de esquecer, medo de não se lembrar dai a uns segundos de tudo o que tinha na cabeça. Sabia que era assim com os sonhos, que quando acorda uma pessoa consegue descrever tudo o que sonhou, mas que passados poucos momentos tudo se começa a desvanecer e quanto mais se pensa no sonho menos nítido ele fica.
Agarrou rapidamente numa caneta e começou a escrever. Começou por descrever todos pormenores que se lembrava do sonho sem ter muita atenção à ordem, apenas palavras soltas, nomes, sensações, tudo que o ajudasse a não esquecer o que tinha sonhado. Mas com o passar dos minutos uma história começou a ganhar forma. Sem perceber que o estava a fazer, começou a escrever palavras que podiam ser unidas e frases que faziam sentido, começou a pôr por escrito tudo o que se tinha passado, mas com se o estivesse a fazer imaginando tudo pela primeira vez.
Sonho
Neste novo sonho tudo estava presentes, ele, os amigos, a feira, o circo. Mas as cores da noite eram ligeiramente diferente, havia alguma coisa que distinguia esta noite da outra que tinha vivido. Era como se estivesse a reescrever o passado, como se pudesse mudar a vida de todos com que tinha sonhado.
Entrou na tenda mais uma vez e deparou com o mesmo espectáculo que já vira uma vez. Seis cavalos a trotear, seis raparigas de cabelos ao vento, uma ameaça no ar e o medo e a esperança de desta vez ser ele o escolhido. Estava nervoso, olhava outra vez para Marta e sem nenhum tipo de espanto percebeu que continuava a conseguir distingui-la das outras. Na verdade não era difícil, havia uma traço muito particular que a tornava diferente. Mas Rui não precisava disso, conseguia saber que era ela mesmo de olhos fechados, conseguia saber que era ela que se aproximava e abria os olhos apenas quando ela passava por ele.
Desta vez não havia escolha nem escolhido, apenas ficavam a assistir ao espectáculo e a todo aquele movimento que lhes brilhava nos olhos. Apenas ficava a olhar para alguém que sabia ir amar para o resto da sua vida, a sua princesa prometida, que o ia acompanhar para sempre naquele e no mundo real. O espectáculo terminava com o aplauso entusiasmado de todo o grupo. Olhava para Vasco e sorria por o ver tão bem disposto, um Vasco diferente do outro que entendera o significado de escolher, que percebera como a vida pode ser diferente.
No fim todos se juntaram e ele e os seus amigos cumprimentaram as irmãs pela sua actuação. Procurava por ela sem saber bem o que lhe dizer, sem saber como se apresentar. Tinha quase a certeza que desta vez ela voltara olhar para ele, mas sentia-se nervoso com tudo aquilo, até que sentiu o toque de uma mão na sua. Olhou para o lado e encontrou o sorriso que procurava. Falou.
- Tu és a Marta, não és?
Rui entrou numa casa muito velha atrás dos seus amigos. Era a noite perfeita para experimentarem todo o tipo de aventuras e a antiga feira era o local indicado para quem queria emoções fortes. À sua frente Vasco avançava muito devagar com medo do que podia estar atrás de cada esquina, Rui olhava para ele e pensava como era possível que o seu melhor amigo fosse casar daí a uma semana. Lembrava-se ainda de quando eram novos e passavam o dia a brincar no bosque perto da casa dos seus avós e agora estavam ali, a última vez que podiam estar juntos antes de tudo mudar. Sentia um pouco de ciúmes do seu amigo, embora também o invejasse por ter algo que nunca conseguira ter, por ter algo que também desejava.
A casa estava completamente abandonada ou assim queriam que parecesse, sabia bem o tipo de partidas que ia ter de enfrentar e não se preocupou muito. Desde cedo que era poucas vezes surpreendido e não ia ser diferente desta vez. Mas o sentimento não era partilhado pelos outros que gritavam no meio da confusão que se tinha instalado. Uma dúzia de rapazes que tinha voltado aos tempos em que eram livres, uma brincadeira de crianças num mundo de adultos que não sentiam ter crescido.
Saíram da casa entre risos e empurrões e olharam para a rua a tentarem decidir onde iriam a seguir, que divertimento esquecido iria ser experimentado uma última vez? A feira parecia mais abandonada do que nunca e parecia que tinha escolhido aquela noite para se despedir também de alguma coisa, para se despedir de tantas histórias passadas no meio daqueles muros e de casas com cores engraçadas. Seguiram para a tenda do circo.
O circo
A tenda do velho circo era enorme e ocupava uma grande parte do recinto da feira. Rui lembrava-se de assistir aos espectáculos de sábado à tarde com o seu avô enquanto comia algodão doce. Ainda conseguia ver os fatos brilhantes dos trapezistas e ouvir os leões que desafiavam o chicote do domador vestido de vermelho. Eram tempos sem preocupações e tinha saudades, tinha saudades de descer a rua de mão dada com o avô e contar as riscas coloridas da tenda. Chegava a dar uma volta inteira à tenda para contar quantas riscas de cores diferentes conseguia contar, nunca chegava ao fim com a mesma contagem.
Hoje o circo já não existia e apesar de não vir a este local há muito tempo sabia que lá dentro ainda se podia assistir a algum tipo de espectáculo, algo desfasado do tempo tinha a certeza e que ajudava a dar uma estranha mística a todo aquele local que parecia lutar para não desaparecer. Esta noite ele e os amigos tentavam que isso não acontecesse, tentavam gozar o mais possível numa só noite. O amanhã não importava.
As seis gémeas
Quando entraram deram de caras com uma visão bizarra. Dentro da tenda não existia nada, estavam apenas debaixo da lona e das luzes que estavam presas na parte de cima. As antigas bancadas de madeira tinham desaparecido, o que fazia com que o espaço parecesse muito maior, como se tudo à sua volta desafiasse a lógica e não combinasse com o que tinham observado de fora.
Mas não estavam sozinhos. No meio da tenda seis cavalos troteavam em circulo, tendo cada um deles por companhia uma rapariga vestida de preto e cabelos compridos. No meio uma senhora mais velha segurava um microfone e pedia para se aproximarem enquanto apresentava as irmãs. Seis gémeas idênticas que iam rodando à frente do grupo de amigos que não podia deixar de ficar de boca aberta perante tal visão.
Rui ia ouvindo os nomes das irmãs enquanto iam desfilando em cima dos cavalos, Marlene, Marta, Margarida, Madalena, Magda e Maria, um estranho conjunto de nomes para um estranho grupo. Eram perfeitamente iguais e por mais que tentasse não conseguia descobrir diferenças entre elas, parecia que estava a ver sempre a mesma imagem, uma rapariga de cabelos compridos, vestida de negro cavalgando em cima de um cavalo também ele negro. Era como se estivesse a ver um filme projectado à sua frente em câmara lenta.
A escolha
Todos sabiam que toda aquela encenação devia ter algum sentido, mas não tentavam sequer adivinhar que tipo de divertimento lhes iria ser proposto no meio de tão estranha visão. Então a mulher mais velha falou e pediu-lhes que se aproximassem. Disse-lhes para se posicionarem à volta do circulo pois uma escolha iria ser feita, uma escolha que iria mudar a vida de um deles. Ouviram-se risos, mas a mulher manteve uma expressão muito segura, como se soubesse alguma coisa que eles desconhecessem. Não deixava de ser uma cena assustadora e Rui sentiu um pequeno tremor a percorrer-lhe o corpo enquanto obedecia e se aproximava do meio da tenda.
A mulher continuou a falar e explicou que uma das irmãs iria escolher um deles e que essa escolha traria um novo caminho para o escolhido. Era uma situação cada vez mais estranha, ali estavam todos à volta de seis irmãs que olhavam-nos nos olhos e pareciam procurar um deles para fazer uma escolha que supostamente iria mudar uma vida. Noutra altura Rui teria rido de tudo aquilo, mas naquela noite não foi capaz. Tinha um pressentimento em relação a tudo e manteve-se calado a olhar.
Os cavalos andavam mais devagar e Rui olhava para as irmãs que iam passando, nem sequer sabia qual delas iria fazer a escolha. Mas de repente e sem saber bem como pareceu reparar num olhar de uma delas, parecia que sem o mostrar muito uma das raparigas olhava para ele de forma diferente cada vez que passava por ele. Não acreditava que ia ser o escolhido, seria possível? Não lhe apetecia muito ser alvo do gozo dos amigos e tentou desviar o olhar, mas não conseguiu deixar de olhar para a rapariga que agora conseguia distinguir perfeitamente entre as outras. Tudo parecia ser demasiado entranho e fechou os olhos à espera.
O escolhido
Os cavalos pararam e a mulher de pé disse que a escolha estava feita. Foi com um enorme nervosismo que Rui viu a rapariga que olhara para ele descer do cavalo e dirigir-se para o centro da tenda ficando ao lado da mulher que pareceu ter alguma coisa para dizer antes de anunciar o escolhido. E falou numa voz mais baixa, avisou que aquela escolha não devia ser desprezada nem levada pouco a sério, disse que o escolhido podia seguir o caminho que quisesse na sua vida, mas que ali naquela noite iria ser-lhe apresentada uma alternativa, que ele podia ou não escolher.
Era um discurso demasiado vago e todos estavam impacientes sem saberem o que ia acontecer. Então a rapariga, que a mulher anunciou como sendo Marta, saiu do centro e começou a dirigir-se para um dos rapazes. Foi com enorme espanto que Rui viu que, quando tudo indicava que iria ser o escolhido, ela caminhava lentamente em direcção a Vasco. Não entendia nada, um acontecimento como aquele tinha de fazer algum sentido e ele devia ser o escolhido, não Vasco, sentia isso. Para além do mais Vasco ia casar, tudo o que não precisava era de mais uma mudança na sua vida.
Deu por si a rir, no final aquilo era tudo uma brincadeira e estava a reagir como se o futuro de alguém pudesse ser modificado por aquela escolha. Todos riam enquanto Marta pegava na mão de um Vasco desconfiado e pedia-lhe para passear um pouco com ela fora da tenda. Mas apesar de rir com os outros Rui não estava completamente convencido da brincadeira e olhou para os dois enquanto saíam de mãos dadas da tenda. Pensou uma última vez que ele é que devia estar ali.
Medo
Nunca ninguém soube o que aconteceu a Vasco fora da tenda, mas todos assistiram à forma descontrolada como o encontraram alguns minutos depois, parecia que estivera a beber e chorava desesperadamente. Ao principio alguns pensaram que se tratasse de uma brincadeira, mais uma numa noite cheia de tantas partidas, mas rapidamente chegaram à conclusão que o estado do seu amigo era genuíno. Rui aproximou-se dele e tentou que se controlasse, era o seu maior amigo e tentou afastá-lo um pouco dos outros para perceber o que se passava.
Vasco chorava de tal forma que Rui apenas conseguia perceber algumas palavras no meio dos soluços e só ao fim de uns segundos começou a perceber e a juntar algumas das palavras que o seu amigo ia dizendo. Vasco dizia que tinha sido amaldiçoado, que estava perdido, que estava apaixonado. Não era possível, que espécie de feitiço tinha sido lançado sobre o seu amigo que lhe fizera perder a razão? Olhava para o lado procurando a rapariga, procurando alguma resposta que pudesse dar algum sentido ao que se estava a passar mas apenas conseguia ver as cinco irmãs. Como era possível que agora a achasse tão diferentes das outras?
Saiu da tenda com Vasco e percebeu que aos poucos o amigo ia ficando mais calmo, mas sem deixar de ter algo diferente no olhar, como se tivesse sido marcado de uma maneira que nunca iria esquecer. Perguntava-lhe de forma repetida o que é que ela lhe tinha feito, mas não conseguia uma resposta, só um olhar para o vazio. Pensou outra vez que devia ter sido ele o escolhido.
A encruzilhada
Ao fim de meia hora Vasco falou, mas nem tudo fez sentido. Disse que a sua vida ia mudar. Que ia casar com a mulher que sempre amara e ter muitos filhos, mas que não se ia esquecer daquela noite nunca. Que até ao dia em que morresse iria se lembrar de que a vida não é sempre o que parece e que quando certas escolhas nos são apresentadas em certas alturas podemos seguir por caminhos completamente diferentes. Levantou-se e antes de ir ter com o amigos voltou-se para Rui e disse-lhe, com os olhos cheios de lágrimas, que deveria ter sido ele o escolhido.
Acordar
Rui acordou às seis da manhã e a sua cabeça estava cheia de pensamentos confusos. Tivera o sonho mais estranho da sua vida e não conseguia perceber sequer se tudo o que lhe vinha à mente tinha ou não acontecido. Feira, tenda, cores, gémeas...tudo palavras e imagens que o assombravam e deixavam desorientado. O que é que este sonho significava? E quem era esta rapariga que amava mais do que a própria vida?
Levantou-se e um medo enorme apoderou-se dele, medo de esquecer, medo de não se lembrar dai a uns segundos de tudo o que tinha na cabeça. Sabia que era assim com os sonhos, que quando acorda uma pessoa consegue descrever tudo o que sonhou, mas que passados poucos momentos tudo se começa a desvanecer e quanto mais se pensa no sonho menos nítido ele fica.
Agarrou rapidamente numa caneta e começou a escrever. Começou por descrever todos pormenores que se lembrava do sonho sem ter muita atenção à ordem, apenas palavras soltas, nomes, sensações, tudo que o ajudasse a não esquecer o que tinha sonhado. Mas com o passar dos minutos uma história começou a ganhar forma. Sem perceber que o estava a fazer, começou a escrever palavras que podiam ser unidas e frases que faziam sentido, começou a pôr por escrito tudo o que se tinha passado, mas com se o estivesse a fazer imaginando tudo pela primeira vez.
Sonho
Neste novo sonho tudo estava presentes, ele, os amigos, a feira, o circo. Mas as cores da noite eram ligeiramente diferente, havia alguma coisa que distinguia esta noite da outra que tinha vivido. Era como se estivesse a reescrever o passado, como se pudesse mudar a vida de todos com que tinha sonhado.
Entrou na tenda mais uma vez e deparou com o mesmo espectáculo que já vira uma vez. Seis cavalos a trotear, seis raparigas de cabelos ao vento, uma ameaça no ar e o medo e a esperança de desta vez ser ele o escolhido. Estava nervoso, olhava outra vez para Marta e sem nenhum tipo de espanto percebeu que continuava a conseguir distingui-la das outras. Na verdade não era difícil, havia uma traço muito particular que a tornava diferente. Mas Rui não precisava disso, conseguia saber que era ela mesmo de olhos fechados, conseguia saber que era ela que se aproximava e abria os olhos apenas quando ela passava por ele.
Desta vez não havia escolha nem escolhido, apenas ficavam a assistir ao espectáculo e a todo aquele movimento que lhes brilhava nos olhos. Apenas ficava a olhar para alguém que sabia ir amar para o resto da sua vida, a sua princesa prometida, que o ia acompanhar para sempre naquele e no mundo real. O espectáculo terminava com o aplauso entusiasmado de todo o grupo. Olhava para Vasco e sorria por o ver tão bem disposto, um Vasco diferente do outro que entendera o significado de escolher, que percebera como a vida pode ser diferente.
No fim todos se juntaram e ele e os seus amigos cumprimentaram as irmãs pela sua actuação. Procurava por ela sem saber bem o que lhe dizer, sem saber como se apresentar. Tinha quase a certeza que desta vez ela voltara olhar para ele, mas sentia-se nervoso com tudo aquilo, até que sentiu o toque de uma mão na sua. Olhou para o lado e encontrou o sorriso que procurava. Falou.
- Tu és a Marta, não és?
domingo, julho 03, 2005
Passado
Olho para ti enquanto pões a mesa com cuidado e o meu pensamento voa para longe. Reparo nas tuas rugas e tento lembrar-me de como eras antes. Aqui neste momento parece difícil acreditar que vai fazer meio século que acordo perto de ti, que a primeira coisa que vejo todos os dias é o teu sorriso doce.
Fecho os olhos e vejo dois jovens apaixonados, vejo duas vidas ligadas para sempre, vejo as lágrimas, vejo os risos, vejo as manhãs, vejo as tardes. O teu cabelo negro voa e toca-me na cara, consigo senti-lo entre os meus dedos e sei que é tudo um sonho, mas não me importo, pois é um sonho que se tornou realidade e tu estás aqui comigo, desde sempre.
Sinto as tuas mãos nos meus ombros e perguntas-me no que estou a pensar...digo que estou a sonhar. Sorris e pareces a rapariga que conheci em tempos e que ainda está dentro de ti, dizes que eu nunca vou mudar, que vou sempre ser o mesmo rapaz pequeno com os olhos no céu, o mesmo miúdo de olhar distraído.
Amo-te...
Fecho os olhos e vejo dois jovens apaixonados, vejo duas vidas ligadas para sempre, vejo as lágrimas, vejo os risos, vejo as manhãs, vejo as tardes. O teu cabelo negro voa e toca-me na cara, consigo senti-lo entre os meus dedos e sei que é tudo um sonho, mas não me importo, pois é um sonho que se tornou realidade e tu estás aqui comigo, desde sempre.
Sinto as tuas mãos nos meus ombros e perguntas-me no que estou a pensar...digo que estou a sonhar. Sorris e pareces a rapariga que conheci em tempos e que ainda está dentro de ti, dizes que eu nunca vou mudar, que vou sempre ser o mesmo rapaz pequeno com os olhos no céu, o mesmo miúdo de olhar distraído.
Amo-te...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
