sexta-feira, outubro 21, 2005

Um dia

No carro do lado vejo um homem a cantar, não consigo ouvir a sua voz mas tenho a certeza que está a ouvir a mesma estação de rádio que eu. Os lábios dele acompanham o ritmo que ouço e fico a olhar para ele assistindo a um concerto invulgar.
Tenho vestido um casaco novo que decidi estrear esta manhã e sinto-me confiante, como um herói no seu fato de cores berrantes que percorre as ruas em defesa dos mais fracos sigo por entre o trânsito e a chuva. Mas o casaco é preto e o meu humor é instável, uma melancolia que me acompanha sempre ao mesmo tempo que observo o mundo e sinto os pequenos prazeres.
De repente ouço um estrondo e tudo fica escuro, parece que entro dentro de um sonho mas sei que estou acordado. Não compreendo o mundo à minha volta e o meu corpo parece que não tem peso, os meus sentidos transmitem-me sensações estranhas e diferentes e tento perceber o que aconteceu.
Imagens distorcidas começam a formar-se à minha frente e reparo que estou a flutuar, por baixo de mim o metal retorcido não me deixa muitas dúvidas, mas não tenho explicação para o meu estado e procuro por mim no meio da confusão e das luzes que me ferem os olhos. Dentro do sonho adormeço.

Estou deitado numa cama de lençóis brancos com máquinas estranhas à volta, tenho uma expressão serena na face, mas desconfio do que vejo. Tenho a certeza que a dor deve ser insuportável e subo em direcção ao tecto, tento afastar-me do meu corpo e recuso-me a aceitar que sou eu que estou ali deitado, que estou a observar a minha própria vida neste momento.
Sinto uma mão na minha e olho para dedos transparentes que deixam passar a luz que entra pela janela. Uma figura conhecida está sentada ao lado da cama e percebo que estou vivo, que ainda estou ligado à figura frágil deitada na cama, um corpo sem alma mas que vive.
Tenho medo, sei que devo voltar, mas tenho medo. Aqui estou em segurança, mas não sinto nada, não sinto alegria, não sinto tristeza, apenas observo e penso em quem sou. Não sei onde estou, mas sinto-me sozinho, sinto que nada faz sentido, mas não tenho coragem de enfrentar a realidade.
Por fim desisto e desço devagar, toco com a mão na minha e tenho apenas um segundo de hesitação antes de entrar dentro de mim. Nunca senti uma dor tão grande, mas sei que não podia ser de outra maneira, pela primeira vez na vida enfrento todos os meus medos e vivo, vivo de forma frágil, mas sinto, sinto dor e alegria, sinto a calma pela qual ansiei desde sempre.

Estou parado num semáforo e reparo que estou no cruzamento onde tudo aconteceu, não fico assustado mas não resisto a tentar recordar o que não vi. A meu lado uma rapariga canta de janela aberta e acompanha o fim de tarde, fecho os olhos por um segundo e sinto o cheiro da minha pele misturado com o dos carros que passam. Quase consigo sentir que o tempo não passou e quando a luz fica verde, arranco e sigo como se nunca tivesse estado ali, como se nada tivesse acontecido.

Tudo mudou, mas sou o mesmo...

quinta-feira, setembro 22, 2005

Tic-Tac

Tenho os olhos fechados e vejo um grupo de crianças que fazem uma roda à volta de uma árvore. Um relógio marca o ritmo e respiro com dificuldade, é um som que me vai acompanhar para sempre, que me vai perseguir até ser grande.

Penso no que me terá levado de volta ao passado, aos sonhos mais antigos e mais escondidos de uma criança que ainda habita em mim. Foi o meu primeiro medo, o meu primeiro prazer...sempre que ouço os segundos a passar.

segunda-feira, setembro 19, 2005

O Principio e o Fim

De repente chego ao fim do mundo e encontro-me, sei que não vale a pena pensar no que fiz até hoje, sei que nada do que ficou para trás pode ser mudado. Então abro os braços e grito, chamo por mim na escuridão da noite e sonho, sonho em ser feliz...

sábado, setembro 17, 2005

Treze

Volto, volto porque na verdade nunca fui embora. E embalado pelo perfume que sinto mais próximo desço as escadas sem olhar para os degraus que piso, pedras alisadas pelo tempo e por todos que aqui passaram antes de mim.

Lembro-me do dia anterior e das lágrimas que correram pela minha cara enquanto guiava para longe de ti, enquanto me afastava do que me fez sofrer. Hoje o ar fresco ajuda-me a esquecer e continuo a olhar para a cidade que nunca se vai embora, para os prédios antigos que brilham ao fim do dia com os seus vasos de flores coloridas.


Dois

Carlos era um miúdo diferente e desde muito novo que tinha um olhar estranho, como se conseguisse ver mais do que os outros, como se aqueles enormes olhos verdes pudessem olhar para dentro de cada pessoa, vasculhar as nossas almas e saber quem somos.

Luísa tinha uma pele muito branca e umas mãos com dedos compridos que tocavam de forma gentil em tudo. Sentir aquelas mãos de criança desarmava qualquer um, como se nunca ninguém tivesse sentido nada igual, um conforto que invadia todo o corpo, um pequeno medo que se sentia e uma calma que perdurava durante horas.


Encontro

Carlos e Luísa encontraram-se por acaso, uma rua deserta de Lisboa, umas escadas velhas que subiam e desciam, dois olhares perdidos que se encontraram, um toque ligeiro de mãos enquanto passavam um pelo outro. Tinham apenas treze anos e aquele momento duraria para sempre.


Carlos

Carlos olhava para aquela rapariga parada à sua frente que parecia esperar por algo, não sabia bem porque parara, mas ali estava naquele final de tarde a olhar para alguém que não conhecia, mas que compreendia, a olhar para as mãos que tocara ao de leve e que ainda sentia na sua pele, como se tivesse ficado marcado e ficasse para sempre preso àquele lugar.


Luísa

Luísa não conseguia afastar o seu olhar daquele rapaz que olhava as suas mãos, sentia-se presa, sentia-se enfeitiçada, sentia-se aconchegada. E imaginava-se para sempre envolta naquele abraço invisível que não sabia explicar, mas que sabia bem e que fazia doer.


A Eternidade

Durante longos minutos ficaram como estátuas à frente um do outro sem que uma única palavra fosse dita, sem que um som pequeno que fosse saísse das suas bocas que no entanto sorriam levemente. Apenas gozavam o momento, o tempo não passava e a despreocupação própria da idade misturava-se com a brisa que lhes fazia voar os cabelos.

Sentaram-se num degrau e continuaram calados a ver o sol que se punha por trás de um prédio pintado de branco e amarelo. As sombras estendiam-se no chão e quase lhes tocavam os pés enquanto fugiam, subiam os degraus e sentavam-se mais acima, como se não quisessem perder aquele pôr-do-sol, como se cada degrau em que se sentavam os ajudasse a prolongar aquela tarde.

Por momentos imaginaram uma escadaria infinita de onde pudessem ver o fim do dia para sempre, um mundo onde pudessem fugir da noite e nunca aparecessem as estrelas, um mundo onde a hora fosse sempre a mesma e nada mudasse, apenas uma visão perfeita na companhia de alguém que nos conhecia desde sempre.


Reencontro

Continuo a descer as escadas atrás de algo que não sei se ainda existe. Lembro-me mais uma vez da discussão que me fez sair de casa sem rumo, da noite passada a guiar debaixo de uma chuva que teimou em não me dar descanso, da manhã perdido no meio de ruas desconhecidas. Até regressar a este local que sempre me acompanhou, até voltar a descer as escadas que mudaram a minha vida, até voltar a sonhar contigo.

Pergunto-me se vinte anos depois seremos assim tão diferentes, pergunto-me onde estarão os dois miúdos que sentados nestes degraus viram a vida de uma maneira diferente e que sonharam juntos. Não quero ter de enfrentar esta vida que me abafa, quero voltar àquela tarde em que tudo fazia sentido.

E de repente a minha mão toca noutra, como é que pude não reparar em ti? Como é que mais uma vez te escondes neste sitio onde tudo é estranho? Abro bem os olhos e tento ver a rapariga que encontrei aqui pela primeira vez, um encontro tantas vezes repetido na minha cabeça, nos meus sonhos. Não é difícil, tu continuas a mesma, as mesmas mãos brancas e compridas, o mesmo toque mágico que me faz tremer.

E pela segunda vez na vida assistimos ao pôr-do-sol nestas escadas velhas que nos conhecem, neste sitio que vai ser sempre nosso e onde podemos sorrir sem ter de falar, onde nunca teremos idade e onde vou sempre amar-te...

quarta-feira, setembro 07, 2005

Folhas Estranhas

Ouço o barulho debaixo dos meus pés e sei que estou em casa, sei que voltei ao sitio que nunca esqueci e que trouxe sempre comigo. As minhas mãos sentem o desconforto de tocar no que me faz voltar atrás, no que me aconchega e me faz sonhar. Queria que o resto fosse tão simples, como uma recordação que escrevo enquanto a ouço numa canção.

domingo, setembro 04, 2005

Fuga

Corro pelo campo aberto sem olhar para trás com medo de descobrir se ainda estou a ser perseguido. Estou cansado mas continuo e imagens das últimas horas são recordadas na minha cabeça de forma aleatória, pequenos fragmentos que se misturam sem sentido, pois nada explica o que aconteceu.

Passo pelo meio das ervas secas e penso como seria bom poder passear neste local com tempo para apreciar cada pormenor, mas a minha vida está em perigo e corro o mais que posso, passo por árvores e pedras que parecem olhar para mim, que parecem poder sentir o meu medo.

De repente ouço o barulho de água a cair, mas não consigo perceber de onde vem. Tudo à minha volta é seco e velho e não esperava encontrar água nesta terra que um dia será um deserto. Mas o barulho continua a chegar aos meus ouvidos e penso se o cansaço terá alterado a minha percepção do mundo, penso se estarei a enlouquecer, se estarei perto do fim.

Distraído quase caio no abismo que se abre à minha frente, o que pensava ser o cimo de uma pequena elevação no terreno é na verdade o fim do caminho que percorro. Cheguei a um ponto em que não posso prosseguir nem voltar para trás, à minha frente abre-se um enorme vale que vejo desaparecer no horizonte, mas não encontro forma de descer para poder continuar a minha fuga.

Continuo a ouvir o barulho de água e penso de onde virá, sei que não tenho muito tempo e que devia procurar um caminho para descer, mas algo em mim diz-me que tenho de encontrar a origem do que me confunde, água nesta terra sem vida, nesta terra amaldiçoada onde tenho medo de morrer.

Continuo a correr mas já não tenho por onde escapar e procuro apenas algo que não devia existir. Durante algum tempo não vejo nada até que descubro o que não pensava ser possível, um enorme rio correu sempre a meu lado pelo meio da terra sem vida e cai numa enorme cascata sobre o vale.

Olho para baixo e sei que a altura é demasiado grande para alguém sobreviver, mas não posso voltar, seria apanhado rapidamente, seria julgado pelos crimes que não cometi, seria condenado apenas por ter estado onde ninguém podia estar, por ter olhado os segredos escondidos durante tantos séculos.

Mergulho, deixo cair-me ao lado da água que vejo embater com violência lá em baixo e não penso em nada. Fecho os olhos e sinto o ar na cara, sinto o corpo a rodopiar e por momentos é como se voasse, como se antes de bater na água fria que me espera pudesse subir em direcção ao céu e fugir do destino que aguarda pacientemente.

Sinto o choque em todos os pontos do meu corpo e o ar que enche os meus pulmões é expelido com violência. Quero nadar, mas não tenho forças, quero viver mas os meus braços e pernas dizem-me que não são capazes, não quero que este seja o fim mas sinto-me calmo, pelo menos não me apanharam, um triste consolo perto do fim. A escuridão começa a rodear-me e penso em coisas simples, penso na minha infância e nas tardes debaixo dos pinheiros, penso nas noites e no céu que me fazia sonhar.


Vida

Acordo. Não sei onde estou mas sei que estou vivo. Lembro-me vagamente de algo tocar a minha mão antes de perder os sentidos, antes de tudo ter ficado escuro. Foi um toque suave mas que me puxou para cima, que me trouxe de volta à vida.

Estou dentro do que parece ser uma pequena cabana de madeira e ouço o som de risos lá fora, embora saiba que não é possível tenho a certeza que são risos de crianças. O cheiro de comida entra pela porta aberta que deixa entrar o sol, que me deixa ver o verde das árvores. Estou noutro mundo, acho que voltei a nascer.

Deito a cabeça, respiro fundo e adormeço, sei que vou sonhar...

quarta-feira, agosto 31, 2005

Outro mundo

De volta ao mundo dos vivos pergunto o que se terá passado na minha ausência, pergunto onde estarão todos, agora que acordo deste sono que me dizem ter durado dois anos. Mas não foram anos de vazio, foram anos cheios de sonhos que agora não consigo encaixar no mundo real.

Passo os dias a escrever e a tentar separar o que se passou enquanto sonhava e as recordações do meu passado. Não é fácil e é sempre com tristeza que ouço alguém dizer que algo também não aconteceu, que foi tudo invenção da minha mente, um sonho demasiado longo e demasiado real.

Choro, choro porque queria continuar a sonhar, choro porque com o passar dos dias vou descobrindo que sou uma pessoa seca e desinteressante, descubro que todas as coisas boas que me aconteceram até hoje foram durante o tempo em que estive a dormir. Dois anos que pareceram cem e que me deixaram longe de mim próprio.

Abro a janela e olho para o céu azul, ainda me custa suportar a luz com os olhos que estiveram tanto tempo fechados e que viram outro mundo que me dizem não existir. E apago assim uma vida inteira? Apago uma vida que para mim foi mais real que esta que agora me é devolvida?

Recuso esquecer-me de mim e deito-me na cama, fecho os olhos e tento dormir para sempre...

sexta-feira, agosto 19, 2005

Tu

O sol desce devagar e eu penso em ti, penso se te lembras de mim nesta hora que sempre foi nossa, a hora em que olhávamos a cidade juntos e de mãos dadas caminhávamos para casa. Hoje estou sozinho e tenho saudades desse tempo em que éramos um só, quando nos misturávamos ao fim da tarde no mesmo corpo cansado mas feliz, quando sentíamos o amor que nos fazia sorrir, quando a noite teimava em não aparecer.

Agora consigo ver as estrelas que começam a brilhar e sei que em breve a escuridão vai descer sobre mim e terei de enfrentar mais uma vez a minha solidão. Tento agarrar os últimos raios de sol, tento que me aqueçam para poder conseguir passar a noite sem gritar por ti, sem sentir que nada mais importa.

E de repente estou debaixo do céu negro que brilha por cima dos meus olhos, que me chama e me diz para não ter medo, que me diz que no meio de todos aqueles pontos brilhantes também está o meu caminho, o meu futuro, o meu destino. Ouço uma música ao longe e respiro fundo, tento lembrar-me da tua cara, tento saber se exististe mesmo ou se foste apenas um sonho que me acompanhou toda a vida.

Chamo e ninguém responde mas sei que não estou sozinho, tenho o sol, tenho as estrelas, tenho-te a ti...

sexta-feira, agosto 12, 2005

Um rapaz normal

Era uma vez um rapaz que estava sempre a sorrir. Os seus pais não achavam esta situação normal e desde muito cedo que viviam preocupados com este comportamento que começara ainda o rapaz era bebé. Tinham a certeza que o sorriso que viam na cara do pequeno era ainda o primeiro que esboçara, um sorriso sem fim que o acompanhava durante todas as horas do dia e mesmo da noite, parecia que a sua pequena boca tinha sempre uma pequena expressão, algo que deixava perceber o sorriso sempre presente.

O rapaz foi crescendo e ninguém conseguia explicar a razão para tal fenómeno, desesperados os pais levaram o rapaz a todos os médicos, que ficavam espantados com o que viam, mas não encontravam nada de mal no rapaz. E ele continuava a sorrir. Era um sorriso aberto e bonito que por vezes se transformava num riso que enchia a casa e contagiava todos à sua volta com excepção dos pais, estes viviam cada vez mais em sofrimento e passavam os dias a olhar para aquela cara sorridente à espera que uma pequena queda ou outro percalço o fizesse perder a máscara alegre que já não suportavam. Mas mesmo nas alturas em que a dor estava presente o miúdo continuava a sorrir, parecia ser a única pessoa no mundo que conseguia chorar sem perder o sorriso.

Um dia ouviram falar num médico muito famoso, especialista no desenvolvimento de crianças e dirigiram-se à cidade onde este tinha o seu consultório para mais uma tentativa de cura para o seu filho. Sentiam sempre que podia ser este o médico que iria descobrir porque é que o rapaz não parava de sorrir, desejavam ver uma cara sem aquele maldito sorriso que não achavam normal.

Entraram numa sala decorada de forma alegre e observaram o médico à sua frente. Era um homem muito velho, com uma longa barba branca e umas mãos muito compridas, uma personagem algo bizarra que não inspirava muita confiança e que ainda por cima os recebeu com um enorme sorriso. Se não fosse pela educação teriam voltado para trás no momento em que olharam para o médico, tal tinha sido a má impressão que lhes tinha causado aquela figura sorridente.

Explicaram o problema ao médico que continuava a olhar para eles sem deixar de sorrir, parecia que achava piada a toda aquela situação, embora continuasse a acenar com a cabeça como que dizendo que estava a ouvir com atenção. Pediu para observar o rapaz e levou-o para uma sala ao lado onde não podiam ver o que estava a acontecer, ouviam apenas o médico a fazer algumas perguntas, que eram respondidas com a característica voz alegre do seu filho.

Voltaram para junto deles passado poucos minutos e o médico já não sorria, apresentando uma expressão grave e pensativa. Perguntaram com ansiedade o que é que ele achava, se havia uma cura para aquele problema. O médico olhou para eles e enquanto esboçava um enorme sorriso disse numa voz divertida.

- Não se preocupem, o vosso filho é um rapaz perfeitamente normal, está apenas feliz.

terça-feira, agosto 02, 2005

Tento viver

Sentado à tua frente olho para a tua cara e tento imaginar o que estás a pensar. Tu sorris descontraidamente enquanto olhas para a rua e para as pessoas que passam, observas e tentas descobrir o que pensam todos os que atravessam a praça em frente à nossa casa, um último andar no meio desta cidade antiga que nos esconde.

Penso no que deixámos para trás, na vida que tivemos de largar para estar juntos, penso nos amigos que não vamos ver mais, na família que já não é nossa, nas pequenas coisas que faziam parte do nosso dia-a-dia e que perdemos para sempre. Sofro por ti, por não saber se fiz bem em roubar-te ao teu mundo, em trazer-te para junto de mim, pois não sei o que é o amor e não consigo prometer que tudo vai estar bem para sempre.

Um pombo aterra na varanda onde estamos e olha para nós de forma estranha, como se pudesse sentir os sentimentos confusos no ar, como se pudesse sentir o amor, a saudade e a ansiedade que coexistem neste espaço. Quero ter a certeza que o nosso sonho vai ser suficiente para compensar o que deixámos, quero ter a certeza que estamos certos e que isto que sinto neste momento vai durar para sempre.

Olhas para mim e parece que consegues adivinhar o que te quero dizer, o que quero gritar para que todos ouçam. Estou apaixonado como nunca estive na vida, mas tenho as mesmas dúvidas de sempre, tenho medo do futuro, tenho medo de viver.

Chegas perto de mim e passas a tua mão no meu cabelo, conheces-me como ninguém e sabes que estou com a cabeça cheia de ideias que me fazem sofrer. Dizes que me amas e que tudo vai ficar bem, ofereces-me o teu colo e tentas sossegar-me como uma mãe faz com um filho assustado. Ouço as tuas palavras que me dizem que um dia vou ter de crescer, que um dia vou ter de enfrentar a vida de frente. Pergunto se não é isso que estou aqui a fazer contigo, se não foi o que fiz ao não ter olhado para trás. O teu olhar é terno e eu não preciso de respostas, sei tudo o que me podes dizer e levanto a cabeça para respirar o ar da manhã.

Olho também para a pequena praça e para todos os que caminham de forma apressada, toda a gente parece saber exactamente para onde quer ir, mas eu sei que não pode ser verdade, que os outros também têm de ter os mesmos medos, as mesmas angústias, que não posso ser o único.

Afasto-me de ti e dirijo-me para a porta da varanda, digo que vou dar uma volta e tu não dizes nada, ficas apenas a olhar para a rua com uma cara alegre. Desço as escadas de madeira enquanto penso em tudo e saio para a rua, saio para a praça que estava a observar e sei que tu lá de cima olhas para mim, sei que agora sou mais um que caminha como se soubesse para onde ir.

Sorrio por estar junto dos outros que minutos antes observava e percebo como estamos todos ligados, como somos todos iguais. Não tenho destino, mas ando de forma apressada e tenho de me conter para não olhar para trás e para o teu sorriso. Continuo a andar, continuo a tentar viver.

quinta-feira, julho 28, 2005

Serei sempre eu

De repente regresso ao passado e estou de volta ao bosque. Ando descontraidamente e olho para todos os lados com a curiosidade de quem é pequeno e para quem tudo é novo. Na mão levo um pau que é a minha espada e luto contra monstros gigantescos que saltam para a minha frente. Apesar da diferença de tamanho saio vencedor destas lutas impossíveis e avanço pelos terrenos mágicos que se estendem à minha frente.

Entro no reino perdido e caminho em direcção ao castelo, está sol e a tarde é infinita...

Repetições

De volta ao mundo dos sonhos sinto o estômago a contrair-se e vivo o que pensava não ser mais possível. Tento concentrar-me no mundo real mas a tua presença é forte e sinto mais uma vez que estou a viajar numa terra que já conheci. Vejo-te quando fecho os olhos, de cabelo apanhado a olhar para mim, a pedir que eu te ame, a pedir que eu não deixe de existir neste mundo estranho que a qualquer altura pode desaparecer. Pergunto porque é que tinhas de aparecer e complicar o que já não era simples, pergunto porque é que sinto o que sinto, porque é que sei o que pode acontecer sem saber quem és, sem saber onde estamos, sem saber porque é que me sinto em casa.

Caminho e olho para as imagens distorcidas à minha frente, um mundo que não faz sentido quando pensamos nele, um mundo que só existe enquanto acreditamos, um mundo que me traz a ansiedade de volta, que me faz voar e ter medo de cair. Quem és tu que aparece com diferentes caras à minha frente? Quem és tu que eu reconheço à primeira palavra? Grito, mas não ouço a minha voz, choro mas as lágrimas não correm e peço ajuda para enfrentar o futuro. Tento ter forças para resistir a este destino tantas vezes repetido, para lutar contra o doce embalo que me ofereces, para não desistir e descansar a cabeça num colo que me traz o carinho perdido e o conforto desejado.

Estou mais uma vez no meio da encruzilhada que conheço, tenho dois caminhos à minha frente e não sei por onde seguir. Sento-me encostado à única árvore que existe e adormeço. Sonho dentro de um sonho, sonho com a calma que queria que existisse na minha vida, com os pequenos prazeres que não consigo ter, com o vento na minha cara, com o perfume da erva debaixo de mim, com as sombras desenhadas no chão, com as nuvens brancas no céu...desejos repetidos tantas vezes e que escrevo para não me esquecer do caminho para casa.

segunda-feira, julho 25, 2005

Ao espelho

Olhas para o espelho e perguntas quem és, não te reconheces na imagem que vês e pensas quando é que a calma voltará. Os dias são mais compridos e só a noite traz algum conforto, a noite onde estavam todos os medos, agora única aliada na tua luta. E dormes. Dormes para não pensar no mundo que não compreendes e na vida que se divide em duas. Os sonhos levam-te a locais que não conheces mas onde te sentes bem.

Não te moves e fixas demoradamente o teu corpo reflectido no espelho, tens medo que um dia a imagem à tua frente ganhe vida e se separe de ti, tens medo de não existirem mais estes momentos infinitos em que os olhos olham os olhos e o tempo não passa. O teu corpo é também o meu corpo que espera por ti, que espera que desse lado não fujas, que espera poder ver-te todos os dias.

Toco com um dedo no vidro e olho para dois braços que se unem num único ponto. Não sei qual dos dois é real e pergunto se isso será realmente importante, pergunto se não podem existir duas vidas que são uma só e se observam com medo, com a ansiedade de não saberem quem são, com a alegria de nunca estarem sozinhas.

Olhas-me mais uma vez nos olhos e sorris, sorris para ver o meu sorriso e para poderes sentir que um dia tudo estará bem.

quinta-feira, julho 21, 2005

Quero

Sinto o peito rebentar de ansiedade e tudo à minha volta confunde-me os sentidos. Respiro fundo. Estou ligado a todas as coisas que existem e sei que pela primeira vez na vida sinto o mundo. Sinto toda a realidade de maneiras diferentes, ouço, vejo, cheiro, toco, saboreio. De braços abertos tento ser a água que corre no riacho, o pássaro que voa no alto, a árvore que tapa o sol. Quero estar vivo para sempre e nunca perder o que estou a sentir, quero sonhar acordado, quero dormir com um sorriso nos lábios...quero ser feliz.

quarta-feira, julho 20, 2005

Um dia cinzento (um sonho estranho)

Doem-me os olhos e sinto que estive longe durante muito tempo, sinto que não sei onde estou e que estou perdido no tempo. Sei que existo porque sinto, mas não sei que tipo de existência é esta em que vejo tudo a preto e branco. Toda a minha vida vivi aprisionado no meio de outros que partilhavam a minha sorte, apenas números e nunca nomes, apenas dor e nunca alegria, sempre o choro em vez do riso. Hoje consigo olhar para o passado sem temer o futuro e posso finalmente confrontar os meus fantasmas. Sento-me e tento escrever sobre a minha vida, sobre os anos em que vivi sem a luz do sol, sobre os anos em que não sabia quem era e tento pôr em palavras o que os meus olhos só conseguem ver no meio de imagens desfocadas, no meio de sonhos que me fazem acordar assustado.

A libertação deveria ter trazido a bondade ao meu mundo, mas as coisas não aconteceram assim. E ainda consigo ver-nos todos reunidos depois de anos fechados dentro de quatro paredes, as caras sérias que deviam sorrir e não questionar, a loucura que se tornara demasiado presente e que não podíamos largar. Então o caos, a negação do que sonháramos toda a vida, o negro renascido do negro. Consigo ver o primeiro movimento como se estivesse a acontecer à minha frente, a primeira mão levantada e todas as outras ligadas a ela. O fim de um sonho que demorou pouco tempo a transformar-se no maior dos pesadelos.

No meio de todo o frenesim estou escondido à procura de uma cara que não tenha os olhos fechados, procuro desesperadamente por alguém que tenha conseguido escapar a este destino infeliz, o de ver o sol apenas por um segundo e tapá-lo com as mãos negras de desespero. Mas existem outros como eu, outros que choram perdidos no meio da multidão enfurecida, outros que se libertaram de verdade e não querem ceder à loucura. Refugiamo-nos na sombra e desejamos que tudo acabe depressa. Vemos tudo a acontecer à nossa frente, do nosso esconderijo sem luz podemos olhar para o mundo a acabar sem podermos fazer nada que não seja rezar sem saber como, rezar para que tudo passe, para que tudo acabe.

Os olhos continuam a doer-me e luto para não parar de escrever, luto para me lembrar de todo o tempo em que estivemos agarrados uns aos outros sem saber o que nos ia acontecer, luto para não me esquecer de uma figura fraca que tentou juntar-se a nós, que suplicou por uns centímetros da nossa sombra protectora. Ainda consigo ouvir a resposta que veio através de um som seco e metálico ao meu lado, ainda consigo ver a forma frágil a ser projectada para trás, para o meio da luz das chamas. Naquele momento soube que se escapasse ao que parecia ser o fim deste novo mundo teria de vingar o que tinha acontecido e hoje sei que consegui, a nossa sombra não foi invadida, mas o mundo que começou naquele dia ficou livre do mal que se tinha infiltrado entre nós.

domingo, julho 10, 2005

Viagens

À beira da ruptura olho para os carros na rua e penso na vida, nunca me senti assim tão desorientado, sem saber para onde caminho. Sigo as luzes vermelhas que se afastam de mim, outras vidas que seguem para longe e apesar de não fumar puxo de um cigarro apenas para ver os efeitos do fumo que sobe em direcção às estrelas. Olho para cima mais uma vez como se daí pudesse vir algum auxilio, algo que explique o estado em que me encontro. Estou sozinho e nunca tive tanta gente à minha volta...

Sei que tenho tudo para ser feliz e que a angústia permanente não faz sentido. Procuro desesperadamente uma solução, um caminho que me faça viajar daqui para fora. Do alto da varanda, com o vento a bater-me na cara, continuo a olhar para as outras vidas que passam e saio de dentro de mim.


Viagem

Vítor estava cansado, guiava sem parar há duas horas e sentia-se a adormecer. A discussão com Clara tinha sido a pior de todas as que já tinham tido e não aguentara ficar em casa. Entrara no carro sem saber que destino levava, só sabia que tinha de sair, que precisava de pôr as ideias em ordem e pensar no seu futuro. Não conseguia continuar, tinha de parar.

Dentro do carro, numa rua desconhecida, continuava a ouvir a mesma música que o acompanhava há dias e desejou estar noutro sitio, desejou estar na praia com que sonhara há muitos anos e que ainda não tinha descoberto. Passado tanto tempo conseguia ainda lembrar-se de todos os pormenores desse sonho, o mais intenso que alguma vez tivera na vida e que lhe deixara uma vontade enorme de fugir, de abrir a porta de casa e sair, viajar pelo mundo, encontrar o sitio que sabia ser seu. Fechou os olhos e sonhou.


As ilhas

Rui sentiu o trem de aterragem tocar o chão com algum alivio, nunca apreciara especialmente viajar daquela forma, mas desta vez estava mais incomodado do que o costume. Talvez fosse pelo facto de nunca ter estado tanto tempo dentro de um avião, ou talvez fosse por ir ao encontro do seu destino, ao encontro dele próprio.

Mal saiu do avião sentiu que estava num sitio diferente, sentiu um ar quente e húmido que nunca tinha sentido antes. Todo o seu corpo parecia doer e por momentos fantasiou que estava noutro planeta onde as leis mais básicas da física não se aplicavam. Sabia que tinha finalmente chegado a casa...

Saiu do hotel e dirigiu-se à praia, caminhou descalço por entre as árvores estranhas até à areia branca e olhou para o mar azul. Não estava demasiado calor e uma brisa com um cheiro adocicado batia contra a sua cara, era capaz de ficar ali para sempre. Finalmente estava no sitio com que tinha sonhado toda a vida e que achava lhe ia trazer a solução para todas as perguntas sem resposta.

De repente ouviu um som, uma música, olhou para trás à procura de alguém mas a praia estava deserta. O único sitio de onde poderia vir era uma pequena igreja pintada de branco que tinha sido construída mesmo em cima da areia. Parecia bastante antiga e deslocada daquele sitio e quando fechou os olhos teve medo de não a voltar a ver, mas ela ainda estava à sua frente quando os voltou a abrir.

Entrou na velha igreja e sentiu que de alguma forma conhecia aquele sitio, a cor dos bancos, o chão irregular, as figuras que olhavam para ele, tinha certeza que já aqui tinha estado, por muito que isso fosse impossível. Era o seu sonho, sabia isso, mas tinha medo do que ia encontrar, tinha medo das respostas que procurava há tanto tempo.

Continuava a ouvir a música e agora tinha a certeza que era a mesma que ouvira anos atrás numa noite que nunca esquecera, era a mesma música que ouvia na sua cabeça sempre que precisava de ter a certeza de que existia, de que era uma pessoa real e não um sonho.

Apercebeu-se de repente que este era o último momento de dúvida, que era a última vez que poderia fazer certas perguntas, que a partir dali tudo seria diferente. Sentou-se num banco e tentou concentrar-se naquele momento único da sua vida, tentou memorizar todos os pormenores, tentou não esquecer-se de si próprio...


Noite

Continuo na varanda a olhar para o carro que parou à porta do meu prédio. Lembro-me de um sonho antigo e sei que todas as respostas estão dentro de mim, sei que só eu posso acabar com toda a ansiedade que sinto a cada momento. Olho para cima e choro uma última vez, choro porque sofro, choro porque ainda não consegui perceber que estranha música é esta que não me sai da cabeça.

E sonho, sonho que estou num local distante e que entendo...

quarta-feira, julho 06, 2005

Escrever

A Feira

Rui entrou numa casa muito velha atrás dos seus amigos. Era a noite perfeita para experimentarem todo o tipo de aventuras e a antiga feira era o local indicado para quem queria emoções fortes. À sua frente Vasco avançava muito devagar com medo do que podia estar atrás de cada esquina, Rui olhava para ele e pensava como era possível que o seu melhor amigo fosse casar daí a uma semana. Lembrava-se ainda de quando eram novos e passavam o dia a brincar no bosque perto da casa dos seus avós e agora estavam ali, a última vez que podiam estar juntos antes de tudo mudar. Sentia um pouco de ciúmes do seu amigo, embora também o invejasse por ter algo que nunca conseguira ter, por ter algo que também desejava.

A casa estava completamente abandonada ou assim queriam que parecesse, sabia bem o tipo de partidas que ia ter de enfrentar e não se preocupou muito. Desde cedo que era poucas vezes surpreendido e não ia ser diferente desta vez. Mas o sentimento não era partilhado pelos outros que gritavam no meio da confusão que se tinha instalado. Uma dúzia de rapazes que tinha voltado aos tempos em que eram livres, uma brincadeira de crianças num mundo de adultos que não sentiam ter crescido.

Saíram da casa entre risos e empurrões e olharam para a rua a tentarem decidir onde iriam a seguir, que divertimento esquecido iria ser experimentado uma última vez? A feira parecia mais abandonada do que nunca e parecia que tinha escolhido aquela noite para se despedir também de alguma coisa, para se despedir de tantas histórias passadas no meio daqueles muros e de casas com cores engraçadas. Seguiram para a tenda do circo.


O circo

A tenda do velho circo era enorme e ocupava uma grande parte do recinto da feira. Rui lembrava-se de assistir aos espectáculos de sábado à tarde com o seu avô enquanto comia algodão doce. Ainda conseguia ver os fatos brilhantes dos trapezistas e ouvir os leões que desafiavam o chicote do domador vestido de vermelho. Eram tempos sem preocupações e tinha saudades, tinha saudades de descer a rua de mão dada com o avô e contar as riscas coloridas da tenda. Chegava a dar uma volta inteira à tenda para contar quantas riscas de cores diferentes conseguia contar, nunca chegava ao fim com a mesma contagem.

Hoje o circo já não existia e apesar de não vir a este local há muito tempo sabia que lá dentro ainda se podia assistir a algum tipo de espectáculo, algo desfasado do tempo tinha a certeza e que ajudava a dar uma estranha mística a todo aquele local que parecia lutar para não desaparecer. Esta noite ele e os amigos tentavam que isso não acontecesse, tentavam gozar o mais possível numa só noite. O amanhã não importava.


As seis gémeas

Quando entraram deram de caras com uma visão bizarra. Dentro da tenda não existia nada, estavam apenas debaixo da lona e das luzes que estavam presas na parte de cima. As antigas bancadas de madeira tinham desaparecido, o que fazia com que o espaço parecesse muito maior, como se tudo à sua volta desafiasse a lógica e não combinasse com o que tinham observado de fora.

Mas não estavam sozinhos. No meio da tenda seis cavalos troteavam em circulo, tendo cada um deles por companhia uma rapariga vestida de preto e cabelos compridos. No meio uma senhora mais velha segurava um microfone e pedia para se aproximarem enquanto apresentava as irmãs. Seis gémeas idênticas que iam rodando à frente do grupo de amigos que não podia deixar de ficar de boca aberta perante tal visão.

Rui ia ouvindo os nomes das irmãs enquanto iam desfilando em cima dos cavalos, Marlene, Marta, Margarida, Madalena, Magda e Maria, um estranho conjunto de nomes para um estranho grupo. Eram perfeitamente iguais e por mais que tentasse não conseguia descobrir diferenças entre elas, parecia que estava a ver sempre a mesma imagem, uma rapariga de cabelos compridos, vestida de negro cavalgando em cima de um cavalo também ele negro. Era como se estivesse a ver um filme projectado à sua frente em câmara lenta.


A escolha

Todos sabiam que toda aquela encenação devia ter algum sentido, mas não tentavam sequer adivinhar que tipo de divertimento lhes iria ser proposto no meio de tão estranha visão. Então a mulher mais velha falou e pediu-lhes que se aproximassem. Disse-lhes para se posicionarem à volta do circulo pois uma escolha iria ser feita, uma escolha que iria mudar a vida de um deles. Ouviram-se risos, mas a mulher manteve uma expressão muito segura, como se soubesse alguma coisa que eles desconhecessem. Não deixava de ser uma cena assustadora e Rui sentiu um pequeno tremor a percorrer-lhe o corpo enquanto obedecia e se aproximava do meio da tenda.

A mulher continuou a falar e explicou que uma das irmãs iria escolher um deles e que essa escolha traria um novo caminho para o escolhido. Era uma situação cada vez mais estranha, ali estavam todos à volta de seis irmãs que olhavam-nos nos olhos e pareciam procurar um deles para fazer uma escolha que supostamente iria mudar uma vida. Noutra altura Rui teria rido de tudo aquilo, mas naquela noite não foi capaz. Tinha um pressentimento em relação a tudo e manteve-se calado a olhar.

Os cavalos andavam mais devagar e Rui olhava para as irmãs que iam passando, nem sequer sabia qual delas iria fazer a escolha. Mas de repente e sem saber bem como pareceu reparar num olhar de uma delas, parecia que sem o mostrar muito uma das raparigas olhava para ele de forma diferente cada vez que passava por ele. Não acreditava que ia ser o escolhido, seria possível? Não lhe apetecia muito ser alvo do gozo dos amigos e tentou desviar o olhar, mas não conseguiu deixar de olhar para a rapariga que agora conseguia distinguir perfeitamente entre as outras. Tudo parecia ser demasiado entranho e fechou os olhos à espera.


O escolhido

Os cavalos pararam e a mulher de pé disse que a escolha estava feita. Foi com um enorme nervosismo que Rui viu a rapariga que olhara para ele descer do cavalo e dirigir-se para o centro da tenda ficando ao lado da mulher que pareceu ter alguma coisa para dizer antes de anunciar o escolhido. E falou numa voz mais baixa, avisou que aquela escolha não devia ser desprezada nem levada pouco a sério, disse que o escolhido podia seguir o caminho que quisesse na sua vida, mas que ali naquela noite iria ser-lhe apresentada uma alternativa, que ele podia ou não escolher.

Era um discurso demasiado vago e todos estavam impacientes sem saberem o que ia acontecer. Então a rapariga, que a mulher anunciou como sendo Marta, saiu do centro e começou a dirigir-se para um dos rapazes. Foi com enorme espanto que Rui viu que, quando tudo indicava que iria ser o escolhido, ela caminhava lentamente em direcção a Vasco. Não entendia nada, um acontecimento como aquele tinha de fazer algum sentido e ele devia ser o escolhido, não Vasco, sentia isso. Para além do mais Vasco ia casar, tudo o que não precisava era de mais uma mudança na sua vida.

Deu por si a rir, no final aquilo era tudo uma brincadeira e estava a reagir como se o futuro de alguém pudesse ser modificado por aquela escolha. Todos riam enquanto Marta pegava na mão de um Vasco desconfiado e pedia-lhe para passear um pouco com ela fora da tenda. Mas apesar de rir com os outros Rui não estava completamente convencido da brincadeira e olhou para os dois enquanto saíam de mãos dadas da tenda. Pensou uma última vez que ele é que devia estar ali.


Medo

Nunca ninguém soube o que aconteceu a Vasco fora da tenda, mas todos assistiram à forma descontrolada como o encontraram alguns minutos depois, parecia que estivera a beber e chorava desesperadamente. Ao principio alguns pensaram que se tratasse de uma brincadeira, mais uma numa noite cheia de tantas partidas, mas rapidamente chegaram à conclusão que o estado do seu amigo era genuíno. Rui aproximou-se dele e tentou que se controlasse, era o seu maior amigo e tentou afastá-lo um pouco dos outros para perceber o que se passava.

Vasco chorava de tal forma que Rui apenas conseguia perceber algumas palavras no meio dos soluços e só ao fim de uns segundos começou a perceber e a juntar algumas das palavras que o seu amigo ia dizendo. Vasco dizia que tinha sido amaldiçoado, que estava perdido, que estava apaixonado. Não era possível, que espécie de feitiço tinha sido lançado sobre o seu amigo que lhe fizera perder a razão? Olhava para o lado procurando a rapariga, procurando alguma resposta que pudesse dar algum sentido ao que se estava a passar mas apenas conseguia ver as cinco irmãs. Como era possível que agora a achasse tão diferentes das outras?

Saiu da tenda com Vasco e percebeu que aos poucos o amigo ia ficando mais calmo, mas sem deixar de ter algo diferente no olhar, como se tivesse sido marcado de uma maneira que nunca iria esquecer. Perguntava-lhe de forma repetida o que é que ela lhe tinha feito, mas não conseguia uma resposta, só um olhar para o vazio. Pensou outra vez que devia ter sido ele o escolhido.


A encruzilhada

Ao fim de meia hora Vasco falou, mas nem tudo fez sentido. Disse que a sua vida ia mudar. Que ia casar com a mulher que sempre amara e ter muitos filhos, mas que não se ia esquecer daquela noite nunca. Que até ao dia em que morresse iria se lembrar de que a vida não é sempre o que parece e que quando certas escolhas nos são apresentadas em certas alturas podemos seguir por caminhos completamente diferentes. Levantou-se e antes de ir ter com o amigos voltou-se para Rui e disse-lhe, com os olhos cheios de lágrimas, que deveria ter sido ele o escolhido.


Acordar

Rui acordou às seis da manhã e a sua cabeça estava cheia de pensamentos confusos. Tivera o sonho mais estranho da sua vida e não conseguia perceber sequer se tudo o que lhe vinha à mente tinha ou não acontecido. Feira, tenda, cores, gémeas...tudo palavras e imagens que o assombravam e deixavam desorientado. O que é que este sonho significava? E quem era esta rapariga que amava mais do que a própria vida?

Levantou-se e um medo enorme apoderou-se dele, medo de esquecer, medo de não se lembrar dai a uns segundos de tudo o que tinha na cabeça. Sabia que era assim com os sonhos, que quando acorda uma pessoa consegue descrever tudo o que sonhou, mas que passados poucos momentos tudo se começa a desvanecer e quanto mais se pensa no sonho menos nítido ele fica.

Agarrou rapidamente numa caneta e começou a escrever. Começou por descrever todos pormenores que se lembrava do sonho sem ter muita atenção à ordem, apenas palavras soltas, nomes, sensações, tudo que o ajudasse a não esquecer o que tinha sonhado. Mas com o passar dos minutos uma história começou a ganhar forma. Sem perceber que o estava a fazer, começou a escrever palavras que podiam ser unidas e frases que faziam sentido, começou a pôr por escrito tudo o que se tinha passado, mas com se o estivesse a fazer imaginando tudo pela primeira vez.


Sonho

Neste novo sonho tudo estava presentes, ele, os amigos, a feira, o circo. Mas as cores da noite eram ligeiramente diferente, havia alguma coisa que distinguia esta noite da outra que tinha vivido. Era como se estivesse a reescrever o passado, como se pudesse mudar a vida de todos com que tinha sonhado.

Entrou na tenda mais uma vez e deparou com o mesmo espectáculo que já vira uma vez. Seis cavalos a trotear, seis raparigas de cabelos ao vento, uma ameaça no ar e o medo e a esperança de desta vez ser ele o escolhido. Estava nervoso, olhava outra vez para Marta e sem nenhum tipo de espanto percebeu que continuava a conseguir distingui-la das outras. Na verdade não era difícil, havia uma traço muito particular que a tornava diferente. Mas Rui não precisava disso, conseguia saber que era ela mesmo de olhos fechados, conseguia saber que era ela que se aproximava e abria os olhos apenas quando ela passava por ele.

Desta vez não havia escolha nem escolhido, apenas ficavam a assistir ao espectáculo e a todo aquele movimento que lhes brilhava nos olhos. Apenas ficava a olhar para alguém que sabia ir amar para o resto da sua vida, a sua princesa prometida, que o ia acompanhar para sempre naquele e no mundo real. O espectáculo terminava com o aplauso entusiasmado de todo o grupo. Olhava para Vasco e sorria por o ver tão bem disposto, um Vasco diferente do outro que entendera o significado de escolher, que percebera como a vida pode ser diferente.

No fim todos se juntaram e ele e os seus amigos cumprimentaram as irmãs pela sua actuação. Procurava por ela sem saber bem o que lhe dizer, sem saber como se apresentar. Tinha quase a certeza que desta vez ela voltara olhar para ele, mas sentia-se nervoso com tudo aquilo, até que sentiu o toque de uma mão na sua. Olhou para o lado e encontrou o sorriso que procurava. Falou.

- Tu és a Marta, não és?

domingo, julho 03, 2005

Passado

Olho para ti enquanto pões a mesa com cuidado e o meu pensamento voa para longe. Reparo nas tuas rugas e tento lembrar-me de como eras antes. Aqui neste momento parece difícil acreditar que vai fazer meio século que acordo perto de ti, que a primeira coisa que vejo todos os dias é o teu sorriso doce.

Fecho os olhos e vejo dois jovens apaixonados, vejo duas vidas ligadas para sempre, vejo as lágrimas, vejo os risos, vejo as manhãs, vejo as tardes. O teu cabelo negro voa e toca-me na cara, consigo senti-lo entre os meus dedos e sei que é tudo um sonho, mas não me importo, pois é um sonho que se tornou realidade e tu estás aqui comigo, desde sempre.

Sinto as tuas mãos nos meus ombros e perguntas-me no que estou a pensar...digo que estou a sonhar. Sorris e pareces a rapariga que conheci em tempos e que ainda está dentro de ti, dizes que eu nunca vou mudar, que vou sempre ser o mesmo rapaz pequeno com os olhos no céu, o mesmo miúdo de olhar distraído.

Amo-te...

segunda-feira, junho 27, 2005

Dois (outro adeus)

Os teus olhos reflectem a luz da lua cheia que sobe por cima das nossas cabeças, eu toco na tua cara e penso em nós, penso que passaram dez anos desde o nosso último encontro e que estamos diferentes, estamos mais velhos, mais cansados. Penso se ainda sabemos como sonhar, agora que o passar do tempo mudou as nossas feições e os nossos corpos. A tua mão na minha não parece a mesma, mas ainda consigo sentir o teu calor.

Tenho saudades do tempo em que a vida não era tão complicada, tenho saudades dos problemas que pareciam tão grandes, tenho saudades de ti. Sei que fomos nós que começamos a complicar tudo, sei que fomos nós que mudámos...

Recordo aquela tarde de verão e penso se podíamos ter feito as coisas de outra maneira, se era possível fugir da vida, se podíamos ter sido felizes. Hoje sinto-me mais velho e pergunto-me o que sentirás a olhar para mim. Pergunto se ainda vês o rapaz alegre que conheceste, se ainda me consegues sentir.

A lua continua a brilhar e lembra-nos que está igual, um desafio lançado do céu que nos faz baixar as cabeças com vergonha de nós próprios. Porque é que não podemos voltar atrás? Tudo é diferente. Já não sei se podemos voltar a sentir o que sentimos tantas vezes quando estávamos juntos, quando nos percebíamos.


Passado

O Sol brilha por cima de nós e o teu cabelo reflecte a luz. Sei que este momento vai acabar e que vamos ter de escolher, vamos ter de decidir como vai ser a nossa vida. Gostava de poder saber onde vou estar daqui a dez anos e olho para o verde dos teus olhos à procura de uma resposta.

Penso se termos de pensar tanto não é já uma resposta que nos faz sofrer, se não sabemos já o que vai acontecer e estamos só a adiar uma adeus que nenhum dos dois quer dizer. Aperto a minha boca contra a tua e sinto o coração a bater com força, o que estou a sentir não pode ser uma engano. Quero dizer que te amo, mas não consigo dizer uma única palavra.

Se fomos feitos um para o outro porque é que não podemos ficar juntos? Que mundo é este em que duas pessoas que se amam com todas as suas forças se separam sem uma única palavra? Quero ouvir-te dizer que me amas mas a tua boca está fechada junto à minha...


Hoje

Uma nuvem passa e de repente tudo fica negro, a noite é parecida com os sentimentos que se apoderam de nós, como o medo que o amor tenha ficado esquecido numa tarde longínqua. Quero beijar-te uma única vez mas não consigo ter coragem para tocar com os meus lábios nos teus, não tenho coragem mais uma vez e os meus olhos não choram apenas por vergonha, não choram porque têm medo de mostrar o que sentem, tem medo de dizer que te amo. E como eu te amo, como eu sofro por estas palavras que enchem a minha cabeça não terem saído da minha boca. E fico calado...

Estranhamente tu pareces calma, sinto o teu coração a bater apressadamente, consigo ouvi-lo como se fosse uma música que me diz o que eu quero tanto ouvir. Mas não dizes nada, ficas a olhar calmamente para a lua que brilha outra vez e não mostras que estás nervosa. Será que sabes o que eu não quero aceitar? Que só podemos viver num passado distante, que todo o nosso amor vai sempre fazer sentido, que não iremos ficar juntos para sempre.


Passado

Vejo-te a olhar para trás e ainda sinto o teu calor na minha mão, ainda sinto o teu cheiro no meu corpo e tento não esquecer este momento. Desenho na minha cabeça tu a olhares para mim parada no meio da rua, um sorriso suave que me diz que me amas, um adeus que eu não quero.

Caminho sozinho ao entardecer e imagino como será minha vida sem ti...

Uma estrela

Estou em cima de um telhado velho deitado a olhar para o céu. Não tenho idade e sinto que posso ficar aqui para sempre. Penso nos desenhos que se vão formando na minha cabeça e sei que é mais fácil imaginar formas nas nuvens brancas do que no meio da noite escura. A noite só brilha para quem levanta os olhos e vê, a noite só faz companhia a quem presta atenção, a quem rouba tempo às estrelas.

Abro os braços para abraçar o mundo e sinto as mãos a tremer ligeiramente com a emoção que sinto por estar ligado a todos os pequenos pontos que estão por cima de mim. Não acredito nas estrelas mas elas olham para mim todos os dias, elas olham por mim com a paciência de uma mãe que abraça os filhos pequenos até eles se esquecerem que existiram uma vez.

Quero poder olhar outra vez, quero poder ver, quero poder sentir. Quero deixar de ter os olhos fechados debaixo do céu que sempre me acompanhou e que vai sempre estar ali. E um dia outros irão olhar para cima e sentir outra vez a emoção que sinto hoje, o vento na cara, a camisola quente, o conforto de estar sozinho debaixo do vazio...

quinta-feira, junho 16, 2005

A Casa

Enquanto o táxi segue em alta velocidade pela estrada olho a noite e as árvores no escuro. Tudo parece negro à minha volta e apenas a sensação de que já aqui estive me traz algum consolo. No meio da melancolia indico um destino diferente do que desejava e dou por mim perto da nossa infância. Os locais são os mesmos mas estão completamente modificados pelo tempo e a minha angústia aumenta. Será que vou reconhecer as casas? Será que vou reconhecer os caminhos que percorria em criança? Será que te vou reconhecer?

O táxi continua mais devagar e não digo ao condutor que não sei se quero estar ali, não digo que podemos estar perdidos e continuo a olhar para dentro de todas as casas. Lembro-me das mais antigas e das tardes passadas entre companheiros de aventuras. Mas tudo está diferente, todos os recantos envelheceram e eu sinto que a ligação com o meu passado está ameaçada.

Por fim vejo a casa onde entrei tantas vezes, a casa onde brincávamos inocentemente e todas as recordações voltam para encher a minha cabeça. Vejo luz e olho para dentro à procura de alguma cara conhecida, sinto um conforto enorme ao ver os mesmos móveis, os mesmos objectos, ao ver que alguma coisa ainda está igual. Peço para irmos mais devagar e tento desesperadamente reconhecer tudo, tento guardar o passado dentro de mim.

De repente vejo alguém, uma figura conhecida sentada a ler. Mal consigo ver o teu rosto, mas sei que és tu pois estás exactamente como sonhei. Volto ao passado e já não estou no táxi, estou sentado contigo à porta de tua casa e a noite é infinita. Temos dez anos e falamos sobre o futuro, sobre o queremos ser quando formos crescidos, sobre nós dois.

Sou trazido de volta ao presente por uma voz que pergunta algo, tenho vontade de sair do carro e bater à tua porta, de reconhecer a tua cara e a tua voz, de voltar a olhar para o céu de mão dada contigo. Num impulso pago o táxi e fico sozinho na noite a olhar para uma janela, não sei o que vou encontrar, não sei se me vais reconhecer, mas avanço determinado em direcção ao meu destino.

quinta-feira, junho 09, 2005

Cinco Minutos de Adeus

Ponho a música a tocar e sei o tempo que tenho para estar contigo uma última vez. Olho para os teus olhos e vejo o filme do nosso passado, perguntas-me o que podemos fazer e sei que apenas nos podemos despedir e tentar recordar este momento o resto das nossas vidas.

Estamos sentados no carro e a noite está chuvosa, o chão reflecte a luz de um semáforo perto de nós e a tua cara muda de cor. Sei que nada importa mais e que tudo ficou mais simples de repente, sei que não são precisas explicações e que podemos uma vez na vida olhar um para o outro sem ter de pensar nas palavras que devemos dizer.

E não falamos, deixas apenas as tuas mãos sobre as minhas e deixas o tempo correr enquanto uma única lágrima escorre pela tua cara. Eu aproximo-me de ti e com medo que o tempo se esgote encosto os meus lábios aos teus ao mesmo tempo que a chuva começa a cair com mais força.

Apesar de esperar por este beijo há muito tempo, não esperava que fosse tão forte, que me fizesse ter dúvidas sobre o que decidi, que acontecesse no meio de um adeus. Desisto e tento apenas sentir o prazer de estar junto a ti durante os segundos que faltam, tento ficar com uma parte de ti.

A porta fecha-se e sei que sentes o mesmo que eu, que o mundo não faz sentido, que era tão fácil fazer as coisas de outra maneira. Quero que te voltes para trás mas não olho com medo de correr atrás de ti, com medo de não conseguir dizer adeus...

terça-feira, junho 07, 2005

Seis anos

Sentei-me ao computador sem ter nada para dizer, sem ter nada para escrever que me ajudasse a desabafar o que me ia na cabeça. Queria poder pôr por escrito os meus pensamentos, mas era tudo tão confuso que continuava a olhar para uma página branca à minha frente.

Sem outra solução voltei à infância onde tudo começou. Lembrei-me de um rapaz de seis anos e dos medos que o assustavam, lembrei-me de todos os sonhos que já naquela altura lhe enchiam a cabeça e da despreocupação própria de uma criança.

De olhos verdes no horizonte, brincava ao fim da tarde sem pensar demasiado no futuro, sem saber o que ia acontecer quando crescesse e quando os medos deixassem de ser apenas pesadelos que apareciam a meio da noite. Quando o medo viesse a qualquer altura e trouxesse nuvens negras aos meus dias.

Mas olhar para o passado é bom, lembramo-nos de formas diferente de ver a vida e de sentimentos simples. De gostar sem questionar, de amar sem perguntar porquê, de ter medo apenas entre duas brincadeiras e de esquecer rapidamente todas as angústias e ansiedades.

Larguei o computador e na varanda acendi um cigarro, uma pequena luz por baixo de um céu cheio de estrelas. E olhei para cima como fazia quando era pequeno, quando voava de olhos fechados e tudo era possível. Quando podia escolher o meu futuro e não me preocupava com o passado.


Agora

Sei finalmente que para andar para a frente tenho de voltar atrás, tenho de voltar a olhar com os olhos que são os mesmos. Sei que na simplicidade dos pensamentos de um pequeno rapaz de seis anos está a resposta para os meus problemas. Sei que tudo eventualmente irá ficar bem e vou poder estar sentado calmamente a olhar para o céu e apenas sorrir.

quarta-feira, junho 01, 2005

Um Passado Recente

Entrou em casa e reparou que estava completamente vazia. Tentou não pensar muito no assunto nem dar demasiada importância a este estranho facto, mas era difícil não tentar perceber o que tinha acontecido, não tentar pelo menos imaginar porque é que de um momento para o outro tinha desaparecido tudo à sua volta.

Sentou-se no chão e chorou durante muito tempo, tinha saudades de tudo, tinha saudades dos seus cd’s, dos livros que guardava com tanto cuidado, de todos os móveis que comprara ao longo dos anos, do quadro que desenhara e que estava por cima do sofá que também já não existia...

Era como se todo o seu passado tivesse desaparecido e com ele a memória de uma vida. Sentia que começava a esquecer-se de si próprio, sentia que lentamente deixava de saber quem era. Era como se todos os dias passados dentro daquela casa se estivessem a apagar aos poucos da sua memória.

Tinha uma ideia vaga de pessoas a conversarem, de serões animados com conversas em voz alta que agora pareciam simples sussurros. Sabia que também tinha amado dentro daquelas paredes mas já não sentia o cheiro dos corpos que via desfocados à sua frente, já não distinguia as formas umas das outras e juntava tudo numa enorme confusão que o angustiava cada vez mais.

Ainda conseguia lembrar-se de noites passadas sozinho frente à televisão ou a ler um livro, mas só conseguia sentir uma parte do que tinha vivido nesses momentos solitários, não conseguia lembrar-se das histórias que tinha visto ou lido, não conseguia lembrara-se de uma única cena, de uma única personagem, só pequenos fragmentos de sentimentos.

Levantou-se e limpou as lágrimas que não paravam de cair dos olhos. Sabia que a qualquer momento iria sair pela porta e que tudo se apagaria, sabia que iria esquecer-se do seu nome e de toda uma vida.

Olhou para os lados e tentou por uma última vez lembrar-se da casa cheia, reconstruir por um breve momento toda uma existência e todo um passado. Fechou os olhos e viu várias cenas que se apagavam quando olhava para cada uma delas, uma última visão de uma felicidade que não iria sentir nunca mais.

Saiu uma última vez pela porta e desceu a rua sem olhar para trás...

segunda-feira, maio 30, 2005

Sonho

Vivo dentro de um sonho de onde saio durante o dia
Vivo dentro de um sonho que me mostra a realidade
Vivo dentro de um sonho onde sou verdadeiro
Vivo dentro de um sonho confuso

segunda-feira, maio 23, 2005

A Melancólica Viagem...(Parte III)

E tu não apareceste...

Penso se não terás existido apenas na minha cabeça, nos sonhos que me afastam do dia-a-dia. Penso se não terá sido apenas o sonho mais real que alguma vez tive, um momento onde a realidade se fundiu com a fantasia e tudo pareceu fazer sentido.

Voo por cima das pessoas e tento procurar-te no meio da multidão. Nesta cidade cinzenta onde chove todos os dias sinto-me perdido entre os dois mundos onde vivo e não consigo perceber a qual deles pertenço. Tenho medo de começar a cair e misturar-me para sempre no meio dos outros...

Não tenho a certeza de qual é o caminho e continuo a voar enquanto todos me olham com inveja, enquanto todos olham para o céu. Mas a dúvida vive na minha cabeça e continuo a procurar o que não desejo, o que não sei se vou encontrar.

Perdido hoje, olho para Ontem para descobrir que vou sempre viver aqui, numa encruzilhada onde não tenho de escolher e posso apenas descansar encostado à árvore que marca o caminho.

Fim

quarta-feira, maio 18, 2005

No Metro

Vejo alguém sorrir a meu lado e não percebo porquê. Olho para os olhos azuis e vejo uma cara transformar-se por completo, como se não fosse a mesma pessoa, como se de repente a que estava à minha frente tivesse desaparecido e sido substituída por outra completamente igual, mas mais feliz.

Não existe contacto visual entre nós dois e posso observar aquele sorriso e tentar imaginar uma vida...


Outra Vida

Joana caminhava pela rua devagar e pensava na vida, pensava na ansiedade que não a largava nas últimas semanas e em toda a tristeza que tinha acumulada dentro dela. Era uma pessoa com uma vida normal mas que sentia precisar de algo mais. Esta angústia vinha dos tempos de criança, na altura tinha medo do mundo, tinha medo de coisas simples que a assustavam muito e deixava-se levar para um mundo de sonhos e fantasias.

Apesar de tudo tinha sido uma criança muita risonha e feliz, o problema começara quando crescera e os sonhos tomaram conta da sua vida. E quanto mais viajava por mundos cada vez mais incríveis, mais se afastava da realidade e das outras pessoas. Chegara aos trinta anos sem namorado, com poucos amigos e com uma família que via pouco, sentia-se sozinha e quando isso acontecia fugia para o seu mundo de faz-de-conta.

Naquela tarde de Setembro as árvores tinham uma cor muito bonita com o sol a bater nas folhas amarelas, um Outono que tinha chegado mais cedo, como se tivesse vindo fazer companhia aos pensamentos melancólicos de Joana. Estava triste e não sabia como mudar o que sentia, olhava para o mundo à sua volta e tentava que o bonito fim de tarde a ajudasse a sorrir.


Uma flor

Cansada de tanto andar, cansada de pensar, sentou-se num banco da sua rua preferida e observou as pessoas que passavam. Olhou para as pessoas que caminhavam depressa com uma expressão muito séria e riu-se para dentro pensando que deviam ir fazer alguma coisa muito importante, só isso podia justificar os semblantes tão carregados. Ela esperava não ser assim também aos olhos dos outros, esperava ser mais do tipo triste mas com um rosto simpático, o tipo de pessoa de quem todos gostam, era isso que queria ser.

De repente sentiu que alguém a observava, olhou para baixo e reparou numa miúda que não devia ter mais de três anos e que olhava para ela fixamente. Nas mãos tinha uma pequena flor amarela que agarrava com muito cuidado como se tivesse medo que ela caísse, como se estivesse a segurar algo muito valioso e que não podia ser substituído.

Disse-lhe olá e perguntou como é que ela se chamava, a única resposta que obteve foi um esticar de braços. Baixou a cabeça e olhou para a flor no meio de duas mãos pequenas sujas de terra, as pétalas eram amarelas e o centro da flor era cor-de-laranja e conseguia sentir o ligeiro perfume que ela deitava. Agarrou suavemente na flor com uma das suas mãos enquanto passava a outra pelo cabelo castanho da pequena. Ela esperou uns segundos e olhou-a como se pudesse ler os seus pensamentos e sorriu como nunca ninguém tinha sorrido para Joana, um sorriso que encheu a sua tarde.


Depois

Joana entrou no metro ainda a pensar no que tinha acontecido e em vez de fugir para os seus mundos, ficou apenas de olhos fechados a relembrar o sorriso que lhe tinham oferecido e do resto da tarde sentada num banco apenas a saborear a vida.

Reparou que a seu lado alguém a observava, estava a sorrir desde que entrara na carruagem e nem tinha pensado que não estava sozinha.

Olhou para o rapaz e sorriu para ele.

quinta-feira, maio 12, 2005

Futuro

Hoje

A campainha toca e eu sento-me no canto, sinto dificuldade em respirar e dói-me o corpo. Esfrego as luvas na cara e limpo o suor dos olhos enquanto reparo no meu adversário sentado do outro lado do ringue, tenho mais uma vez a sensação estranha de que o conheço.

Ouço o som e levanto-me com raiva, avanço em direcção a ele e tento bater-lhe com toda a força que tenho, a ligação que sinto a este homem que não conheço traz-me sentimentos de amor e ódio misturados, eu escolho o ódio e a multidão entra em delírio.


Ontem

Acordo numa cama lavada e pergunto-me onde estarei, só me lembro de estar à chuva e ao frio e de ter pensado que ia desmaiar. Tenho treze anos e vivo na rua desde que nasci, nunca tinha sentido o toque suave de uma cama, nem nos meus sonhos mais arriscados.

A porta do quarto abre-se e entra um homem de cabelo cinzento que me fala de forma calma. Diz que me encontrou inconsciente na rua e pergunta se eu aceito a ajuda dele, não consigo pensar, estou num mundo que não conheço. Sinto o cheiro da comida ao meu lado e percebo que a minha vida vai mudar, que as ruas vão ficar para trás, que vou esquecer o frio.


Hoje

Sou atingido com força no nariz e vejo o meu sangue cair no chão, tenho de esquecer o passado, não posso voltar agora, tenho de me concentrar na luta, tenho que esquecer a dor. Refugio-me nas cordas e com os braços à frente da cara sinto os golpes nas minhas luvas. Quero fugir mas não consigo, quero odiar quem me bate, mas não consigo deixar de sentir que o amo.

A campainha salva-me. Não olho para trás a caminho do meu canto, tenho medo do que vou encontrar, tenho medo de o olhar nos olhos. Tento ouvir o que me dizem, mas as palavras são abafadas pelo barulho das pessoas que gritam cada vez mais alto, demasiado alto, não sei se vou ter coragem de me levantar.


Ontem

O tempo passa e eu cresço num mundo novo, um mundo onde a ciência mudou a vida das pessoas. Mas não mudou a vida dos desgraçados que continuam a vaguear pela rua e que consigo ver por cima das nuvens. Encosto a cara à janela e tento perceber as formas que vejo ao longe.

Duzentos andares abaixo, outros como eu andam pelas ruas desertas, esquecidos do mundo tentam descobrir comida e refúgio, as duas únicas necessidades que sentem todos os dias das suas curtas e intensas vidas.


Hoje

Não me levanto, as recordações tomaram conta de mim e não tenho vontade de lutar. A meu lado alguém grita comigo, mas continuo de cabeça baixa a ver o meu suor juntar-se com o sangue. Quero sair deste lugar, mas sei que a multidão não me vai deixar, sei que ela me vai obrigar a lutar.

Olho por fim o meu adversário que está no meio do ringue. Olha para mim de forma triste, como se me pedisse desculpa, como se me quisesse ajudar. Reparo no seu corpo musculado e na sua cara jovem e tento descobrir quem é este homem que me leva de volta aos primeiros dias neste mundo.

Os segundos passam a correr mas eu sinto que tudo à minha volta corre devagar, como se o tempo passasse mais lentamente para todos os outros. Olho para os seus lábios e reparo que se estão a mexer, não consigo perceber as palavras no meio da confusão, mas o lábios continuam a dizer as mesmas palavras. O mundo está a parar à minha volta e eu esqueço tudo, deixo de ouvir o barulho que me ensurdece.

Compreendo o que ele está dizer e rebento de dor...


Ontem

Olho para ele e não entendo o que estou a ouvir, como é possível acabar assim? Nasci sem pai e nunca pedi nenhum, mas choro neste momento em que sei que o vou perder. Ouço histórias que não compreendo, ouço coisas que não me chocam mas que o fazem uma pessoa diferente da que conheço. Sei que não é a pessoa que julgo, mas não me importo e imploro-lhe que fique.

As minha últimas palavras são de ameaça, são de desespero e digo que vou mudar, que vou ter uma vida diferente da que ele me ajudou a sonhar. Sinto uma mão no meu cabelo e sem abrir os olhos ouço palavras simples que me dizem que tudo vai ficar bem.


Hoje

Parto para cima do monstro que vejo à minha frente, uma aberração que não devia poder existir. Bato-lhe com toda força e quero matá-lo, quero que ela sofra por tudo o que representa, pelo miúdo que perdeu os seus sonhos e pelos outros miúdos que não chegaram a sonhar, quero que morra.

Caio por cima dele sem forças, sinto a sua respiração e deixo-me ficar um segundo eterno no seu abraço terno. A multidão incita-me a pôr um fim ao combate, a pôr um fim a uma vida e penso que mundo é este onde vivo sem ter pedido. Não consigo ver os seus olhos, mas continuo a ouvir a sua voz que me suplica, que me pede algo em troca do passado, um pedido desesperado, um pedido que não posso aceitar.

Levanto-me e desisto, desisto desta luta, desisto deste mundo. À minha volta o silêncio repentino é rompido por alguns gritos de protesto. O sangue no chão nunca é suficiente, o sofrimento é um vicio que esta noite não foi satisfeito.

Não escolho nem o amor nem o ódio e pela primeira vez em anos saio para a rua...

quarta-feira, maio 04, 2005

Sono

Vejo um mundo desfocado à minha frente, tons de negro e cinzento que me tapam os olhos e me aprisionam. Uma música suave embala-me e luto para não dormir. Os sentidos dão-me uma imagem imperfeita do mundo à minha volta e tento encontrar um caminho no meio da luz fraca...

segunda-feira, maio 02, 2005

Ontem

Olho para trás e vejo a luz entrar pela janela. Passaram muitos anos mas ainda consigo sentir o prazer do sol a bater na minha cara enquanto descanso no seu colo. Sinto o ar quente que me faz voar os cabelos molhados e desejo ficar ali para sempre, protegido, aconchegado...amado.

quarta-feira, abril 27, 2005

Na Sala

Espero por ti

Sozinho sentado na sala espero por ti sem ter a certeza que voltarás a este local. Lembro-me de um olhar rápido e das poucas linhas que o descreveram. Não tenho a certeza que tenha acontecido, mas espero pacientemente e escrevo, escrevo para passar o tempo e para tentar adivinhar o futuro.


Nós dois

Entras depressa e olhas para dentro da sala como se procurasses alguém. Fixas os teus olhos nos meus e não os desvias enquanto te sentas à minha frente. É quase insuportável manter o contacto, todo o meu corpo pede para que eu desvie o olhar, para que eu acabe com o sofrimento, para que eu me esconda por um segundo.

Mas pela primeira vez na vida resisto. Não desvio o olhar apesar da dor que sinto, apesar de toda a vergonha, apesar de toda a emoção. E tu sorris, tu percebes que temos algo em comum, algo que não precisa ser dito, uma empatia maior que o mundo e muito mais simples do que as pessoas. Sabes o que penso sem perguntar e eu sei quais são os teus sonhos e os teus medos, o que te faz sofrer e o que te faz rir.

E rimos, rimos os dois sem nunca termos trocado uma palavra, sem sabermos nada um sobre o outro, mas conhecendo-nos melhor do que ninguém.


Até um dia

Alguém chama o teu nome que eu não sabia. É uma parte da realidade que entra neste nosso mundo confuso, neste mundo onde não se sabe nada, mas onde se sente tudo.

Olhas para trás de forma doce mas desafiadora, sabes que nos vamos voltar a ver, sabes que vais voltar a olhar para a minha cara. E eu fico a olhar para ti a desaparecer por trás da porta castanha. A ansiedade vem até mim, mas não me vence, deixa apenas aquele frio que diz que não devo tentar compreender tanto as coisas, que o meu grito de liberdade não é como eu penso que vai ser...

Sorrio e escrevo sobre um encontro futuro, sobre olhares demorados...sobre ti.

quinta-feira, abril 21, 2005

Outra Noite

Abro a porta do carro e respiro o ar frio da noite. Por cima de mim vejo o céu estrelado e penso que talvez seja o céu mais bonito que alguma vez vi na vida. Lembro-me de quando era criança, lembro-me de estar deitado no chão a olhar para cima e dos sonhos que me enchiam a cabeça. Olho para ti e tento recordar o dia em que te conheci, mas não consigo, apenas sei que te conheço desde sempre, que fazes parte da minha vida toda e que quando olho para as estrelas penso em ti.

Deito-me em cima do carro e fico a olhar para o céu, vejo uma estrela cadente e peço um desejo, peço ajuda para estar contigo e vejo a estrela deixar um rasto luminoso até desaparecer no meio das árvores. Deitas-te a meu lado e perguntas em que estou a pensar. Não tenho resposta, tenho medo que o meu segredo seja descoberto e que o desejo não me seja concedido. Olhas também para as estrelas...

Estou nervoso e tento refugiar-me no passado, nas recordações de duas crianças pequenas a brincarem sem que o tempo passe. Naquele tempo o céu parecia maior e a maior parte das perguntas não tinha resposta, mas a angústia não estava presente, apenas a pergunta, apenas a dúvida que nos fazia sonhar. Olho para ti e penso no momento perfeito entre nós, um momento que me faz lembrar tantos outros passados contigo, o tronco no riacho, a árvore grande...

Agora que crescemos quase que não conseguimos sentir o que passámos, parece ter saído tudo de dentro de um livro, aventuras de duas crianças em tardes e noites sem fim. Quero poder recordar que estivemos sempre aqui, quero saber que também te lembras de nós...mesmo que tudo não tenha acontecido.

Dás-me a tua mão...e a noite fica maior...

terça-feira, abril 19, 2005

Na Tempestade

Vejo as nuvens formarem-se ao longe e sinto o medo à minha volta...
Abro os braços para a tempestade e penso em ti no meio do vento...
As nuvens chegam perto demais e quase me levantam...
Não sei quando voltarei a ver o sol, quando o vou sentir outra vez na cara...
No meio da tempestade penso mais uma vez em ti e sinto medo...
Entre as nuvens ganho coragem e luto enquanto olho para o passado...
À minha volta a chuva cai e eu não abro os olhos...

Sinto o chão nos meus pés...

domingo, abril 17, 2005

Ao Sol

Estou deitado em cima da erva verde e olho para o céu azul, nele voam nuvens brancas que me levam de volta à infância e me fazem sonhar.

Vejo uma avião antigo a sair da neblina e adormeço...

quinta-feira, abril 14, 2005

Depois da Sala de Espera

Espera

João entrou na sala de espera do consultório e ficou surpreendido por encontrar alguém lá dentro. Há três anos que todas as semanas esperava alguns minutos naquela sala pequena com paredes pintadas de amarelo e não era costume ter companhia. Sentou-se em frente da rapariga de cabelo curto e tentou imaginar o que a traria àquele sitio. Pensava sempre no que pensariam as pessoas umas das outras no consultório. Ele pensava se seriam todos doidos, mas lembrava-se normalmente que podiam pensar o mesmo em relação a ele. Achava divertidos estes pensamentos e tinha-os sempre nas raras vezes que se cruzava com alguém.

Olhou directamente para a rapariga outra vez e ela devolveu o olhar de forma muito directa. Como sempre ficou com um enorme frio no estômago e não aguentou mais do que um segundo a olhar para ela. Tinha sempre este comportamento, passava a vida a olhar para os outros à espera de poder fazer algum contacto e quando olhavam de volta, simplesmente não aguentava. Riu-se dele próprio e não sabendo bem como, falou de forma atrapalhada.
- Olá.
Ela respondeu timidamente.
- Olá.
- Eu sou o João. Nunca te tinha visto aqui.
De repente percebera o ridículo do que tinha acabado de dizer. Mas ela sorriu e respondeu.
- Esta é a minha segunda consulta.
- Eu já estou a fazer terapia há três anos, se tiveres alguma dúvida...
Mais um vez apercebeu-se do ridículo do que tinha dito e ficou muito vermelho enquanto tentava corrigir.
- Se calhar não era suposto estarmos a falar destas coisas.
- Não vejo qual é problema. Demorei muito tempo para decidir começar as consultas mas não tenho vergonha de vir aqui.
João ficou ainda mais vermelho.
- Eu também não...eu...eu já venho cá há três anos e...
Entraram na sala e chamaram a rapariga que se despediu com um sorriso.


Terapia

Estava furioso com ele próprio, não sabia como era possível ter feito uma figura daquelas. Entrou dentro da sala onde ia ter consulta ainda com o coração a bater e não teve coragem de dizer ao seu psicólogo o que tinha acontecido. Achou que ele ia criticar o facto de ter olhado para ela de forma tão directa. Já tinham várias vezes falado sobre a forma como olhava para as pessoas e não tinha vontade de admitir os mesmo erros, as mesmas falhas, os mesmo medos.

Foi uma sessão dolorosa, não se lembrava de nada para dizer e só lhe vinha à cabeça o que tinha acontecido na sala de espera. Tinha um ar interessante a rapariga com quem tinha falado. Mas isso não era novidade nenhuma, achava demasiadas pessoas interessantes e esse era um dos seus problemas, não conseguia ter calma e conseguir observar as pessoas, apaixonava-se muito depressa mas também perdia o interesse muito depressa. Esta instabilidade cansava-o.

Ao fim de uma hora estava exausto de tanto inventar assuntos para falar enquanto tentava pensar noutras coisas ao mesmo tempo. Sucedia-lhe isto muitas vezes, gostava de poder dizer que não queria continuar a sessão e ir embora, era demasiado penoso estar naquele lugar quando tinha a cabeça longe. Por outro lado havia alturas em que quase mandava calar o psicólogo, alturas em que uma hora parecia passar em minutos e o tempo voava. Nestas alturas sentia que aquele espaço era realmente útil e quase desejava poder passar mais tempo a conversar. Mas isto não acontecia sempre e as vezes em que não corria bem eram tão frequentes como as outras, o que o angustiava muito.


Caminhando

Quando saiu do prédio respirou com prazer o ar fresco de fim de tarde, tinha passado os últimos minutos com dificuldade em respirar e sabia-lhe bem estar na rua. Olhou para o lado e viu alguém sentado na entrada do prédio, era a rapariga. Ela olhou para ele e falou numa voz calma.
- Estava à tua espera, espero que não te importes.
Não sabia o que responder. Ficou um segundo calado e abriu a boca sem saber o que ia dizer.
- Eu...claro que não. Mas queres falar do quê?
- Não tenho nenhum assunto especifico, pensei só que podíamos caminhar um pouco e falar de banalidades.
João riu-se com aquela resposta.
- ok, vamos então falar de banalidades
E começaram a andar.

Durante uns segundos nenhum dos dois disse nada, mas não havia aquele ambiente próprio de quem não se conhece. Simplesmente estavam calados, mas tinha a certeza que no momento certo a conversa iria aparecer de forma natural. E assim aconteceu, mas não falaram de banalidades, conversaram sobre os seus sonhos, sobre o que gostavam que acontecesse nas suas vidas. Mas não de desejos materiais, falaram dos sonhos mais estranhos e pouco comuns que se podem ter e descobriram que eram parecidos na forma como sonhavam.

Enquanto andavam, não podia deixar de reparar como era estranha aquela empatia quase espontânea entre os dois, como se fossem dois amigos que se encontravam ao fim de muito tempo e conversassem como se o tempo não tivesse passado. Mas eles não se conheciam e não compreendia como podia estar assim perto de uma pessoa que conhecia há tão pouco tempo e sentir que lhe podia contar tudo. Não compreendia, mas sentia e continuava a andar.

Mas não conversaram sempre, não era preciso, sentia prazer só por estar junto dela e sabia que se fosse preciso já conseguia olhar directamente para os olhos dela. E também não pensava se estava a ficar atraído ou não por ela, não era muito importante, apenas queria gozar o momento e sentir-se bem sem ter de complicar as coisas. Sentia que o que se estava a passar era como se estivesse a passear e alguém tivesse começado a andar ao seu lado sem o conhecer de lado nenhum e na verdade não era muito diferente.


Adeus

Depois de terem andado durante muito tempo ela parou e disse que tinha de ir para casa. João olhou para ela e sorriu apenas, tinha acabado de passar uma das melhores tardes da sua vida com uma pessoa que não conhecia e não achava nada de estranho nisso. Naquele momento sentiu que podia largar a terapia e todas as drogas que sempre achou que iria tomar para o resto da vida. Claro que sabia que não era assim e que ainda tinha muito pela frente até se sentir equilibrado, mas sentia que tinha andado muito para a frente, como se tivessem passado anos e fosse outra pessoa.

Ela também sorria e ficaram os dois a olhar um para o outro até ela falar.
- Não vais dizer nada?
- Não tenho muito para dizer que tu não saibas. Para falar verdade acho que sabes tudo o que é realmente importante de mim.
Ela corou ligeiramente e acenou com a cabeça.
- E encontramo-nos para a semana?
Disse ela enquanto começava a descer as escadas do Metro.
- Claro.
- Então até para a semana.
- Deixa-me só fazer-te uma pergunta.
- Diz!
- O que é que achaste de mim na sala de espera do consultório.
- Sinceramente?
- Sim.
- Estava a pensar se serias doido. Tu também, não?
E riu-se de uma forma que ainda encheu mais a tarde de João.
Ele não respondeu e ficou apenas a observá-la enquanto descia as escadas.

terça-feira, abril 05, 2005

A Floresta

No meio da floresta agarro a tua mão e corro, fujo das sombras que nos perseguem. Sinto a força dos teus dedos no meus enquanto corres de olhos fechados e por um momento não sinto medo, mas continuo a correr pois não temos muito tempo.

Lembro-me de quando éramos novos e tudo era possível, lembro-me de quando sonhávamos com o futuro e com uma nova vida no meio das árvores que agora nos rodeiam. Hoje o sonho pode ser desfeito e por isso corremos mais depressa, corremos para que o futuro dos que nos rodeiam possa existir.

Deixo de sentir a tua mão na minha e procuro desesperadamente por ti. No meio dos troncos apenas vejo sombras e tento percebê-las, tento perceber se o fim está próximo, se iremos conseguir fugir do passado.

A escuridão cai sobre mim e apenas vejo silhuetas à minha volta, tento descobrir-te e imagino a tua angústia no meio do nada, imagino-te de mãos esticadas à procura de mim, chorando por mim.

Vejo o brilho dos teus olhos entre as árvores e as sombras em direcção a ti. Encho o peito de ar e em silêncio corro por cima da erva alta, passo sem ser visto pelas figuras negras e agarro a tua mão. Puxo-te para mim e abraço-te.

Ficamos escondidos em silêncio. A nossa respiração abafada é o único ruído que ouvimos e que tememos nos possa denunciar. Mas as sombras não nos descobrem e desaparecem por entre os ramos das árvores. Deitados no chão esperamos que o perigo passe durante tempo demais. Sabemos que o passado não pode voltar e que outros terão de percorrer o mesmo caminho.

Saio da sombra, fecho os olhos por causa da luz e tu sentes o ar fresco na cara. Sei que para mim não acabou tudo aqui, sei que ainda não estou livre e que um dia voltarei à floresta.

sábado, abril 02, 2005

Eu

Olho para o meu corpo e sinto-me prisioneiro de mim mesmo. No espelho vejo uma face branca que não é a que desejo e luto para não deixar de ser quem sou. Luto para o vermelho nos meus lábios não desaparecer, quero poder gritar ao mundo quem sou, quero dizer em voz alta que existe outra pessoa dentro de mim.

Lembro os tempos de criança e choro, lembro-me da roupa na minha mão e o reflexo sempre cruel que apenas me deixava sonhar. E caminhava pelo campo seco num dia de sol, caminhava com o suor a escorrer pelo meu corpo que crescia e me sufocava. Queria abraçar-me a mim mesmo, mas não tinha coragem, queria consolar-me, mas tinha medo.

Mas sabia que um dia iria crescer e teria de escolher, sabia que tinha de me enfrentar primeiro. E quando conseguisse vencer o homem em mim, poderia olhar para o mundo e dizer que não existo, poderia anunciar que o pequeno rapaz tinha conseguido voltar.

Volto a olhar para o espelho e sorrio. Só conseguimos ser felizes quando encontramos quem somos, quando compreendemos o brilho no nosso olhar e não o deixamos apagar-se. Só então somos livres.

Saio para a rua fria e penso em mim. Mais uma vez estou sozinho mas não me sinto perdido. Sei que descobri quem sou e tenho a companhia de todo o meu passado, sei que nem sempre vou sentir o conforto da noite, mas que neste momento o posso sentir enquanto o vento sopra com força.

Fecho o casaco por cima da pele nua e continuo a andar...

sexta-feira, março 18, 2005

João e Margarida

“…there's nothing you and I won't do…trapped in a state of imaginary grace…”

João olhou para os olhos de Margarida antecipando o momento em que os seus lábios se iriam tocar. O vento tinha um cheiro adocicado e a luz fazia-o fechar os olhos enquanto pensava que era capaz de ficar preso naquele momento para sempre.

Voltou a olhar para a cara dela e enfrentou os seus olhos outra vez. Sempre tivera dificuldade em olhar as pessoas nos olhos e com Margarida não era diferente. Ainda tinha o reflexo de desviar o olhar enquanto lhe contava as suas aventuras e sonhos, mas com o tempo tinha conseguido olhar para ela sem medo, aprendera a sofrer um pouco para poder ter o prazer de olhar para a sua cara, de poder falar com o olhar e dizer que a amava.

As mãos dos dois tocavam-se levemente como dois bailarinos que dançavam debaixo daquela luz laranja que passava pelas folhas das árvores e desenhava sombras sem sentindo. Não falavam, pois nada havia a dizer, tudo podia ser sentido e sentia a pele dela quente ao mesmo tempo que estremecia levemente. Mais uma vez fechou os olhos mas não deixou de ver, não deixou de sentir o cheiro no ar e de ouvir as roupas a esvoaçarem com o vento.

Recordou tardes passadas e sentiu-se feliz. Estava nervoso, mas a ansiedade não estava presente e conseguia perceber que não desejava estar em outro sitio que não fosse debaixo daquela árvore e das suas sombras.

Então sentiu o calor dos lábios que quase tocavam os seus. Sempre achou que a melhor parte de um beijo é precisamente o segundo antes dos lábios se tocarem e desejou poder parar o tempo, desejou poder prolongar aquele segundo que via passar demasiado rápido, elevar-se no ar e olhar para baixo enquanto os lábios se aproximavam cada vez mais. Sabia que daí a uns segundos o seu coração iria rebentar e as suas mãos iriam apertar as de Margarida de forma apaixonada e desejou que aquele segundo não acabasse.

Viu os olhos dela a aproximarem-se, dois enormes olhos castanhos que mudavam de forma com o dançar das folhas por cima deles e que o olhavam com ternura. Sentia-se a pessoa mais amada do mundo, nem que fosse apenas durante aquele segundo que não passava, um segundo que ia lembrar toda a vida mesmo que não tivesse acontecido, mesmo que não estivesse ali e apenas o imaginasse.

Deixou então os seus lábios tocarem nos dela e de olhos fechados desejou estar mesmo ali, desejou que não fosse apenas um sonho o que estava a sentir, teve medo de abrir os olhos e apenas ver a árvore que dançava. As mãos dela apertaram as suas e ainda com o lábios juntos disse-lhe que a amava, disse que não queria sair dali, disse que trocava tudo para aquele beijo durar para sempre.

terça-feira, março 08, 2005

A Melancólica Viagem...(Parte II)

E tu apareceste outra vez...saíste dos meus sonhos de volta para a realidade...

Neste mundo cinzento onde vivo duas vezes apareceste num local inesperado e mais uma vez fizeste-me perceber que não sou sempre invulnerável, que também sou fraco como os que andam ao meu lado.

Quando, enquanto caminhavas ao meu lado, falaste comigo, foi como se já esperasse que isso acontecesse, mas ao mesmo tempo não conseguisse deixar de ficar surpreendido. Perto de ti não consigo ter a segurança que desejava e o tempo parece correr de forma diferente. É como se tudo acontecesse demasiado rápido e ao mesmo tempo demorasse muito tempo a passar. Tudo acontece em poucos segundos, que depois são relembrados para sempre.

Não disse as palavras que queria e resta-me a calma de quem sabe que esta não foi a última vez que te vi, a calma de quem conhece o futuro que teme, pois não sabe quando é que ele vai acontecer. E viajo ansioso debaixo do chão, olhando para os lados assustado, mas sorrindo ao pensar no próximo dia, que temo não ser o último.

Fica a recordação doce de um sorriso que não apareceu e as recordações que voltaram à minha cabeça. Foi numa noite distante, quando ainda era um simples mortal, que roubei um beijo que esqueci até hoje, um pequeno pecado que voltou para me aconchegar nesta altura em que a linha que separa os dois mundos em que vivo está pouco definida.

segunda-feira, março 07, 2005

Duas Noites

Rio de Janeiro

Ouço uma voz a cantar ao longe. É uma voz suave com um sotaque estranho que faz com que todo o ambiente à minha volta se torne ainda mais mágico. Sinto a roupa colada ao corpo e tenho alguma dificuldade em respirar enquanto caminho descalço pela areia. Olho para as ondas brancas que aparecem no mar negro e vejo ao longe o reflexo da lua. Chego perto da voz e sento-me no chão a ouvir aquele concerto inesperado.


Lisboa

Chove sem parar há três dias e eu acho que começo a ficar deprimido, não tenho vontade de sair de casa e ir trabalhar. Todos os dias arranjo forças para me levantar, mas tenho cada vez mais dificuldade em não ceder e em não me deixar ficar na cama todo o dia. Sonho com o calor e com diferentes cheiros, mas levanto-me.

Estou parado há quinze minutos e ninguém repara em mim. Olho para o monitor e apenas vejo o meu reflexo, uma cara triste e desanimada. Conto vários suspiros e brinco com a caneta entre os dedos. Não vou almoçar e fico sentado a ouvir uma música longínqua enquanto sonho outra vez com a sombra das árvores. Não aguento mais.


Rio de Janeiro

Sinto-me feliz. Danço com desconhecidos à volta de uma fogueira que ilumina a noite sem fim e sinto-me embriagado, sinto que de repente fiquei liberto de tudo o que me prendia, sinto-me finalmente livre e danço, danço sem parar durante horas, danço até não sentir o corpo e cair exausto na areia.

Tudo à minha volta anda à roda, o céu rodopia e eu sinto-me enjoado. Fecho os olhos e respiro fundo, o cheiro a tabaco no ar magoa-me os pulmões e deixa-me ainda mais tonto, estremeço e percebo que não me consigo levantar. Então fico só a olhar o céu, um céu que não é o que sempre conheci, um céu que sempre me acompanha mas que não é o mesmo. Alguém cai ao meu lado.


Lisboa

Saio para a rua e caminho ao frio sem casaco. Amo esta cidade mais do que tudo mas preciso fugir dela, preciso ir para longe e deixar este sitio que me inspira. Não quero pensar tanto, não quero que a minha cabeça me doa tanto. Quero correr sem saber para onde vou, quero estar longe daqui. E então corro, fujo de mim próprio, fujo da minha tristeza, fujo do que amo e do que odeio.

Entro em casa e meto as roupas à pressa dentro de uma mala como se alguém me estivesse a perseguir, como quem cometeu o maior dos crimes. Tento não levar nada que me lembre o passado, ou melhor o presente que em breve será passado. Olho por um momento para a casa que já não é minha e penso em tudo. Será possível lembrar-me de uma vida em poucos segundos?


Rio de Janeiro

Olho para o lado e vejo uns olhos brilhantes à minha frente. Sinto o seu cheiro doce e agarro-lhe nas mãos durante meio segundo. Mergulho nos seus cabelos e toco os seus lábios com os meus. Continuo a ouvir a voz que me atraiu a este lugar, continuo a sentir-me tonto e quase não aguento tudo o que estou a sentir. As minhas mão fecham-se com força e sinto o peito a rebentar. Será isto um sonho? Era ela quem procurava? É tudo demasiado parecido com o conto que escrevi. Faz tudo sentido e eu tenho dúvidas, os sonhos não se realizam, mesmo quando os temos de noite.


Lisboa

Parte de mim viaja a caminho do aeroporto, vou ao encontro do meu destino, onde o sonho não existe, onde a inspiração é trocada por um beijo no meio da noite. Não sei onde estou, mas não me sinto perdido. Sei que tudo existe e que quando olhar o céu tudo ficará bem.

Mais uma vez a noite não tem fim...

sábado, fevereiro 19, 2005

Happiness

Olhas para trás a sorrir e eu sinto-me perdido...

Hoje

Paro no cimo das escadas e olho para o tecto à espera de ver quando vai cair o próximo pingo de água. Todos os dias passo neste local e avanço sem medo, é a minha aventura diária, a altura em que desafio a sorte. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, um enorme pingo de água suja cai em cima de mim e mancha o meu casaco. Sorrio e penso no que irá acontecer.

Entro no metro e sento-me enquanto tento escolher uma música no leitor de mp3 e procuro alguém que possa observar. À minha frente está uma rapariga a ler um livro forrado com um papel castanho que não me deixa perceber o nome do livro. Nunca percebi se a pessoas que forram os livros o fazem para não estragar as capas ou se é para que os outros não saibam o que estão a ler.

Finalmente acho uma música para aquele momento e olho fixamente para a rapariga. Não é muito vistosa, mas tem alguma coisa que me cativa. Acho que são os lábios que me fazem lembrar os da actriz do Lost In Translation. São o tipo de lábios que nos fazem fechar os olhos e imaginar o seu toque suave. Quase que consigo sentir o espaço curto entre nós e respiro fundo, sinto-me aconchegado.

Saio na mesma estação que ela e por breves instantes caminho ao seu lado como se estivéssemos juntos. Olho para as escadas e quando me preparo para subir os degraus a correr o livro solta-se das suas mãos. Agarro nele por instinto e devolvo-lhe com um sorriso. Ela agradece com uma voz doce que não consigo ouvir e durante uns segundos ainda consigo sentir a textura do papel castanho na minha mão, mas depressa estou a caminhar sozinho pelos corredores.

Viro à direita em direcção à rua e encontro-a outra vez a andar ao meu lado, escolhemos caminhos diferentes para chegarmos ao mesmo sitio. Ela olha para mim e abre a boca devagar para dizer alguma coisa, tenho tempo de tirar os auscultadores e ainda consigo ouvir a sua voz que me agradece a proeza do livro. Sorrio mais uma vez e os nossos caminhos separam-se outra vez.


Amanhã e depois...

No dia seguinte tento sair de casa à mesma hora, estou nervoso e penso se será possível encontrá-la. Tremo ligeiramente quando entro na carruagem e olho para todos os lados à sua procura, vejo um cabelo claro familiar e dirijo-me para ela. Sento-me à sua frente e pergunto-lhe que livro é que está a ler. Ela não me reponde e apenas olha para mim com um ar descontraído, pergunta como é que eu me chamo e eu digo que troco a resposta pelo nome do livro. Rimos os dois enquanto todos olham para nós.

Caminho ao seu lado e sinto-me feliz...

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

A Melancólica Viagem de Metro em Metropolis

Olhei através do vidro e vi a chuva que caía do céu cinzento, estava frio e eu tinha de ir para casa. Agarrei no casaco e dirigi-me ao elevador andando devagar, não tinha pressa em sentir a chuva na cara. Desejei que o elevador viesse sem ninguém mas não tive sorte. Finalmente a rua e o esperado desconforto, apertei o casaco e mergulhei no meio da multidão apressada.

Era um final de tarde estranho, todos tinham um ar cansado e pareciam andar o mais depressa possível. Eu fazia o mesmo, tentando percorrer os três quarteirões até ao metro sem ficar encharcado. De repente parei e olhei para cima, à minha frente erguia-se um prédio cinzento pelo qual passava todos os dias, mas nunca tinha olhado para ele com atenção. Olhei para a parte de cima e desejei tocar nas figuras que olhavam para baixo com expressões de dor. Queria poder deixar o chão e libertar-me de todos os que me rodeavam, de ser livre para subir ao alto do prédio e de lá ver a chuva cair sobre as pessoas. Retomei o meu caminho conformado por ter de andar como todos os outros. A cidade ficava mais escura a cada minuto que passava e eu tinha que ir para casa.

Entrei no metro e senti a água a escorrer-me pela cara, não me sentia bem e se não soubesse que tal era impossível, diria que estava a ficar constipado. De qualquer maneira sentia-me cansado, um cansaço que não podia sentir, mas que era real, um cansaço que não podia ter, mas que fazia com que caminhasse devagar e curvado. Entrei na carruagem e procurei desesperadamente um lugar para me sentar, sabia que não conseguiria aguentar a viagem em pé. Tirei os auscultadores do bolso do casaco e esperei que a música me ajudasse a encurtar o tempo, fechei os olhos e respirei fundo, ainda faltava um pouco para o dia acabar.

Adormeci por breves instantes e quando ia começar a sonhar parámos. Acordei e olhei para os lados como se estivesse estado horas a dormir. À minha frente uma rapariga olhava para mim com um sorriso estranho, como se soubesse o que eu estava a pensar, como se conseguisse ver o meu cansaço, o meu desespero para chegar a casa. Tentei fazer uma ar despreocupado, como se ela estar a olhar para mim não me afectasse, mas não consegui. Tirei e voltei a pôr atrapalhadamente os auscultadores, sem saber porque o fazia. As minhas mãos tremiam como as de um adolescente no seu primeiro encontro. E ela sorria, ela olhava para mim intensamente, invadia a minha mente. Eu é que olhava para os outros, eu é que observava silenciosamente os que passavam por mim, nunca ninguém olhava de volta.

Não aguentei e levantei-me. Olhei para a sua cara mas já não obtive resposta, queria dizer algo mas não consegui arranjar palavras, tentava desesperadamente inventar alguma frase que fizesse sentido, mas ela tinha fechado os olhos. Afastei-me um pouco e fiquei a olhar para as luzes que passavam depressa por detrás do vidro. Olhei outra vez para trás e pareceu-me ver um olhar, mas era um olhar demasiado escondido, não podia voltar e desisti. O metro entrou na estação onde eu ia sair e senti um desejo de continuar, de sentar-me outra vez e perguntar se ela sabia quem eu era, se ela sabia que eu era diferente dos outros, se ela me podia ajudar. Mas não voltei, fiquei parado a ver o metro seguir a sua viagem. Lá dentro ninguém olhou para mim.

Entrei em casa, tirei o casaco e deixei-me cair no sofá. Ouvi o barulho metálico da aparelhagem a trabalhar e larguei o comando no chão ao meu lado. Não me apetecia sair outra vez e tentei adormecer ao som da música. De olhos fechados relembrei a minha viagem e tentei que a cara dela não desaparecesse da minha memória. Repeti tudo o que se tinha passado e fantasiei com outra realidade. Imaginei que tinha feito as coisas de outra maneira e senti-me irritado comigo próprio ao mesmo tempo que sorria com os sonhos que iam percorrendo a minha cabeça.

De pé, no cimo do meu prédio, olhei para a cidade lá em baixo. A chuva continuava a cair mas já não me podia incomodar, já não me podia fazer sentir cansado, já não me podia tocar. Enchi o peito de ar e lembrei-me uma última vez da minha tarde, lembrei-me de me ter sentido vulnerável e de ter desejado fazer as coisas de outra maneira. Eu era tão fraco como os outros e os meus medos apenas estavam escondidos...tinha que aprender a viver entre dois mundos sem sofrer por não poder ter tudo.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Não sei o teu nome

Conheci-a no Metro, uma mulher frágil com mãos envelhecidas que tive vontade de tocar. Inspirou em mim um desejo imediato de escrever e assim fiz.

Cheguei a casa e comecei a escrever sem pensar, criei-a sem saber que também estava a escrever sobre o meu futuro. Não sabia que ela ia ganhar vida, não sabia que me ia apaixonar... Escrevi de forma compulsiva, primeiro imaginando os seus olhos, a sua boca o seu corpo, depois a sua voz, o barulho do respirar e o seu cheiro. Imaginei a sua maneira de ser, a sua vida desde a infância, conheci todos os seus amigos, toda a sua família e todos que se cruzaram com ela. Tinha criado alguém que conhecia.

Foi numa noite chuvosa que passámos um pelo outro numa rua qualquer. Olhei-a nos olhos de forma provocadora e invadi o seu espaço, entrei na sua vida sem pensar no que poderia acontecer. Caminhámos juntos e falámos como se nos conhecêssemos, éramos um só e sentíamos antes de percebermos.

Continuei a escrever todos os dias, escrevi sobre todos os nossos encontros. Descrevi detalhadamente o que sentia quando estava com ela, confessei a mim mesmo os desejos que sentia, a angustia que crescia em mim, o amor que não tinha sentido mas que já não podia esconder. Sonhava acordado com ela e sofria ao mesmo tempo que sorria, sofria por saber a verdade, sofria por um amor que era impossível mas que existia, sorria porque existia.

Então um dia acordei, olhei à volta e tinha as paredes do quarto cobertas por centenas de folhas de papel escritas a lápis. Eram pequenos textos escritos por mim, a minha letra espalhada sem ordem, contando uma história de amor.

Tentei achar um sentido, uma forma de compreender o que tinha acontecido, mas eram demasiadas folhas, não era possível ordenar tudo o que ali estava escrito. No meio das palavras podia ver desenhos que me faziam tremer, como se naqueles pequenos esboços quase pudesse ver um olhar conhecido, uma mão que ainda sentia na minha, um cabelo que passava por entre os meus dedos. Estava tudo ali à minha volta e eu quase que conseguia compreender.

Voltei ao meu mundo, que também era o dela...

terça-feira, janeiro 18, 2005

De volta à floresta

Chamo por ti na escuridão...não sei se ouves este grito mudo que sai desesperado da minha garganta...

Grito...mas acho que ninguém me ouve e fico sozinho no meio da floresta onde cresci, toco nas árvores velhas e sinto nas mãos a casca áspera que me aconchega. Quero poder fugir deste lugar que me conhece, mas sinto-me preso, sinto que nunca vou conseguir gritar o suficiente para me libertar, nunca vou conseguir correr em direcção ao meu destino, à minha desgraça, à minha redenção.

Caio no labirinto sem fim, no meio dos ramos que sempre me cercaram e me amordaçam suavemente. O meu grito é abafado com o cuidado de uma mãe e sorrio ao mesmo tempo que choro. Não desisto de lutar mas os meus braços mexem-se devagar e ninguém ouve o meu grito, tal como eu não me consigo ouvir a mim mesmo. Eu não quero sair deste abraço, não quero deixar este sofrimento, é ele que me alimenta, é ele que me conduz.

Não sei o que vai acontecer e continuo a gritar sem que ninguém me ouça...talvez um dia descubra o caminho para fora da floresta ou talvez um dia consiga viver no meio das árvores...